O Mediterrâneo Ocidental aquece, mas as suas espécies não conseguem migrar para norte. A geografia do mar interior força uma deslocação que nenhum modelo previu.
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Em Olhão, a lota abre antes das seis da manhã. As caixas de plástico azul chegam empilhadas, ainda escorrendo água do gelo. Sardinha, polvo, faneca, peixe-galo, choco. Tudo o que a noite trouxe das águas ao largo da Ria Formosa, onde a frota costeira trabalha em embarcações abertas em que mal cabem três homens. Um leiloeiro grita preços que ninguém de fora percebe. Um comprador, uma cabeça inclinada, um aceno. A caixa muda de mãos.
Na lota, ninguém usa a palavra Mediterrâneo. O sul de Portugal é Atlântico, sempre foi, ainda é. Mas há uma década que aparecem na rede peixes que os pescadores mais velhos não reconhecem. O peixe-balão, encontrado pela primeira vez no estuário do Guadiana em 17 de outubro de 2017. O peixe-rainha, observado em Portimão a 22 de setembro de 2018. O verme de fogo, com 33 centímetros de comprimento, num recife próximo de Portimão a 7 de setembro do mesmo ano. O rascasso da Madeira, em Portimão, a 3 de outubro de 2016. Os investigadores do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), na Universidade do Algarve, registam estas observações com a paciência metódica de quem sabe que cada nova espécie marca uma deslocação maior do que parece.
A explicação habitual é simples: as águas estão mais quentes, e as espécies que antes viviam mais a sul vêm agora estabelecer-se no Algarve. É verdade, mas é uma metade da verdade. A outra metade está mais a leste, a centenas de quilómetros do Cabo de São Vicente, num mar que a maior parte dos portugueses pensa não ter nada a ver consigo.
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A descoberta que contraria a expectativa
Em 13 de abril de 2026, The Conversation publicou um artigo assinado por Marina Sanz-Martín, investigadora do Instituto Espanhol de Oceanografia, com bolsa pós-doutoramento do governo das Ilhas Baleares. O texto resume os resultados de um estudo publicado pela autora e onze colegas na revista Ecological Indicators. O título da publicação é, por si, uma tese: Climate velocity drives unexpected southward patterns of species shifts in the Western Mediterranean Sea. A velocidade climática conduz padrões inesperados de deslocação para sul.
Inesperados, porque contrariam o que toda a literatura sobre alterações climáticas marinhas tem mostrado durante duas décadas. À escala global, o padrão é claro: as espécies marinhas movem-se para latitudes mais altas, à procura de águas mais frias. Sobem para norte. À medida que as latitudes mais altas se mostram disponíveis, descem também para profundidades maiores, refazendo o mapa da distribuição em direção aos pólos. É o gesto evolutivo mais previsível desde que se começou a medir.
No Mediterrâneo Ocidental, Sanz-Martín e os seus colegas encontraram o contrário. Analisando dados de vinte e cinco anos (entre 1994 e 2019) de monitorização sistemática feita pelos institutos de oceanografia mediterrânicos no âmbito do programa Mediterranean International Trawl Survey (MEDITS), descobriram que quase metade das espécies comerciais demersais, as que vivem perto do fundo do mar, se deslocou no sentido oposto ao esperado. Para sul, para sudoeste, e para águas menos profundas, mais costeiras. Ao contrário do que se esperava, as espécies moviam-se predominantemente em direção a águas menos profundas e mais costeiras, porque a profundidade naturalmente diminui nesta região à medida que se avança para sul.
A raia-pintada (Raja asterias), o areeiro-de-quatro-manchas (Lepidorhombus boscii) e o picarel (Spicara smaris), espécies de águas moderadamente quentes, mudaram a distribuição para sudoeste, alinhadas com a direção da velocidade climática regional. Em paralelo, baixaram em profundidade, em direção à plataforma continental e aos litorais. Apenas o tamboril-de-barriga-preta (Lophius budegassa), espécie boreal de águas frias, fez o esperado: refugiou-se em maior profundidade, sem se deslocar lateralmente.
Porque é que, num mar a aquecer, os peixes andam para o sítio mais quente?
Mediterrâneo: a geografia que prende
A resposta está no contorno do mar. O Mediterrâneo é, em sentido literal, um mar interior. Liga-se ao Atlântico apenas pelo Estreito de Gibraltar, com cerca de catorze quilómetros de largura mínima. A norte, a Europa fecha-o. A sul, a África. A leste estão o Levante, o Egeu e o Adriático, mas todos eles são extensões internas, sem saída para o oceano aberto. As espécies que noutros oceanos podem migrar para latitudes mais altas, no Mediterrâneo não têm para onde ir. A norte, encontram a costa. Não há mais norte. O que existe é uma geometria de mar fechado que obriga as populações a procurar refúgio onde puderem.
