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Início História

Foi no café que se construiu a opinião pública

por Jorge Montez
25.08.2026
em História
1
Chávena de café fumegante numa mesa de mármore, o vapor a formar uma roda de homens de cartola, com a silhueta de Istambul ao fundo

©Tanto Mundo (com IA)

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De Istambul a Lisboa, a casa de café foi durante quatro séculos o lugar onde as pessoas se juntavam para discutir o mundo. Depois o café foi para casa, e calou-se numa cápsula.

Resumo
I
O café público nasceu no mundo islâmico
As primeiras casas de café abriram em Meca, no Cairo e em Istambul, no século XVI, e ficaram conhecidas por escolas dos sábios.
II
Das casas de café saíram a imprensa e a bolsa
O Tatler e o Spectator nasceram das suas mesas; da casa de Edward Lloyd cresceu a Lloyd’s, e de Jonathan’s a bolsa de Londres.
III
O poder vigiou os cafés, de Istambul a Lisboa
Meca proibiu o café em 1511, Carlos II tentou fechar as casas de Londres em 1675, e a polícia de Pina Manique seguia os cafés do Rossio.
IV
No século XX, o café foi para casa
O consumo doméstico cresceu com os eletrodomésticos e o café solúvel, e a Nespresso, lançada em 1986, reduziu a preparação a um botão.

Ouve o artigo:

Em Istambul, em 1633, o sultão Murad IV proibiu as casas de café da cidade, e há relatos de que beber café em público podia custar a vida. O que o assustava não era a bebida. Era o que crescia à volta dela: nas casas de café, gente de muitas condições sentava-se à mesma mesa, lia, discutia e dizia o que pensava de quem governava.

Esse espaço nascera pouco antes, no mundo islâmico do século XVI. As primeiras casas de café surgiram em Meca e no Cairo, e chegaram a Istambul por volta de 1555; depressa ficaram conhecidas por escolas dos sábios, porque ali se lia, se debatia, se ouviam contadores de histórias, e por ali passava tudo o que valia a pena saber. Ao contrário da mesquita ou do mercado, juntavam à mesma mesa mercadores, artesãos e letrados, com uma liberdade rara fora dali.

Interior de uma casa de café otomana em Constantinopla, com clientes sentados em bancos corridos, numa gravura do início do século XIX
A casa de café otomana numa gravura de Antoine-Ignace Melling para o Voyage pittoresque de Constantinople, de 1819. Imagem: Wikimedia Commons, domínio público

Os sultões mandavam informadores às casas de café ouvir o que se dizia, para medir o que o povo pensava, e mais de uma vez tentaram fechá-las. Meca proibiu o café logo em 1511, numa repressão em que se misturavam motivos religiosos, morais e políticos.

Nenhuma acabou com o café.

Índice

  • A Europa das casas de café
  • A tertúlia portuguesa
  • O café volta para casa
  • A cápsula

A Europa das casas de café

À Europa, o café chegou por Veneza, por volta de 1615, trazido pelos mercadores que o tinham provado em Istambul. O historiador Fernand Braudel chamou-lhe a nova droga: ao início, um luxo exótico ao lado do chá e do cacau, coisa de ricos. Mas com a bebida veio a instituição. Uma das primeiras casas de café europeias abriu em Veneza por volta de 1645, e daí a coisa espalhou-se: Oxford por volta de 1650, Londres em 1652, e mais tarde Paris, Viena, Lisboa. Onde chegava o café, chegava a casa de café, e com ela um sítio para as pessoas se juntarem e falarem.

Onde chegava o café, chegava a casa de café, e com ela um sítio para as pessoas se juntarem e falarem.

O chá, que entrava na Europa mais ou menos pela mesma altura, seguiu outro caminho. Associou-se mais depressa à corte e ao salão, e foi uma rainha portuguesa, Catarina de Bragança, que ao casar com Carlos II de Inglaterra em 1662 lhe deu prestígio na corte de Londres. O café ficou sobretudo na rua; o chá, sobretudo em casa.

Em Inglaterra, o que foi para a rua criou uma instituição. As primeiras casas de café abriram por volta de 1650, e por um penny, o preço de uma chávena, homens de vários estratos entravam, sentavam-se numa mesa comum, liam os jornais e os panfletos e entravam na conversa. Ganharam a alcunha de penny universities, universidades de um penny, porque davam acesso a ideias por uma moeda a quem nunca poria os pés numa universidade a sério.

Interior de uma casa de café londrina do século XVII, com homens sentados a conversar em mesas comuns compridas
O interior de uma casa de café londrina do final do século XVII, com as mesas corridas onde se lia e se discutia. Imagem: British Museum, via Wikimedia Commons, domínio público

Foi à volta dessas mesas que nasceu boa parte da imprensa moderna. O Tatler, que o ensaísta Richard Steele lançou em 1709, e o Spectator, que escreveu com Joseph Addison a partir de 1711, alimentavam-se do que se dizia nas casas de café e devolviam-no impresso quase todos os dias; o Spectator chegou a vender perto de quatro mil exemplares por dia.

