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A internet vive no fundo do mar

por Jorge Montez
31.05.2026
em Mundo
4
Ilustração de uma costa portuguesa com estação de aterragem de cabos submarinos, nuvem com gotas digitais a cair sobre o oceano, e cabo a descer ao fundo do mar onde se desenha um mapa-múndi com rotas de cabos.

@Tanto Mundo (com IA)

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Dez sistemas internacionais de cabos amarram em Portugal. A defesa começou a entrar no desenho da infraestrutura submarina que transporta a internet.

Resumo
I
Mais antiga que a internet
A rede de cabos submarinos data de 1865, com o navio Great Eastern. Hoje, 1,5 milhões de quilómetros de fibra no fundo do mar transportam 99% do tráfego intercontinental.
II
O Báltico em alerta desde 2022
Dos Nord Stream ao Estlink-2, cortado pelo petroleiro Eagle S na noite de Natal de 2024, sucederam-se os danos a cabos e gasodutos no mar entre a Finlândia, a Suécia e a Alemanha.
III
Dez sistemas amarram em Portugal
Carcavelos, Sines, Sesimbra, os Açores e a Madeira são pontos de aterragem de cabos internacionais. Um cabo cortado ao largo de Sines teria efeitos na Carolina do Sul.
IV
347 milhões em fevereiro de 2026
Bruxelas afetou o valor à segurança dos cabos submarinos, com módulos de reparação estacionados em portos e sensores integrados nos cabos novos.

Ouve o artigo:

Às 12h26 do dia 25 de dezembro de 2024, o operador de rede finlandês Fingrid registou uma quebra de 658 megawatts no Estlink-2, cabo de eletricidade que liga a Finlândia à Estónia ao longo de 171 quilómetros sob o golfo da Finlândia. À mesma hora, ao largo de Porkkalaniemi, o petroleiro Eagle S, com bandeira das ilhas Cook, abrandou. A guarda de fronteiras finlandesa interceptou-o no dia seguinte. No fundo do mar, investigadores localizaram um arrasto de âncora ao longo de cerca de cem quilómetros, partindo do ponto onde o Estlink-2 foi rompido.

O Eagle S transportava gasolina sem chumbo carregada num porto russo, com destino ao Egito. Ao mesmo tempo que o cabo elétrico cedia, quatro cabos de telecomunicações também ficavam fora de serviço, três operados pela finlandesa Elisa, um pela chinesa Citic e o C-Lion 1, da finlandesa Cinia, que ligava a Finlândia à Alemanha. Sami Paila, da polícia finlandesa, disse à emissora pública Yle que a evidência apontava para uma só explicação: a âncora do petroleiro foi arrastada deliberadamente ao longo da rota dos cabos.

O petroleiro Eagle S fundeado em Porvoo, na Finlândia, escoltado pela patrulha Uisko, em 31 de dezembro de 2024.
O Eagle S em águas finlandesas, dias depois de ter sido apresado por suspeita de cortar o cabo Estlink-2 na noite de Natal de 2024. Foto: Wikimedia Commons

Quatro semanas depois do incidente do Eagle S, a 22 de janeiro de 2025, o secretário de Estado da Defesa britânico, John Healey, pôs-se em pé na Câmara dos Comuns para descrever outro caso, do lado britânico. Um navio russo, o Yantar, nominalmente oceanográfico, tinha sido detetado em águas britânicas em novembro a fazer círculos por cima de cabos submarinos. Operava sob a GUGI, sigla que designa a Direção Principal de Investigação de Profundidade do ministério da Defesa russo. O Yantar voltara à zona em janeiro, dessa vez a 45 milhas náuticas da costa. A Royal Navy mandou-lhe ao encontro duas fragatas, a HMS Somerset e a HMS Tyne. Healey alterou as regras de empenhamento, alargando a margem de aproximação, e mandou um submarino nuclear vir à superfície junto ao Yantar, como medida de dissuasão. Já em outubro, a Finlândia faria abrir o julgamento de três tripulantes do Eagle S por danos graves a infraestruturas críticas.

