Os centros de dados da inteligência artificial precisam de eletricidade e de água em quantidades que crescem anualmente. De onde vem essa conta, e o que mudam de facto as respostas da indústria.
Ouve o artigo:
Em 2025, os centros de dados consumiram 23% de toda a eletricidade medida na Irlanda, mais do que todas as habitações urbanas do país, quando uma década antes não passavam de 5%. O aperto foi tal que, durante quatro anos, o país suspendeu novas ligações de centros de dados em torno de Dublin.
O aperto irlandês é a versão adiantada de uma conta que cresce em todo o lado, e depressa. A eletricidade consumida pelos centros de dados deverá mais do que duplicar até ao fim da década, e a ela junta-se a água que é precisa para arrefecer os servidores. O consumo não dá sinais de abrandar, e a pergunta passou a ser onde meter máquinas que pedem cada vez mais das duas coisas.
A resposta da indústria tem sido empurrá-las para fora dos sítios onde sempre estiveram. Ao largo de Shanghai, na zona industrial de Lingang, cerca de 2.000 servidores de inteligência artificial estão selados em cápsulas de aço a 35 metros de profundidade, arrefecidos pela água do oceano. A 400 quilómetros de altitude, uma placa gráfica do mesmo tipo das que movem esses servidores em terra dá voltas à Terra desde novembro de 2025. Um foi para baixo, o outro para cima. Nenhum resolve a conta. Ambos fogem dela.
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A conta que cresce em terra
A conta começa na eletricidade. Segundo o relatório Energy and AI, publicado em 2025 pela Agência Internacional de Energia, os centros de dados consumiram cerca de 415 terawatts-hora em 2024, à volta de 1,5% da eletricidade mundial.
A mesma análise projeta que esse consumo mais do que duplique até 2030, para perto de 945 terawatts-hora, qualquer coisa como o consumo elétrico total do Japão num ano inteiro. A inteligência artificial é o motor desse salto, e o crescimento concentra-se: a China e os Estados Unidos respondem por perto de 80% do aumento previsto até ao fim da década.
Segundo o sumário do mesmo relatório, no fim da década os Estados Unidos consumirão mais eletricidade a processar dados do que a produzir alumínio, aço, cimento, químicos e os restantes bens de fabrico intensivo somados. O encargo também desce ao indivíduo: a eletricidade de centros de dados por habitante nos Estados Unidos sobe de cerca de 540 quilowatts-hora em 2024 para mais de 1.200 em 2030, uma ordem de grandeza acima de qualquer outra região.
Boa parte dessa eletricidade serve só para manter as máquinas frias. O arrefecimento pesa entre 7% do total, num centro grande e bem desenhado, e mais de 30%, num menos eficiente.
Há um equívoco frequente por trás destes números, o de imaginar que o grosso da energia vai para treinar os modelos. Vai para os usar. Entre 80% e 90% do consumo da inteligência artificial corresponde à inferência, o funcionamento dos modelos já treinados a responder, pedido a pedido. É um gasto permanente, não um pico que passa.
E está quase todo em dois sítios. Mais de 90% da computação especializada em inteligência artificial está nos Estados Unidos e na China, enquanto mais de 150 países não têm capacidade soberana para a correr.
A Irlanda foi onde isto se viu primeiro. Os centros de dados pesam lá mais na eletricidade do que todas as habitações urbanas do país, e a projeção aponta para quase um terço da procura nacional até 2030. Quando o país voltou a aceitar novas ligações, no final de 2025, foi com uma condição: que os novos centros assegurem pelo menos 80% da procura com energia renovável.
A energia não é tão limpa quanto parece: de onde vem a eletricidade dos centros de dados
Dizer que estes centros consomem muita eletricidade não diz tudo. Falta saber de onde ela vem.
A resposta, à escala global, é que vem sobretudo de combustíveis fósseis. Perto de 60% da eletricidade dos centros de dados nasce de carvão e gás, com o carvão à cabeça por causa da China, onde domina o abastecimento. As renováveis rondam um quarto, e a energia nuclear os 15%.
A fotografia muda por região. Nos Estados Unidos, a maior fonte é o gás natural, com mais de 40%, acima das renováveis. O carvão domina na China, à volta de 70%. A Europa puxa a conta para baixo, com renováveis e nuclear a caminho de 85% até ao fim da década.
