Casou o panteão ronga com Bosch e Picasso, e fez uma pintura que ninguém em África de língua portuguesa estava a fazer na década de 1960.
Numa tela de 1961, um casal europeu está sentado ao centro do quadro. À volta deles agita-se um carnaval de seres com cabeças de animal, mãos humanas e olhos negros enormes a olharem para fora da pintura. O casal são o arquiteto português Pancho Guedes e a sua mulher Dori. O óleo chama-se Cena de Feitiço com Casal Guedes e foi pintado nesse ano.
Ouve o artigo:
Quem o pintou tinha 25 anos, ocupava a garagem dos Guedes em Lourenço Marques em troca de um quadro por mês, e fazia em 1961 aquilo que mais nenhum pintor da África de língua portuguesa fazia. Punha o europeu como figura e o africano como fundo, contra a hierarquia de um século de pintura colonial. Os patrões aparecem dentro do feitiço, não acima dele.
Malangatana Valente Ngwenya faria 90 anos a 6 de junho de 2026. Morreu em janeiro de 2011, em Matosinhos, depois de um cancro. Entre as duas datas ficou uma obra que ajudou a inventar a imagem de Moçambique antes de o país existir como estado.
Índice
Matalana, 1936: a infância de Malangatana
A iconografia da infância de Malangatana foi simultaneamente o panteão ronga e os vitrais cristãos. A mãe, Hloyaze Xerinda, era curandeira tradicional. Dois tios ensinaram-lhe os rudimentos da medicina ancestral. Frequentou primeiro a Escola da Missão Suíça em Matalana, onde aprendeu a ler e a escrever em ronga, e depois, quando o Acordo Missionário de 1940 fechou as escolas protestantes em Moçambique, transitou para a Escola da Missão Católica em Bulázi.
Em 1948, com 12 anos, foi a pé até Lourenço Marques procurar trabalho. Em 1953 entrou no Clube de Lourenço Marques, o velho Grémio, como apanha-bolas e empregado de mesa. Foi aí que conheceu Augusto Cabral, pintor e biólogo, sócio do clube. Anos mais tarde, num texto reproduzido em obituário do Público, Cabral contou como o pintor “nasceu”. “Um apanha-bolas nas partidas de ténis era um tal Malangatana Ngwenya (crocodilo), que, no fim de uma tarde de desporto, se acercou de mim para me pedir se, por acaso, eu não teria em casa um par de sapatilhas velhas que lhe desse.”
Naquela noite, Malangatana foi a casa de Cabral e viu-o a pintar um painel. “Ensine-me a pintar”, pediu. Cabral deu-lhe tintas, pincéis e placas de contraplacado. “Agora pinta”, disse-lhe. “Pinto o quê?”, perguntou Malangatana. “O que está dentro da tua cabeça.”
Em 1958, entrou no Núcleo de Arte de Lourenço Marques, onde teve o apoio do pintor Zé Júlio. Em 1960, o arquiteto Pancho Guedes, formado em Joanesburgo, tirou-o do Clube. Pagava-lhe uma renda mensal e adquiria-lhe um quadro por mês, a preços inflacionados. Cedeu-lhe a garagem da casa em Lourenço Marques. Décadas depois, Guedes recordaria ao Público: “Malangatana fazia, no início, uma pintura muito própria e muito viva, sem nenhuma influência exterior, e com uma grande atenção pela África. Tinha uma imaginação excecional.”

Salão dos Organismos Económicos, abril de 1961
Em abril de 1961, Malangatana fez a primeira exposição individual no Salão dos Organismos Económicos de Lourenço Marques. Trinta e seis quadros estavam em catálogo, embora ele próprio escrevesse mais tarde que tinha exposto “cinquenta e sete quadros a óleo”. Entre os primeiros estavam Monstros Grandes Devorando Monstros Pequenos, A Fonte de Sangue (hoje no Cleveland Museum of Art), Cena da Adivinha e Juízo Final (este último adquirido em 2021 pelo Art Institute of Chicago).
