Durante quatro séculos, os portos do Mediterrâneo entenderam-se numa língua franca que nenhum deles falava em casa.
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No cais de Argel, um mercador genovês e o homem que tratava dos negócios do paxá não tinham uma língua em comum. Tinham, ainda assim, como negociar. “Come ti star? Come va?”, perguntava um, como estás, como vai. “Mi star bonu”, respondia o outro. Quando chegava a altura do preço, bastava “chi voler comprar?” e “quanto voler?”, quem quer comprar, quanto queres. As palavras não eram italianas, nem espanholas, nem árabes, embora se parecessem com todas elas ao mesmo tempo.
A fala tinha nome. Chamavam-lhe língua franca, e era assim que um cativo siciliano, um corsário renegado nascido na Calábria, um comerciante judeu e um capitão de galé otomano tratavam de resgates, cargas e ordens sem que nenhum tivesse aprendido a língua do outro. Foi falada nos portos do Mediterrâneo entre os séculos XV e XIX, e ninguém a teve por língua materna.
A expressão sobreviveu, esvaziada. Hoje, língua franca designa qualquer idioma que sirva de ponte, o inglês dos congressos, o latim dos clérigos medievais. O sentido apagou a coisa. Antes de ser metáfora, a língua franca foi uma língua concreta, e o nome dizia o que ela era: a língua dos francos. Franco era como os povos do Levante e do mundo árabe e otomano designavam os europeus ocidentais, os cristãos latinos, hábito que se fixou com o aumento de contactos a partir das Cruzadas.
A língua dos francos: como nasceu a língua franca
A base era românica. Num primeiro tempo dominava o italiano, com forte marca veneziana e ligur, língua das cidades que controlavam o comércio do Levante. No limiar do século XVI, à medida que a coroa espanhola se tornava a grande potência mediterrânica, a língua franca foi ganhando base castelhana, com palavras árabes, gregas e turcas a entrar conforme o porto e a rota. Era gramática reduzida, verbos sem conjugação, a forma mais simples que ainda permitisse fechar um negócio ou dar uma ordem. Não tinha ortografia porque quase nunca se escrevia.
Quem ouvia a língua franca pela primeira vez reparava no que lhe faltava. Os verbos não se conjugavam. O mesmo star servia para qualquer sujeito, e dois pronomes, mi e ti, bastavam para marcar quem falava e com quem. No dicionário impresso em Marselha, a saudação de entrada era “come ti star? mi star bonu, e ti?”, como estás, estou bem, e tu. Perguntavam-se as horas com “che ora star?”, e falava-se do tempo com “il tempo star bello” ou “fazir caldo”, faz calor.
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A gramática cabia num punhado de regras, mas o vocabulário chegava para o que era preciso, comprar, vender, trabalhar, ir, ver, querer, e o resto resolvia-se com gestos. Charles Thierry-Mieg, viajante francês que percorreu a Argélia e publicou “Six semaines en Afrique” em 1861, admirava-se de ver dois homens sem língua comum chegarem a entender-se, e descreveu como, no trato diário, ia nascendo aos poucos uma terceira língua feita de palavras tiradas das outras duas.
O próprio nome aparecia logo na primeira troca. Quando dois desconhecidos se cruzavam num porto, a conversa abria com uma pergunta, “sabir Franca?”, sabes a língua franca? Quem sabia respondia, e o negócio seguia.
Onde havia troca, havia a língua. E no Mediterrâneo dos séculos XVI e XVII a troca passava tanto pelo comércio como pelo cativeiro. As regências corsárias de Argel, Tunes e Trípoli, vassalas do império otomano, viviam em parte do corso e do resgate de cativos cristãos. Argel, sobretudo, era uma cidade de muitas línguas. Num estudo do Instituto Europeu do Mediterrâneo (IEMed), descreve-se como a coexistência forçada de turcos, renegados, cativos, judeus e mouros fez do porto um laboratório de contacto linguístico permanente, onde a língua franca era o terreno comum entre senhores e escravos, mercadores e compradores.
Entre os que melhor dominavam a língua estavam os renegados, os cristãos que tinham passado ao islão. Não eram um caso à parte. Bartolomé e Lucile Bennassar, no estudo “Les Chrétiens d’Allah” (1989), reconstituído a partir de cerca de 1.600 processos da Inquisição, mostram que entre 1560 e 1650 mais de metade da população de Argel era de renegados, e que muitos deles formavam a elite da cidade.
