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Início Ciência e ambiente

El Niño, uma família espalhada por três oceanos

por Jorge Montez
11.07.2026
em Ciência e ambiente
1
Menino de costas sentado numa boia esférica em tons de creme e laranja, a olhar o mar aberto com barcos de pesca ao longe e linhas onduladas na água

@Tanto Mundo (com IA)

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Do Pacífico ao largo de Angola, os Niños dos oceanos moldam o clima de meio mundo. Em Portugal, o eco chega fraco de mais para se notar.

Resumo
I
Um nome de Natal para o mar que aquece
Os pescadores do norte do Peru chamaram El Niño, o Menino, ao aquecimento que esvaziava as redes por volta de dezembro, no século XIX.
II
Parentes no Atlântico e no Índico
Ao largo de Angola, o Benguela Niño aquece o mar por conta própria; no oceano Índico, um dipolo faz o mesmo. Nenhum é o El Niño do Pacífico.
III
O alcance que secou o sertão
Entre 1876 e 1878, um El Niño ligou-se a secas e fomes no Brasil, na Índia e na China, com dezenas de milhões de mortos.
IV
Portugal no limiar do sinal
Na Península Ibérica, o eco do Pacífico chega esbatido e disputado, e o inverno obedece antes à Oscilação do Atlântico Norte.

Ouve o artigo:

Ao largo do Peru e do Equador, o mar é normalmente frio e generoso. Uma corrente sobe do fundo carregada de nutrientes e alimenta uma das maiores pescarias do planeta, bancos imensos de anchova e, atrás deles, aves marinhas aos milhões.

A cada poucos anos, porém, essa água esfria menos do que devia. A temperatura à superfície sobe, o afloramento das profundezas afrouxa, e os cardumes somem-se. As redes voltam leves, e as aves morrem à fome sobre praias que pareciam inesgotáveis.

Os pescadores do norte do Peru deram um nome a esse mar quente e estéril. Como costumava chegar por volta de dezembro, chamaram-lhe El Niño, o Menino, em referência ao Menino Jesus. O nome ficou, e haveria de viajar muito para além daquela costa. Este é o original, o mais potente de uma família espalhada por três oceanos, e durante muito tempo foi o único que o mundo conhecia.

Índice

  • O motor do Pacífico
  • Os primos de outros oceanos: o Benguela Niño e o Índico
  • O alcance de uma oscilação: teleconexões e fomes
  • Onde o sinal se desfaz

O motor do Pacífico

O mecanismo levou mais tempo a ser entendido do que o nome. Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste sobre o Pacífico tropical e empurram a água quente para o lado da Ásia, deixando a costa americana fria e produtiva. Quando esses ventos enfraquecem, a água quente desliza de volta para leste e abafa o afloramento junto às Américas.

É essa báscula que a agência norte-americana dos oceanos e da atmosfera, a NOAA, usa para declarar um El Niño: quando a temperatura à superfície numa faixa central do Pacífico, a região chamada Niño 3.4, fica mais de meio grau acima da média durante cinco meses seguidos. Nos episódios fortes de 1997-98 e 2015-16, passou os dois graus e meio. O termo é bem mais antigo: já no século XIX os pescadores peruanos o usavam, segundo regista a Enciclopédia Britânica.

Como funciona
As duas faces do Pacífico
Um corte do Pacífico equatorial, da Ásia à América, em condições normais e durante o El Niño.
ÁSIAAMÉRICACONDIÇÕES NORMAIS
Os alísios sopram de leste para oeste e empurram a água quente para o lado da Ásia. Junto à América, a água fria sobe do fundo e traz o alimento que enche as redes.
ÁSIAAMÉRICAEL NIÑO
Os alísios enfraquecem. A água quente desliza para leste, a termoclina afunda e o afloramento cala-se. Sem água fria à superfície, o peixe escasseia.
alísios (vento)afloramentoágua quenteágua fria e profundatermoclina
Fonte: NOAA e NASA@Tanto Mundo

O mesmo balanço tem um reverso. Quando os alísios, em vez de afrouxarem, sopram com mais força do que o costume, o afloramento intensifica-se e o Pacífico oriental arrefece abaixo da média. A essa fase fria deu-se o nome de La Niña, a Menina, e entre uma e outra o oceano raramente fica quieto.

