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Início Ciência e ambiente

Eclipse do sol em Bragança: a longa história do céu que parou de assustar

por Jorge Montez
12.06.2026
em Ciência e ambiente
2
Pintura alegórica de um eclipse total do sol: à esquerda, multidão antiga olha o céu com gestos de temor; à direita, astrónomos do século XIX observam com telescópio junto a uma tenda de expedição.

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Durante milénios, o eclipse do sol anunciou a morte de reis. Em agosto de 2026, anuncia trânsito intenso no nordeste transmontano. O que mudou entre uma coisa e outra.

Resumo
I
A 12 de agosto de 2026, Portugal volta a escurecer
A totalidade será visível durante 26 segundos numa estreita faixa do Parque Natural de Montesinho, junto a Bragança. O último eclipse total em Portugal continental foi em 1912.
II
Durante milénios, o eclipse foi mensagem dos deuses
Uma tabuinha de Ugarit de 1223 a.C. regista o céu apagado como presságio. No rio Halys, em 585 a.C., um eclipse fez lídios e medos pararem a guerra a meio.
III
Em 1715, Edmond Halley mapeou um eclipse antes de ele acontecer
O astrónomo inglês publicou um cartaz com a trajetória prevista da sombra sobre Inglaterra, vendido por seis pence, e acertou com um desvio de quatro minutos.
IV
O eclipse tornou-se instrumento de descoberta científica
Em 1868 revelou o hélio antes de este ser achado na Terra; em 1919, no Príncipe, a expedição de Arthur Eddington usou-o para confirmar a relatividade de Einstein.

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A 12 de agosto de 2026, ao final da tarde, durante vinte e seis segundos, a aldeia de Guadramil ficará no escuro. A Lua passará à frente do Sol em alinhamento perfeito, a sombra cairá sobre uma estreita faixa do Parque Natural de Montesinho, e Portugal verá um eclipse do Sol total pela primeira vez desde abril de 1912. O próximo será em 2144.

Tudo está calculado ao segundo. A precisão dos cálculos tornaria orgulhoso Edmond Halley, o astrónomo inglês que em março de 1715 produziu o primeiro mapa rigoroso da trajetória de um eclipse, três séculos antes.

Halley publicou então um pequeno cartaz, vendido em Londres por seis pence, com a trajetória prevista de um eclipse que iria atravessar o sul de Inglaterra a 22 de abril daquele ano. O texto de acompanhamento explicava que se tratava de um fenómeno raro, de duração breve, e indicava as cidades por onde a faixa de sombra iria passar.

Mas explicava sobretudo outra coisa. O povo, se não fosse avisado, escreveu Halley, “ficaria inclinado a vê-lo como Ominoso, e a interpretá-lo como pressagiando o mal ao nosso Soberano Rei Jorge e ao seu Governo, que Deus preserve”. O cartaz servia para o impedir. Servia para mostrar que “não há nele nada de mais que Natural, e nada mais que o resultado necessário dos Movimentos do Sol e da Lua”.

“
não há nele nada de mais que Natural, e nada mais que o resultado necessário dos Movimentos do Sol e da Lua
Edmond Halley, no cartaz do eclipse de 1715

A frase de Halley é o ponto exato de uma viragem que demorou milhares de anos. Por trás dela está a memória longa de uma humanidade que durante quase toda a sua história olhou para o céu obscurecido em pleno dia e leu nele significado. Por trás dela está o eclipse como ferida cósmica, presságio régio, anúncio de catástrofe, sinal de que os deuses estavam zangados ou os mortos perto.

Por cima dela está o eclipse como cálculo, como mecânica celeste, como evento de calendário. Bragança, em agosto de 2026, é o que sobrou da promessa de Halley cumprida com três séculos de juros.

