Um peixe que nunca habitou os mares portugueses tornou-se o prato nacional. O Estado Novo fez da pesca do bacalhau à linha uma epopeia que terminou com ele, em 1974.
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Mário Simões Teles, capitão do porto do mar do norte e da Terra Nova, o oficial da marinha que tinha a frota inteira a seu cargo, contava a história de um pescador que passou quatro dias perdido no seu dóri, nas águas geladas do Atlântico Norte. O nevoeiro fechou sobre o banco e o homem deixou de ver o navio. Remou sem rumo, dormiu como pôde naquela casca de cinco metros, esperou. Quando o recolheram, ao quarto dia, perguntaram-lhe se tinha tido medo. Respondeu que não. Era a primeira vez que ia ao mar e não fazia ideia do perigo que corria.
A ignorância poupou-lhe o terror. E a relação dos portugueses com o bacalhau tem qualquer coisa dessa cena. Um povo que se habituou a um peixe das águas geladas do Atlântico Norte sem nunca ter posto os pés nelas, que fez dele a comida de todos os dias e o seu símbolo, e que o foi buscar a milhares de quilómetros de casa com uma frota que partia de braços com a morte sem medir bem o que arriscava.
O bacalhau nunca habitou os mares portugueses. A espécie de maior valor comercial, o Gadus morhua, vive no frio do Atlântico Norte, nas águas da Noruega, da Islândia, da Gronelândia e do Canadá. O negócio de importação é antigo, anterior aos Descobrimentos, com permutas de sal por peixe seco trazido do norte da Europa desde a Idade Média. Já no início do século XVI havia pescadores de Aveiro e de Viana do Castelo nos Grandes Bancos da Terra Nova, e em 1506 cobrava-se um imposto sobre o bacalhau que entrava nos portos entre o Douro e o Minho.

A pesca por navios portugueses foi sempre intermitente. Inês Amorim, historiadora das pescas na Universidade do Porto, tem mostrado como a atividade longínqua se fez de arranques e interrupções, refém das guerras, dos impostos e da concorrência estrangeira, muito antes de o Estado Novo lhe dar uma estrutura. No final do século XVI interrompeu-se quase por completo, com a frota arrastada para outras guerras sob a coroa dos Filipes de Espanha, e Portugal só voltou a armar navios para a Terra Nova em 1835. Durante esses séculos, o peixe continuou a chegar, comprado a intermediários ingleses. O povo chamava-lhe “bacalhau inglês”, expressão que durou até ao século XX para um peixe que de inglês nada tinha.
A palavra “fiel amigo” é mais antiga do que o regime que dela se serviu. Aparece em 1820, e ao longo do século XIX corre na imprensa satírica como troça, ligada à fome e à falta de tudo, quando faltar bacalhau era sinal de miséria. O Estado Novo apropriou-se da expressão e despiu-a do sarcasmo, transformando-a num emblema nacional de afeto a um peixe que o regime queria pescar por mãos portuguesas.
Índice
A campanha do bacalhau do Estado Novo
A campanha arranca em 1934, concebida à imagem da campanha do trigo, o programa com que o regime tentara tornar o país autossuficiente em cereais. O termo é do historiador Álvaro Garrido, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, que estudou o programa e lhe deu o nome nos seus trabalhos. A lógica era a mesma do trigo: substituir importações por produção nacional, subsidiar os navios e os seguros, controlar os preços. O desenho económico coube a Pedro Teotónio Pereira, um dos arquitetos do corporativismo do regime, e a máquina montada à volta dele incluía a Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau, criada nesse mesmo ano para controlar o abastecimento.
No topo dessa máquina esteve, durante 38 anos, o mesmo homem. Henrique Tenreiro, oficial da Armada que chegaria a contra-almirante, entrou no aparelho corporativo em 1936, nomeado por Teotónio Pereira delegado do governo junto do Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau. A partir daí estendeu o controlo aos restantes grémios das pescas e à Junta Central das Casas dos Pescadores, e foi ele quem definiu a política do setor até 1974. Conhecido como o patrão das pescas, fez do mar um feudo pessoal, tolerado por Salazar enquanto lhe foi útil. Garrido, que lhe escreveu a biografia política, descreve-o como um condottieri para quem todo o poder foi sempre pouco.
