A projeção de Mercator distorce o tamanho de África há quatro séculos. A União Africana quer corrigi-lo.
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Em 1569, um cartógrafo flamengo gravou em cobre dezoito folhas que, montadas, formavam um mapa do mundo com mais de dois metros de largura. Gerardus Mercator, nascido em Rupelmonde em 1512, queria resolver um problema antigo dos navegadores: traçar uma rota de bússola como uma linha reta no papel. Conseguiu, e entregou aos marinheiros um instrumento que dominaria a navegação durante mais de dois séculos.
O preço dessa proeza ficou escrito na própria geometria do mapa. Para manter os ângulos fiéis em qualquer ponto, Gerardus Mercator esticou a superfície do globo à medida que ela subia rumo aos polos. Quanto mais longe do equador, maior a deformação.

O resultado é uma das ilusões mais persistentes da cultura visual ocidental. Num mapa de Mercator, a Gronelândia parece do tamanho de África. Tem 2,17 milhões de quilómetros quadrados. África tem 30 milhões. Catorze vezes mais.
Em agosto de 2025, a União Africana, organização que reúne os 55 Estados do continente, decidiu que essa ilusão precisava de ser corrigida. Endossou uma campanha chamada Correct the Map, lançada pelas organizações Africa No Filter e Speak Up Africa, que pede a escolas, governos e instituições internacionais que abandonem a projeção de Mercator a favor de uma alternativa moderna.
Selma Malika Haddadi assumiu a vice-presidência da Comissão da União Africana em março de 2025, vinda da diplomacia argelina. Quando a campanha foi lançada, resumiu o argumento à agência Reuters numa frase: “Pode parecer apenas um mapa, mas na realidade não é.” Diminuir África no tamanho – acrescentou -, distorce o que se ensina nas escolas, o que circula nos média e o que se decide nas políticas públicas.
A história começa antes de Gerardus Mercator, e começa em Portugal.
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O preço de uma linha reta
A Terra é uma esfera, ou quase. Representá-la numa folha plana obriga a uma escolha, porque nenhuma superfície curva se desenrola sobre um plano sem se rasgar ou esticar. Toda a projeção cartográfica sacrifica alguma coisa para preservar outra: algumas mantêm as áreas, e deformam as formas; outras fazem o contrário. Não existe mapa plano que faça as duas coisas ao mesmo tempo.
Gerardus Mercator escolheu preservar os ângulos. Numa carta sua, a direção entre dois pontos lê-se com um transferidor, e mantém-se constante durante toda a viagem. Para um navegador do século XVI, isto era tudo: a diferença entre chegar e ir contra os rochedos de uma costa errada.

A rota de rumo constante tinha um comportamento estranho, e o primeiro a descrevê-lo não foi Gerardus Mercator. Foi o matemático português Pedro Nunes, cosmógrafo-mor do reino, nascido em Alcácer do Sal em 1502. Em 1537, em dois tratados anexos à sua tradução do Tratado da Esfera de Sacrobosco, Pedro Nunes mostrou que o caminho percorrido por um navio a rumo constante não coincidia com a menor distância entre dois pontos na esfera, e que descrevia uma curva em espiral em direção ao polo. Chamou-lhe linha de rumo, e mais tarde ficaria conhecida como curva loxodrómica. Gerardus Mercator deu forma cartográfica àquilo que Pedro Nunes tinha identificado em teoria, três décadas antes, na corte de um país que vivia da navegação atlântica.
A mecânica dessa deformação é simples de descrever, e impressionante de ver. Quanto mais perto dos polos, mais o mapa precisa de esticar as terras na horizontal, para manter os meridianos paralelos quando na realidade convergem.
E, para que as formas não fiquem achatadas, estica na mesma proporção na vertical. As duas ampliações multiplicam-se. No topo do mapa, a Gronelândia incha até parecer um continente, o Canadá e a Rússia espraiam-se ao seu lado. África, atravessada pelo equador, fica perto do tamanho real, e por isso parece pequena ao pé de vizinhos que o papel inflacionou.