Índice

  • Quando o céu era um aviso
  • Halley: o mapa que desfez o presságio
  • O elemento que veio do Sol
  • Ovar, 1900: vinte e cinco mil pessoas em comboios especiais
  • Príncipe, 29 de maio de 1919: Portugal no ponto exato
  • A coincidência que não vai durar: por que os eclipses totais vão acabar
  • O céu calculado

Quando o céu era um aviso

Os registos mais antigos de eclipses solares vêm da Mesopotâmia. Numa tabuinha de barro cozido encontrada nas ruínas da cidade de Ugarit, na costa síria, está descrito um eclipse total ocorrido em 1223 a.C.. O texto é curto e gélido: “O Sol pôs-se, o seu guarda-portão era Marte.” Em seguida lê-se: “Dois fígados foram examinados: perigo.”

Os adivinhos da corte tinham aberto dois animais sacrificados aos deuses para ler nas vísceras o sinal correspondente ao apagar inesperado do dia. A leitura foi a esperada.

Perigo para o rei, para o reino, para a ordem do mundo.

Os astrónomos-sacerdotes babilónicos e assírios foram os primeiros a perceber que aquilo se repetia. Por volta do ano 600 a.C., registavam eclipses em séries de tabuinhas cuneiformes conhecidas como Enuma Anu Enlil, e tinham detectado um padrão temporal de aproximadamente 6.585 dias entre eclipses semelhantes.

O ciclo viria a ser batizado de Saros por Edmond Halley, milénios depois, numa tradução errada de um símbolo sumério que originalmente significava algo como “universo” ou “grande número”. Mas a descoberta era inteira: o céu não era arbitrário, tinha ritmo, podia ser previsto.

o céu não era arbitrário, tinha ritmo, podia ser previsto

A previsão não desfazia, contudo, o significado. O eclipse continuava a ser uma mensagem. Eckart Frahm, professor de Assiriologia em Yale, explica que os astrónomos babilónicos viam os presságios como anunciadores de um futuro possível, não inevitável.

O conhecimento prévio era precisamente o que permitia tomar medidas: o rei podia recolher-se, abdicar temporariamente do trono, colocar um substituto no lugar para receber a má sorte, e regressar passado o perigo. Saber que vinha um eclipse era a condição para se proteger dele, não para o ignorar.

Na China antiga, o sol era o símbolo do imperador. Um eclipse era ameaça pessoal ao soberano. O Shu Ching, ou Livro dos Documentos, conserva o relato de um eclipse ocorrido em outubro de 2137 a.C., no reinado de Zhong Kang. A versão lendária do episódio conta que dois astrónomos da corte, Hsi e Ho, foram executados por terem falhado a previsão e deixado o imperador desprotegido.

A história é provavelmente apócrifa, ou pelo menos enfeitada. Mas a moral resiste: o astrónomo da corte tinha um trabalho que envolvia a vida do estado, e o eclipse era o seu teste.

A imagem do eclipse a alterar o curso da história tem na Antiguidade um caso famoso. Heródoto, no primeiro livro das Histórias, conta que durante uma batalha entre o rei lídio Aliates e o rei medo Ciaxares, no rio Halys, na atual Anatólia, “o dia subitamente se tornou em noite”. Os dois exércitos pararam de combater, depuseram as armas e, com a mediação dos reis da Cilícia e da Babilónia, negociaram a paz. O Halys passou a fronteira entre os dois reinos.

Heródoto acrescenta que o eclipse “tinha sido predito por Tales de Mileto, que fixara para ele o próprio ano em que ocorreu”. A astronomia moderna, recuando os cálculos no tempo, identifica o acontecimento com o eclipse de 28 de maio de 585 a.C., e usa-o como uma das primeiras datas absolutas da história antiga.

A previsão de Tales é outra história. Willy Hartner, historiador da ciência alemão, num artigo de 1969 na revista Centaurus intitulado Eclipse Periods and Thales’ Prediction of a Solar Eclipse: Historic Truth and Modern Myth, defendeu que Tales não dispunha de método capaz de produzir tal previsão.