Índice

  • A espinha dorsal invisível
  • A geografia do risco: o Báltico em alerta
  • A resposta de Bruxelas: 347 milhões para os cabos submarinos
  • Portugal, hub atlântico
  • A ilusão da nuvem
  • O preço do invisível

A espinha dorsal invisível

Os cabos submarinos são fibras óticas envoltas em plástico. Perto da costa, levam armadura de aço. Têm a espessura de uma mangueira de jardim. Pousam no fundo do mar a profundidades que podem chegar aos cinco mil metros. Existem 694 sistemas de cabos submarinos ativos ou em construção, com 1.893 estações de aterragem, de acordo com o mapa de 2026 da TeleGeography, empresa norte-americana que contabiliza a infraestrutura global de telecomunicações. Somados, perfazem 1,5 milhões de quilómetros de fibra ótica no fundo dos oceanos.

Por essas fibras passa quase tudo. A Comissão Europeia, no comunicado de 5 de fevereiro de 2026 sobre a segurança das infraestruturas submarinas, afirma que os cabos submarinos transportam 99% do tráfego intercontinental de internet. O número aproximado, quando se mede o tráfego global de dados entre regiões, é 97%. Por estes cabos passam também as comunicações financeiras. O relatório de janeiro de 2026 da Vodafone sobre conectividade segura cita o Financial Times a estimar que cerca de 8,5 biliões de euros em transferências financeiras circulam diariamente por cabos submarinos. Três Estados-membros da União Europeia, Irlanda, Malta e Chipre, dependem inteiramente de cabos submarinos para a sua conectividade.

Aguarela de 1865 com o cabo telegráfico transatlântico a ser enrolado a bordo do Great Eastern, em Sheerness, durante a visita do Príncipe de Gales. Os cabos submarinos são anteriores à internet
O cabo telegráfico transatlântico a ser enrolado a bordo do Great Eastern, em 1865, durante a visita do Príncipe de Gales. A rede de cabos submarinos é mais antiga que o telefone. Aguarela: Robert Charles Dudley, The Metropolitan Museum of Art, domínio público

Os cabos partem-se com regularidade. Em condições normais, sem ação hostil, os sistemas registam entre 150 e 200 avarias por ano. Os culpados habituais são âncoras descuidadas e redes de pesca de arrasto, não submarinos militares. Durante décadas, estas avarias foram tratadas como acidentes industriais. A Comissão Europeia conta agora com a possibilidade de que sejam atos de guerra híbrida.

A geografia do risco: o Báltico em alerta

Os incidentes sucedem-se no Báltico. A 17 e 18 de novembro de 2024, dois cabos foram cortados em sequência: o BCS East-West Interlink, entre a Suécia e a Lituânia, e o C-Lion 1, entre a Finlândia e a Alemanha. Em outubro de 2023, o gasoduto Balticconnector e dois cabos de telecomunicações entre a Finlândia e a Estónia foram danificados pela âncora de um cargueiro com bandeira de Hong Kong, o Newnew Polar Bear. Em setembro de 2022, os gasodutos Nord Stream foram dinamitados.

A NATO criou em janeiro de 2025 a operação Baltic Sentry. Mobiliza navios de guerra, drones e aeronaves para patrulhar o Báltico. Mark Rutte, secretário-geral da Aliança Atlântica, escreveu na rede social X, depois do incidente do Eagle S, que a NATO ia “aumentar a sua presença no mar Báltico”. O Reino Unido enviou aviões de patrulha marítima e prometeu instalar um sistema de inteligência artificial para monitorizar as infraestruturas submarinas britânicas. A Finlândia, a Suécia, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Polónia e a Alemanha passaram a coordenar respostas e a partilhar informação.

A 9 de abril de 2026, John Healey voltou a falar publicamente, desta vez numa conferência de imprensa em Downing Street. Anunciou que tinha sido detetada uma operação russa no Atlântico Norte. Envolvia um submarino nuclear da classe Akula e dois submarinos especializados do programa GUGI, todos partidos de Olenya, base no Ártico russo. A operação durou mais de um mês. A Royal Navy destacou a fragata HMS St Albans e aviões de patrulha P-8, e mobilizou 500 militares para monitorizar continuamente os submarinos russos. Healey dirigiu-se diretamente a Vladimir Putin pelo nome: “vemo-vos, vemos a vossa atividade sobre os nossos cabos e os nossos oleodutos, e devem saber que qualquer tentativa de os danificar não será tolerada e terá consequências sérias”.