Tinham nascido na Sicília, na Córsega, na Andaluzia, na Provença, e traziam para Argel as línguas de origem, que se cruzavam na fala comum. O renegado que comandava uma galé e o cativo que remava a seu lado entendiam-se na mesma língua franca.

Argel vivia, em parte, de capturar gente. As galés corsárias traziam prisioneiros do mar e das razias nas costas cristãs, e a cidade enchia-se de cativos à espera de quem pagasse por eles. O historiador Robert C.
Davis estimou que mais de um milhão de europeus terão passado pelo cativeiro nas regências berberescas entre os séculos XVI e XVIII, número que outros historiadores acham alto de mais, mas que dá a medida do fenómeno. Os cativos guardavam-se nos banhos, e ali a língua franca era a língua de todos os dias. Servia para o guarda dar ordens e para o mercador regatear o preço da mão de obra, e era nela que o escravo tentava perceber o que se decidia sobre a sua vida.
Do outro lado vinha o resgate. Duas ordens religiosas tinham feito disso a sua razão de existir, os trinitários, cuja regra o papa Inocêncio III aprovou em 1198, e os mercedários, fundados por Pedro Nolasco no século XIII.
Atravessavam o Mediterrâneo com o dinheiro das esmolas, discutiam preços pelos cativos e levavam-nos de volta, em procissões que serviam também para angariar mais fundos. Montaram hospitais em Argel e em Tunes, e ao longo de três séculos resgataram dezenas de milhares de pessoas.
O livro escrito nos banhos de Argel: a Topographia de 1612
O retrato mais minucioso dessa língua viva chegou pela mão de um cativo. A “Topographia e historia general de Argel”, impressa em Valladolid em 1612, distingue cinco comunidades linguísticas na cidade e regista fragmentos da língua franca tal como soava nos banhos, as prisões onde se guardavam os escravos à espera de resgate. O livro saiu com o nome de frei Diego de Haedo. A investigadora María Antonia Garcés atribuiu-o a Antonio de Sosa, clérigo cativo em Argel a partir de 1577, companheiro de cárcere e primeiro biógrafo de Miguel de Cervantes.
Cervantes conhecia bem aquele mundo. Capturado por corsários ao largo da costa catalã em setembro de 1575, passou cinco anos cativo em Argel antes de ser resgatado, e voltou à cidade no teatro, em peças como “Los baños de Argel”. O autor do Quixote e o homem cujo livro preservou a língua franca cruzaram-se na mesma prisão.
Nem sempre era a língua do entendimento pacífico. Boa parte dos exemplos que Sosa transcreveu são ordens e ameaças de senhores a escravos, ditas naquela mistura tosca. “Trabajar, no parlar que estar malato”, trabalha, não digas que estás doente, atira um deles a um cativo que se finge enfermo. A língua que ligava as margens do Mediterrâneo era também a língua em que se davam castigos.
A versão escrita que sobreviveu deve-se, em grande medida, a quem a olhava de fora. O dramaturgo veneziano Carlo Goldoni pôs uma personagem turca a falar em língua franca, numa comédia em que o cómico nasce da diferença entre o italiano dos cantores e o falar truncado do mercador.
A própria palavra sabir, com que o século XIX passou a designar a versão afrancesada da língua, saiu de uma canção. Em “Le Bourgeois gentilhomme”, comédia que Molière estreou a 14 de outubro de 1670 com música de Jean-Baptiste Lully, a cerimónia turca que finge fazer nobre o burguês Monsieur Jourdain canta-se em língua franca: “Se ti sabir, ti respondir; se non sabir, tazir, tazir”, se sabes, responde; se não sabes, cala-te. O verbo sabir, de saber, deu o nome ao idioma.
O primeiro estudo académico sério da língua franca veio do linguista austríaco Hugo Schuchardt, em 1909, que reuniu os testemunhos dispersos em peças, relatos de viagem e dicionários. Porque era oral, sobrava pouco. O que sobrava estava quase sempre na boca de quem a imitava para fazer rir, ou de quem a ensinava a estranhos.

Foi esse o caso do documento mais prático de todos. Quando a França se preparou para invadir Argel, em 1830, imprimiu-se em Marselha um “Dictionnaire de la langue franque ou Petit mauresque”, manual de bolso para os soldados se desevencilharem com os locais. Lá vinham os diálogos úteis, saudar, perguntar as horas, regatear, e um que o momento tornava sinistro, sobre se haveria guerra com os franceses e o que aconteceria à cidade se eles desembarcassem.