Dirk Couprie, filósofo holandês, em estudo de 2004 publicado em Early Science and Medicine, foi mais direto: a previsão de Tales, se aconteceu, foi coincidência feliz. Miguel Querejeta, astrofísico espanhol, num trabalho posterior sobre ciclos e probabilidades, mostrou que os mecanismos preditivos atribuídos a Tales por outros autores também não resistem à análise estatística.

O consenso da historiografia recente é claro: Tales pode ter dito que viria um eclipse, e pode até ter acertado, mas não dispunha do aparelho conceptual necessário para o calcular.

O detalhe interessa por dois motivos. O primeiro é que a história tem sido contada durante dois mil e quinhentos anos como exemplo precoce da racionalidade grega a domesticar o céu. Heródoto está na origem da lenda, mas a lenda viveu por si própria. A imagem de Tales a calcular um eclipse e a antecipar uma batalha tornou-se útil porque permitia situar no oriente egeu do século VI a.C. uma origem para o gesto científico ocidental.

O segundo motivo é mais profundo: ainda que Tales não tenha previsto coisa nenhuma, o que importa na cena descrita por Heródoto é a reação dos exércitos. O dia tornou-se em noite, e os dois reis tomaram aquilo como sinal. Pararam a guerra. O eclipse continuava a fazer parar reinos.

Saber que vinha um eclipse era a condição para se proteger dele, não para o ignorar

Halley: o mapa que desfez o presságio

A frase de Halley em 1715 não é primeira aparição da ideia de que o eclipse é fenómeno natural. Pelo menos desde Anaxágoras de Clazómenas, no século V a.C., os filósofos da natureza tinham proposto explicações geométricas para o obscurecimento súbito do sol. Aristarco de Samos, no século III a.C., recorreu a observações de eclipses lunares para estimar os tamanhos relativos do Sol e da Lua. A astronomia árabe medieval, dos séculos IX a XIII, refinou os modelos ptolemaicos a um grau de precisão considerável.

A novidade de Halley não estava no princípio. Estava na convergência de três coisas que, juntas, mudavam o estatuto público do eclipse.

A primeira era a aplicação prática da nova mecânica de Isaac Newton, publicada nos Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica em 1687 com financiamento e insistência editorial do próprio Halley. A segunda era a disponibilidade de séries observacionais longas, em parte herdadas dos astrónomos islâmicos, em parte compiladas pelos observatórios europeus do século XVII. A terceira era a imprensa popular, capaz de fazer chegar a milhares de pessoas, em poucos dias, um mapa impresso por seis pence.

Halley combinou as três. O resultado foi o primeiro mapa cartograficamente fiável de um eclipse amplamente divulgado, com a faixa de totalidade marcada como um óvalo sombreado a riscar Inglaterra de noroeste para sueste.

A precisão do mapa ficou comprovada no próprio dia. A 22 de abril de 1715, ao início da manhã, o eclipse seguiu a trajetória anunciada com um desvio de cerca de quatro minutos no tempo e vinte milhas no espaço. Halley observou-o do edifício da Royal Society, em Crane Court, sob “um céu de perfeito azul sereno”, como registou no seu relato do eclipse.

A demonstração era pública, mensurável, repetível. O céu tinha entrado na física newtoniana.

A intenção política não era acidental. Em 1715, Jorge I, da casa de Hanôver, estava no trono há sete meses, depois de uma sucessão contestada. O pretendente Stuart, Jaime Eduardo, preparava em Saint-Germain a rebelião jacobita que rebentaria no outono.

Mapa impresso de Edmond Halley de 1715 com a faixa de totalidade do eclipse marcada como óvalo sombreado a atravessar Inglaterra de noroeste para sueste.
O cartaz de Edmond Halley para o eclipse de 22 de abril de 1715, com a faixa de sombra traçada sobre Inglaterra. Foi vendido em Londres por seis pence e acertou a trajetória com um desvio de cerca de 20 milhas. Imagem: Wikimedia Commons

O eclipse era o tipo de fenómeno que, num momento de tensão dinástica, podia ser instrumentalizado como sinal celeste contra o novo rei. Halley apressou-se a desmontar essa possibilidade. O cartaz funcionava como peça simultânea de divulgação científica, propaganda hanoveriana, e instrução pública. A frase sobre não ser “nada de mais que Natural” era uma neutralização explícita do potencial sedicioso da escuridão.