Em todos eles, criaturas devoram-se, misturam-se, observam-se. Em todos eles, os olhos das figuras são desproporcionadamente grandes, com pupilas pretas alongadas a fixarem o espetador. A pintura colonial canónica, das aguarelas oitocentistas à fotografia etnográfica, tinha fixado o africano como objeto observado, em pose, com o olhar perdido. Em Malangatana, é o contrário. As figuras devolvem o olhar.
Pancho Guedes assinou o texto do catálogo da primeira individual e, como cita a Gulbenkian, escreveu: “A sua visão tem estranhos paralelos com a tradição europeia. Certos quadros aproximam-se dos primitivos catalães, outros das aparições macabras dos visionários holandeses e ainda outros são de um surrealismo involuntário, direto e mágico.” A leitura é generosa e fora de foco. Anos mais tarde, o crítico Rui Mário Gonçalves diria coisa diferente ao Público: a originalidade do moçambicano estava em casar a tradição da terra dele, com destaque para as lendas ronga, com o expressionismo e o surrealismo bebidos na pintura europeia, sobretudo na obra de Picasso, “de quem era um admirador fascinado”. Rui Mário Gonçalves comparava-o a Wifredo Lam, pintor cubano que tinha feito a mesma operação noutra geografia.
O próprio Malangatana, em entrevista a Patrick Chabal publicada em 1994 no livro Vozes Moçambicanas, descreveu o seu vocabulário visual de forma mais direta: “Já nos anos 60, comecei a ver também pinturas de Picasso. Do Bosch, de quem tive uma grande influência, quando vim a simbiosar aspetos mitológicos com a religião convencional, digamos.”
Mbari Club, Ibadan, junho de 1962
Antes de chegar a Lisboa, a obra de Malangatana atravessou a África pelo lado de dentro. Em 1961, o antropólogo alemão Ulli Beier, que dirigia em Ibadan a revista Black Orpheus, viu fotografias dos quadros e propôs-se mostrá-los no Mbari Club, centro cultural nigeriano. A primeira individual de Malangatana fora de Lourenço Marques foi em junho de 1962, em Ibadan. No número 10 da Black Orpheus, do mesmo ano, foram publicados os primeiros poemas dele.
A operação visual era reconhecível para a arte africana que se juntava em Ibadan. Adão e Eva em frente da catedral de Lourenço Marques, óleo de 1960 hoje na Fundação Malangatana em Maputo, mostra os primeiros humanos do Génesis em frente do edifício colonial, com as feições da terra deles. Última Ceia, da qual há duas versões (uma de 1961 e outra de 1964, adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1965), substitui a teologia cristã pela força dos olhos. As figuras à mesa olham todas para fora da tela, com pupilas pretas alongadas a fixar quem olha.
Sobre a sua geração e a categoria que ela inventava, José António Fernandes Dias, antigo diretor da plataforma África.cont, resumiu numa frase ao Público: “Malangatana foi o primeiro artista plástico africano, negro, moderno no espaço da lusofonia.”
Despedida para a Guerra, 1964
A política entrou nas telas de Malangatana antes da prisão. Despedida para a Guerra foi pintada em 1964, ano em que a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) iniciou a luta armada no norte do país.
A composição organiza-se em três tempos. À esquerda, uma mãe amamenta uma criança. Ao centro e à direita, uma mãe e um filho soldado dão-se as mãos, mas a arma do soldado, atravessada na diagonal, separa fisicamente os corpos. Atrás deles, mandíbulas autónomas pairam no ar, como crocodilos prontos a fechar. A criança que mama na esquerda da tela é o soldado que parte na direita.
Importa notar que Ngwenya significa crocodilo em ronga. As mandíbulas pairantes nas cenas de partida e de morte são uma assinatura dupla. Uma com o pincel, outra com os dentes.
Em 1960, a taxa de alfabetização em Moçambique era inferior a 10%. Para a maioria da população, a única via de comunicação anticolonial possível não era o livro, era a imagem. Malangatana fazia, com tinta de óleo sobre platex, o que José Craveirinha fazia com poemas e Luís Bernardo Honwana com contos: dizer Moçambique antes de Moçambique poder ser dito.