O sudoeste é um destes refúgios. À medida que o mar aquece, formam-se manchas de águas comparativamente mais frias junto à costa norte-africana e em direção a Gibraltar, onde o Atlântico mais frio entra. As espécies seguem essas manchas. E como a profundidade diminui à medida que se aproximam do litoral, acabam por se concentrar mais perto da costa, em zonas onde antes estavam menos representadas.

O resultado é uma compressão geográfica das populações marinhas. Em vez de se distribuírem em padrão amplo pela bacia, as espécies estão a apertar-se contra a margem ocidental e a costa norte-africana. Para a frota pesqueira, é uma reconfiguração silenciosa da geografia do recurso. Os peixes ainda lá estão, mas já não estão onde sempre estiveram.
Foi precisamente esta lógica de compressão que Orlando Ribeiro, o maior geógrafo português do século XX, antecipou de outra maneira em Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico: Estudo Geográfico, publicado pela Coimbra Editora em 1945. Orlando Ribeiro começou a escrever o livro em 1941, depois de uma estadia formativa de três anos como leitor de português na Sorbonne. Trazia das aulas de Albert Demangeon e Emmanuel de Martonne uma forma de olhar para a paisagem que nenhum geógrafo português tinha então: a paisagem como sedimentação histórica, não como cenário.
A tese central do livro de Orlando Ribeiro é que Portugal tem três influências ecológicas e civilizacionais simultâneas. A nórdica continental, a atlântica e a mediterrânica. Cada uma destas influências corresponde a uma camada na vegetação, na agricultura, no povoamento, na arquitetura. Mas a mais antiga, a mais sedimentada no substrato, é a mediterrânica. O sul de Portugal é fronteira mediterrânica mesmo quando banhado pelo Atlântico. Existem três penínsulas mediterrânicas, ensinava Orlando Ribeiro nas aulas da Faculdade de Letras de Lisboa onde foi catedrático entre 1943 e 1971: a grega, a italiana, e a ibérica. Esta última é a mais extrema, a mais ocidental, a fronteira do mar interior com o oceano que se abre.
Esta leitura tem uma consequência imediata para o que se passa no Algarve. As espécies subtropicais que aparecem em Portimão e Castro Marim não vêm de fora. Vêm do mesmo sistema ecológico mediterrânico que está a ser comprimido a leste. O peixe-rainha, o rascasso da Madeira, o verme de fogo, são parte da mesma reconfiguração que se observa entre Múrcia e Catalunha. O que distingue a costa algarvia é a porosidade: aqui o Mediterrâneo passa a Atlântico sem fronteira nítida, e as espécies que recuam contra a margem ocidental do mar interior podem continuar a recuar para oeste e para sul, contornando o Cabo de São Vicente.
Os termos do problema
A literatura sobre alterações climáticas marinhas usa quatro conceitos que ajudam a perceber a tese de Sanz-Martín: velocidade climática, meridionalização, tropicalização e espécies demersais.
A velocidade climática é a métrica que dá o título ao estudo. Mede a velocidade com que uma dada temperatura à superfície do mar se desloca no espaço, em quilómetros por ano, e indica em que direção. Se uma espécie quer manter a temperatura preferida do seu habitat, tem de se mover à velocidade e na direção da velocidade climática local. No Mediterrâneo Ocidental, esta velocidade aponta para sudoeste em muitas zonas, ao contrário do esperado.
Durante duas décadas, o conceito dominante na literatura mediterrânica foi o de meridionalização, isto é, a expansão para norte de espécies nativas de águas quentes do sul do Mediterrâneo, deslocando ou competindo com espécies de águas frias. É o padrão que ainda explica boa parte das observações, embora conviva agora com o padrão inverso descoberto por Sanz-Martín. Mais recente é o conceito de tropicalização, o estabelecimento de espécies tipicamente tropicais em regiões temperadas. Estudos coordenados pela Universidade de Murcia registaram este processo no Estreito de Gibraltar e no Mar de Alboran, com espécies de águas tropicais a estabelecerem-se nas costas espanholas. No Algarve, é o que o Núcleo de Estudos do Mar do Algarve (NEMA) documenta desde 2015, com espécies como o peixe-rainha, antes restritas a águas das ilhas atlânticas portuguesas, agora frequentes na costa continental.
O estudo de Sanz-Martín concentra-se em espécies demersais, os peixes que vivem perto do fundo marinho mas não fixos a ele. Distinguem-se das pelágicas, que vivem em água aberta a meia-altura, e das bentónicas, que vivem mesmo no fundo. O areeiro, o pargo, o tamboril, a faneca são exemplos de demersais comerciais.