Vemo-vos. Vemos a vossa atividade sobre os nossos cabos e oleodutos. Qualquer tentativa de os danificar terá consequências sérias. John Healey, secretário de Estado da Defesa britânica

No léxico estratégico britânico, os cabos submarinos passaram a ser equiparados a oleodutos.

A resposta de Bruxelas: 347 milhões para os cabos submarinos

A 5 de fevereiro de 2026, a Comissão Europeia mexeu no Programa de Trabalho Digital do Mecanismo Interligar a Europa para alocar 347 milhões de euros a projetos estratégicos de cabos submarinos. Saiu acompanhada de uma chamada Caixa de Ferramentas para a Segurança dos Cabos, dez medidas entre estratégicas e técnicas, e de uma lista de Projetos de Cabos de Interesse Europeu. No mesmo dia, abriu o primeiro concurso, com 20 milhões para módulos adaptáveis de reparação que ficam estacionados em portos e estaleiros à espera de chamada. Em 2026, virão depois dois concursos de 60 milhões para reforçar a capacidade de reparação rápida, e ainda 267 milhões dirigidos aos Projetos de Cabos de Interesse Europeu, distribuídos por 2026 e 2027. Postos uns por cima dos outros, estes valores fazem com que o programa plurianual em vigor aloque 533 milhões à infraestrutura submarina entre 2024 e 2027.

Quer dizer que a defesa passou a ter peso no próprio desenho da infraestrutura.

Em março de 2026, novo concurso: mais 200 milhões em redes de alta capacidade. A maior parte, 180 milhões, vai para treze projetos de cabos já identificados como prioritários. Os outros 20 destinam-se a sistemas de monitorização inteligente, os chamados SMART cables: cabos com sensores integrados que recolhem dados oceanográficos e sísmicos em tempo real, e que podem detetar interferências ao longo do percurso. Quer dizer que a defesa passou a ter peso no próprio desenho da infraestrutura.

Por baixo das decisões da Comissão está um diagnóstico que se foi consolidando em Bruxelas. Em outubro de 2024, Sauli Niinistö, ex-presidente da Finlândia, entregou um relatório encomendado pela Comissão Europeia, intitulado Safer Together. Recomendava que 20% do orçamento da União Europeia passassem a ser dedicados a segurança e preparação para crises. A Comissão acolheu o relatório no Livro Branco para a Defesa Europeia, publicado em março de 2025. Em junho do mesmo ano, a NATO comprometeu os seus membros a alocar 1,5% do PIB a resiliência, incluindo a proteção das infraestruturas digitais críticas.

Portugal, hub atlântico

Pela posição geográfica, Portugal é um dos pontos físicos onde a internet europeia, africana e americana se encontra. Há dez sistemas internacionais de cabos submarinos amarrados em território português: Equiano, 2Africa, EllaLink, WACS, EIG, MainOne, SAT3, ACE, SeaMeWe3 e TATA-TGN. Carcavelos, Sesimbra, Sines, Burgau e ainda os Açores e a Madeira são pontos onde os cabos saem do oceano e entram em estações que parecem armazéns industriais sem janelas. A 12 de março de 2024, o cabo 2Africa, projeto de um consórcio internacional liderado pela Meta e pela Vodafone, amarrou em Carcavelos. Com 45 mil quilómetros, liga 33 países em três continentes, e foi reconhecido pelo governo português como ação de relevante interesse público. O sistema 2Africa só foi totalmente declarado operacional em 2026.

A lista vai continuar a crescer. O cabo Nuvem, da Google, anunciado em setembro de 2023 e com entrada em serviço prevista para a segunda metade de 2026, vai ser o primeiro a ligar diretamente os Estados Unidos a Portugal continental e aos Açores. Tem 6.900 quilómetros. Parte de Myrtle Beach, na Carolina do Sul, passa pelas Bermudas e pela ilha de São Miguel, e amarra em Sines. A capacidade prevista é de 384 terabits por segundo. O Pisces, projeto da União Europeia ainda em discussão, vai ligar a Irlanda a Portugal e Espanha, com a função de criar redundância entre os cabos do norte e do sul europeus.