O sentido geral aponta para mais renovável. A Agência Internacional de Energia projeta que sol e vento cubram metade do crescimento até 2030. O resto, mais de 40% da procura nova destes anos, virá de gás e de carvão, queimados em centrais que já existem ou que estão a ser construídas de propósito. Nos Estados Unidos, a aposta no gás já levou a anúncios de novas centrais ligadas diretamente a centros de dados.
Há ainda uma distância entre o que as empresas dizem comprar e o que de facto consomem. Quando uma tecnológica anuncia que funciona a 100% com energia renovável, fala quase sempre de contratos financeiros anuais, que compram um volume de eletricidade verde algures no ano e na rede, sem corresponder ao que sai da tomada hora a hora. O mix que alimenta os servidores no momento em que trabalham é outro, e leva gás e carvão lá dentro.
Na Google vê-se a tesoura a abrir. Em 2024, a empresa cortou 12% das emissões dos seus centros de dados com energia limpa, e no mesmo ano o consumo absoluto de eletricidade desses centros subiu 27%. Entre 2019 e 2024, as emissões totais da empresa aumentaram 51%.
A água sai de algum lado: aquíferos e centros de dados
A eletricidade é metade do problema. A outra é água, e durante anos quase não se falou dela.
Um centro de dados aquece, e o calor tem de sair. O método tradicional usa torres que evaporam água, muita, água que não regressa. Um relatório de 2024 do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley calcula que os centros de dados nos Estados Unidos consumiram diretamente cerca de 64 mil milhões de litros em 2023, e projeta um salto para 144 a 276 mil milhões em 2028. Grande parte dessa água, até 85%, evapora e não volta ao sistema.
A pergunta que conta não é só quanta água, mas de onde sai. Cerca de 57% dos centros de dados usam água potável, e a maior parte vem das mesmas bacias, rios, lagos e aquíferos, que abastecem as torneiras das pessoas.
A geografia agrava o caso. Os grandes centros instalam-se em zonas rurais e semiáridas, onde a terra e a energia são baratas e a rede municipal não chega para milhões de litros por dia. A saída é furar poços e bombear o aquífero local. Quem vive ao lado vê o nível dos seus baixar.
O exemplo mais sério é o do aquífero de Ogallala, um dos maiores reservatórios subterrâneos dos Estados Unidos, debaixo do Texas e do Wyoming, e já gasto por décadas de agricultura. Vários projetos de inteligência artificial estão a erguer-se por cima dele. Sudeep Pasricha, professor na Universidade Estatal do Colorado, chama-lhe uma decisão de alto risco: o aquífero recarrega menos de 25 milímetros por ano, perdeu já cerca de 27% da água armazenada em alguns pontos, e o que se tira levaria séculos a milénios a repor. Está, nas suas palavras, a ser minerado, não reabastecido.
O efeito sente-se à boca do poço. Na Geórgia, junto aos centros da Meta em Stanton Springs, moradores viram a pressão da água cair nos seus furos. A Meta respondeu que um estudo independente que encomendou não encontrou ligação às suas operações. No Arizona, em agosto de 2025, a câmara de Tucson chumbou um complexo ligado à Amazon, numa região com 180 a 250 milímetros de chuva por ano.
O problema não é só da rede elétrica. Há também o da água. Em Querétaro, no México, a expansão da computação puxa água em plena seca. No Uruguai, um projeto intensivo em água coincidiu com a seca de 2023 que esvaziou as reservas de Montevideu.
E chega à Península Ibérica. Em Talavera de la Reina, a sudoeste de Madrid, a Meta projeta um centro de dados que vai buscar água à bacia do Tejo, um rio em pré-alerta de seca. Os números contam a história da opacidade do setor: nos acordos municipais inscreveram-se 40,6 milhões de litros por ano, mas, sob pressão de um movimento de cidadãos chamado Tu nube seca mi río, veio a saber-se que o consumo real rondaria os 665 milhões. Begoña Valero, da associação ambientalista SEO Birdlife, diz o essencial: tudo isto, que parece tão etéreo, tem uma parte física.
A resposta das empresas a estas contas é uma promessa. A Meta, em Talavera como na Geórgia, garante que será water positive em 2030, que devolverá às bacias onde opera mais água do que consome. É o equivalente hídrico dos contratos de energia verde: uma compensação contabilística, que financia projetos de restauro algures, mas não volta a encher o furo que secou nem o aquífero que demora séculos a recarregar.
