Em Nuremberga montaram cabines de vidro para que os chefes nazis fossem julgados na sua própria língua. A história do intérprete, que fala pelos poderosos e sai da sala sem poder contar o que ouviu.
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Na sala 600 do Palácio da Justiça de Nuremberga, no outono de 1945, havia quatro caixas de vidro encostadas ao banco dos réus. Fechadas dos lados, abertas em cima, tinham lá dentro homens e mulheres de auscultadores, curvados sobre microfones, a falar baixo e sem parar enquanto outra pessoa falava.
No jargão do tribunal, chamavam-lhe o aquário. A poucos metros, os chefes do regime nazi ouviam a acusação na sua própria língua, vertida no mesmo segundo a partir do inglês, do russo ou do francês. Alguns tiravam os auscultadores, para mostrar que não a queriam ouvir.
Nada daquilo existia uma década antes.
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Nuremberga e o nascimento da interpretação simultânea
Ouvir numa língua e falar noutra ao mesmo tempo, sem esperar pelo fim da frase, contrariava tudo o que se julgava saber sobre o ofício de traduzir a fala viva. O julgamento corria em quatro línguas e, feito à maneira antiga, com cada intervenção repetida uma de cada vez, teria durado quatro vezes mais.
Os aliados queriam-no rápido. A solução foi mecânica, mas a engrenagem eram pessoas, ali para emprestar a voz a réus, a juízes e a testemunhas, e para desaparecer no instante em que tornavam tudo audível.
A aposta de que um ser humano consegue ouvir e falar em simultâneo pertenceu a Léon Dostert, linguista de origem francesa naturalizado americano, antigo intérprete pessoal do general Dwight Eisenhower. Encarregado da divisão de tradução do tribunal, convenceu o procurador-chefe, o juiz Robert H. Jackson, de que a interpretação consecutiva, com o orador a parar de cada vez para ser traduzido, arrastaria por anos um processo já enorme.
O sistema que montou assentava em equipamento da IBM, patenteado ainda nos anos 20 e já experimentado numa conferência do trabalho em Genebra em 1927. A inovação estava no uso: 36 intérpretes divididos em três equipas de 12, em turnos de 85 minutos, dentro de cabines de vidro postas junto aos arguidos, para que quem traduzia visse as caras de quem falava.
Um monitor vigiava o ritmo com duas luzes, amarela para o orador abrandar, vermelha para o obrigar a parar e a repetir. A sinalização estreou-se ali e continua em uso nas salas de conferência.
O esforço era brutal, os turnos curtos porque a concentração não aguentava mais, e um ataque de tosse bastava para forçar uma troca. Hermann Göring, um dos arguidos, gabava-se de ser o nome mais repetido nas atas de um julgamento a que chamaram o processo de seis milhões de palavras.
O próprio Robert H. Jackson estropiava os nomes alemães ao ponto de os intérpretes não o entenderem. No fim, o juiz admitiu a dívida: o êxito e o bom funcionamento do processo, escreveu, deveram-se em não pequena medida ao sistema de interpretação e à qualidade de quem o operava.
O que Nuremberga fez foi transformar uma experiência técnica num sistema capaz de sustentar um grande julgamento internacional. O ofício era muito mais velho.
Quatro mil anos de intérpretes
Emprestar a voz a quem manda, e ficar de fora do que com ela se decide, é das funções mais antigas que os impérios deixaram registadas. Quem lê a Bíblia encontra-a cedo, e no Egito: os irmãos de José vão comprar grão e não percebem que ele os entende, porque falam através de um intérprete.
No mesmo Egito, entre os títulos dos príncipes de Elefantina, senhores da fronteira sul há mais de quatro mil anos, figurava o de supervisor dos intérpretes, na leitura do egiptólogo Alan Gardiner. A própria palavra do ofício atravessou impérios: o targumannu dos acádios passou ao aramaico, ao árabe e ao turco, e sobreviveu no dragomano das cortes otomanas.
Numa parede do túmulo do general Horemheb, esculpida há mais de três mil anos, o trabalho ganhou imagem. Emissários da Líbia, da Núbia e da Síria prostram-se perante Horemheb, e no meio deles está o intérprete, representado duas vezes no mesmo relevo, meio corpo voltado para ele, meio corpo para os estrangeiros, como se a função fosse existir virado para os dois lados ao mesmo tempo.

No século XIX, a pedra foi partida e vendida a viajantes europeus. Os pedaços do intérprete estão hoje repartidos por três museus, em Berlim, em Leiden e em Viena.
