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Início Ciência e ambiente

O sabor do café faz-se na torra, não na planta

por Jorge Montez
28.08.2026
em Ciência e ambiente
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Colagem com ramo de cafeeiro em flor, fila de grãos de café do verde ao castanho escuro, e chávena de café. É a evolução do sabor do café

@Tanto Mundo (com IA)

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O aroma que se reconhece e o sabor do café nasce sobretudo no calor da torra. O que a planta entrega, e o que Oeiras fez com uma planta de Timor, decide a matéria que lá entra.

Resumo
O sabor do café nasce sobretudo no calor da torra
O grão por torrar tem cerca de 300 compostos voláteis e o torrado mais de mil. A espécie entrega a matéria que arde; o lote dá constância ao resultado.

A flor do cafeeiro cheira a flor, entre o jasmim e a laranjeira. O grão cru, moído, cheira a ervilha e a terra. O aroma e o sabor do café não estão em nenhum dos dois: formam-se dentro do tambor de torra, em poucos minutos, quando os açúcares e os aminoácidos do grão reagem ao calor.

O grão por torrar tem cerca de 300 compostos voláteis. Alguns permanecem depois da torra, e o calor cria centenas de outros: no café torrado já foram identificados mais de mil, produzidos sobretudo por reações de Maillard, o escurecimento não enzimático que também tosta o pão. Destes, apenas uma pequena parte, cerca de 5%, pesa no aroma que chega ao nariz.

O sabor do café em números
Grão por torrar
cerca de 300
compostos voláteis no grão antes de entrar no tambor
Grão torrado
mais de 1000
compostos voláteis identificados, na maioria criados pelo calor
Peso no aroma
cerca de 5%
a fração dos voláteis que conta para o cheiro percebido
Fonte: Fosca Vezzulli, Milena Lambri e Terenzio Bertuzzi, Foods, 2023 @Tanto Mundo

Se o aroma se fabrica no fogo, o que a planta entrega são os precursores: açúcares, lípidos, proteínas, ácidos clorogénicos, trigonelina. A espécie condiciona a matéria que entra no tambor; é no calor que grande parte do sabor do café se forma.

Do arábica ao cafeeiro que veio de Timor

E a espécie mais vendida é, ela própria, uma mistura. O Coffea arabica nasceu do cruzamento natural entre os antepassados do Coffea canephora, o robusta, e do Coffea eugenioides, num acontecimento que a genómica data entre 350 mil e 610 mil anos.

Prancha botânica do século XIX de Coffea arabica, com ramo em flor, folhas, frutos e detalhes da semente. Sabor do café
Prancha de Coffea arabica em Köhler’s Medizinal-Pflanzen, 1887, com o ramo em flor e os detalhes do fruto e da semente. Domínio público

A mistura seguinte tem morada e data.

Numa plantação de Timor, nos anos 1920, apareceu um cafeeiro que resistia à ferrugem alaranjada, provocada pelo fungo Hemileia vastatrix, que arrasava plantações de arábica em África e na Ásia. Era um cruzamento espontâneo entre as duas espécies, e ficou conhecido como Híbrido de Timor.

Em 1955, com apoio dos governos português e norte-americano, foi criado em Oeiras o Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro, instalado deliberadamente longe das zonas produtoras para não haver risco de espalhar a doença. Dirigiu-o António Branquinho d’Oliveira até 1973.

O centro recebeu sementes do híbrido no final dos anos 1950 e, a partir de 1967, cruzou-as com o Caturra, uma variedade compacta e produtiva mas frágil perante a ferrugem. Daí saiu o Catimor, que não é uma variedade única mas um conjunto de variedades com a mesma ascendência.

Mais de 90% das variedades de arábica resistentes à ferrugem cultivadas no mundo descendem do Híbrido de Timor, segundo o próprio centro, que construiu uma rede de investigação com mais de 40 países produtores.

O futuro do café poderá passar cada vez mais pelo uso de variedades derivadas de Robusta. Maria do Céu Silva, coordenadora do Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro, julho de 2026

O sabor do café, entre o torrador e a lei

Falta a terceira mistura, a do torrador, e essa nunca teve proporção escrita na lei. Um lote combina cafés de várias origens porque a matéria-prima é agrícola e varia a cada colheita: misturar é o modo de a mesma marca ter o mesmo sabor de café em janeiro e em julho, e de acrescentar corpo a um arábica que sozinho ficaria leve.

Mistura, na lei portuguesa, é outra coisa. O diploma de 1989 chamava assim ao que junta café a sucedâneos como a chicória, a cevada, o centeio ou o grão preto, entre um quinto e três quintos de café, e mandava presumir que o café utilizado tinha pelo menos 2% de cafeína. Era uma fasquia que o arábica dificilmente cumpria.

O Decreto-Lei n.º 78/2013, de 11 de junho, eliminou a presunção, e o preâmbulo justifica-o sem rodeios: a regra inibia o uso de cafés arábicos e prejudicava a qualidade do produto final.

O mesmo diploma fixa o resto do vocabulário do escaparate. Chama torrefacto ao café torrado com adição de açúcares, melaço de cana ou extrato de alfarroba, até 15% da massa do café verde, num processo que escurece o grão e lhe altera o sabor.

E define a chávena que se serve ao balcão. Café torrado é o que apresenta, no mínimo, 0,7% de cafeína em relação à matéria seca; quando se vende ao público, a bebida leva pelo menos seis gramas de café por cada 50 mililitros.

Cronologia
Da planta de Timor ao decreto português
Anos 1920
Numa plantação de Timor aparece um cafeeiro resistente à ferrugem, cruzamento espontâneo entre arábica e robusta.
1955
É criado em Oeiras o Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro, longe das zonas produtoras por precaução sanitária.
1958 ou 1959
Chega ao centro um lote de sementes do Híbrido de Timor, de onde saem duas plantas para melhoramento.
1967
Começam em Portugal os cruzamentos com o Caturra, que dão origem ao grupo de variedades conhecido por Catimor.
2013
Um decreto elimina a presunção de 2% de cafeína no café das misturas com sucedâneos, que dificultava o uso de arábica.
Fontes: World Coffee Research; Centro de Investigação das Ferrugens do Cafeeiro; Decreto-Lei n.º 53/89 e Decreto-Lei n.º 78/2013 @Tanto Mundo

O terreno que o robusta está a ganhar

A proporção que a lei nunca fixou está a mudar por outra via. Há cerca de quarenta anos a produção mundial repartia-se entre 75% de arábica e 25% de robusta, e o Instituto Superior de Agronomia situava-a em 53% contra 47% em julho de 2026.

O robusta é, em geral, mais resistente a doenças e mais tolerante a temperaturas elevadas. Maria do Céu Silva, coordenadora do mesmo centro, admite que o futuro do café passe cada vez mais por variedades derivadas dessa espécie.

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Etiquetas: ÁsiaBiologiaClimaMundo lusófonoPortugal
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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