Em 2002 restavam menos de cem em toda a Península. O censo de 2024 contou mais de dois mil, depois da criação em cativeiro e do regresso ao Guadiana.
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Em 1979, a Liga para a Proteção da Natureza lançou uma campanha para salvar um animal que quase ninguém via: o lince ibérico. “Salvemos o Lince e a Serra da Malcata” juntou mais de 46 mil assinaturas e, dois anos depois, ajudou a criar a reserva natural da serra, junto à fronteira com Espanha. Era ali, nos concelhos do Sabugal e de Penamacor, que vivia o núcleo mais importante de lince ibérico em Portugal. A presença provava-se pelos sinais que o animal deixava: pegadas e, sobretudo, excrementos.

O rasto foi-se apagando. O último lince capturado para investigação na Malcata data de 1992. A última prova de presença em todo o território português foi um excremento encontrado na serra da Adiça, no Alentejo, em 2001. Depois, silêncio. Por volta de 2002 restavam menos de cem linces em estado selvagem em toda a Península, quase todos em Espanha, nenhum confirmado em Portugal. O lince ibérico era o felino mais ameaçado do planeta. Em 2024, o censo ibérico contou 2401.
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Lince ibérico: um predador preso a uma só presa
O lince ibérico (Lynx pardinus) é um especialista trófico, um predador que depende quase em exclusivo de uma única presa. Cerca de 75% da sua dieta é coelho bravo. Um macho come perto de um coelho por dia, e uma fêmea com crias precisa de três ou mais. Onde o coelho rareia, o lince rareia atrás dele.
O felino ocupou outrora quase toda a Península Ibérica. Em Portugal, os núcleos históricos tinham nomes concretos: a serra da Malcata, Moura-Barrancos, São Mamede, o vale do Guadiana, as serras algarvias, o vale do Sado.
O coelho entrou em colapso em dois tempos. A mixomatose, libertada deliberadamente em França em 1952 por um médico que queria livrar-se dos coelhos da sua propriedade, chegou a Espanha em 1954 e reduziu populações de coelho bravo até 90% em algumas zonas. Quando o coelho começava a recuperar, surgiu nos finais dos anos 80 a doença hemorrágica viral, com uma nova estirpe a alastrar a partir de 2010.
Para um caçador que não consegue substituir o coelho por outra coisa em quantidade suficiente, o efeito foi devastador. Jorge Palmeirim, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e, em 1979, na direção da Liga para a Proteção da Natureza, aponta há muito esse colapso da presa como a raiz do declínio.

Da campanha de 1979 guarda também a memória do esquecimento em que o animal tinha caído. “Muitos professores nem sabiam que havia linces em Portugal”, contou Palmeirim ao Público.
A lógica é direta. Uma fêmea de lince só estabelece território onde há coelho suficiente para alimentar uma ninhada. Sem território, não há reprodução, e sem reprodução a população encolhe até desaparecer.
A caça e a perda de mato pesaram. Mas o que ruiu primeiro foi a base da pirâmide alimentar.
A decisão de criar em cativeiro
Em 2002, com menos de cem animais no terreno, os biólogos puseram a questão em cima da mesa: ou se criavam linces em cativeiro, ou assistiam à extinção da espécie. A opção tinha um senão. Criar este felino fora da natureza corre mal com facilidade. O lince é territorial e esquivo, e as fêmeas sem experiência chegam a rejeitar as crias. O primeiro centro abriu mesmo assim, em Doñana, no sul de Espanha, com o nome de El Acebuche. Seguiram-se outros quatro, repartidos pelos dois países.

O lado português desse esforço fica em Vale Fuzeiros, no concelho de Silves: o Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), inaugurado em maio de 2009. O primeiro hóspede, a fêmea Azahar, chegou a 26 de outubro desse ano. É um dos cinco centros da rede, com El Acebuche, La Olivilla, Zarza de Granadilla e o jardim zoológico de Jerez. A coordenação entre Portugal e Espanha não foi simpatia entre vizinhos. As populações a reconstruir cruzam a fronteira, e um lince nascido em Silves pode acabar solto do outro lado.
Dentro dos centros, cada cruzamento é planeado e registado, para manter o plantel geneticamente variado. As crias crescem em cercados de adaptação, treinadas a caçar e a desconfiar de pessoas, e só saem quando estão prontas. O cativeiro nunca foi o ponto de chegada. Serve de reserva, e de tempo, enquanto o habitat lá fora se recompõe.
Outra frente trava-se nos genes. Quando uma espécie encolhe até poucas dezenas de indivíduos, os animais ficam todos aparentados, e a consanguinidade traz infertilidade e doenças hereditárias. A resposta foi trocar linces entre núcleos. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) considera essas translocações uma das chaves da recuperação. Um macho que sai de Doñana para o Guadiana leva consigo os genes que faltavam a uma população fechada sobre si mesma.
O regresso ao Guadiana
Em Portugal, a escolha para a reintrodução recaiu no vale do Guadiana, em Mértola, no baixo Alentejo. Pesaram dois critérios práticos. Tinha de haver coelho que chegasse para alimentar uma população, e os proprietários tinham de aceitar o bicho numa terra de caça antiga, onde o lince podia passar por concorrente. Reunidas as condições, os primeiros 10 animais foram soltos entre dezembro de 2014 e maio de 2015, a partir de cercados montados em zonas com coelho a fartar.
As primeiras crias selvagens nasceram em 2016. Entre 2015 e 2017, a reintrodução libertou ao todo 27 linces, e a maioria fixou-se. Depois a população transbordou, primeiro para Serpa, a partir de 2022 também para Alcoutim. O censo de 2024 conta 354 animais em Portugal, espalhados pelo baixo Alentejo e pelo nordeste algarvio. Onde não havia um único lince ibérico residente passou a existir um dos núcleos reprodutores da Península.

