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Linha Radcliffe: cinco semanas para dividir a Índia e o Paquistão

por Jorge Montez
25.09.2026
em Mundo
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Uma mão de homem, sem rosto visível, segura uma caneta e traça uma linha vermelha sobre um mapa antigo estendido numa mesa, entre pilhas de papéis e um tinteiro. A linha sai da folha e continua pelo terreno até ao horizonte, onde se vê uma cidade com cúpulas e minaretes. À direita, uma coluna de pessoas caminha ao longo da via, junto a um comboio apinhado com passageiros sentados no tejadilho. Imagem gerada por IA ilustrativa do artigo sobre a linha de radcliffe

©Tanto Mundo (com IA)

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A linha Radcliffe separou a Índia e o Paquistão em 1947. A fronteira do subcontinente só ficaria fechada em 1961, em Goa, Damão e Diu.

Resumo
A linha Radcliffe fez-se sobre mapas desatualizados
Cyril Radcliffe presidia às duas comissões de fronteira e teve cinco semanas, em julho de 1947, para repartir Punjab e Bengala.

No início de julho de 1947, um advogado britânico que nunca tinha posto os pés na Índia desembarcou em Deli. Tinha cerca de cinco semanas para traçar a fronteira entre a Índia e o Paquistão que estava prestes a nascer.

Cyril Radcliffe presidia às duas comissões de fronteira encarregadas de repartir Punjab e Bengala. No Punjab, hindus, muçulmanos e siques viviam lado a lado; em Bengala, a divisão jogava-se entre hindus e muçulmanos. A escolha do homem obedecia a uma lógica: Cyril Radcliffe não conhecia ninguém dos dois lados nem tinha interesses no terreno, e nunca antes pisara o país. Era essa ignorância que o tornava, aos olhos de Londres, imparcial.

Índice

  • Porque é que a fronteira só foi conhecida depois da independência?
  • O que é que a linha Radcliffe ainda decide entre a Índia e o Paquistão?
  • Porque é que a última fronteira foi Goa, Damão e Diu?

Porque é que a fronteira só foi conhecida depois da independência?

O trabalho das comissões de fronteira fez-se sobre mapas e recenseamentos, parte deles desatualizados, num gabinete fechado enquanto a monção caía lá fora. Cyril Radcliffe não visitou as aldeias que ia separar. Repartiu distritos, rios e campos do Punjab e de Bengala a partir de tabelas de população, contra um calendário que a independência já tinha fixado.

Carachi celebrou a independência a 14 de agosto de 1947 e Deli à meia-noite seguinte. As datas ficaram desencontradas para que Louis Mountbatten pudesse assistir às duas cerimónias. A linha, que ficaria conhecida como linha Radcliffe, só foi divulgada a 17. Nesse intervalo, milhões de pessoas já se deslocavam sem saber de que lado do novo mapa iam acordar.

Seguiu-se uma das maiores deslocações forçadas do século XX. As estimativas de mortos variam muito, de várias centenas de milhares a cerca de dois milhões, e os deslocados terão sido entre 12 e 20 milhões, com o historiador Ian Talbot a estreitar o intervalo para 14 a 18 milhões. Comboios chegaram às estações sem um único passageiro vivo. A fronteira desenhada no papel materializou-se em violência ao longo de quase todo o traçado.

Mapa
O que a linha Radcliffe decidiu, e o que deixou por decidir
mar de Arábia golfo de Bengala Paquistão Índia China Bangladesh 1 2 3 4 5
1
1947 · Cyril Radcliffe trabalhou cinco semanas num gabinete de Deli, sem visitar o terreno que repartia.
2
1947 · Lahore ficou do lado paquistanês. Amritsar, a cinquenta quilómetros, ficou do indiano.
3
1947 · A Caxemira ficou fora do mandato. A linha que hoje a corta é de controlo, não fronteira acordada.
4
1947 · Calcutá coube à Índia. A Bengala oriental foi Paquistão até 1971 e é hoje o Bangladesh.
5
1961 · Goa, Damão e Diu ficaram fora da partição e só caíram 14 anos depois.
fronteira internacional fronteira não acordada
PaquistãoÍndiaBangladeshoutros territóriosdisputado
Cartografia: Natural Earth · Fonte: Natural Earth, fronteiras administrativas 1:50m @Tanto Mundo

O que é que a linha Radcliffe ainda decide entre a Índia e o Paquistão?

Cyril Radcliffe deixou a Índia poucos dias depois e nunca regressou. Queimou os papéis de trabalho e recusou os honorários de 40.000 rupias, então 3.000 libras. Na segunda metade de 1971, disse ao jornalista Kuldip Nayar que não tivera alternativa, e que com dois ou três anos talvez tivesse melhorado o que fez. Em 1966, o poeta W. H. Auden dedicou-lhe o poema Partition, que fixou a imagem do homem fechado numa casa vigiada a decidir a sorte de milhões sem conhecer o terreno que repartia.

Não tive alternativa. O tempo de que dispunha era tão curto que não conseguia fazer melhor. Com dois ou três anos, talvez tivesse melhorado o que fiz. Cyril Radcliffe, a Kuldip Nayar, Londres, 1971

O traçado sobreviveu ao seu autor. A Caxemira ficou fora do mandato de Cyril Radcliffe, por ser um estado principesco, mas a atribuição do distrito de Gurdaspur à Índia deu-lhe o único acesso por estrada ao território, e o Paquistão leu nisso um favor deliberado. Lucy Chester, historiadora da Universidade do Colorado que estudou a comissão de fronteiras, classifica a acusação como controversa. Na mesma conversa, Cyril Radcliffe negou-a: “Nem sequer tinha conhecimento da Caxemira. Ouvi falar disso muito depois de regressar a Londres.”

Aldeias ficaram cortadas ao meio, canais de rega separados das terras que alimentavam, uma mesquita de um lado e o cemitério do outro. Os siques ficaram com os dois lugares onde Guru Nanak nasceu e está sepultado do lado paquistanês.

A linha continua guardada por exércitos.

Porque é que a última fronteira foi Goa, Damão e Diu?

Enquanto o mapa britânico se estilhaçava, uma parcela da Índia continuava a ser governada a partir de Lisboa. Goa, Damão e Diu, os territórios da Índia Portuguesa, ficaram de fora da partição de 1947 e sobreviveram-lhe 14 anos. O regime de António de Oliveira Salazar chamava-lhes província ultramarina, designação fixada na revisão constitucional de 1951, e recusava qualquer entrega.

O fim veio pela força. Em dezembro de 1961, tropas indianas entraram em Goa e puseram termo a quatro séculos e meio de presença portuguesa. Portugal só reconheceu a soberania indiana no último dia de 1974.

O subcontinente vive com fronteiras herdadas de 1947. A que Cyril Radcliffe traçou levou cinco semanas a desenhar e continua, quase oito décadas depois, a marcar por onde passam os exércitos, os caminhos de ferro e as linhas de água.

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Etiquetas: ÁsiaGuerraImpérioMemóriaPolíticaPortugal
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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