Há nesta combinação algo de exemplar para o que viria depois. Halley não disse apenas que o eclipse era natural. Disse-o, marcou-o no mapa, datou-o ao minuto, e depois pediu aos leitores que tomassem notas das observações para futuro refinamento das previsões.

Era ciência pública num formato que ainda não tinha nome e que viria a dominar o século XVIII: cidadãos como instrumentos auxiliares do conhecimento, observação distribuída, mapa em vez de oráculo. O céu passava a ser objeto comum, partilhável, calculável. Deixava de pertencer ao rei ou ao sacerdote. Passava a pertencer a quem soubesse fazer contas.

O elemento que veio do Sol

Uma vez calculado, o eclipse podia tornar-se outra coisa: instrumento de descoberta. Os minutos em que o disco solar fica completamente coberto são a única janela natural disponível para observar a coroa solar, a camada exterior da atmosfera do Sol, normalmente apagada pelo brilho do disco visível.

Os astrónomos do século XIX, equipados com a nova ferramenta da espectroscopia, perceberam depressa que durante essa janela podiam decompor a luz da coroa e ler nela a composição química de uma estrela.

A 18 de agosto de 1868, na cidade de Guntur, então na presidência de Madras da Índia britânica, o astrónomo francês Pierre Jules César Janssen observou um eclipse total com um espectroscópio acoplado à luneta. A totalidade durou cerca de seis minutos.

Retrato fotográfico do astrónomo francês Pierre Jules César Janssen, que detetou o hélio no espectro solar durante o eclipse de 1868.
Pierre Jules César Janssen detetou no eclipse de 18 de agosto de 1868, em Guntur, uma risca amarela no espectro solar que viria a revelar um elemento ainda desconhecido na Terra. Imagem: fotógrafo desconhecido / Wikimedia Commons

No espectro das proeminências solares, Janssen detectou uma risca brilhante na zona do amarelo, com comprimento de onda de aproximadamente 588 nanómetros, que não correspondia ao espectro de nenhum elemento então conhecido na Terra. Reparou também que a risca era suficientemente intensa para poder ser observada fora da fase de totalidade, com filtragem adequada.

No dia seguinte, com céu encoberto a impedir nova observação total, Janssen ajustou os instrumentos para isolar aquele comprimento de onda específico, e confirmou: a risca estava lá, mesmo sem eclipse.

Em paralelo, em Inglaterra, o astrónomo Joseph Norman Lockyer chegava à mesma conclusão por método independente, em outubro do mesmo ano, sem ter saído de Londres. Ambos publicaram. Tanto Janssen como Lockyer foram creditados, e a Academia das Ciências de Paris mandou cunhar uma medalha comemorativa com os dois retratos.

O novo elemento foi batizado de hélio, do grego helios, sol. Era a primeira vez que um elemento químico era detectado fora da Terra antes de ser isolado nela. Só em 1895 William Ramsay, químico escocês, viria a isolá-lo numa amostra terrestre, a partir do mineral cleveíte.

A descoberta do hélio mostra o eclipse a mudar de função outra vez, cento e cinquenta e três anos depois do mapa de Halley. Ao fenómeno previsível juntava-se agora o instrumento de trabalho.

A totalidade tinha-se transformado num laboratório breve, irrepetível, onde o universo deixava temporariamente entrar a observação direta de coisas que normalmente esconde. As expedições astronómicas que durante o resto do século XIX e a primeira metade do XX percorreram o mundo atrás de eclipses, das estepes russas ao Pacífico Sul, não andavam atrás de espectáculo. Andavam atrás de minutos.