Sempre que dois poderes que não se entendem se sentam à mesa, há um terceiro no meio a quem entregam a palavra e de quem desconfiam.
La Malinche, a intérprete de Hernán Cortés
Os impérios formavam à força esses intermediários, trazendo para dentro filhos de casas estrangeiras, e os conquistadores, ao desembarcar nas Américas, não fizeram diferente.
Uma das raras de quem ficou o nome viveu no século XVI, numa costa do golfo do México. Chamava-se Malintzin. Os castelhanos batizaram-na Marina, e a história fixou-a como La Malinche. Nascida em Coatzacoalcos, perto da atual Veracruz, filha de um chefe local, foi vendida como escrava ainda menina; falava náhuatl e, no cativeiro, aprendeu maia.
Em 1519 estava entre 20 mulheres que os maias chontais entregaram à expedição de Hernán Cortés em sinal de paz. O conquistador já levava um intérprete de maia, o náufrago espanhol Jerónimo de Aguilar, que aprendera a língua em anos de cativeiro. Quando o grupo entrou em território de fala náhuatl, Jerónimo de Aguilar deixou de servir.
Foi então que Malintzin se tornou peça central: dizia em maia o que ouvia em náhuatl, Jerónimo de Aguilar passava ao castelhano e, em poucas semanas, ela aprendeu castelhano e dispensou o intermediário.

O peso do seu papel ficou registado por quem lá esteve. Bernal Díaz del Castillo, soldado da expedição que décadas depois escreveu a crónica da conquista, garantiu que, sem doña Marina, não teriam conseguido entender a língua da Nova Espanha e do México.
Foi indispensável às negociações que levaram à aliança com os senhores de Tlaxcala, decisiva para a queda de Tenochtitlan, e foi quem farejou emboscadas pelo caminho, lendo as intenções dos povos que a expedição atravessava. Hernán Cortés, nas cartas ao imperador Carlos V, evitava dar-lhe crédito, ainda que dependesse dela a cada passo.
Sobre o que Malintzin pensava, não há registo. A historiadora Camilla Townsend, que lhe dedicou um estudo, adverte que ninguém no seu tempo a tomou por traidora, e que os aztecas não eram o seu povo, eram os inimigos do seu povo.
A condenação veio muito mais tarde. Passada a independência do México, figura transformada mais tarde em mãe simbólica da mestiçagem mexicana, através do filho Martín que teve de Hernán Cortés e que lhe foi tirado para ser criado longe dela, e ao mesmo tempo emblema da entrega ao invasor. Do seu nome saiu a palavra malinchista, que no espanhol do México passou a designar quem trai os seus. Morreu por volta de 1529, ainda jovem.
A suspeita que se colou a Malintzin nunca mais largou o ofício. Quem fala pelos dois lados pode moldar o sentido, e por isso está sempre debaixo de olho. Os italianos apertaram-na numa fórmula que rima e ficou, “traduttore, traditore“, tradutor, traidor.
As lendas da tradução que mudou a história
No século XX, com a diplomacia a trocar o francês único por um mundo de muitas línguas, essa desconfiança gerou um género de lenda muito próprio: o do intérprete cujo deslize teria mudado o rumo da história. Olhada de perto, quase sempre se desfaz.
O exemplo mais repetido tem data e sala. A 18 de novembro de 1956, numa receção na embaixada da Polónia em Moscovo, poucas semanas depois de a União Soviética esmagar o levantamento húngaro, o líder soviético Nikita Khrushchev atirou aos diplomatas ocidentais uma frase que colou: “vamos enterrar-vos”.
Vários embaixadores abandonaram a sala. No Ocidente, em plena corrida ao armamento, ouviu-se a promessa de uma aniquilação. Só que a tradução, feita pelo seu intérprete Viktor Sukhodrev, estava certa.
Em russo, a fórmula apoiava-se num lugar-comum marxista, o do proletariado como coveiro do capitalismo, destinado a sobreviver-lhe e a comparecer ao seu funeral. Nikita Khrushchev não falava de bombas, falava de sucessão histórica. Havia de o esclarecer em 1963, ao dizer que não pensava enterrar ninguém à pá, que seria a própria classe trabalhadora a fazê-lo.
A frase foi bem traduzida. Faltou o contexto a quem a ouviu.
Num outro caso, o erro nunca chegou a existir e mesmo assim entrou nos manuais. Em julho de 1945, questionado sobre o ultimato de rendição de Potsdam, o primeiro-ministro japonês Kantaro Suzuki respondeu com a palavra mokusatsu, que os dicionários davam ao mesmo tempo como “ignorar” e “reservar comentário”.