No 25 de Abril, Tenreiro fugiu pelo Largo do Carmo disfarçado de cego; morreu no Rio de Janeiro em 1994 e foi enterrado com a farda da armada brasileira.
O bacalhau barato era, no fundo, um instrumento de governo. Garrido descreve-o como uma proteína pensada para servir de “fator de bloqueio dos salários e de financiamento da paz social”, peça de uma engrenagem em que comida barata e renda congelada mantinham os salários baixos e o descontentamento controlado. A tabela de preços do bacalhau ficou praticamente intocada de 1948 a 1964, porque mexer nela seria mexer nesse equilíbrio.
Os resultados vieram. Em 1934 Portugal produzia 11% do bacalhau que consumia; nos anos 60 produzia cerca de 70%. Em 1958 tornou-se o primeiro produtor mundial de bacalhau salgado seco.
A campanha funcionou, e por isso o regime a exibiu. Antes da partida para a Terra Nova, repetia-se todos os anos em Belém a bênção dos bacalhoeiros, um dos grandes rituais de propaganda do Estado Novo, encenado para celebrar o ressurgimento da pesca nacional. Em abril de 1947, 32 lugres embandeirados em arco alinhavam-se entre as praças do Império e Afonso de Albuquerque, e o bispo Manuel Trindade Salgueiro lançava a bênção à porta dos Jerónimos; às varas do pálio pegavam os capitães e oficiais da frota.
A propaganda atravessou o Atlântico. Em 1965 ergueu-se em São João da Terra Nova, frente ao edifício da Confederação, uma estátua de Gaspar Corte-Real, navegador açoriano que chegou àquelas águas no início do século XVI. A oferta veio da organização das pescas portuguesa, dada como agradecimento à hospitalidade dos terra-novenses para com os pescadores dos bancos. A ideia partira do embaixador Eduardo Brazão, antes responsável pela propaganda do regime, numa visita de 1963 ao primeiro-ministro da província, Joey Smallwood. Para Gilberto Fernandes, historiador na Universidade de York, a estátua servia para legitimar Portugal como ator fundador da história norte-americana, numa altura em que o Canadá e outros aliados na NATO pressionavam o regime a abandonar o império colonial.
A figura escolhida tinha um reverso que a propaganda calou: segundo relatos contemporâneos, Corte-Real capturara cerca de 57 indígenas para vender como escravos. Décadas depois, a estátua tornou-se alvo de contestação na Terra Nova.
A pesca à linha nos bancos da Terra Nova
O trabalho, esse, não tinha nada de litúrgico. A frota partia em abril ou maio e ficava seis meses nos bancos da Terra Nova e ao largo da Gronelândia. Pescava-se à linha, à moda antiga, com cada homem sozinho no seu dóri, um barco aberto de cinco metros arriado do navio-mãe ao amanhecer e recolhido ao fim do dia. Cada navio levava entre 12 e 18 dóris. Era a última frota de pesca à linha à vela do mundo, quando Espanha, França e Inglaterra já tinham passado ao arrasto a motor, e foi por isso que o escritor e marinheiro australiano Alan Villiers aceitou em 1950 o convite do governo para a acompanhar e relatar a viagem no livro A Campanha do Argus.
A bordo comia-se feijão, batata, arroz e carne de barrica, e levavam-se galinhas e porcos vivos para a viagem. Os naufrágios eram correntes, e muitos dos lugres de casco de madeira acabaram por se perder no mar. Para assistir esta frota isolada, Portugal mandava para os bancos o navio-hospital Gil Eannes, construído em Viana do Castelo, que servia também de capitania, correio e quebra-gelos.