Ovar, 1900: vinte e cinco mil pessoas em comboios especiais

A passagem do eclipse de presságio a espetáculo público demorou outro século a chegar a Portugal em escala visível. A 28 de maio de 1900, uma estreita faixa de totalidade atravessou o continente europeu de norte a sul, entrou em Portugal pela Beira Litoral e cruzou a região de Ovar antes de seguir para Espanha.

Foi o primeiro eclipse total visível em território português continental desde o século anterior, e o primeiro a coincidir com uma rede ferroviária minimamente capilarizada.

A Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses organizou comboios especiais. Cerca de 25.000 pessoas terão acorrido a Ovar, número considerável para um país cuja capital tinha então pouco mais de 350.000 habitantes. Entre os visitantes contaram-se os príncipes D. Luís Filipe e D. Manuel.

O Real Observatório Astronómico de Lisboa, então dirigido por César Augusto Campos Rodrigues, instalou um posto de observação na zona; o trabalho científico foi conduzido sobretudo por Frederico Oom, segundo-tenente da Armada e astrónomo do observatório.

Os historiadores da ciência Luís Miguel Carolino e Ana Simões, num artigo de 2012 na revista Annals of Science intitulado The eclipse, the astronomer and his audience: Frederico Oom and the total solar eclipse of 28 May 1900 in Portugal, reconstroem a teia institucional, política e jornalística que envolveu a observação.

A monarquia constitucional usou o evento como demonstração de modernidade científica nacional. Os jornais cobriram-no como notícia. Foram editados livros instrutivos com indicações de observação. Pediu-se ao público que ajudasse a registar o instante exato da totalidade em diferentes localidades. A frase de Halley estava cumprida em massa: o eclipse era natural, era previsível, era observável por todos.

Fotografia de 28 de maio de 1900, de Ricardo Ribeiro, a mostrar a missão de observação do eclipse do sol em Ovar, com instrumentos astronómicos e observadores.
O eclipse de 28 de maio de 1900 levou a Ovar cerca de 25 mil pessoas, em comboios especiais a partir de Lisboa. A missão científica portuguesa fotografada por Ricardo Ribeiro

Doze anos depois, a 17 de abril de 1912, outro eclipse total atravessou Portugal continental. Desta vez a faixa era mais estreita, e a região de Ovar voltou a estar dentro dela. O evento ocorreu dois dias depois do naufrágio do Titanic, e a sobreposição dos dois acontecimentos no noticiário internacional não passou despercebida.

Concentraram-se em Ovar quatro expedições astronómicas: uma russa, uma francesa, uma inglesa, e uma portuguesa da Universidade de Coimbra, esta última coordenada por Francisco Costa Lobo, professor de astronomia. A CP organizou outra vez comboios especiais a partir de Lisboa.

A expedição portuguesa fez na quinta de S. Miguel, em Ovar, aquele que é considerado o primeiro filme científico produzido em Portugal. O aparelho era de um fotógrafo amador, o tenente Nogueira Ferrão, sócio da União Cinematográfica Limitada, que com autorização de Costa Lobo acoplou uma câmara de filmar à luneta astronómica da Universidade e registou todas as fases do eclipse.

A Lusa Film registou em paralelo, em Lisboa, o eclipse parcial visto da capital, com a fita O Eclipse do Sol em Lisboa estreada no Salão Central a 11 de maio. O cinema e a ciência convergiam num evento que era simultaneamente fenómeno natural, dado para a astrofísica, atração popular, e oportunidade comercial.

A Sociedade Portuguesa de Física publicou um artigo retrospectivo sobre estes eclipses, recordando que a partir de 1900 o estudo da coroa solar, da composição química do Sol e da ligação do ciclo solar à actividade magnética terrestre se tornou domínio reservado a equipas profissionais com instrumentos cada vez mais sofisticados.

O eclipse deixava de ser apenas espectáculo e passava a ser laboratório. Em 1900 e 1912, Portugal foi, durante uns minutos, ponto privilegiado desse laboratório.