A posição portuguesa não é só geográfica, é também estrutural.

A posição portuguesa não é só geográfica, é também estrutural. Em janeiro de 2022, o então secretário de Estado adjunto e das comunicações, Hugo Santos Mendes, afirmou que Portugal tinha condições para ajudar a Europa a tornar-se “no centro geoestratégico da economia de dados”. Quatro anos depois, com guerra híbrida no Báltico e operações russas no Atlântico Norte, a frase descreve um estado de coisas. Um cabo cortado ao largo de Carcavelos teria efeitos no Brasil. Um cabo cortado ao largo de Sines teria efeitos na Carolina do Sul.

Em fevereiro de 2026, ao classificar Portugal entre os países cujas estações de amarração beneficiam dos novos financiamentos para reforço de segurança, a Comissão Europeia reconheceu, ao mesmo tempo, vantagem geográfica e exposição. Em março de 2024, a Infraestruturas de Portugal já tinha assinado com a Alcatel Submarine Networks um contrato de 154,4 milhões de euros para o sistema Atlantic CAM. Vai substituir os 3.700 quilómetros de cabos atuais entre o continente, os Açores e a Madeira. Apresentado pela IP Telecom como uma das primeiras implementações em larga escala da tecnologia SMART, o Atlantic CAM integra sensores de monitorização capazes de detetar sismos, tsunamis e interferências ao longo do percurso. Por resolução do Conselho de Ministros de novembro de 2025, a subconcessão à IP Telecom prolonga-se até 2052, com encargos a partir de 2027 no valor base de quase 156 milhões de euros.

A ilusão da nuvem

A linguagem com que se fala da economia digital escolheu metáforas atmosféricas. Cloud, nuvem, streaming, fluxo. As metáforas sugerem leveza, ubiquidade, ausência de localização. A realidade é o contrário. Os dados que circulam na chamada nuvem passam quase todos por fios físicos no fundo do mar, fios que podem ser cortados por uma âncora arrastada deliberadamente ao longo de cem quilómetros.

A nuvem está debaixo de água.

A concentração geográfica acentua o problema. Algumas das passagens mais densas estão em zonas estratégicas conhecidas há séculos: o estreito de Malaca, o canal do Suez, o estreito de Gibraltar, o estreito de Ormuz. Em março de 2026, depois de a guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão ter começado a 28 de fevereiro, analistas alertaram que os cabos que passam pelo mar Vermelho e pelo estreito de Ormuz, se cortados, podiam afetar fluxos financeiros globais e tráfego de dados entre a Europa, a Ásia e a África. Pelo menos 17 cabos atravessam o mar Vermelho. Quatro grandes sistemas, AAE-1, FLAG, Gulf Bridge e TGN-Gulf, passam por Ormuz. A Alcatel Submarine Networks, a empresa francesa que lidera o mercado mundial de instalação de cabos submarinos, declarou força maior nas operações de manutenção na costa saudita.

Em outubro de 2025, o Arel, think-tank italiano com tradição em política industrial, publicou um relatório sobre o lugar das telecomunicações na defesa europeia. O título era Much More than a Network: Telecoms as the Bedrock of European Defence. O autor, Andrea Lamberti, sustenta que comando e controlo, logística, informações e coordenação aliada dependem todos da mesma coisa: fios no fundo do mar e sinais que por eles correm. A Vodafone retomou o relatório no seu dossier de janeiro de 2026.

O preço do invisível

A 16 de janeiro de 2026, o relatório anual da Vodafone sobre conectividade foi publicado. Nele, Joakim Reiter, diretor executivo de assuntos corporativos e externos do grupo, diz no preâmbulo que a segurança da Europa, hoje, mede-se também pela segurança das suas redes. A frase tinha leitura comercial óbvia: a Vodafone tem cabos próprios, e o documento saiu num momento em que a Comissão preparava o Digital Networks Act, regulamento europeu de impacto direto na empresa.

Mesmo assim, do outro lado de Bruxelas, sem cabos para defender, Georg E. Riekeles, diretor associado do European Policy Centre, publicou no mesmo dia uma análise no mesmo sentido. A Europa, escreveu Riekeles, vai continuar com um défice estratégico enquanto não tratar as redes submarinas, as redes terrestres e os satélites no mesmo plano de segurança das ameaças híbridas.

