O eclipse de 12 de agosto tapa entre 92% e 100% do Sol sobre Portugal. A lesão que a observação sem óculos de eclipse provoca chama-se retinopatia solar.
Ver o eclipse de 12 de agosto exige óculos de eclipse certificados do princípio ao fim. Durante as quase duas horas que dura, e em todo o território nacional, olhar para o Sol sem proteção queima a retina.
A queimadura não dói. Nada, no instante em que acontece, leva quem está a olhar a desviar os olhos. Mas a lesão é irreversível.
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Porque é que a retina não avisa?
A retina não avisa porque não tem recetores de dor. O olho tem-nos na córnea, e é por isso que uma soldadura vista sem máscara arde e um grão de areia obriga a fechar a pálpebra. A retina não os tem. Os sintomas aparecem quatro a seis horas mais tarde, em alguns casos só ao fim de 12, quando já não há nada a fazer.
A retinopatia solar não tem tratamento, e os fotorrecetores destruídos não se regeneram. A American Academy of Ophthalmology descreve um regresso da visão ao longo de três a seis meses que, em parte dos casos, fica incompleto e deixa um ponto cego permanente no meio do campo visual.
Chris Wu e colegas do Mount Sinai descreveram um caso na JAMA Ophthalmology, em dezembro de 2017: na fóvea de uma mulher na casa dos 20 anos, a lesão tinha a forma exata da mancha cega que ela própria tinha desenhado.
Óculos de sol servem como óculos de eclipse?
O que trava um olhar demasiado longo para o Sol é um reflexo de aversão, anterior a qualquer cálculo de risco. Ralph Chou, optometrista da Universidade de Waterloo e um dos autores da norma internacional dos filtros solares, explicou à Scientific American que esse reflexo se aprende cedo e que a vontade de ver uma coisa invulgar o vence. Com o disco quase todo tapado, o desconforto desaparece muito antes do perigo.
Óculos escuros respondem a outra norma, a ISO 12312-1, e deixam passar centenas a milhares de vezes mais luz do que é seguro, segundo a American Astronomical Society. Um filtro de observação solar cumpre a ISO 12312-2 e não pode transmitir mais de 0,0032% da luz visível, cerca de uma parte em 31 mil, e limita também o ultravioleta e o infravermelho.

A página oficial do programa nacional manda verificar o filtro: sem furos nem riscos, marca CE visível, referência ao Regulamento (UE) 2016/425, nome do fabricante, número de lote, declaração de conformidade e o tempo máximo de observação contínua.
A ZEISS distribui óculos de eclipse gratuitos pela rede Club da Visão e pelos Centros Ciência Viva, com inscrição obrigatória e limitada ao stock.
E através de binóculos ou telescópio?
Uma ótica sem filtro concentra a luz antes de a entregar ao olho, e um filtro de cartão não aguenta essa carga: queima e deixa passar o que travava. Daí que os filtros de enroscar na ocular sejam perigosos: o filtro tem de ficar à frente do instrumento, do lado do Sol. Espreitar por um binóculo sem filtro com os óculos de eclipse postos é a combinação que a American Astronomical Society descreve como extremamente perigosa.
O mesmo vale para quem fotografa. Uma câmara ou um telemóvel apontados ao Sol sem filtro sobre a objetiva concentram a luz no sensor como o olho a concentra na fóvea. Por isso, fotografar sem qualquer filtro pode também danificar o aparelho. O filtro protege a vista e o equipamento.
O que se vê nos vários pontos de Portugal?
Num troço da estrada N308, entre Rio de Onor e Guadramil, dentro do Parque Natural de Montesinho. A sombra da Lua toca o país ali e mais em lado nenhum, durante 26 segundos, os primeiros em Portugal continental desde 1912, e só nesses segundos é seguro observar sem filtro. As inscrições para a zona de observação já fecharam.
Aí o eclipse começa às 18h33 e termina às 20h23, com o máximo por volta das 19h30; no resto do país variam alguns minutos em torno destas, com o Sol entre oito e 11 graus acima do horizonte.
A ocultação vai dos 92% no sul do continente aos 99,9% em Bragança, e fica entre os 74% e os 77% nos Açores e na Madeira. Pedro Mota Machado, astrónomo e comissário nacional para o eclipse, resumiu a diferença a 22 de julho: “Ser 99%, ser 99.9% ou 98% é quase igual.”
Em 99,9% de ocultação sobra um filete de fotosfera com o brilho de um Sol inteiro por unidade de superfície.








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