A hierarquia entre estes conceitos importa. Meridionalização e tropicalização são processos esperados, observados, descritos. O que torna o trabalho de Sanz-Martín relevante é mostrar que, dentro destes processos gerais, há um padrão de fundo no Mediterrâneo Ocidental que vai no sentido contrário, e que se explica pela geometria da bacia.
O mar como termóstato, e o termóstato a falhar
Em julho de 1951, a Oxford University Press publicou em Nova Iorque um livro que ficou no New York Times bestseller list durante oitenta e seis semanas. The Sea Around Us, segundo livro da chamada trilogia do mar de Rachel Carson (1907-1964), bióloga marinha que durante anos foi editora-chefe da U.S. Fish and Wildlife Service. A obra venceu o National Book Award em 1952 e foi traduzida em vinte e oito línguas.
Carson escreveu The Sea Around Us num momento em que o oceano ainda parecia uma constante. O capítulo doze do livro chama-se “The Global Thermostat” e descreve com precisão técnica a função reguladora dos oceanos no clima planetário. O mar absorve calor no verão, liberta-o no inverno. Move massas de água equatoriais em direção aos polos, devolve massas frias em direção ao equador. Mantém a vida em terra firme dentro de margens estreitas de temperatura. É a maior peça de engenharia natural do planeta, e funciona porque a sua escala é tão grande que nenhuma alteração local consegue desregulá-la.

Ler hoje “The Global Thermostat” é entrar numa câmara de eco temporal. A descrição mantém-se cientificamente correta. A premissa que a sustenta evaporou. O que Carson não podia ver em 1951 é que o termóstato é também um corpo, um corpo enorme mas finito, e que esse corpo aquece quando o queimar de combustíveis fósseis lhe junta calor demais. A função reguladora não falha por falta de capacidade técnica. Falha porque as condições que a tornavam fiável deixaram de existir.
O Mediterrâneo é o caso onde isto aparece primeiro e com mais clareza. A Comissão Europeia incluiu-o há mais de uma década entre os ecossistemas mais vulneráveis do planeta às alterações climáticas. As análises do European Outlook 2026 da Natixis, publicadas em fevereiro de 2026, confirmam que a região aquece mais rápido do que a média global. As espécies do estudo de Sanz-Martín estão a mostrar, em movimento de corpo, o que os modelos climáticos mostram em curvas: o sistema regulador está a ser regulado por outra coisa.
Entre Carson e Sanz-Martín há setenta e cinco anos. Entre a certeza de 1951, em que o mar era a estabilidade do mundo, e a evidência de 2026, em que o mar é uma das peças mais inquietas do tabuleiro climático. Não é mudança de paradigma científico. É mudança do objeto que a ciência descreve.
Uma decadência sobre outra
Há uma camada que o estudo de Sanz-Martín, sendo trabalho científico, não cobre, e que é central para perceber o que se está a passar no Mediterrâneo. Em 1968, Orlando Ribeiro publicou na Fundação Calouste Gulbenkian Mediterrâneo, Ambiente e Tradição, livro que conheceu sucessivas reedições, a última prefaciada por Suzanne Daveau, viúva do autor.
A tese de Orlando Ribeiro era a de um geógrafo que tinha viajado durante décadas pelo norte de África, Itália, Grécia, Levante. O Mediterrâneo das margens, o das vidas rurais milenárias, da agricultura de sequeiro, dos olivais, das vinhas, dos pequenos portos, estava em decadência lenta. Orlando Ribeiro escrevia já em 1968 que o mar interior tinha deixado de ser centro criador, transformando-se em “anexo” dos centros do norte da Europa, da América e da Ásia. Fornecedor de mão-de-obra barata e de praias para turismo, escreveu Daveau na apresentação da terceira edição.

Esta é a primeira camada do que está a desaparecer. Os peixes do estudo de Sanz-Martín movem-se contra um pano de fundo onde a vida humana mediterrânica também recua, embora por outras razões. As pescas costeiras tradicionais perdem barcos e tripulações há décadas. As comunidades piscatórias do sul de Espanha, da Sicília, da Grécia, envelheceram, perderam recrutamento, transformaram-se em património turístico antes de morrerem. O que Orlando Ribeiro descreveu como decadência rural milenária aplica-se com a mesma precisão à decadência das pescas mediterrânicas dos últimos cinquenta anos.
A nova mudança climática vem sobrepor-se a esta. Quando uma frota costeira algarvia perde o seu picarel habitual e ganha em troca um peixe-rainha de águas mais quentes, a alteração ecológica é a parte visível de uma transformação demográfica e económica que começou muito antes, e que tem agora uma componente nova, a deslocação física dos próprios recursos. Em Silent Spring, de 1962, Carson observou que a natureza introduziu grande variedade na paisagem, mas o homem demonstrou paixão por simplificá-la, desfazendo os contrapesos pelos quais a natureza mantém as espécies dentro de limites. A saída dos jovens das pescas e a substituição da economia ribeirinha pela economia turística criaram um sistema mais simples, com menos amortecedores para absorver choques. Quando o choque ecológico chega, encontra um sistema humano já enfraquecido.