Quem embarcava trocava a tropa pelo gelo. Desde os anos 30, o Estado Novo deixava os mancebos cumprir o dever militar na pesca do bacalhau, regime montado para garantir braços a uma faina que poucos queriam. A contrapartida eram vários anos de embarque, cinco ou seis campanhas seguidas segundo os testemunhos recolhidos pelo Museu Marítimo de Ílhavo, sob pena de ser chamado à tropa. A troca tornou-se mais pesada entre 1961 e 1974, quando a alternativa à pesca passou a ser a guerra em Angola, na Guiné e em Moçambique. Albano Fernandes Gomes, que fez a primeira campanha em 1964, resumiu a escolha numa entrevista ao museu: “ou ia-se para a guerra ou para a pesca do bacalhau”, e ele escolheu a pesca.
Nos relatos dos antigos pescadores, a própria faina ficou conhecida como a outra guerra. Numa recolha de testemunhos em Castelo do Neiva, no norte do país, um deles resumiu a vida a bordo sem rodeios: “naqueles tempos éramos tratados como animais”.
Na campanha de 1960, a frota tinha 73 embarcações, 22 arrastões e 51 navios de pesca à linha, com mais de cinco mil pescadores, dos quais cerca de mil e duzentos saíam do concelho de Ílhavo.

O fim da pesca à linha em 1974
O que caiu de uma vez foi a pesca à linha, e caiu abraçada ao regime que a tinha exaltado. Nem a troca pela tropa segurava já os homens: a partir dos anos 60 faltavam braços para um trabalho tão duro, com a emigração e a indústria a abrir alternativas. Ao mesmo tempo, mudava o direito do mar e os Estados costeiros começavam a fechar as suas águas. Os últimos três grandes lugres de pesca à linha, herdeiros da frota branca que pintara os cascos de branco para se distinguir de alvos de guerra durante a Segunda Guerra Mundial, foram ao mar pela última vez em 1974. Sobre a coincidência entre o fim da pesca à linha e o fim do Estado Novo, Garrido é seco: “Há uma coincidência absoluta.”
Os arrastões a motor continuaram a pescar bacalhau, mas a epopeia à vela, com cada homem sozinho no seu dóri, acabou ali.
A ironia é que, mesmo no auge, Portugal nunca foi autossuficiente em bacalhau. O peixe nacionalizado pela propaganda nunca deixou de vir, em parte, de fora.

A moratória do bacalhau de 1992
Depois de 1974, a pesca continuou por arrasto, mas a frota longínqua reduziu-se ano após ano. E em 1992 fechou-se o banco que a alimentara durante séculos.
A 2 de julho de 1992, John Crosbie, ministro das pescas e oceanos do Canadá, anunciou num hotel de São João da Terra Nova a moratória sobre o bacalhau do Norte. As populações do peixe tinham caído para 1% dos níveis históricos, depois de décadas de sobrepesca industrial. Foi o maior despedimento da história do Canadá, com cerca de 30 mil pessoas a perder o sustento de um dia para o outro. Na véspera, na povoação de Bay Bulls, Crosbie enfrentou uma multidão de pescadores furiosos e atirou-lhes a frase que ficou: não fora ele que tirara o peixe da maldita água. No dia seguinte, com pescadores a esmurrar as portas da conferência de imprensa, justificou-se a dizer que decidia para garantir que o bacalhau sobrevivesse como espécie.
Não foi encontrado nenhum esquema.A moratória estava prevista para dois anos e durou mais de três décadas. Jeff Hutchings, biólogo de pescas da Universidade Dalhousie e autor dos estudos de referência sobre o caso, via no bacalhau da Terra Nova a prova de que parar de pescar pode não bastar para um stock se reerguer, ao contrário do que os gestores assumiam. O governo canadiano só levantou parcialmente a moratória em junho de 2024, reabrindo uma pesca comercial limitada e com quotas muito restritas, e os cientistas avisaram que o stock continuava longe de recuperado.
