Tanto Mundo
Sem Resultado
Ver Todos os Resultados
  • Home
  • Mundo
  • Ciência e ambiente
  • História
  • Ideias e cultura
Sem Resultado
Ver Todos os Resultados
Tanto Mundo
Sem Resultado
Ver Todos os Resultados
Início Ideias e cultura

Desde quando é a casa um lugar privado

por Jorge Montez
08.09.2026
em Ideias e cultura
1
Colagem editorial com um corredor de casa antiga ao centro, portas abertas para uma sala com piano, um quarto e uma divisão onde uma mulher escreve à janela, planta de arquitetura sobreposta à direita e, à esquerda, gravura esbatida de uma cidade com dois homens de tricórnio junto a uma porta com fechadura de ferro

© Tanto Mundo (com IA)

37
VISUALIZAÇÕES

A casa está protegida contra quem vem de fora desde 1604 em Inglaterra e desde 1822 em Portugal. Outra coisa é poder estar sozinho dentro dela: essa privacidade começou por ser uma questão de arquitetura.

Resumo
Duas privacidades da casa, com idades diferentes
A lei protege a casa contra quem vem de fora desde 1604 em Inglaterra e desde 1822 em Portugal. O corredor entrou nas plantas inglesas em meados do século XVII.

Em 1604, um tribunal inglês teve de decidir até onde podia ir um oficial que procurava executar uma dívida sobre bens guardados dentro de uma casa. Do caso saíram várias regras sobre os limites da entrada forçada. Uma delas estabelecia que, estando em causa processo do rei e não havendo outra forma de entrar, o oficial podia arrombar a porta, mas só depois de anunciar a razão por que ali estava e de pedir que lhe abrissem.

Edward Coke, o jurista que relatou o caso, deixou no relatório a fórmula que lhe sobreviveu: a casa de cada um é para ele o seu castelo e fortaleza, tanto para defesa contra a injúria e a violência como para o seu repouso.

Índice

  • Quando a casa ganhou corredor
  • Porque é que as duas privacidades não se desfazem juntas

O caso ficou conhecido como Semayne’s Case, e no mesmo relatório está a máxima latina de onde a ideia vinha, domus sua cuique est tutissimum refugium, a casa de cada um é o seu refúgio mais seguro.

Em Portugal, a mesma ideia ficou escrita a 23 de setembro de 1822, no artigo 5.º da primeira Constituição, que fixou a inviolabilidade do domicílio: “A casa de todo o Português é para ele um asilo.” Nenhum oficial público podia entrar nela sem ordem escrita da autoridade competente. O artigo 18.º do mesmo título declarava inviolável o segredo das cartas. Na sua primeira vigência, o texto durou menos de um ano, até 3 de junho de 1823. O mesmo princípio está hoje no artigo 34.º da Constituição de 1976.

Os dois textos, separados por mais de dois séculos, partilham uma ideia: a porta da casa marca um limite à entrada de quem vem de fora. Nenhum trata da separação entre as pessoas que já estão dentro. Essa outra privacidade tem outra história. Antes de chegar à lei, começou a ser desenhada na planta das casas.

Quando a casa ganhou corredor

A planta de Coleshill House, que Roger Pratt desenhou para o primo George Pratt, tem uma passagem a atravessar o edifício ao meio. As divisões abrem para essa passagem, que permite chegar a cada uma sem atravessar as outras. George Pratt herdara a propriedade em 1647, e o National Trust, que hoje a detém, data a conclusão da casa de 1662.

O mesmo arranjo aparece, na mesma geração, em Thorpe Hall, construída entre 1653 e 1656 por Peter Mills, e em Amesbury, desenhada por John Webb em 1661. Nenhuma das três é caso puro: todas mantêm portas de comunicação entre divisões contíguas a par do corredor.

Robin Evans, historiador de arquitetura, examinou as três plantas num ensaio de 1978, “Figures, Doors and Passages”, publicado na revista Architectural Design e relido em 2024 por Joseph Bedford, professor associado de história e teoria da arquitetura em Virginia Tech. Chamou matriz de divisões ligadas ao arranjo antigo, aquele em que se atravessavam divisões para chegar a divisões, e recusou explicar a mudança por evolução lenta das formas vernaculares. Foi súbita e deliberada, escreveu Robin Evans, que a situou entre 1650 e 1667.