A escala global da conta aparece num relatório que a Universidade das Nações Unidas publicou a 3 de junho de 2026, coordenado por Kaveh Madani, diretor do instituto da universidade dedicado à água e ao ambiente. Somando a água que os centros consomem à que é precisa para gerar a sua eletricidade, chega a um número difícil de absorver: em 2030, a pegada hídrica destes centros chegará aos 9,3 biliões de litros, o equivalente às necessidades domésticas anuais de 1,3 mil milhões de pessoas na África Subsariana.
Kaveh Madani resume a armadilha de fundo: modelos mais baratos e mais eficientes são usados mais vezes, e o ganho por pedido é engolido pelo volume. A fatura ambiental não fica pela água. O mesmo documento calcula uma pegada de solo de mais de 14.500 quilómetros quadrados em 2030, perto de duas vezes a área metropolitana de Jacarta.
O consumo opaco da inteligência artificial
Sabe-se que o consumo é enorme, mas quase nenhuma das empresas que o geram o divulga de forma comparável.
O número mais citado, o do ChatGPT, com cerca de 2,5 mil milhões de pedidos por dia e à volta de 383 gigawatts-hora por ano, é uma estimativa de terceiros, não um dado oficial da OpenAI. Para os concorrentes, há ainda menos. A Anthropic, que desenvolve o Claude, não publica energia nem água por interação, e, à data de março de 2026, não reportou emissões em qualquer registo público. O Perplexity, o Copilot da Microsoft, o Grok da xAI e a Apple também não divulgaram métricas ambientais por interação.
Os poucos valores que circulam para cada modelo vêm de fora das empresas. Um estudo académico assinado por Nidhal Jegham e colegas, divulgado em 2025 com o título “How Hungry is AI?”, estimou o consumo de 30 modelos a partir das suas características de hardware, e colocou um dos modelos da Anthropic no topo da eco-eficiência. São estimativas de cálculo, não medições auditadas.
A falta de dados comparáveis levou a própria Universidade das Nações Unidas a pedir um sistema padronizado de reporte de carbono, água e solo. A 23 de junho de 2026, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, lançou uma iniciativa a pedir às empresas de inteligência artificial que divulguem essas pegadas.
A Europa começou a forçar a abertura por via legal. O Decreto-Lei n.º 84/2024, de 4 de novembro, deu execução em Portugal ao regime europeu de eficiência energética que obriga os operadores de centros de dados a comunicar indicadores de desempenho a uma base de dados comum da União, cabendo à Direção-Geral de Energia e Geologia fiscalizar o cumprimento.
No quadro europeu, estas instalações consomem entre 40 e 45 terawatts-hora, à volta de 1,5% da eletricidade da União. Comunicar quanto cada uma gasta deixou de ser opcional.
Para o fundo do mar: os centros de dados submarinos
Contra esta conta, a da energia e a da água, as mesmas empresas que a engordam desenham saídas. A primeira é para o oceano: a água do mar é um dissipador de calor gratuito e inesgotável.
O centro submarino chinês de Lingang, posto a funcionar em maio de 2026 pela empresa HiCloud com o apoio de várias entidades estatais, tem cerca de 24 megawatts de capacidade e não precisa de chillers a consumir energia para se arrefecer: o oceano faz o trabalho. A operadora declara um indicador de eficiência energética abaixo de 1,15, quando a média da indústria ronda 1,5. Fala já numa expansão para 500 megawatts.
A ideia não é nova, e tem um precedente importante que correu mal como negócio. A Microsoft afundou em 2018, ao largo da Escócia, um cilindro com servidores no chamado Project Natick, e os ensaios mostraram taxas de avaria mais baixas do que em terra. Mesmo assim, a empresa arrumou o projeto comercialmente.
Noelle Walsh, responsável pela divisão de operações de nuvem da Microsoft, confirmou que a empresa não está a construir centros de dados submarinos em lado nenhum, ainda que guarde as lições aprendidas. A corrosão, a manutenção debaixo de água, a durabilidade dos cabos e o licenciamento ambiental continuam a pesar contra a solução.
Há um custo que a promessa do arrefecimento gratuito não mostra. O calor que sai dos servidores não desaparece ao entrar na água, fica nela. A descarga de água aquecida mexe no oxigénio, no pH e nos sedimentos em redor, e os estudos sobre centrais térmicas associam-na a menos espécies na vizinhança.
A cobertura do setor cita uma subida de um grau Celsius na água envolvente como o ponto a partir do qual se começa a admitir dano, embora não exista um limiar único válido para todos os ecossistemas marinhos. A HiCloud garante que, no centro mais antigo ao largo de Hainan, a água subiu menos do que isso.