Neil Kaye, do Met Office britânico, tornou tudo isto visível numa animação em que cada país desliza para a sua latitude real e encolhe pelo caminho. A Gronelândia perde três quartos da área. Os Estados Unidos, o Canadá e a Rússia minguam, separam-se uns dos outros, abrem mares onde antes pareciam colados. África e a América do Sul mal mexem, porque sempre estiveram desenhadas perto da verdade.
O tamanho que não cabe na cabeça: África vs Gronelândia
A dimensão real de África surpreende quem só a conhece pelo mapa de Mercator. Em 2010, um designer alemão chamado Kai Krause juntou os contornos dos Estados Unidos, da China, da Índia, do Japão e de boa parte da Europa, e encaixou-os dentro do continente africano. Sobrava espaço. A imagem, intitulada “The True Size of Africa”, correu o mundo. A revista Scientific American publicou-a, mais tarde, numa versão proporcionalmente correta.
Três vezes a Europa. O Saara, sozinho, com a área dos Estados Unidos continentais. A Argélia, maior do que a Gronelândia. Trinta países precisam de se somar para igualar o todo. Cidade do Cabo ao Cairo, oito mil quilómetros, como ir de Nova Iorque a Buenos Aires.
Investigadores da Universidade de Gante puseram a hipótese à prova. Num estudo de 2020 publicado no ISPRS International Journal of Geo-Information, mediram a forma como pessoas de várias partes do mundo estimavam a área de países que viam projetados. As projeções dominantes enviesavam o resultado em direções previsíveis: alta latitude sobrestimada, equador subestimado.
A correção que se tornou política: a campanha Correct the Map
A campanha de 2025 não foi a primeira tentativa de corrigir o mapa.
Em 1973, o jornalista alemão Arno Peters convocou imprensa para a denunciar: dizia ele que a projeção de Mercator era imprecisa, e que essa imprecisão tinha lado. Inflava o hemisfério norte das antigas potências coloniais, comprimia as regiões equatoriais das nações mais pobres.
Em alternativa, propôs a sua própria carta, de áreas proporcionais. Organizações de cooperação adotaram-na durante anos, por verem nela uma representação mais justa do Sul global. Os cartógrafos profissionais detestaram-na, pelas formas espalmadas que produzia. Mas o argumento político de Arno Peters sobreviveu à discussão técnica.
Em março de 2017, as escolas públicas de Boston foram as primeiras dos Estados Unidos a substituir Mercator por Gall-Peters nas salas de estudos sociais. A decisão veio embrulhada num programa para “descolonizar o currículo”, e desencadeou uma resposta inesperada do lado dos cartógrafos. Tom Patterson, cartógrafo reformado do Serviço de Parques Nacionais americano, achou que a Gall-Peters esticava demasiado os continentes, e contactou Bernhard Jenny, da Monash University australiana, e Bojan Šavrič, da Esri. Em agosto do ano seguinte, os três publicaram a Equal Earth.
Equal Earth, a projeção endossada em 2025 pela União Africana, é diferente. Foi desenhada com um objetivo direto: respeitar as áreas sem espalmar tanto as formas que se tornem irreconhecíveis. A diretora executiva da Africa No Filter, Moky Makura, resumiu em poucas palavras o motivo da campanha: “O atual tamanho do mapa de África está errado.”

Algumas instituições já começaram a mover-se. O Banco Mundial está a abandonar a projeção de Mercator nos mapas interativos, e para os mapas estáticos passou a usar a Winkel-Tripel ou a Equal Earth. Em 2018, a Google passou o Google Maps no ambiente de computador para uma vista de globo tridimensional, embora a aplicação móvel continue a abrir em Mercator por defeito.
Há quem tenha ido mais longe. Em abril de 2024, o governador do Nebraska, Jim Pillen, assinou uma lei que proíbe a projeção de Mercator nas escolas públicas do estado, salvo em exercícios pedagógicos comparativos. As alternativas autorizadas são a Gall-Peters, a Equal Earth ou a AuthaGraph.