Foi à volta dessas mesas que nasceu boa parte da imprensa moderna.

As casas dividiam-se por cor política, cada uma com a sua: os tories no Cocoa-Tree, os whigs no St James’s. O historiador Thomas Macaulay chamaria à casa de café uma instituição política, e era também entre chávenas que a opinião do país se formava.

Dessas mesas saíram também instituições que ainda existem. Na casa de café de Edward Lloyd, mercadores e marinheiros trocavam notícias de navios e de naufrágios, e dali cresceu a Lloyd’s of London, um dos maiores mercados de seguros do mundo. Na Jonathan’s, na Change Alley, corretores negociavam ações e títulos, e desse circuito informal nasceria a bolsa de Londres.

As casas de café eram os principais órgãos por onde a opinião pública da metrópole se exprimia. Thomas Macaulay, História de Inglaterra, 1848

Em Paris, o café tornou-se o quartel-general do Iluminismo. No Café Procope, aberto em 1686, sentaram-se Voltaire, Jean-Jacques Rousseau, Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert, nomes maiores do Iluminismo e da Encyclopédie. A ideia de opinião pública, que então ganhava força, cresceu ligada a estes lugares: lia-se em voz alta a gazeta, comentava-se, e o que se dizia à mesa acabava por pesar fora dela. A 12 de julho de 1789, foi da esplanada do Café de Foy, no Palais-Royal, que Camille Desmoulins apelou às armas, dois dias antes da tomada da Bastilha.

Foi a esta rede de conversa que o filósofo Jürgen Habermas, na Transformação Estrutural da Esfera Pública, de 1962, deu o nome de esfera pública burguesa: o espaço onde pessoas privadas se juntavam para discutir assuntos comuns, fora do alcance da corte. A leitura tornou-se influente, mas a historiografia posterior mostrou os limites daquela esfera. Era um mundo sobretudo masculino, e mulheres e boa parte dos mais pobres ficavam de fora.

Em Londres, aconteceu o mesmo. Carlos II tentou proibir as casas de café em 1675, por as considerar focos de sedição, e teve de recuar dias depois perante o protesto.

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A tertúlia portuguesa

Portugal teve os seus próprios lugares de encontro, e também eles foram tudo menos discretos. O Martinho da Arcada, aberto no Terreiro do Paço em 1782 e um dos mais antigos cafés de Lisboa, foi ao longo do tempo ponto de reunião de meios liberais, republicanos e maçónicos, onde se discutiam os grandes temas da nação.

E, como em Meca e em Londres, o poder vigiava: no fim do século XVIII, a polícia do intendente Pina Manique seguia de perto o que se dizia no Nicola, o café associado ao poeta Bocage, e nas outras casas do Rossio.

tertúlia no café Martinho da Arcada
Raul Leal, António Botto, Augusto Ferreira Gomes e Fernando Pessoa no Café Martinho da Arcada, 1928. Autor desconhecido

A primeira metade do século XX levou essa vida de café ao auge. A Brasileira do Chiado, aberta em 1905 para vender o café que Adriano Telles importava do Brasil, tornou-se um dos cenários das tertúlias modernistas: ali se reuniu o grupo da revista Orpheu, e é à porta da esplanada que o poeta Fernando Pessoa continua sentado, em bronze, desde os anos 1980. No Porto, o café que abriu em 1921 com o nome Elite, e passou a Majestic no ano seguinte, juntava à mesa, sob a decoração de inspiração parisiense, escritores, políticos e artistas da cidade.

Na segunda metade do século, a tertúlia foi saindo de moda e as mesas foram-se esvaziando. O Majestic entrou em declínio a partir dos anos 60 e, já degradado, foi classificado como imóvel de interesse público em 1983.

Portugal teve os seus próprios lugares de encontro, e também eles foram tudo menos discretos.

O café volta para casa

Ao longo do século XX, o café mudou de sítio. Beber café em casa é antigo, mas foi então que o consumo doméstico ganhou peso, empurrado pelos eletrodomésticos, pelo café solúvel e, mais tarde, pelas máquinas individuais. À medida que a bebida se fazia cada vez mais em casa, o gesto que fora sinal de pertença a um público foi virando parte da rotina de cada manhã.

A partir da viragem do milénio, a chamada terceira vaga do café pôs a tónica na origem do grão e na precisão da preparação: a balança, o moinho manual, a temperatura exata da água, o tempo cronometrado da infusão. Essa cultura técnica adotou depressa a linguagem da atenção plena, e a preparação do café passou a ser apresentada como um momento de recolhimento, no vocabulário do bem-estar.

O café tornou-se, cada vez mais, um gesto que se faz sozinho.