A língua franca não foi uma língua de iguais
A historiadora Jocelyne Dakhlia, diretora de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales, dedicou à língua o estudo de referência, “Lingua franca. Histoire d’une langue métisse en Méditerranée”, publicado pela Actes Sud em 2008. A sua tese é que, durante pelo menos quatro séculos, esta língua comum ligou a Europa e o Islão em torno de uma “mesma” língua, mesmo em plena guerra de corso, entre cativos e renegados, no comércio e até dentro das famílias mistas.
A mesma historiadora trava o entusiasmo. “Falar uma mesma língua não é falar com uma só voz”, escreve Dakhlia. A língua franca existia porque era preciso continuar a comerciar e a resgatar através de uma fronteira armada, não porque essa fronteira se tivesse dissolvido. Era um instrumento de quem tinha interesses opostos e precisava na mesma de se entender, e a prova está nos próprios textos, onde a língua serve para vender, para resgatar e para mandar bater num escravo. A inteligibilidade mútua e a igualdade são coisas distintas.
O mar que o historiador Fernand Braudel descreveu, na sua história do Mediterrâneo no tempo de Filipe II, publicada em 1949, como um espaço que unificava as suas margens muito mais do que as separava, tinha aqui a sua voz audível. Mas unia-as como parceiros de negócio e adversários, gente que partilhava rotas, portos e uma língua sem partilhar lealdades.
A língua franca não resistiu à mudança de mundo que começou justamente em 1830. A conquista francesa de Argel impôs aos poucos o francês como língua de administração e comércio no norte de África, e a velha mistura, agora chamada sabir, foi ficando reduzida a fala desprezada, marca de quem não dominava nem o francês nem o árabe. Com a consolidação das línguas nacionais ao longo do século XX, desapareceu de vez.
A matriz atlântica: a hipótese da monogénese
Por baixo da história da língua franca corre uma pergunta maior, e ela divide os especialistas. Hugo Schuchardt, o mesmo que primeiro a estudou, lançou no final do século XIX a ideia de que as muitas línguas de contacto espalhadas pelo mundo podiam descender de uma raiz única.
Nos anos 1960, o linguista Keith Whinnom levou a hipótese ao limite: a matriz seria a própria língua franca do Mediterrâneo, levada pelos marinheiros portugueses costa de África abaixo como uma forma reduzida do português, e depois relexificada, mantida a estrutura e trocadas as palavras, até dar os crioulos do Atlântico, de África às Caraíbas. Portugal tinha sido a primeira grande potência marítima, e a sua língua de trato chegara da costa africana até à Ásia.
Na forma forte, a hipótese não se aguentou. Michel DeGraff, do MIT, reexaminou e refutou o mecanismo da relexificação em que ela assenta, e crioulistas como Salikoko Mufwene defendem que estas línguas nasceram aos poucos e em cada lugar, do contacto entre o português e as línguas africanas, e não de uma semente única vinda do Mediterrâneo. Fica, ainda assim, a pergunta que a hipótese levantou, a de saber se a língua que juntou as duas margens do Mediterrâneo terá também semeado as línguas da margem atlântica.
Seja qual for a resposta, os crioulos de base portuguesa seguiram caminho oposto ao da língua franca. O crioulo cabo-verdiano, nascido do encontro forçado entre marinheiros, colonos e escravizados, passou a língua materna e atravessou gerações, e é hoje falado por todo um país. A língua franca ficou-se pelo umbral, sempre aprendida e nunca herdada, sempre de toda a gente e de ninguém em particular.
Resta o que coube em livros. O vocabulário que Antonio de Sosa transcreveu nos banhos de Argel, a comédia em que Molière a pôs na boca de um vaidoso, o manual que Marselha imprimiu para os soldados de 1830. A componente portuguesa do léxico, que entrara com os muitos cativos e com a presença de Portugal em Tétouan e Fez até ao desastre de Alcácer-Quibir, em 1578, sumiu com tudo o resto.
O retrato mais fiel da língua que entendeu o Mediterrâneo durante quatro séculos foi escrito por um cativo a quem Garcés devolveu o nome, e está numa biblioteca, em castelhano, debaixo do nome de outro homem.







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