Príncipe, 29 de maio de 1919: Portugal no ponto exato

A trajetória da expedição mais consequente da história moderna dos eclipses começou também em Portugal. A 9 de março de 1919, Arthur Stanley Eddington, astrónomo do observatório de Cambridge, e Edwin Cottingham, relojoeiro de profissão e técnico da expedição, embarcaram em Liverpool no vapor Anselm com destino ao Funchal.

Acompanhava-os o material óptico e fotográfico que tinham conseguido reunir, em grande parte emprestado pelo Observatório de Oxford, uma vez que Cambridge não dispunha de equipamento próprio adequado a observações de eclipses fora do hemisfério norte.

A primeira escala foi precisamente Lisboa, onde Frederico Oom, o mesmo que coordenara a observação de 1900, os recebeu no Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda. Eddington tinha estado de passagem em Lisboa em 1912, a caminho de outra expedição falhada, à observação do eclipse em Passa Quatro, no Brasil, que então foi arruinada pelo mau tempo. A reconstituição mais detalhada da expedição e dos contactos portugueses está no estudo de Elsa Mota, Paulo Crawford e Ana Simões publicado no British Journal for the History of Science em 2009.

As suas impressões sobre a capital portuguesa, registadas no relato que mais tarde redigiu, mudaram. Em 1912 dissera que Lisboa não parecia uma capital europeia, mas antes um entreposto comercial em jeito de grande mercado. Em 1919 notou apenas que parecia pacífica, cheia de soldados e sem polícia à vista. A Primeira Guerra tinha acabado havia poucos meses.

De Lisboa, Eddington e Cottingham seguiram para o Funchal e, daí, no vapor Portugal da Companhia Nacional de Navegação, com escalas em São Vicente e na Praia, até à ilha do Príncipe. Desembarcaram em Santo António a 23 de abril.

O local escolhido para as observações foi a Roça Sundy, uma exploração de cacau no noroeste da ilha do Príncipe. Os astrónomos instalaram-se na casa principal da roça, e a 28 de abril mudaram-se com o equipamento, transportado em mulas e carruagem, para o local definitivo, nas traseiras da casa do administrador, com vista para oeste e norte.

A 29 de maio de 1919, ao início da tarde, a Lua entrou à frente do Sol e a totalidade durou cerca de cinco minutos no Príncipe, número generoso comparado com os vinte e seis segundos que Bragança terá em 2026.

As condições não tinham sido ideais. Já desde meados de maio o céu se tinha vindo a encobrir, e na manhã do eclipse choveu até quase à hora prevista. As nuvens só se abriram a tempo para Eddington fotografar uma parte da totalidade, em condições muito longe das que esperava.

Chapa fotográfica do eclipse total de 29 de maio de 1919, com o disco solar coberto e estrelas marcadas em redor, usada para medir o desvio da luz.
A chapa do eclipse de 29 de maio de 1919 que serviu para medir o desvio da luz das estrelas junto ao Sol, reproduzida no relatório da expedição. Esta foi obtida em Sobral, no Brasil, equipa paralela à de Arthur Stanley Eddington na ilha do Príncipe.

Foram tiradas dezasseis chapas fotográficas, das quais apenas duas se revelaram aproveitáveis. Eddington conduziu pessoalmente o tratamento das imagens nos dias seguintes, ainda no Príncipe, e calculou as posições aparentes das estrelas em torno do Sol obscurecido.

A questão científica era precisa. A teoria da relatividade geral, publicada por Albert Einstein em 1915, previa que a luz das estrelas, ao passar próximo de uma massa como o Sol, seria desviada num ângulo aproximadamente duplo do que a mecânica de Newton previa, com um valor calculado em cerca de 1,75 segundos de arco para os raios rasantes ao disco solar.

Sem um eclipse total, era impossível ver estrelas tão próximas do Sol; com um, era possível fotografá-las e medir a posição delas em comparação com a posição que tinham quando o Sol estava noutro ponto do céu. A medição equivalia a um teste empírico de uma teoria que tinha o potencial de substituir a mecânica de Newton como descrição da gravidade.