No seu epicentro, o fenómeno é tudo menos discreto. Quando a água quente sufoca o afloramento, a teia alimentar do Pacífico oriental rompe-se de baixo para cima, do plâncton ao peixe e do peixe à ave. No El Niño de 1972-73, o colapso da anchova peruana, agravado por anos de sobrepesca, arrastou consigo milhões de aves marinhas e abalou a economia e o governo do Peru. Em 1982-83, as aves da ilha Christmas abandonaram as crias e cerca de um quarto das focas e leões-marinhos da costa peruana morreu à fome.

O ciclo é antiquíssimo. Assinaturas químicas do fenómeno aparecem em corais e sedimentos de dezenas de milhares de anos, e há quem ligue os seus extremos ao destino de civilizações andinas como os Moche e os Incas.

Perguntar por que ocorre o El Niño é como perguntar por que toca um sino ou baloiça um pêndulo. É um modo natural de oscilação. Um sino, claro, precisa de ser percutido para tocar. George Philander, cientista da atmosfera, 1999

Da causa primeira, porém, fica o essencial por explicar. Sabe-se o que desencadeia um El Niño, a báscula de ventos e águas, mas não o que a faz disparar num ano e não noutro.

A primeira pessoa a juntar as peças trabalhava longe do Pacífico. Gilbert Walker, físico e estatístico britânico que dirigia os observatórios meteorológicos da Índia nos anos 1920, procurava prever as falhas da monção, e ao vasculhar registos de pressão atmosférica de meio mundo encontrou uma báscula. “Quando a pressão é alta no oceano Pacífico, tende a ser baixa no oceano Índico, de África à Austrália”, escreveu Gilbert Walker, notando que a chuva variava em sentido contrário ao da pressão. Chamou-lhe Oscilação Sul.

Faltava ligar essa báscula do ar ao aquecimento da água. A ligação só chegou quatro décadas depois, pela mão de Jacob Bjerknes, meteorologista de origem norueguesa na Universidade da Califórnia em Los Angeles, e o conjunto passou a chamar-se El Niño-Oscilação Sul. Gilbert Walker tinha encontrado a respiração atmosférica de um corpo cujo coração oceânico ainda não conhecia.

Os primos de outros oceanos: o Benguela Niño e o Índico

No início de 1995, a água ao largo de Angola e da Namíbia aqueceu mais do que devia. A corrente de Benguela, que sobe do fundo fria e rica e que faz daquela costa uma das mais piscosas do mundo, perdeu força. A temperatura subiu até quatro graus acima do normal na faixa onde o oceano tropical encontra a corrente fria, e a sardinha e o carapau morreram ou fugiram para sul.

Para as frotas de Angola e da Namíbia, cujas pescarias estão entre os recursos mais valiosos do Atlântico sul, foi uma estação de redes leves. Os oceanógrafos chamaram-lhe Benguela Niño, por semelhança com o fenómeno do Pacífico.

A semelhança é real, a identidade não.

O Benguela Niño nasce de dinâmicas do próprio Atlântico, com o relaxamento dos ventos junto ao equador atlântico, e não em resposta direta ao que se passa no Pacífico. Os dois costumam nem coincidir no tempo. O de 1995 foi o mais quente em quatro décadas, e um estudo publicado na Nature mostrou como uma fase intensa do Dipolo do Oceano Índico, outra báscula, esta entre o ocidente e o oriente daquele oceano, ajudou a amplificá-lo através de chuvas que engrossaram o rio Congo.

Cada grande oceano tem o seu modo de aquecer e arrefecer de forma irregular, e a ciência foi descobrindo um por um, sempre por analogia com o primeiro. O Pacífico tem o El Niño, o protótipo e o mais potente. O Atlântico tem o seu Niño equatorial e, mais a sul, o Benguela. O Índico tem o seu dipolo. São sistemas distintos, com motores distintos, que por vezes se entrelaçam e por vezes se ignoram. O nome do Menino, nascido numa praia peruana, acabou por dar título a uma família espalhada por três oceanos.