Portugal, maior consumidor de bacalhau do mundo
O fecho dos bancos confirmou uma rota que já vinha de trás. A frota que nos anos 60 enchia Belém de lugres reduziu-se a quase nada. Em 1991, 56 navios repartiam uma quota de cerca de 15 mil toneladas; uma década depois restavam 9 barcos na faina. A moratória interditou o bacalhau no Atlântico Noroeste, e à frota longínqua sobrou pescar palmeta e cantarilho. Hoje a frota portuguesa abastece apenas uma pequena fração do consumo nacional, estimada em cerca de 2%, e o restante vem quase todo de importações, sobretudo da Noruega, da Islândia e do Canadá, os mesmos mares de onde o peixe sempre veio.
A indústria, essa, sobreviveu à frota. Um estudo das indústrias portuguesas do bacalhau, no âmbito do projeto europeu SALMAR, concluiu que a salga e a secagem se reinventaram a importar bacalhau congelado e verde, e que o mercado se manteve estável, ao contrário das previsões de declínio.
O consumo, esse, não cedeu. Em 2018, segundo o Conselho Norueguês da Pesca, Portugal era o país que mais bacalhau consumia no mundo, cerca de 20% de todo o que se captura, à volta de 70 mil toneladas por ano, e o único país europeu a comer mais bacalhau do que salmão. No pescado em geral, os portugueses estão entre os maiores consumidores do mundo, com mais de 55 quilos por pessoa ao ano. As tentativas de substituir o bacalhau por peixe mais barato falharam sempre, mesmo a campanha televisiva dos anos 70 que tentou empurrar a pescada. Garrido nota o paradoxo sem lhe disfarçar a estranheza: é quase caricatural que um peixe que não habita as águas portuguesas tenha sido objeto de uma nacionalização cultural tão funda.
A raiz dessa ligação é antiga e, em boa parte, religiosa. Os antropólogos José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues, num ensaio sobre o bacalhau e a identidade portuguesa publicado na revista Etnográfica em 2013, mostram como o calendário cristão, com os longos períodos de abstinência de carne da Quaresma às vésperas de festa, fez do peixe a comida obrigatória dos dias de magro. O bacalhau salgado e seco resolvia o problema melhor do que qualquer outro: conservava-se meses e chegava ao interior, onde o peixe fresco não chegava. O hábito enraizou-se ao longo de séculos, muito antes de o regime lhe pegar.

Com o tempo, o peixe entrou na própria cultura popular. Houve enterros e julgamentos paródicos do bacalhau, cerimónias de cordel em que o peixe era julgado e condenado, em geral no Sábado de Aleluia, algumas ainda hoje recriadas. Marcou a língua, no apelido Bacalhau e na expressão “águas de bacalhau”. E chegou à literatura: em 1884, numa carta a Oliveira Martins, Eça de Queiroz incluía o “justo amor do bacalhau de cebolada” entre os traços portugueses, ao lado do fado e de um “fundo sincero de tristeza lírica”.
A ligação seguiu os emigrantes. O bacalhau está nas cozinhas dos países de língua portuguesa, do Brasil a Goa e a Timor, e na consoada das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. A partir de 1968, primeiro em Joanesburgo, nasceu uma rede de academias do bacalhau, hoje mais de meia centena em vários continentes, que sob a invocação do “fiel amigo” juntam a diáspora à volta da mesma mesa.
O ponto mais alto desse calendário continua a ser o Natal. A consoada de bacalhau, comida na véspera por ser dia de abstinência de carne, impôs-se a partir do norte como a imagem dominante do Natal português.
O homem que se perdeu quatro dias no dóri foi recolhido vivo, voltou ao navio, terminou a campanha. Era a primeira vez que via aqueles mares, e podia bem ter sido a última, como foi para tantos que ficaram lá. A frota que o levou há muito desapareceu. O banco continua fechado e o regime que o mandou está enterrado. Só o bacalhau continua à mesa, empilhado nas lojas, seco e salgado, descarregado dos mesmos mares do norte que a frota portuguesa deixou de pescar.





