De Afonso de Albuquerque a Khamenei, cinco séculos de controlo do estreito de Ormuz
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Quem controla os 39 quilómetros de água entre o Golfo Pérsico e o Mar de Omã controlou, em cada época, o mundo. A crise de 2026 mostra que essa equação não envelheceu.
Ao fim do dia de 26 de setembro de 1507, seis navios portugueses entraram na baía de Ormuz com as bandeiras desfraldadas e dispararam saudações de canhão para uma cidade que tinha estado ali, no mesmo lugar, durante quatro séculos. Afonso de Albuquerque tinha cerca de 500 homens. A cidade tinha 50 navios mercantes armados ancorados no porto, mais de 100 embarcações ligeiras a remo posicionadas a sul, e uma população várias vezes superior à da fortaleza que os portugueses iriam construir. O cálculo, do lado de Ormuz, era simples e errado: aquela frota era pequena demais para representar ameaça.
Seis horas depois, os navios portugueses tinham capturado ou destruído a maior parte da frota local. A 10 de outubro de 1507, o soberano local assinou o tratado de paz que reconheceu a suserania portuguesa sobre a cidade. A primeira pedra da fortaleza foi colocada por Albuquerque a 24 de outubro, com pompa, sob o nome de Nossa Senhora da Vitória. A obra ficou inacabada. Em janeiro de 1508, com a guarnição em desordem e três capitães desertados para a Índia, Albuquerque deixou Ormuz com a fortaleza por terminar.
Voltou em abril de 1515, agora com 27 navios, 1500 portugueses e 700 malabares. A fortaleza foi concluída e rebatizada Nossa Senhora da Conceição. Tomou forma irregular e multifacetada na ponta norte da ilha, com paredes de 3,5 metros de espessura e torres de 12 metros, levantadas em pedra coralina extraída das minas da própria ilha. Foi também nesse regresso, segundo a tradição cronística portuguesa, que dois embaixadores persas vieram cobrar o tributo anual ao reino de Ormuz. Albuquerque mandou-lhes entregar balas de canhão, dizendo que era a moeda com que Portugal pagava tributos. A frase chegou ao xá Ismail, que mandou dizer aos seus que admirava o português.
Índice
A geografia que ninguém escolheu: 39 quilómetros entre o Irão e Omã
O Estreito de Ormuz tem 39 quilómetros de largura no ponto mais estreito. As faixas de navegação comercial, separadas por uma zona-tampão, têm pouco mais de três quilómetros cada. A norte fica o Irão. A sul, a península de Musandam, que pertence a Omã apesar de estar geograficamente colada aos Emirados Árabes Unidos, num desenho de fronteiras que continua a ser usado em departamentos de geografia como exemplo do absurdo cartográfico produzido pela negociação colonial.

Por aqui passa, em condições normais, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo e uma fatia equivalente do gás natural liquefeito. 20 milhões de barris por dia. A maior parte segue para a Ásia: China, Índia, Japão, Coreia do Sul.
Não há rota alternativa eficiente. Os oleodutos de bypass, o East-West saudita até ao porto de Yanbu no Mar Vermelho, o Abu Dhabi Crude Oil Pipeline até Fujairah, o Kirkuk-Ceyhan iraquiano até ao Mediterrâneo, somam capacidade combinada inferior a metade do que passa por Ormuz. E o Mar Vermelho tem o problema dos huthis. O Mediterrâneo passa pela Turquia. Não há saída fácil.
Ormuz é um dos 7 estreitos por onde passa o petróleo do mundo, e o que menos alternativas tem.
O que Portugal viu primeiro: o cartaz e a fortaleza de Ormuz
Albuquerque tinha instruções secretas do rei D. Manuel. Em 1505, Lisboa decidiu cortar três artérias do comércio muçulmano no Índico. Adem para bloquear o Mar Vermelho. Malaca para controlar o comércio com a China. Ormuz para fechar a rota que abastecia Beirute e os mercados otomanos.

Adem nunca foi tomada. Malaca foi, e durou. Ormuz também durou, e foi onde Portugal aplicou pela primeira vez à escala oceânica um sistema que iria definir cinco séculos de imperialismo marítimo: o cartaz. Cada navio que quisesse atravessar o estreito tinha de comprar um documento de salvo-conduto. Quem não comprasse arriscava o confisco ou o naufrágio. A fortaleza de Ormuz, com paredes espessas o suficiente para resistir à artilharia otomana, monitorizava o tráfego e cobrava direitos sobre tudo o que passava.