A família no mapa
A família nos três oceanos
O protótipo do Pacífico, o Niño equatorial e o Benguela no Atlântico, o dipolo do Índico, e as oscilações de pressão que os movem.
OSCILAÇÃO DOATLÂNTICO NORTEbáscula entre a Islândia e os AçoresOSCILAÇÃO SULa báscula de pressão do Pacífico teleconexão EL NIÑOPacífico equatorial, o protótipo NIÑO EQUATORIALAtlântico, golfo da Guiné BENGUELA NIÑOAtlântico sudeste DIPOLO DO ÍNDICOoceano Índico PORTUGALo limiar do eco NORDESTE
fenómeno oceânico análogo ao El Niño Portugal, onde o sinal chega esbatido oscilação de pressão atmosférica teleconexão, efeito sentido à distância
Fonte: NASA, NOAA e Communications Earth & Environment, 2024-2026 @Tanto Mundo

O alcance de uma oscilação: teleconexões e fomes

O que espalha o El Niño pelo mundo é o seu alcance. Por ser o maior oceano do planeta, quando a sua distribuição de calor e de ventos muda, a corrente de jato desloca-se e leva consigo a chuva e a seca para muito longe da origem. São os efeitos a distância, as teleconexões, e é por elas que um aquecimento ao largo do Peru se faz sentir no sertão.

No nordeste do Brasil, a pior seca de que há memória começou com o episódio de 1876-78. Entre 1877 e 1879, a chuva que costuma cair no sertão entre fevereiro e maio não veio, os açudes secaram e o gado morreu. Centenas de milhares de sertanejos abandonaram o interior rumo ao litoral, e mais de 100 mil retirantes esfomeados concentraram-se em Fortaleza, uma cidade de poucas dezenas de milhares de habitantes, amontoados em acampamentos improvisados nos arredores.

O que a fome poupou, levou-o a varíola que se seguiu. A 10 de dezembro de 1878, Fortaleza contou um milhar de mortos num só dia. Ao todo, a seca e a epidemia terão ceifado cerca de meio milhão de vidas no norte do país, segundo o arquivo do Senado brasileiro, enquanto o imperador dom Pedro II regressava tarde de uma longa viagem ao estrangeiro e o socorro oficial chegava a conta-gotas ao sertão. Tudo isto num Brasil que só aboliria a escravatura 10 anos mais tarde.

O historiador norte-americano Mike Davis reuniu esta e outras fomes num livro. Em Late Victorian Holocausts, defende que pelo menos três grandes secas do final do século XIX, em 1876-78, 1896-97 e 1899-1900, estiveram ligadas ao El Niño, e que entre 30 e 60 milhões de pessoas morreram na Índia, na China e no Brasil. A força do argumento de Mike Davis não está na meteorologia, está na política: a seca foi um acidente do clima, mas a escala da morte resultou do imperialismo e do dogma do mercado livre, que transformaram a falta de chuva numa catástrofe evitável.

O rasto histórico é mais fundo do que as fomes vitorianas. Entre 1789 e 1793, a monção asiática falhou repetidas vezes, e o historiador ambiental Richard Grove defendeu que as anomalias climáticas ligadas a esse El Niño contribuíram para as quebras de colheita na Europa às vésperas da Revolução Francesa. Mais atrás ainda, no século XVI, o geógrafo César Caviedes, autor de El Niño in History, sugeriu que a conquista espanhola do Peru terá sido favorecida por ventos de ano de El Niño, que empurraram os barcos do conquistador Francisco Pizarro costa abaixo em 1531 e 1532 e o levaram a encontrar desertos floridos e rios cheios à chegada.

O fenómeno não ficou nos arquivos do século XIX. O El Niño de 1997-98, o primeiro a ser acompanhado em tempo real, foi associado pela Organização das Nações Unidas a mais de 20 mil mortes e a 36 mil milhões de dólares em prejuízos.

Quando o ciclo voltou em força em 2015-16, cerca de 60 milhões de pessoas precisaram de ajuda alimentar em África, na Ásia e na América Latina, e os fogos que arderam sem travão numa Indonésia ressequida contribuíram, segundo investigadores da Universidade de Harvard, para dezenas de milhares de mortes prematuras por poluição do ar. Em 2023, a seca associada ao fenómeno baixou o nível do canal do Panamá ao ponto de obrigar a restringir a passagem dos navios maiores.