Cadeia da Machava, janeiro de 1965
Em janeiro de 1965, uma operação da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) levou para a Cadeia Central da Machava, nos arredores de Lourenço Marques, vários homens. Craveirinha, então funcionário público com 42 anos e um livro publicado em Lisboa no ano anterior. Honwana, escritor. Domingos Arouca, advogado. Rui Nogar, escriturário e poeta. Daniel Magaia. Malangatana. O comunicado oficial da PIDE, datado de 29 de maio de 1965, apresentava o grupo como “4.ª Direção Regional da organização terrorista designada por FRELIMO”.
O Tribunal Militar Territorial de Moçambique absolveu Malangatana a 15 de março de 1966. Foi preso de novo a 17 de junho. Absolvido outra vez a 11 de novembro. Total: 18 meses na Machava.
A Machava, ao tempo, alojava em celas individuais até 12 prisioneiros e em salas comuns de cerca de 30 metros quadrados até 60. Os presos passavam 23 horas por dia na cela. As refeições, segundo a Cruz Vermelha, não incluíam fruta nem legumes. As sevícias incluíam o “feijão macaco”, um pó que provocava urticária extrema. Entre 1965 e o 25 de abril de 1974, 260 presos políticos morreram lá.

Malangatana sobreviveu, e desenhou. Cerca de cem desenhos saíram da cela, alguns escondidos debaixo do colchão e enviados para o exterior por mãos amigas. Trocou o óleo pela tinta-da-china, pela esferográfica, pelo lápis. Trocou o platex pelo papel. Trocou o grande pelo pequeno, o cavalete pelo regaço.
Os títulos da série são reportagem: Sala de castigo da PIDE, Apoio moral aos espancados da cela IV, Chico Feio o espancador da PIDE (Chico Feio era o apelido de um agente), Pavilhão 9 da Cadeia da Machava da PIDE, Suicídio do Prisioneiro I, II, III, IV, Imaginando a Fuga. A linha é nervosa, a composição apertada, os corpos amontoam-se na exiguidade do papel da mesma maneira que se amontoavam na exiguidade da cela. Em 2021, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque adquiriu Sala de castigo da PIDE, com fundos doados pela família Kravis. Outros desenhos da série pertencem hoje ao Art Institute of Chicago e à Fundação Mário Soares, em Lisboa.
Há na série uma obra mais inesperada. O Sonho do Prisioneiro, de 1965, mostra Malangatana a si próprio a acariciar uma figura feminina nua e voluptuosa, ambos deitados sobre uma cama de fruta. As maçãs e peras esféricas ecoam a forma dos seios. Numa cadeia onde a comida não tinha fruta, o sonho do prisioneiro alimenta o desejo e a fome com a mesma matéria.
O arquiteto José Forjaz, amigo de Malangatana desde os anos 1960, contou ao Diário de Notícias em 2016, a propósito da exposição “Os anos da prisão”: “Nunca ouvi o Malangatana falar especificamente da sua passagem pela prisão.” A obra falava por ele.
25 de Setembro, 1968
Saiu da Machava em novembro de 1966. Em 1968 pintou 25 de Setembro, com o título referente à data do início da luta armada da FRELIMO em 1964. A 4 de janeiro de 1971, a PIDE/DGS chamou-o ao quartel para esclarecer o “simbolismo” do quadro. A polícia que tinha deixado de o prender continuava a interrogar a tela.
Nesse ano, Malangatana recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar gravura e cerâmica em Lisboa. O Ministro do Ultramar mandou retê-lo no aeroporto de Lourenço Marques. O despacho foi revogado. Chegou a Lisboa a 17 de janeiro de 1971, frequentou a Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses e a Fábrica Viúva Lamego. A primeira individual em Portugal aconteceu em março de 1972, na Galeria Buchholz e na Sociedade Nacional de Belas Artes, organizada por Rui Mário Gonçalves. Aí foram expostas duas pinturas que hoje pertencem à Coleção Moderna da Gulbenkian: Porque a alma vive eternamente e Quando foi das cheias.
Sobre a sua pintura nesse momento, Malangatana deu uma das definições mais económicas da sua matéria. Num depoimento à revista NOVA, publicado a 2 de janeiro de 1970: “O horror abre as portas ao fantástico.”