Portugal nunca teve mais do que algumas centenas de homens em Ormuz. O império no Índico foi sempre uma rede de pontos estratégicos pequenos, ligados por superioridade naval. Goa, Malaca, Ormuz, Mascate, Baréin. O cartaz funcionava porque a marinha portuguesa podia castigar quem o ignorasse, e a marinha portuguesa podia castigar porque dominava as rotas que ligavam estes pontos.
A presença portuguesa em Ormuz durou cento e quinze anos.
Como se acaba um império em dez semanas: a queda de Ormuz em 1622
A 2 de fevereiro de 1622, uma frota anglo-persa cercou a fortaleza. O xá Abbas, da dinastia safávida, queria expulsar os portugueses do Golfo, mas não tinha marinha moderna. A Companhia Inglesa das Índias Orientais queria entrar no comércio do Golfo, mas não tinha rota terrestre. Trocaram. A Pérsia forneceu o cerco em terra, a Inglaterra forneceu os canhões no mar. Em Ormuz, o capitão português Simão de Melo Pereira, nomeado em finais de 1621 após a morte do governador Francisco de Sousa, assistiu impávido à perda do forte de Queixome em fevereiro e ao fechar do cerco sobre a sua própria praça. A 15 de maio de 1622, depois de mais de três meses de bombardeamento, a guarnição rendeu-se. A notícia chegou a Goa a 27 de maio, por carta de 18 de maio escrita em Mascate por Constantino de Sá de Noronha.
Inglaterra e Portugal não estavam tecnicamente em guerra. O duque de Buckingham ameaçou processar a Companhia das Índias Orientais pela captura. Desistiu quando recebeu 10 mil libras, supostamente 10 por cento do produto da operação. O rei Jaime I recebeu outro tanto.

Portugal tinha mantido o estreito durante mais de um século porque jogou com as divisões internas dos persas e dos otomanos, e porque tinha tecnologia naval superior. Quando a Pérsia se uniu à Inglaterra, a equação inverteu-se de um dia para o outro. Nenhuma potência mantém o estreito sem aliados locais. Foi a primeira vez que esta regra se aplicou em Ormuz. Não foi a última.
A Companhia das Índias Orientais ocupou o lugar. Fundou o seu posto comercial principal em Bandar Abbas, no continente, e durante décadas geriu o comércio inglês no Golfo a partir dali, até que Bombaim e a Índia se tornaram o centro do interesse britânico, e o Golfo passou a ser visto sobretudo como a passagem para chegar lá.
O que os britânicos transformaram: dos Trucial States aos Emirados
Em 1820, depois de uma campanha contra os Qawasim, uma confederação tribal árabe que controlava a costa sul do estreito e cobrava portagens a quem por ali passava, a Marinha Real britânica impôs o General Maritime Treaty. Foi o primeiro de uma série de tratados que iam evoluir para o que ficou conhecido como Trucial States, o sistema de protetorados britânicos no que hoje são os Emirados Árabes Unidos, Baréin, Catar, Kuwait.
Os portugueses tinham sido cobradores de portagem com fortaleza. Os britânicos foram garantes da ordem com burocracia. Estabeleceram a Residência do Golfo Pérsico, primeiro em Bushehr, depois no Baréin. Nomearam agentes políticos em cada xeicado. Em 1892, o Acordo Exclusivo proibiu os xeiques de cederem soberania territorial sem consentimento britânico. Em 1922, proibiu-os de explorarem petróleo sem autorização britânica.
A escolha das famílias governantes que os britânicos privilegiaram no século XIX permanece visível hoje. Os Al Nahyan em Abu Dabi, os Al Maktoum no Dubai, os Al Khalifa no Baréin, os Al Thani no Catar, os Al Sabah no Kuwait. As mesmas famílias. As mesmas linhagens. O sistema sobreviveu intacto à transição entre dois impérios.
A descoberta de petróleo na Pérsia em 1908 alterou a equação a longo prazo, mas demorou décadas a fazer efeito. A primeira preocupação britânica em relação a Ormuz foi sempre o cabo telegráfico Londres-Carachi, instalado em 1864 através do Golfo e da península de Musandam, que ligou a metrópole ao raj indiano e definiu durante meio século a importância estratégica do estreito.
Foi também durante o domínio britânico que se cristalizaram os contornos étnicos e políticos atuais da região. As populações de Musandam, no extremo norte de Omã, com fortes laços com os Qawasim e com costumes mais próximos dos do outro lado do Golfo do que dos do interior omanense, tornaram-se uma espécie de zona cinzenta. Muitos vestem o dish dasha emirati. As autoridades omanenses dão-lhes assistência social que os outros distritos não recebem, como mecanismo de fidelização.