Moradora caminha sobre o leito rachado do açude da Pista, seco pela estiagem, em Quixadá, no sertão do Ceará. O El Niño pode ter efeitos devastadores naquela região.
O leito gretado do açude da Pista, em Quixadá, no sertão do Ceará, durante a seca de 2012 a 2017, a mais longa já registada no semiárido brasileiro. Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil, 2015

Onde o sinal se desfaz

E em Portugal? Aqui, o membro maior da família chega ao fim da sua linha. Os efeitos do El Niño são muito menos diretos na Europa do que na América, e a esta distância o sinal vem cheio de ruído. Existe, ainda assim. Um estudo de 2025 associa a anos de El Niño um excesso de chuva no início do inverno em boa parte da Península Ibérica.

Mas é um sinal fraco, intermitente, fácil de confundir com a variação normal do tempo. “O El Niño não tem impacto forte nem consistente na Península Ibérica”, resumiu Paloma Trascasa-Castro, investigadora do Centro Nacional de Supercomputação de Barcelona, em abril de 2026.

O que comanda o inverno ibérico não vem do Pacífico, vem de mais perto. É a Oscilação do Atlântico Norte, a báscula de pressão entre os Açores e a Islândia que decide se as depressões atlânticas entram pela Península ou passam ao largo.

E o nome de quem a identificou não é estranho a esta história: foi o mesmo Gilbert Walker, no mesmo trabalho dos anos 1920, que batizou a Oscilação do Atlântico Norte por contraste com a Oscilação Sul que encontrara nos trópicos. O homem que deu nome ao motor do El Niño deu nome também ao motor do tempo português.

Fica o calor. Nos verões em que o termómetro dispara na Península, é tentador procurar no Pacífico a origem da canícula, e é aqui que o atalho engana. Michael Tippett, climatólogo da Universidade de Columbia que estuda estas relações, afirmou no verão de 2026 que, em média, não há ligação forte entre o El Niño e os padrões meteorológicos de verão sobre os Estados Unidos e a Europa. Se alguma fase do ciclo se associa a vagas de calor mais frequentes e severas no hemisfério norte, é antes a La Niña, a fase fria, e não o El Niño, que chega mesmo a poder atenuar a intensidade das vagas de calor à medida que aquece o planeta.

O que acende os verões europeus está mais perto do continente. Os bloqueios atmosféricos que travam as depressões, a Oscilação do Atlântico Norte, a temperatura do próprio Atlântico e, por cima de tudo, o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis. Entre estes motores, o El Niño não figura.

Há, ainda assim, um fio que o liga ao calor, e esse é global. Ao libertar para a atmosfera parte do calor acumulado no Pacífico, o El Niño empurra para cima a temperatura média do planeta, e os seus anos contam-se entre os mais quentes já medidos. É sobre esse fundo aquecido, somado à subida de longo prazo, que as vagas de calor batem recordes sucessivos. Para o verão português, o efeito do El Niño é difuso e não um gatilho: eleva o patamar global sobre o qual o calor extremo se ergue, mas quem decide se e quando uma vaga se instala sobre a Península é a circulação atmosférica, não o Pacífico.

A distância, porém, pode encurtar. Como o El Niño responderá ao aquecimento global continua em aberto, e os modelos divergem entre si. Um deles aponta para outro futuro.

Um modelo climático de alta resolução projeta que, à medida que o planeta aquece, o El Niño deixe de ser o regime irregular e de amplitude moderada que se conhece e passe a uma oscilação mais regular e cada vez mais ampla. A causa apontada são as retroações entre o oceano e a atmosfera, que no modelo se aproximam de um ponto crítico na segunda metade deste século, com um ruído atmosférico a crescer ao mesmo tempo.

Se o cenário se confirmar, as respostas da chuva nas margens do sistema, a Califórnia do Sul e a Península Ibérica entre elas, ficariam mais fortes a cada báscula entre o El Niño e a La Niña. É uma projeção, não uma certeza, e convive com modelos que apontam noutras direções. Mas desenha um futuro em que o eco que hoje mal se distingue se torna audível.

Por ora, a NOAA mantém um aviso de El Niño, com o fenómeno a formar-se no Pacífico e a reforçar-se rumo ao inverno de 2026-27. Em Sines ou em Peniche, o efeito direto mais provável será uns dias de chuva a mais por volta do Natal, se chegar a notar-se. A oscilação que esvazia as redes de Angola e que secou o sertão chega à costa portuguesa tão esbatida que só os instrumentos a distinguem da chuva de sempre.

Etiquetas: AméricaClimaEuropaMar
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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