Em paralelo, uma segunda equipa, dirigida por Charles Davidson e Andrew Crommelin, do Observatório de Greenwich, instalara-se em Sobral, no estado brasileiro do Ceará, na faixa de totalidade do mesmo eclipse a oeste do Atlântico. As condições em Sobral foram melhores que no Príncipe, e as chapas obtidas foram em maior número.

Os resultados consolidados foram apresentados a 6 de novembro de 1919, em sessão conjunta da Royal Society e da Royal Astronomical Society, em Londres. Os valores medidos da deflexão da luz coincidiam, dentro das margens de erro experimental da época, com a previsão einsteiniana. O presidente da Royal Society, J. J. Thomson, descobridor do electrão, declarou a confirmação como “uma das mais altas realizações do pensamento humano”.

A imprensa internacional, em poucos dias, transformou Einstein, até então conhecido sobretudo nos círculos académicos centro-europeus, em figura global. O Times de Londres, a 7 de novembro, abriu com o título “Revolução na ciência. Nova teoria do universo. Ideias de Newton derrubadas”.

Os físicos portugueses José Lemos, Carlos Herdeiro e Vítor Cardoso, num artigo de 2019 que reconstroi a expedição cem anos depois, sublinham que a confirmação no Príncipe não fechou nada do ponto de vista experimental, e que medições posteriores, em eclipses e por outras vias, continuaram durante décadas a apertar as margens de erro. O que se passou em maio de 1919 foi simbólico mais do que conclusivo. Mas o símbolo bastou.

Bastou também porque o eclipse permitiu o gesto. Sem ele, a teoria de Einstein teria continuado a ser argumento matemático sem âncora visível. A coroa solar e as estrelas brevemente visíveis em pleno dia, em maio de 1919 numa roça de cacau da ilha do Príncipe, fizeram o que nem o reino de Aliates conseguiu fazer: tornaram visível, em vinte segundos de chapa fotográfica, a curvatura do espaço-tempo prevista numa equação alemã de 1915.

O que se passou em maio de 1919 foi simbólico mais do que conclusivo. Mas o símbolo bastou

A coincidência que não vai durar: por que os eclipses totais vão acabar

O Sol é cerca de 400 vezes maior em diâmetro do que a Lua. Está também cerca de 400 vezes mais longe da Terra.

Os dois corpos parecem, por isso, do mesmo tamanho vistos da superfície terrestre, com pequenas variações conforme a posição da Lua na sua órbita elíptica. É esta coincidência que torna possíveis eclipses totais.

Se a Lua fosse um pouco mais pequena, ou estivesse um pouco mais longe, veríamos apenas eclipses anulares, com um anel solar a contornar a Lua. Se fosse maior ou mais próxima, a totalidade seria mais longa mas a coroa solar nunca apareceria.

A coincidência não é eterna. A Lua afasta-se da Terra a uma velocidade aproximada de 3,8 centímetros por ano, medida com precisão graças aos retro-reflectores instalados pelas missões Apollo a partir de 1969.

Estima-se que dentro de cerca de 600 milhões de anos a Lua estará demasiado longe para cobrir completamente o disco solar. Os eclipses totais, então, deixarão de acontecer. Continuarão a haver eclipses parciais e anulares, mas o fenómeno que parou a guerra do rei lídio Aliates, que mobilizou vinte e cinco mil pessoas em comboios especiais para Ovar em 1900, e que confirmou Einstein em 1919, deixará de existir. A Terra atravessa, por acidente cosmológico, a janela exata em que a geometria do céu permite este alinhamento.

O eclipse total é, nesta forma, um privilégio terrestre de duração limitada, marcado para terminar dentro do mesmo prazo geológico em que a vida complexa apareceu no planeta.

O céu calculado

A diferença entre o eclipse de 585 a.C. no rio Halys e o eclipse de 12 de agosto de 2026 em Bragança mede-se em mais do que o intervalo entre superstição e ciência. Separa dois modos de habitar o céu.