Quando os britânicos se retiraram do Golfo, em 1971, o Estado da Índia já não existia há 24 anos. A retirada não foi escolhida, foi económica. O Tesouro de Sua Majestade já não podia pagar a presença militar permanente a leste de Suez.
A herança americana e os erros que ela contém
Os Estados Unidos herdaram a responsabilidade pela segurança do Golfo a partir de 1971, embora a presença militar significativa só se consolide nos anos 80. A formalização veio a 23 de janeiro de 1980, no discurso de Jimmy Carter sobre o estado da União. A frase-chave foi redigida pelo conselheiro de segurança nacional Zbigniew Brzezinski, que insistiu na sua inclusão para deixar claro aos soviéticos que se deviam manter afastados do Golfo. Ficou conhecida como Doutrina Carter e fixou o Golfo Pérsico como interesse vital americano, a defender pela força se preciso fosse.
A primeira aplicação prática veio durante a Tanker War, a fase marítima da guerra Irão-Iraque que decorreu de 1981 a 1988. O Iraque expandiu primeiro a guerra ao mar, mirando navios iranianos no norte do Golfo. O Irão começou por se conter, mas a partir de 1984, com Saddam Hussein a expandir os ataques aos terminais petrolíferos da ilha de Kharg, retaliou contra navios kuwaitianos e sauditas, países que apoiavam o Iraque. As Forças Armadas iranianas usaram o que tinham: pequenas embarcações rápidas com táticas de enxame, minas marítimas, mísseis Silkworm de fabrico chinês instalados em terra.
O Kuwait pediu ajuda aos dois lados. Os soviéticos foram os primeiros a oferecer uma solução concreta, alugando três petroleiros à frota mercante soviética em fevereiro e março de 1987. A administração Reagan, alarmada com a hipótese de um pé-de-meia soviético no Golfo, ofereceu uma alternativa: rebandeirar os petroleiros kuwaitianos como navios americanos, com escolta da Marinha dos Estados Unidos. A 24 de julho de 1987 começou a Operação Earnest Will, a maior operação naval de comboio desde a Segunda Guerra Mundial.
Não correu como esperado. As minas iranianas eram mais difíceis de neutralizar do que o Pentágono previa. O primeiro comboio escoltado teve de seguir atrás do petroleiro Bridgeton, atingido por uma mina, porque os destróieres americanos não estavam equipados para varrer o que vinha à frente. A 17 de maio de 1987, um caça iraquiano atacou por engano a fragata USS Stark e matou 37 marinheiros. A 3 de julho de 1988, o cruzador USS Vincennes confundiu um Airbus civil iraniano com um caça e abateu-o, matando 290 pessoas.
A Tanker War terminou com o cessar-fogo entre Irão e Iraque em agosto de 1988. Apesar das ameaças repetidas, o Irão nunca fechou efetivamente o estreito. As estimativas mais citadas, do Strauss Center for International Security and Law da Universidade do Texas em Austin, calculam que no ponto mais intenso do conflito as duas campanhas anti-navegação combinadas afetaram menos de dois por cento do tráfego no Golfo.
A doutrina americana seguinte assentou nessa leitura. O Irão podia incomodar mas não fechar. As capacidades irregulares da Guarda Revolucionária, depois desenvolvidas com submarinos pequenos, mais minas, embarcações rápidas em maior número, e mísseis anti-navio mais sofisticados, eram um aborrecimento gerível. Cinco frotas, 150 mil militares americanos rotativos no Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos (CENTCOM), base naval em Manama, no Baréin, e a Quinta Frota a operar permanentemente na região, garantiam o que ficou conhecido como freedom of navigation.

A ideia de que o Irão não tinha incentivo nem capacidade para fechar o estreito tornou-se ortodoxia em Washington.
A 28 de fevereiro de 2026, a ortodoxia revelou pelo menos uma falha.
O que aconteceu entre fevereiro e abril de 2026: anatomia da crise
Naquela manhã, os Estados Unidos e Israel lançaram uma campanha aérea contra o Irão e mataram o líder supremo Ali Khamenei. Em retaliação, o Irão lançou ataques de mísseis e drones contra Israel, contra bases militares americanas e contra Estados aliados dos Estados Unidos no Golfo. A Guarda Revolucionária emitiu um aviso a proibir a passagem pelo Estreito de Ormuz, abordou navios comerciais, atacou outros, e lançou minas marítimas no canal.
O tráfego de petroleiros caiu 70 por cento numa semana. A Maersk, a Hapag-Lloyd, a MSC, a CMA CGM, todos os grandes operadores comerciais suspenderam trânsitos. A QatarEnergy declarou força maior em todos os contratos. O Brent ultrapassou os 100 dólares por barril a 8 de março, pela primeira vez desde a invasão russa da Ucrânia em 2022, e atingiu o pico nos 126 dólares. O preço físico do crude, segundo a Agência Internacional de Energia, chegou a 150 dólares por barril em algumas transações, em desconexão histórica com os mercados de futuros.