Maputo, 1977: Malangatana passa do cavalete para o mural
A independência de Moçambique foi proclamada a 25 de junho de 1975. Em 1976, Malangatana foi detido pela própria FRELIMO e enviado para um campo de reeducação no norte do país. Acusação: “comportamento colonialista no tempo colonial”. Foi libertado em 1977 e regressou a Maputo. A polícia que tinha mudado de nome continuou a interrogar a mesma obra.

Foi a partir desse ano que a obra dele começou a ocupar paredes em vez de cavaletes. O Homem e a Natureza, no exterior do Museu de História Natural de Maputo, foi iniciado em 1977 e concluído em 1979. Seguiram-se o painel do Centro de Desenvolvimento Sanitário do Benfica em 1985, o painel da Associação Cultural Casa Velha em cimento de 1991, e uma escultura de cerca de 20 metros em ferro e cimento em Infulene, de 1995.
A partir do final dos anos 1990, os murais ganharam função celebratória. O mural do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, de 1999, comemora os 30 anos do assassínio de Eduardo Mondlane. O da Faculdade de Medicina, de 2000, atravessa seringas, ligaduras e corações sobre o diálogo entre medicina tradicional e moderna. O painel da entrada do Palácio dos Casamentos foi descrito pelo poeta Eduardo White, em texto recordado pelo jornal O País, como “um sopro táctil para o amor”. E o Pavilhão de Moçambique na Expo 98 de Lisboa fechou a década com os mesmos crocodilos a olhar para os portugueses na sua capital.
A passagem do quadro de cavalete para o mural mudou a função da obra. O quadro vive numa coleção privada ou num museu. O mural ocupa uma cidade. Malangatana fez à arquitetura de Maputo o que tinha feito à tela: tornou-a moçambicana, não pela substituição do edifício colonial, mas pela sua reinvestidura iconográfica. O Museu de História Natural, instituição imperial, passou a ter na fachada uma cosmogonia ronga. A Faculdade de Medicina passou a anunciar-se com a iconografia do nyamussoro, o curandeiro tradicional, ao lado do equipamento clínico ocidental.
Onde está a minha mãe, 1986

A paleta de Malangatana mudou em três tempos. As telas de 1960 e 1961 são dominadas por cores planas, com predominância do azul, do branco e de superfícies quase chapadas. A Última Ceia de 1964 abriu o leque cromático: multiplicaram-se os tons nos rostos, as linhas pretas ganharam peso. Os anos 1980 e 1990 intensificaram o vermelho.
Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros?, óleo sobre tela de 232 por 198 centímetros datado de 1986, é uma das telas em que o vermelho deixa de ser pormenor e passa a ser o ar respirado pelas figuras. Os rostos amontoam-se até à exaustão do espaço, com os olhos a procurarem uma saída que a tela não dá.
O quadro foi pintado em pleno conflito entre o governo da FRELIMO e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), guerra civil que durou de 1977 a 1992. Em 1996, no Jornal de Letras, Mia Couto escreveu sobre a pintura do amigo: “Estes rostos repetidos até à exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana.” E acrescentava: “No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço.”
Os monstros que Malangatana tinha pintado em 1961, antes da PIDE, sobreviveram à PIDE. Os mesmos monstros sobreviveram à FRELIMO. Em 2010, ao falar à agência Lusa pouco antes da morte, o pintor disse: “Há sempre um manancial de temas a abordar. São os acontecimentos do mundo, às vezes tristes, outras alegres, e eu não fico indiferente. Seja em Moçambique, ou noutra parte do mundo, a dor humana é a mesma.”
Lourenço Marques e Lisboa: a constelação ao redor
Malangatana não estava sozinho. Em 1964, José Craveirinha, nascido em Lourenço Marques em 1922 de pai algarvio e mãe ronga, publicou Chigubo na editora da Casa dos Estudantes do Império (CEI), em Lisboa. Chigubo, em ronga, é uma dança tradicional que inicia ou termina uma batalha. A PIDE apreendeu o livro.