Os exércitos de Aliates e Ciaxares interromperam a batalha porque o que estava acima deles era simultaneamente fenómeno físico e mensagem. A noite a meio do dia exigia interpretação. A interpretação era política, religiosa, dinástica, militar. E mudava o curso da história imediata.

O eclipse de 2026 não vai mudar nada. Em Bragança, o Plano Nacional de Observação foi apresentado pela Ciência Viva, Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, a 17 de fevereiro de 2026. O Centro Ciência Viva terá um posto móvel na Estrada Nacional 308, entre Rio de Onor e Guadramil. As pousadas e alojamentos locais começaram a esgotar há meses. Telescópios, óculos certificados ISO 12312-2, aplicações que cronometram a totalidade ao segundo, mapas interactivos da faixa de sombra. Pedro Mota Machado, astrónomo do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e comissário nacional para o eclipse, descreveu o que está em causa: “durante cerca de 26 segundos, a população da região do Parque Natural de Montesinho irá observar um eclipse total que revela a Coroa Solar”.

O céu escurecerá em cerca de 99 por cento em Bragança, 98,2 no Porto, 94,5 em Lisboa. Vai movimentar turismo no nordeste transmontano, sobrecarregar a rede de hotéis, encher os centros Ciência Viva de visitantes, gerar imagens em redes sociais. Vai durar vinte e seis segundos no ponto certo do Parque de Montesinho.

Mapa da Península Ibérica com as faixas de totalidade dos eclipses solares de 2026, 2027 e 2028, com a de 12 de agosto de 2026 a tocar o nordeste de Portugal.
A faixa de totalidade do eclipse de 12 de agosto de 2026 toca apenas uma estreita região do nordeste de Portugal, junto a Bragança, antes de atravessar o norte de Espanha. Imagem: Pmisson, Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Vai ser, ao mesmo tempo, evento natural, evento turístico, evento mediático, dado astrofísico residual, oportunidade pedagógica. Não vai ser presságio de nada porque o céu deixou de ser instrumento de presságios há trezentos anos. Halley fechou essa porta em março de 1715. Eddington abriu outra em maio de 1919. Bragança em agosto de 2026 está do lado depois das duas portas.

Os trinta e tantos minutos que precedem a totalidade em Bragança vão dar para sentir a luz a perder densidade, os animais a recolherem-se, a temperatura a descer.

As andorinhas vão fingir que é noite. As pessoas vão tirar fotografias e contar os segundos. A coroa solar vai brilhar por vinte e seis segundos sobre a estrada que liga Rio de Onor a Guadramil, no extremo nordeste do território português, ali onde Rio de Onor é atravessada a meio pela fronteira e a metade espanhola da mesma aldeia se chama Rihonor de Castilla.

E depois vai acabar. E todos os que lá estiverem vão regressar aos automóveis com a sensação ligeiramente desproporcionada de terem visto algo que durou menos do que demoraram a estacionar. Mas o fenómeno total dura duas horas e tem de ser observado com óculos de eclipse para que não haja lesões irreversíveis na retina.

Em maio de 1900, na quinta do Sr. João Bernardino, em Ovar, Frederico Oom apontou a luneta ao Sol obscurecido e fez fotografias que ainda hoje se conservam no Observatório Astronómico de Lisboa. Estavam à sua volta vinte e cinco mil pessoas que tinham apanhado o comboio da CP a partir de várias cidades para ver o céu mudar de cor durante três minutos.

Era o ano em que o eclipse passava definitivamente a pertencer a quem o quisesse ver, e Portugal estava no meio do caminho. Em agosto de 2026, no caminho que liga as duas aldeias do Parque de Montesinho, alguma coisa daquela manhã há-de regressar por um momento, antes da estrada se voltar a encher de carros a sair.

Etiquetas: Portugal
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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O sabor do café faz-se na torra, não na planta

28.08.2026
Chávena de café fumegante numa mesa de mármore, o vapor a formar uma roda de homens de cartola, com a silhueta de Istambul ao fundo

Foi no café que se construiu a opinião pública

25.08.2026

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