O café tornou-se, cada vez mais, um gesto que se faz sozinho.

Mesmo o ritual de chá mais ligado à quietude interior nasceu como um encontro. O chanoyu japonês, a via do chá que o mestre Sen no Rikyū consolidou no século XVI, era antes de tudo uma forma exigente de hospitalidade, um encontro codificado entre anfitrião e convidados. Havia mestres de chá que serviam de conselheiros e negociadores junto dos senhores da guerra, e a cerimónia era também palco de poder. A dimensão de recolhimento vem do zen, mas a cerimónia era, na origem, um convívio entre pessoas.

A cápsula

E foi essa promessa de recolhimento que a indústria aprendeu a vender já pronta. Em 1975, Eric Favre, engenheiro suíço a trabalhar na Nestlé, percorreu os cafés de Itália à procura do melhor expresso. Conta a história da marca que, num café de Roma, reparou que os melhores baristas bombeavam a máquina várias vezes, forçando ar e água pelo café e criando a espuma. Em dezembro de 1976, a Nestlé apresentou na Suíça o primeiro pedido de patente do sistema: uma cápsula selada que a máquina fura e atravessa com água sob pressão, ao carregar de um botão.

Cronologia
Cinco séculos de casas de café
1511
As autoridades de Meca proíbem o café, por temerem as casas de café como focos de discussão.
c. 1615
O café chega à Europa por Veneza, trazido dos portos otomanos pelos mercadores venezianos.
1675
Carlos II tenta proibir as casas de café inglesas e recua dias depois, perante o protesto.
1686
Abre em Paris o Café Procope, futuro ponto de encontro dos filósofos do Iluminismo.
1711
Joseph Addison e Richard Steele lançam o Spectator, nascido da conversa das casas de café.
1782
Abre no Terreiro do Paço o Martinho da Arcada, ponto de reunião de liberais e republicanos.
1976
A Nestlé apresenta na Suíça o primeiro pedido de patente do sistema de cápsula.
2007
A Delta, fundada em Campo Maior em 1961, lança as suas cápsulas Delta Q.
@Tanto Mundo

A invenção ficou quase uma década na gaveta. A Nestlé vivia do Nescafé instantâneo e não via mercado para máquinas caras numa cozinha comum. Só em 1986 a Nestlé criou a Nespresso, sob a direção de Helmut Maucher, virada primeiro para escritórios e restaurantes. O arranque foi difícil, até Jean-Paul Gaillard, que assumiu a área comercial, o reinventar por inteiro. Baixou o preço das máquinas e subiu o das cápsulas, licenciou o fabrico a marcas de eletrodomésticos e converteu um aparelho de escritório numa marca de luxo, com um clube de membros a partir de 1989.

O rosto dessa conversão chegou em 2006. O ator George Clooney, numa boutique da marca, ouve duas mulheres a elogiar algo rico, misterioso e intenso, julga por um instante que falam dele e percebe que afinal falam do café. No fim, a pergunta que se tornaria assinatura da campanha: What else?.

A publicidade vendia o gesto, a pausa, o requinte, a presença.

A publicidade vendia o gesto, a pausa, o requinte, a presença. A cápsula dispensa quase tudo isso: não há moagem, nem dose a medir, nem espera, nem temperatura a controlar.

Carrega-se um botão.

A mesma indústria que vendia a lentidão do café pôs-lhe a rapidez dentro de casa, e as duas coisas convivem hoje na mesma prateleira.

Por baixo da estética há uma embalagem de uso único por cada chávena. Consoante o sistema, é de alumínio, de plástico ou de materiais combinados, e as marcas de cápsulas produzem hoje milhares de milhões de unidades por ano. A imagem artesanal e natural que a publicidade projeta convive com um resíduo cujo peso real depende menos da promessa impressa na caixa do que da recolha e da reciclagem efetivas, que ainda ficam muito aquém dela.

Portugal tem a sua própria versão desta história, e ela começa numa vila raiana do Alentejo. Em 1961, num armazém de 50 metros quadrados em Campo Maior, com duas bolas de torra, Rui Nabeiro fundou a Delta Cafés. Antes disso, aos 19 anos, assumira a direção da Torrefação Camelo, o negócio de café da família, numa raia alentejana onde o contrabando com Espanha marcou a economia local durante e depois da Guerra Civil espanhola.

Rui Nabeiro nunca tirou a fábrica da vila e morreu em março de 2023, aos 91 anos. A empresa que construiu vende hoje, com o nome Delta Q, as suas próprias cápsulas de café, lançadas em 2007. O gesto que enchia as casas de café de Istambul a Lisboa cabe agora numa cápsula vendida por uma empresa nascida junto à raia por onde, durante gerações, o café passou de contrabando.

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Etiquetas: CidadesEuropaMédio OrienteMediterrâneoModernidadePolíticaPortugal
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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