À escala dos 24 megawatts de Lingang, o efeito é difícil de medir e ainda não foi estudado de forma independente. A expansão para 500 é que muda a pergunta. Andrew Want, ecologista marinho da Universidade de Hull, disse à France-Presse que o calor pode atrair umas espécies e afastar outras, e que falta medi-lo. “São incógnitas neste momento, e não há investigação suficiente a ser feita”, resumiu.
Shaolei Ren, que estuda a pegada ambiental da inteligência artificial na Universidade da Califórnia em Riverside, foi à escala: “Para centros de dados submarinos à escala dos megawatts, o problema da poluição térmica precisa de ser estudado com mais cuidado.”
Mesmo assim, o que o mar resolve bem é o calor à saída dos servidores. A energia, no caso chinês, vem do parque eólico ao lado, mas podia vir da rede.
Para a órbita: centros de dados no espaço
A segunda fuga vai na direção oposta, e troca o problema. No espaço, o que abunda é energia: o sol bate sem a interrupção da noite e sem a atenuação da atmosfera, de forma quase contínua.
A empresa que foi mais longe chama-se Starcloud, antiga Lumen Orbit, co-fundada por Philip Johnston. Foi ela que colocou aquela placa gráfica em órbita em novembro de 2025, treinou o primeiro modelo de linguagem no espaço em dezembro, e em março de 2026 se tornou o unicórnio mais rápido da história da aceleradora Y Combinator. Em fevereiro, pediu à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos autorização para uma constelação de até 88 mil satélites.
Poucos dias antes, a SpaceX de Elon Musk, recém-fundida com a empresa de inteligência artificial xAI, tinha pedido autorização para um milhão de satélites, numa aposta que projeta gerar 100 gigawatts de capacidade de computação por ano, uma escala que não existe em parte nenhuma, nem em terra.
O espaço é um mau sítio para arrefecer, por estranho que pareça num vácuo tão frio. Sem ar nem água à volta, falta o que leve o calor para longe dos servidores, e a única saída, irradiá-lo para fora como luz invisível, é lenta.
A Estação Espacial Internacional dá a medida do problema. Rejeita cerca de 70 quilowatts de calor com painéis radiadores que pesam à volta de 7 toneladas. Projetada para um centro de dados de apenas um megawatt, a mesma arquitetura exigiria perto de 100 toneladas só de radiadores, antes de contar com o lançamento, a radiação ionizante sobre os componentes ou a impossibilidade de mandar um técnico trocar uma peça.
Dylan Taylor, presidente executivo da Voyager Technologies, disse à CNBC o que os números já mostram: arrefecer no espaço é mais difícil do que em terra.
Nenhuma das duas resolve o que cresce em terra. O mar dá o arrefecimento de graça e deixa a energia para a rede; no espaço passa-se o inverso, sobra energia e falta como despejar o calor. São saídas de fronteira, uma já a operar em pequena escala, a outra ainda no papel.
O oceano à porta: Sines e o arrefecimento por água do mar
Enquanto o mar e a órbita ocupavam os anúncios, erguia-se em Sines uma saída menos vistosa. A Start Campus construiu ali o maior centro de dados do país, no terreno de uma central a carvão desligada em 2021.

O que distingue Sines está na tubagem: a bacia de água do mar que outrora arrefecia a central a carvão passou a arrefecer os servidores. O primeiro edifício, em funcionamento desde outubro de 2024, recorre ao oceano como método primário de arrefecimento, ciclando cerca de mil metros cúbicos de água do mar por minuto e devolvendo-a ao Atlântico cerca de um grau mais quente, sem evaporação e sem gastar água doce. A Start Campus apresenta a energia do campus como renovável, embora valha aqui a mesma ressalva dos contratos verdes: uma coisa é o fornecimento contratado, outra o que a rede entrega a cada hora.
Esse grau a mais tem custo. É o mesmo limiar que, junto aos centros submarinos chineses, marca o ponto a partir do qual se admite impacto na vida marinha. De um só edifício, o efeito depende da dispersão da pluma térmica no local, avaliada no licenciamento; com os seis edifícios e os 1,2 gigawatts projetados, a descarga cresce e a questão ganha outra escala.
A ampliação conta com a Microsoft, a Nscale e a NVIDIA como parceiros e estende-se até 2030. Em 2021, quando a Start Campus apresentou a ideia de arrefecer servidores com água do mar, houve quem torcesse o nariz. O primeiro edifício está em funcionamento.