As agências noticiosas escolheram “ignorar”. Dias depois caía a bomba sobre Hiroxima. A partir de 1950, um artigo do académico Kazuo Kawai lançou a tese de que uma tradução mais feliz teria evitado a tragédia, e a ideia pegou.
O texto completo da resposta de Kantaro Suzuki, porém, não deixava dúvida: o governo não via valor no ultimato e o país lutaria até ao fim. Verter mokusatsu de outra maneira não mudava a mensagem, que era de recusa.
A lenda resistiu à correção. Foi ensinada como caso exemplar a estudantes de tradução e a analistas, e um ensaio da agência de segurança nacional americana, desclassificado décadas mais tarde, repetia-a como aviso sobre os perigos da palavra ambígua.
Kazuo Kawai, o autor do artigo de 1950, tinha trabalhado como propagandista do ministério dos negócios estrangeiros japonês. A história dava jeito: deslocava a culpa da política para a linguística e absolvia o governo de Tóquio da recusa que de facto opôs.
Nem todas as histórias de erro são invenções. Há as que aconteceram e depois cresceram na boca de quem as contava.
Na última semana de dezembro de 1977, o presidente americano Jimmy Carter chegou a Varsóvia com um intérprete de polaco contratado à jorna, Steven Seymour, seguro na língua escrita e desamparado na falada. No discurso do aeroporto, Steven Seymour fez o presidente dizer que abandonara os Estados Unidos, em vez de que partira deles nessa manhã, e deu um sentido carnal ao desejo de Jimmy Carter de conhecer os anseios dos polacos.
Depois do episódio deixou de interpretar Carter para polaco e ficou limitado à direção inversa, do polaco para inglês. As versões mais salgadas que correram a imprensa foram engorda de jornalistas polacos divertidos com o caso; o núcleo está documentado nos jornais da época.
O silêncio do intérprete
O contrário da lenda é o trabalho que corre bem, e de que ninguém dá conta.
Harry Obst interpretou para 7 presidentes americanos seguidos, de Lyndon Johnson a Bill Clinton, e dirigiu o serviço de línguas do departamento de estado. Nascido em Königsberg em 1932, refugiado, emigrado ainda jovem para os Estados Unidos, passou décadas em salas onde se decidiam coisas que nunca pôde contar.
A regra do ofício é o silêncio. As notas que o intérprete rabisca não guardam o que se disse, servem para o segundo seguinte, e muitas vezes acabam destruídas depois de o encontro dar origem a um memorando classificado a que pouca gente acede.
Posto a imaginar-se obrigado a revelar o que ouvira, Harry Obst respondeu que não diria nada, pelo juramento que o prendia e pela credencial de segurança que carregava. Só um presidente pode libertar um intérprete desse dever.
O que em Nuremberga foi engenharia e em Malintzin foi sobrevivência tornou-se, no presente, assunto de estado. A 16 de julho de 2018, no Palácio Presidencial de Helsínquia, a intérprete Marina Gross foi a única americana na sala durante a reunião a sós entre o presidente Donald Trump e o presidente russo Vladimir Putin, que durou cerca de duas horas.
Quando se percebeu que não ficara registo oficial do encontro, deputados democratas quiseram intimá-la a testemunhar e a entregar as notas. A profissão reagiu com alarme.
Dimitry Zarechnak, que interpretara para o presidente Ronald Reagan nas cimeiras com Mikhail Gorbachev, chamou atroz à ideia, e perguntou que líder estrangeiro se sentaria outra vez com um homólogo americano sabendo que o intérprete podia ser levado ao congresso a repetir o que ouvira.
A objeção não era teórica. O mesmo Dimitry Zarechnak recordou que, nos anos 70, o presidente Richard Nixon chegara, em alguns encontros privados com dirigentes soviéticos, a dispensar o intérprete americano e a confiar apenas no soviético, procurando reduzir o número de pessoas presentes e preservar a confidencialidade.
A maioria republicana no congresso travou o pedido. As notas de Marina Gross, se existem, ficaram onde estavam.
Das duas horas de Helsínquia sobra, em público, uma fotografia. Marina Gross, sentada à esquerda do presidente americano, a tomar notas enquanto ele fala. Atrás dela, os dois homens que se ouviam um ao outro por seu intermédio. O que passou por ela nesse dia continua fechado, como ficaram fechadas as horas que atravessaram as caixas de vidro de Nuremberga e as palavras que Malintzin verteu entre Hernán Cortés e um mundo prestes a desaparecer.