A CEI tinha sido criada em 1944 pelo Ministério das Colónias e pelo Comissariado Nacional da Mocidade Portuguesa para enquadrar os estudantes vindos do império. Transformou-se rapidamente no laboratório dos seus opositores. Por lá passaram Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos, Joaquim Chissano, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Pepetela. A revista Mensagem, fundada em julho de 1948, foi durante 16 anos o canal pelo qual a poesia anticolonial em língua portuguesa apareceu publicada. A historiadora Cláudia Castelo descreveu a Casa como lugar de memória anticolonial, no sentido cunhado por Pierre Nora. A PIDE encerrou-a em setembro de 1965, no mesmo ano em que Craveirinha e Malangatana estavam na Machava.
A constelação angolana tem outro contorno. Luandino Vieira, pseudónimo de José Vieira Mateus da Graça, escreveu Luuanda na cadeia de Luanda em 1962 e Nós, os do Makulusu no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, onde cumpriu oito anos. Pepetela, pseudónimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, escreveu Mayombe como combatente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) na frente leste, no início dos anos 1970. Mayombe foi publicado em 1980 com apoio explícito do então presidente Agostinho Neto. A literatura angolana fez-se simultaneamente nas cadeias da metrópole e nos acampamentos da guerrilha. A moçambicana fez-se quase toda dentro de Lourenço Marques.
A geração que herdou
Há um equívoco frequente em leituras europeias da literatura moçambicana. Coloca os escritores da independência como inauguradores de uma literatura nacional. Mia Couto, autor moçambicano nascido em 1955 na Beira, é frequentemente lido assim. A biografia desmente a hipótese. Mia Couto publicou os primeiros poemas no jornal Notícias da Beira em 1969, tinha 14 anos. Vozes Anoitecidas, primeiro livro de ficção, saiu em 1986, onze anos depois da independência.
A relação entre Mia Couto e Malangatana ficou registada em dois livros infantis ilustrados pelo pintor: O Pátio das Sombras, de 2001, e O Beijo da Palavrinha, publicado em 2006 pela Editora Língua Geral. Os crocodilos da Despedida para a Guerra atravessam três décadas e voltam a aparecer no pincel que ilustra contos para crianças moçambicanas que nasceram já depois da paz.
Mia Couto não inventou a literatura moçambicana. Herdou-a.
Matosinhos, janeiro de 2011
Malangatana foi nomeado Artista pela Paz pela UNESCO em 1997. Na ocasião, o então diretor-geral da organização, Federico Mayor, disse dele ao Público: “É muito mais do que um criador; é alguém que demonstra que há uma linguagem universal, a linguagem da arte, que nos permite comunicar uma mensagem de paz e a recusa da guerra.”
Recebeu o Prémio Príncipe Claus, o doutoramento honoris causa pela Universidade de Évora em 2010, a Ordem Eduardo Mondlane do Primeiro Grau, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Foi deputado da FRELIMO entre 1990 e 1994. Em 2010, pintou um Fiat 500 a convite da família Ferreira dos Santos. Chamou ao automóvel A Italiana e levou doze dias a pintá-lo.
Morreu a 5 de janeiro de 2011 no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, depois de um cancro. A 7 de janeiro, a missa de corpo presente decorreu nos Jerónimos, em Lisboa, organizada pelo Ministério da Cultura português e pela Embaixada de Moçambique. O corpo foi trasladado para Maputo. Está sepultado em Matalana, a poucos metros da casa onde nasceu em 1936.
Numa frase atribuída ao próprio pintor e citada pelo jornal moçambicano O País, está a definição mais económica da matéria toda: “Pinto ódio, feitiço, crime, angústia, paixão pela vida e pela poesia.” Cinco substantivos, por esta ordem. O ódio antes do feitiço, o crime antes da angústia, a paixão pela vida antes da poesia.
A sua obra está em Lisboa, Cleveland, Chicago, Nova Iorque, Nova Deli, Maputo, Matalana, Beira, Joanesburgo, Reiquiavique, Medellín, e nas paredes de várias cidades de Moçambique e da África austral. Em Matalana, há uma fundação com o seu nome Em Maputo, em 2017, o mural do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane foi atravessado por um tubo de canalização aberto.







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