Há ainda o calor a aproveitar. Em vez de ir todo para o mar, pode alimentar o que esteja por perto e precise de aquecimento, de edifícios a processos industriais.
A Schneider Electric trabalhou na obra com a Start Campus. Pablo Ruiz Escribano, vice-presidente da empresa para os centros de dados na Europa, apontou a razão de Sines ter sido viável: nada se construiu de raiz, adaptou-se o que já lá estava, incluindo água fria que uma central de regaseificação vizinha deitava fora.
E há uma diferença que separa Sines da maioria dos casos da conta da água. Arrefecer com água do mar não toca em aquíferos nem em água doce. O que seca rios e furos noutros sítios, aqui não se põe.
Onde isto se repete
O que se fez em Sines está a repetir-se noutros sítios. Instalar centros de dados sobre centrais térmicas desativadas tornou-se tendência nos Estados Unidos e na Europa, por uma questão de custos.
Uma central a carvão a fechar deixa atrás de si o que um centro de dados demora anos a conseguir: a ligação à rede elétrica, a água e o arrefecimento, o terreno já licenciado. Ganha-se tempo, que no setor vale quase tudo. O laboratório nacional norte-americano do Pacífico Noroeste já mapeia os caminhos de reconversão destes sítios, que a transição energética vai deixando vazios.
Convém não exagerar no alcance. Reaproveitar o terreno e a ligação à rede de uma central a fechar faz-se quase em qualquer lado.
Já arrefecer com água do mar, como em Sines, exige uma central costeira junto a água fria, e poucas estão à beira-mar. O terreno e a ligação à rede reaproveitam-se quase em todo o lado, mas o oceano só está onde está.
É com essa parte replicável que Portugal está a fazer a sua maior aposta. A 25 de junho de 2026, o Conselho de Ministros aprovou a participação portuguesa numa candidatura ibérica, conjunta com Espanha, a uma das cinco megafábricas de inteligência artificial que a Comissão Europeia quer cofinanciar através do programa europeu de computação de alto desempenho. A localização principal do lado português é Sines, sobre o campus da Start Campus.
Do lado português, a candidatura é liderada pelo Banco Português de Fomento. Prevê até 8 mil milhões de euros no conjunto ibérico, cerca de quatro mil milhões em Portugal, e um compromisso público nacional de 200 milhões ao longo de 7 anos.
A instalação de Sines, segundo o Jornal Económico, deverá rondar os 150 megawatts de capacidade de computação e mais de 100 mil unidades de processamento gráfico, com a NVIDIA no consórcio. A aposta inscreve-se na Agenda Nacional de Inteligência Artificial, publicada no início de 2026, e é uma das 32 iniciativas do respetivo plano de ação para 2026-2030.
Gonçalo Matias, o ministro que tutela a inteligência artificial, garante que o acesso a energia e a água está assegurado pela estratégia nacional para os centros de dados. A garantia assenta em lastros diferentes consoante o recurso. Na energia, há um mecanismo concreto: o Decreto-Lei n.º 80/2023 reconheceu Sines como zona de grande procura, e isso abre um procedimento excecional para lhe atribuir capacidade de ligação à rede. Assegurar a energia é, em boa medida, pôr estes projetos à frente na fila. Ajuda Portugal produzir a maior parte da eletricidade a partir de renováveis, mas uma instalação de 150 megawatts, num campus projetado para 1,2 gigawatts, é procura nova de grande escala.
Na água, a garantia é mais difícil de fundamentar. A estratégia trata o consumo de água como objetivo a mitigar, não como mecanismo, e não diz de onde virá a da megafábrica. A vantagem de Sines, nesse ponto, é real, mas vem da geografia. O campus arrefece com água do mar, sem tocar em aquíferos nem em água doce, e a estratégia nacional não teve parte nisso.
O próprio ministro reconhece, na mesma ocasião, que os termos finais da candidatura ainda não se conhecem. Ficam as duas contas, a da energia e a da água, que a Agência Internacional de Energia e as Nações Unidas veem duplicar até 2030.
A megafábrica vai erguer-se ao lado do centro de dados que já funciona, e é aí que a escala será posta à prova pela primeira vez.
Mas trocar os servidores de sítio, para o mar, para a órbita ou para uma central a carvão reconvertida, muda o lugar do problema sem lhe mexer no tamanho. E o tamanho é o que continua a crescer.








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