A pergunta sobre como se protege um milhão e meio de quilómetros de fibra ótica no fundo do mar não é nova.

A União Europeia tem um catálogo pronto há anos e com recomendações bem definidas: diversificar rotas para que nenhum corte deixe regiões inteiras isoladas, multiplicar caminhos paralelos para os mesmos dados, a chamada redundância, reforçar as estações em terra, modernizar a frota de navios que vão à avaria e pôr sensores em tempo real nos cabos novos. Em simultâneo, a Europa deve exigir coordenação às marinhas nacionais e partilha aos serviços de inteligência. As medidas custam centenas de milhões e nenhuma anula a vulnerabilidade.

As medidas custam centenas de milhões. Nenhuma anula a vulnerabilidade.

Veja-se o caso do Estlink-2. Quando o cabo foi cortado pela âncora do Eagle S, a Fingrid estimou sete meses para repor o serviço. Foi isso, mais ou menos, o que aconteceu. Durante esses sete meses, a Estónia foi pagando. Em janeiro de 2025, com o frio do inverno e a importação por Estlink-2 cortada, o preço médio da eletricidade no país já estava 65% acima do que tinha sido em janeiro de 2024. Em fevereiro chegou aos 15,2 cêntimos por kWh, quase o dobro do valor homólogo, segundo dados da bolsa Nord Pool divulgados pelo serviço público estónio ERR. O cabo só voltou ao funcionamento normal a 20 de junho de 2025.

Reparar um cabo no fundo do mar exige um navio especializado e uma janela meteorológica favorável. Exige também um saber técnico que se concentra em meia dúzia de empresas no mundo, com a Europa em desvantagem competitiva face à Ásia. Daí o gesto da Comissão em fevereiro de 2026: vinte milhões de euros, do pacote anunciado nesse mês, foram afetados a módulos de reparação adaptáveis, prontos a sair de portos e estaleiros logo que sejam chamados.

Aterragem do cabo submarino em Port Darwin, na Austrália, em 7 de novembro de 1871, com homens a puxar o cabo do mar para a praia.
Aterragem do cabo submarino em Port Darwin, Austrália, a 7 de novembro de 1871. O gesto técnico, na sua essência, manteve-se: o cabo sai da água, atravessa a praia, entra em terra. Foto: Samuel Sweet, Library & Archives NT

Imagine-se um banhista em Carcavelos, em agosto, a deitar-se na areia. Por baixo dele, a alguns metros de profundidade, sai do oceano um cabo do diâmetro de uma mangueira de jardim. Sai para terra, atravessa a praia, entra numa estação que parece um armazém industrial sem janelas, e dali parte por fibra ótica para um centro de dados em Lisboa, ou para um nó da rede europeia que, num ponto qualquer, foi pensada num tempo em que ninguém imaginava sabotagem internacional como hipótese de cálculo.

O banhista está, sem o saber, sobre uma fronteira. As 733 ações de interferência com sinais de GPS no Báltico, registadas pela agência sueca de transportes só entre janeiro e agosto de 2025, dão a medida do mundo em que essa fronteira existe: a guerra híbrida deixou de ser hipótese.

A internet, afinal, não vive na nuvem. Vive em estações que parecem armazéns industriais sem janelas, junto ao mar, em portos como Sines, em vilas como Sesimbra, sob as praias onde as pessoas se vão estender no verão.

O EllaLink entrou em serviço em 2021 a ligar Sines a Fortaleza, e o Medusa estende-se desde 2024 pelo Mediterrâneo até à costa atlântica da Península Ibérica. Sines concentra hoje a amarração de cabos que transportam tráfego entre a Europa, a América do Sul e a África Ocidental, num ponto do mapa que o Estado Novo via como periferia e que a geografia da internet devolveu ao centro. A posição não é garantida: depende de investimento em estações de amarração, de quadro regulatório e da capacidade de Portugal arbitrar interesses entre operadores europeus, brasileiros e norte-americanos que disputam as mesmas rotas.

Etiquetas: EuropaGuerraPortugalTecnologia
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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