A produção combinada do Kuwait, Iraque, Arábia Saudita e Emirados caiu pelo menos 10 milhões de barris por dia em meados de março. As importações chinesas de petróleo via Ormuz desabaram de 4,5 milhões de barris por dia em fevereiro para 222 mil em abril, segundo a Kpler. As importações indianas caíram de 2,8 milhões para 247 mil. O Iraque viu as exportações cair de quatro milhões para 900 mil barris por dia, dependentes do único oleoduto disponível, o Kirkuk-Ceyhan, com capacidade de apenas 300 mil barris por dia.
A 13 de abril, depois de falharem negociações entre Teerão e Washington, o presidente Donald Trump anunciou um bloqueio naval americano aos portos iranianos. O efeito foi um duplo bloqueio do estreito. O Irão não deixava passar navios sem autorização. Os Estados Unidos não deixavam sair navios iranianos.
Em meados de março, o Irão deixou de bloquear o estreito a todos. Criou um canal próprio, a norte da ilha de Larak, e impôs portagens. Um navio paquistanês passou a 16 de março com autorização iraniana. Um navio cargueiro turco passou a 13 de março. Os pagamentos, segundo o Lloyd’s List, eram avaliados pela Guarda Revolucionária em yuanes chineses. Um dos navios pagou dois milhões de dólares para usar o canal.
A 5 de março, a Guarda Revolucionária anunciou oficialmente que mantinha o estreito fechado apenas a navios dos Estados Unidos, de Israel e dos seus aliados ocidentais. Uma semana depois, navios chineses começaram a transmitir nos sistemas de identificação automática (AIS) a sua identidade de proprietário chinês para garantir passagem.
Em quarenta e cinco dias, o Irão fez no estreito aquilo que cinco séculos de potências marítimas tinham assumido ser impossível. Não bloqueou Ormuz. Privatizou-o.
O cartaz, outra vez: as portagens iranianas de 2026
Em 1515, Albuquerque obrigou os navios mercantes da região a comprarem cartazes para atravessarem o estreito. Em 2026, a Guarda Revolucionária obrigou os navios mercantes da região a pagarem em yuanes para atravessarem o estreito por um canal alternativo. O nome mudou. O mecanismo é o mesmo.
Há porém uma diferença operacional. Portugal cobrava cartazes com base em ferro fundido e cano de canhão. O Irão cobra em yuanes com base em drones, mísseis anti-navio modernos, minas, embarcações rápidas em grande quantidade, e na incapacidade política dos Estados Unidos de uma resposta militar total que arrastaria os mercados energéticos para um colapso ainda maior.
Em quarenta e cinco dias, uma potência regional impôs sobre uma das três rotas marítimas mais críticas do mundo o sistema que o império português inventou em 1515. Os Estados Unidos têm porta-aviões, satélites e cibercapacidades que Portugal nunca poderia imaginar. Optaram pela guerra e criaram o contexto para o controlo do estreito por parte do Irão..
O que Ormuz mede
A Pérsia aqueménida foi o primeiro império a perceber que o estreito era um ponto a possuir, não apenas a usar. Alexandre da Macedónia mandou o seu almirante Nearco fazer o primeiro reconhecimento documentado da rota em 325 a.C. O califado abássida integrou-o numa rede comercial unificada que ligava o Golfo ao Sudeste asiático e à China. Os portugueses cobraram cartazes durante 115 anos. A Companhia das Índias Orientais geriu o comércio do Golfo durante quase dois séculos. A Marinha Real britânica policiou-o durante mais cento e cinquenta anos. A Quinta Frota americana opera lá há mais de quatro décadas. A Guarda Revolucionária iraniana vende passagens pelo canal de Larak desde março de 2026.

A escassos quilómetros a sudoeste de Bandar Abbas, na ponta norte da ilha de Ormuz, ainda se vê do continente, em dias claros, a silhueta da fortaleza portuguesa. As muralhas estão de pé. Os 3,5 metros de espessura ainda lá estão. A pedra coralina, vermelha quando foi extraída há cinco séculos, escureceu com o sal e o sol do Golfo. Pescadores omanenses, do outro lado do estreito, e pescadores iranianos, da margem persa, usam-na como ponto de referência ao entrar no canal. Os navios que esperam na zona de fundeio, à espera de autorização da Guarda Revolucionária, têm-na no horizonte quando viram a proa para o canal de Larak.







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