“As divisões deixam de se encadear e passam a ligar-se à passagem que atravessa o centro do edifício”, descreveu Robin Evans.

Vê-se a divisão que se ocupa e mais nenhuma. A vida da casa decorre do outro lado das paredes da passagem, fora de vista. Robin Evans, Figures, Doors and Passages, 1978

O que a matriz permitia está descrito numa carta de Denis Diderot a Sophie Volland. Numa só sala, alguém pintava um retrato, outro lia a um canto, duas irmãs bordavam, outra ensaiava Scarlatti ao cravo e Denis Diderot jogava xadrez. Robin Evans contou 16 pessoas na mesma divisão e reparou que nada naquela cena sugeria que umas atrapalhassem as outras.

O corredor não trouxe proteção contra o exterior, que a lei já dava. Trouxe separação no interior, entre quem partilhava o mesmo teto, ao dar a cada divisão um acesso que dispensava testemunhas.

Porque é que as duas privacidades não se desfazem juntas

A que os tribunais e as constituições escreveram continua a fazer da porta da rua uma fronteira jurídica, que só se atravessa sem consentimento havendo fundamento legal. A que o corredor construiu depende de portas, e as portas só filtram o que passa pelo corredor. É essa a que o smartphone desmontou, por entrar na casa com o corpo de quem lá vive.

Subscreva a newsletter do Tanto Mundo casa
Etiquetas: EuropaModernidadePortugalSociedade
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

Novo Post
Colagem de três figuras em diálogo, um homem de turbante, uma silhueta de costas e um dignitário de perfil, entre balões de fala, mapas e manuscritos

A voz emprestada: o intérprete e o poder ao longo da história

Comentários 1

  1. Pingback: Privacidade doméstica: três séculos que o smartphone desfez

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Segue-nos

tanto mundo substack
Segue o Tanto Mundo no Substack

Mais recentes

Ilustração do observatório de neutrinos IceCube em corte, com cabos de sensores esféricos no gelo antártico atravessados por um rasto de luz vindo de um céu com a Via Láctea

Nobel da Física: ver o céu através do gelo

15.10.2026
imagem ilustrativa do artigo sobre o Nobel da Medicina: Colagem com algas verdes unicelulares de mancha ocular laranja vistas numa lente, de onde parte um feixe de luz âmbar que ilumina neurónios num cérebro humano

Nobel da Medicina explicado: a alga que acendeu o cérebro

13.10.2026
Operário de boina sentado num muro entre uma paisagem industrial fumegante e uma praia com banhistas, sob um recorte de céu azul colado sobre papel envelhecido.

A invenção do fim de semana

08.10.2026

Mais lidos

  • Ilustração editorial em forma de díptico. À esquerda, um rapaz de costas em vestes castanhas, com Lourenço Marques esbatida ao longe num terreno de areia. À direita, uma parede vermelha com rostos de grandes olhos que fixam o observador, e um crocodilo no canto superior.

    Malangatana, ou o país pintado antes de existir

    0 partilhas
    Partillha 0 Tweet 0
  • Ormuz: o estreito que mede os impérios

    0 partilhas
    Partillha 0 Tweet 0
  • O flagelo bacteriano e a pergunta sobre o que é estar vivo

    0 partilhas
    Partillha 0 Tweet 0
  • Pesca do bacalhau: a faina dos dóris que morreu com o Estado Novo

    0 partilhas
    Partillha 0 Tweet 0
  • Eclipse do sol em Bragança: a longa história do céu que parou de assustar

    0 partilhas
    Partillha 0 Tweet 0
Logotipo Tanto Mundo
  • Quem somos
  • Estatuto Editorial
  • Como usamos a IA
  • Política de cookies
  • Privacidade
  • Manifesto Slow Media

Copyright © 2026 Tanto Mundo - Magazine - Sobre tudo, devagar.

Sem Resultado
Ver Todos os Resultados
  • Home
  • Mundo
  • Ciência e ambiente
  • História
  • Ideias e cultura