Durante mais de três décadas, esse trabalho no terreno teve sempre a mesma pessoa à frente. Pedro Sarmento chegou à reserva da Malcata em 1994, quando o lince já quase não deixava rasto no país. Foi ele quem coordenou a reintrodução no Guadiana, até morrer, em janeiro de 2026. As rotinas de monitorização e de soltura que ainda se usam saíram, em boa parte, da sua cabeça.
Os números de 2024 e o estatuto de vulnerável
A população passou a ser contada todos os anos, animal a animal. O Censo de Lince Ibérico 2024, feito pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) com os parceiros espanhóis, contou 2401 animais na Península, 2047 em Espanha e 354 em Portugal. No mesmo ano nasceram 844 crias em liberdade. As fêmeas reprodutoras chegaram a 470, ainda longe das 750 que os biólogos apontam como limiar de um estado de conservação favorável.
O total recenseado é, ainda assim, conservador. O censo regista apenas os animais efetivamente detetados, e por isso, disse João Alves, do ICNF, à revista Wilder, trata-se de “um número mínimo, haverá mais”.
A mudança ficou oficial a 20 de junho de 2024, quando a UICN reclassificou o lince ibérico de “em perigo” para “vulnerável” na sua Lista Vermelha. Em 2015 já tinha descido de “criticamente em perigo” para “em perigo”. A área ocupada pela espécie passou de 449 quilómetros quadrados em 2005 para 3320. A UICN descreve o caso como a maior recuperação de uma espécie de felino alguma vez conseguida através da conservação.
Francisco Javier Salcedo Ortiz, coordenador do projeto europeu LIFE LynxConnect, resumiu o arco em comunicado da Comissão Europeia: “Passámos de menos de cem linces ibéricos em cerca de 125 quilómetros quadrados para mais de dois mil em cinco mil quilómetros quadrados.” A par disso, o programa assinou mais de duzentos acordos com proprietários e sociedades de caça.
Os corredores e o elo que continua frágil
O alvo é o lince, mas o efeito é mais largo. Os biólogos chamam-lhe espécie-chapéu: proteger o matagal e o montado mediterrânicos onde caça beneficia dezenas de outras espécies que partilham o mesmo habitat, do coelho às aves de rapina como a águia imperial ibérica. Recuperar o predador do topo só resulta se toda essa teia, do matagal às presas mais pequenas, recuperar com ele.
Os números crescem, mas a estrutura por baixo deles continua a depender de duas coisas: o coelho e a ligação entre populações. Desde 2010, mais de 400 linces foram reintroduzidos em Portugal e Espanha. O esforço apoiou-se sobretudo em fundos europeus LIFE, ao longo de uma série de projetos: o Habitat Lince Abutre, entre 2010 e 2014, o Iberlince, entre 2011 e 2017, e o atual LIFE LynxConnect, com um orçamento de 18,7 milhões de euros.
A ligação entre os núcleos já se faz, ainda que aos poucos. Linces nascidos em Doñana apareceram no Guadiana pelo seu próprio pé, e exemplares saídos de Portugal foram detetados na Estremadura espanhola e na serra Morena. A triangulação ibérica começou a mexer, mas está longe de estar costurada. Para passar de um núcleo a outro, o animal ainda tem de atravessar estradas e zonas sem coelho. No vale do Côa, no nordeste, um projeto de restauro tenta abrir um corredor contínuo da serra da Malcata até ao Douro.
Nada disto é definitivo. O coelho bravo, que sustenta a cadeia inteira, é ele próprio uma espécie ameaçada, ao ponto de o Parlamento Europeu ter aprovado em 2017 uma resolução a pedir travão ao seu declínio. Basta um novo surto viral entre os coelhos, alerta a UICN, para apagar parte do que se ganhou. A mais longo prazo, as alterações climáticas vão transformando o matagal mediterrânico de que o lince depende, a mesma pressão que no mar empurra as espécies do Mediterrâneo para um beco sem saída. A isto somam-se as doenças apanhadas a gatos domésticos e, acima de tudo, os atropelamentos.
Dos 214 linces mortos na Península em 2024, 162 morreram debaixo das rodas. No Guadiana, onde tudo recomeçou do lado português, a Infraestruturas de Portugal pôs sinais a avisar os condutores em três estradas que rasgam o território do felino, a EN122, a EN123 e o IC27.
E volta-se sempre ao coelho. A regra que os biólogos seguem não mudou desde o início: em cada palmo de terreno de lince ibérico, é preciso perto de um coelho por hectare no outono e quatro na primavera. Os centros de reprodução podem soltar linces ano após ano, mas os 354 que vivem do lado português só lá ficam enquanto houver coelho para os alimentar.





