A linha Radcliffe separou a Índia e o Paquistão em 1947. A fronteira do subcontinente só ficaria fechada em 1961, em Goa, Damão e Diu.
No início de julho de 1947, um advogado britânico que nunca tinha posto os pés na Índia desembarcou em Deli. Tinha cerca de cinco semanas para traçar a fronteira entre a Índia e o Paquistão que estava prestes a nascer.
Cyril Radcliffe presidia às duas comissões de fronteira encarregadas de repartir Punjab e Bengala. No Punjab, hindus, muçulmanos e siques viviam lado a lado; em Bengala, a divisão jogava-se entre hindus e muçulmanos. A escolha do homem obedecia a uma lógica: Cyril Radcliffe não conhecia ninguém dos dois lados nem tinha interesses no terreno, e nunca antes pisara o país. Era essa ignorância que o tornava, aos olhos de Londres, imparcial.
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Porque é que a fronteira só foi conhecida depois da independência?
O trabalho das comissões de fronteira fez-se sobre mapas e recenseamentos, parte deles desatualizados, num gabinete fechado enquanto a monção caía lá fora. Cyril Radcliffe não visitou as aldeias que ia separar. Repartiu distritos, rios e campos do Punjab e de Bengala a partir de tabelas de população, contra um calendário que a independência já tinha fixado.
Carachi celebrou a independência a 14 de agosto de 1947 e Deli à meia-noite seguinte. As datas ficaram desencontradas para que Louis Mountbatten pudesse assistir às duas cerimónias. A linha, que ficaria conhecida como linha Radcliffe, só foi divulgada a 17. Nesse intervalo, milhões de pessoas já se deslocavam sem saber de que lado do novo mapa iam acordar.
Seguiu-se uma das maiores deslocações forçadas do século XX. As estimativas de mortos variam muito, de várias centenas de milhares a cerca de dois milhões, e os deslocados terão sido entre 12 e 20 milhões, com o historiador Ian Talbot a estreitar o intervalo para 14 a 18 milhões. Comboios chegaram às estações sem um único passageiro vivo. A fronteira desenhada no papel materializou-se em violência ao longo de quase todo o traçado.
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O que é que a linha Radcliffe ainda decide entre a Índia e o Paquistão?
Cyril Radcliffe deixou a Índia poucos dias depois e nunca regressou. Queimou os papéis de trabalho e recusou os honorários de 40.000 rupias, então 3.000 libras. Na segunda metade de 1971, disse ao jornalista Kuldip Nayar que não tivera alternativa, e que com dois ou três anos talvez tivesse melhorado o que fez. Em 1966, o poeta W. H. Auden dedicou-lhe o poema Partition, que fixou a imagem do homem fechado numa casa vigiada a decidir a sorte de milhões sem conhecer o terreno que repartia.
O traçado sobreviveu ao seu autor. A Caxemira ficou fora do mandato de Cyril Radcliffe, por ser um estado principesco, mas a atribuição do distrito de Gurdaspur à Índia deu-lhe o único acesso por estrada ao território, e o Paquistão leu nisso um favor deliberado. Lucy Chester, historiadora da Universidade do Colorado que estudou a comissão de fronteiras, classifica a acusação como controversa. Na mesma conversa, Cyril Radcliffe negou-a: “Nem sequer tinha conhecimento da Caxemira. Ouvi falar disso muito depois de regressar a Londres.”
Aldeias ficaram cortadas ao meio, canais de rega separados das terras que alimentavam, uma mesquita de um lado e o cemitério do outro. Os siques ficaram com os dois lugares onde Guru Nanak nasceu e está sepultado do lado paquistanês.
A linha continua guardada por exércitos.
Porque é que a última fronteira foi Goa, Damão e Diu?
Enquanto o mapa britânico se estilhaçava, uma parcela da Índia continuava a ser governada a partir de Lisboa. Goa, Damão e Diu, os territórios da Índia Portuguesa, ficaram de fora da partição de 1947 e sobreviveram-lhe 14 anos. O regime de António de Oliveira Salazar chamava-lhes província ultramarina, designação fixada na revisão constitucional de 1951, e recusava qualquer entrega.
O fim veio pela força. Em dezembro de 1961, tropas indianas entraram em Goa e puseram termo a quatro séculos e meio de presença portuguesa. Portugal só reconheceu a soberania indiana no último dia de 1974.
O subcontinente vive com fronteiras herdadas de 1947. A que Cyril Radcliffe traçou levou cinco semanas a desenhar e continua, quase oito décadas depois, a marcar por onde passam os exércitos, os caminhos de ferro e as linhas de água.