A frota algarvia, números reais
A costa do Algarve tem cerca de 200 quilómetros. Segundo dados de 2023 da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR Algarve), 2.559 pescadores estão matriculados nos diversos portos da região, o que corresponde a 18% dos pescadores matriculados a nível nacional. Operam 856 embarcações a motor. O conjunto da fileira da pesca, aquicultura, transformação e comercialização de pescado integra mais de 1.240 empresas.

As capturas nominais nos portos algarvios atingiram, em 2023, 18.485 toneladas, com valor de 69.884 mil euros. São 14% e 21% do total nacional, respetivamente. As cinco espécies mais capturadas em valor foram, por ordem decrescente, polvo, gambas, camarões, sardinha, cavala. Nenhuma destas é mediterrânica em sentido restrito. Mas todas elas vivem num sistema oceânico que partilha água com o Mediterrâneo Ocidental através do Estreito de Gibraltar.
Os dados nacionais publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em 30 de maio de 2025 dão dimensão portuguesa ao problema. Em 2024, a frota nacional capturou 165.747 toneladas de pescado, menos 3,2% que em 2023. A redução resultou inteiramente de menores capturas em águas nacionais, que caíram 7,7%, compensadas em parte pelo aumento de 15,5% nas capturas em pesqueiros externos. Esta assimetria interessa diretamente à frota algarvia, pequena e costeira, que não tem autonomia para operar fora das águas portuguesas.
O CCMAR identificou em estudos coordenados por Francisco Leitão, biólogo marinho e pesqueiro, padrões que confirmam a continuidade ecológica entre a costa do Algarve e o Mediterrâneo. As espécies que aparecem agora em Portimão são, em vários casos, as mesmas que aparecem na Andaluzia ou nas Baleares. O Algarve não é exceção atlântica. É continuação ocidental do mesmo sistema.
A questão prática para a frota é a de adaptação. Espécies que entram são, na sua maioria, sem mercado estabelecido em Portugal. O peixe-balão, por exemplo, contém tetrodotoxina, neurotoxina extremamente potente, e é em geral descartado no momento da captura. Outras espécies, como o peixe-rainha, têm valor culinário, mas não há cadeias de comercialização montadas. O resultado é que a transição ecológica chega à frota como ausência de espécies tradicionais sem chegar como presença de espécies substitutas com valor económico.
A noção de fronteira
O que torna o caso ibérico instrutivo, em comparação com outras costas mediterrânicas, é precisamente o ponto onde Orlando Ribeiro insistia. A península ibérica é fronteira. Mediterrânica de um lado, atlântica do outro. As espécies que recuam contra a margem ocidental do Mediterrâneo encontram em Gibraltar uma saída para o Atlântico, e algumas continuam para oeste e para norte, em direção ao Cabo de São Vicente e a latitudes ainda mais setentrionais da costa portuguesa. Outras ficam-se pelo Mar de Alboran. Outras desviam-se para sul, para a costa marroquina.
Esta condição fronteiriça, que Orlando Ribeiro descrevia em termos civilizacionais, traduz-se hoje em condição ecológica. O Algarve recebe espécies que vêm do Mediterrâneo e do Atlântico subtropical. Algumas, depois de terem recuado contra a margem ocidental do mar interior, contornam o Cabo de São Vicente e podem ser registadas em latitudes portuguesas atlânticas onde antes não apareciam.
A frota pequena, a que opera em embarcações abertas a partir de Vila Real de Santo António, Olhão, Portimão, Sagres, é a que primeiro sente esta transição. Não tem autonomia para seguir os cardumes em deslocação. Trabalha onde está, com o que aparece. Quando o que aparece muda, a alternativa é mudar de arte ou de espécie, e cada uma destas mudanças exige investimento que a maioria dos pescadores não tem condições de fazer.
A primavera silenciosa
Os peixes do estudo de Sanz-Martín movem-se em direção a uma saída que não existe. O sudoeste é refúgio momentâneo. A geometria do mar interior não permite muito mais do que isto, e as populações comprimem-se contra a margem ocidental da bacia enquanto podem.
Em Olhão, na lota das seis da manhã, isto não se vê. Vê-se a caixa de polvo, a caixa de sardinha, o leiloeiro a gritar. A frota volta ao mar quando a luz aparecer.
A imagem que Carson construiu em 1962 era a do canto dos pássaros que deixava de se ouvir. No Mediterrâneo, o que se vai perdendo não tem som.







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