Passos parciais e paradoxais. Os defensores da projeção antiga têm argumentos sólidos: a grelha retangular é simples, os rumos constantes ainda servem quem navega, e quatro séculos e meio de hábito não se desfazem por decreto. Para a maioria dos usos quotidianos, o mapa que toda a gente reconhece continua a ser o mais cómodo.
O que um mapa decide por nós
Nenhuma projeção é neutra, porque nenhuma escolha sobre o que preservar e o que sacrificar pode sê-lo. Um mapa que põe a Europa no centro e a estica até rivalizar com continentes inteiros não mente sobre coordenadas, mas instala uma hierarquia visual de raiz colonial que se confunde com a realidade. Durante séculos, o mapa de Mercator pendurado nas paredes das salas de aula europeias e americanas ensinou, sem o dizer, que o norte era grande e o sul era pequeno, e que África era uma mancha contida algures em baixo, mais perto da margem do que do centro.
Mark Monmonier, historiador da cartografia, descreve no livro Rhumb Lines and Map Wars: A Social History of the Mercator Projection como a popularidade da projeção entre os navegadores do século XVIII a levou a um uso excessivo e impróprio fora da navegação, em mapas de parede, atlas escolares e propaganda geopolítica, onde a inflação da Europa e da América do Norte deixou de ser um efeito secundário para passar a ser uma mensagem.
O exemplo mais explícito sobreviveu numa folha de 1886. O mapa Imperial Federation, desenhado para mostrar a extensão do Império Britânico, usou a projeção de Mercator centrada no meridiano de Greenwich, com a Grã-Bretanha logo acima do centro e as colónias pintadas de vermelho a espalharem-se para leste e para oeste. Matthew Edney, professor de história da cartografia na Universidade do Sul do Maine, observa que a projeção foi adotada por setores pró-imperiais dos séculos XIX e XX precisamente porque fazia a Europa e a América do Norte parecerem maiores em relação aos territórios tropicais que exploravam.

Há hoje dezenas de alternativas à projeção de Mercator. Algumas privilegiam a fidelidade de área, como a Gall-Peters de 1855, redescoberta por Arno Peters em 1973, ou a Mollweide de Karl Brandan Mollweide, de 1805. Outras tentam um compromisso visual entre forma e tamanho: a Robinson de Arthur H. Robinson, de 1963, que a National Geographic usou durante uma década, ou a Winkel-Tripel de Oswald Winkel, de 1921, que a National Geographic adotou em 1998 e ainda hoje usa.
As mais recentes desafiam a própria gramática do mapa retangular: a AuthaGraph do arquiteto japonês Hajime Narukawa, de 1999, dobra o globo num retângulo a partir de 96 triângulos, e a Equal Earth, de 2018, equilibra fidelidade de área e desenho legível.
A persistência de Mercator, perante este leque, mostra que a escolha de um mapa raramente é uma decisão técnica tomada por especialistas. É uma herança que se transmite, um hábito que se reproduz nos manuais escolares, nas aplicações de telemóvel e na imaginação de quem aprendeu a ver o mundo através de uma grelha desenhada para marinheiros do Renascimento.
O homem que veio de Canchungo
Um dos principais proponentes da campanha é Carlos Lopes, economista do desenvolvimento e professor na Nelson Mandela School of Public Governance da Universidade da Cidade do Cabo. “Os mapas moldam a forma como nos vemos e como os outros nos veem”, afirmou à imprensa. Foi secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África entre 2012 e 2016, e desde 2018 é alto representante da Comissão da União Africana para as relações com a Europa.
Carlos Lopes nasceu em 1960 em Canchungo, uma povoação do noroeste da Guiné-Bissau que ele próprio descreveu como uma cidade rodeada de cursos de água em todas as direções, com uma paisagem verde que se poderia confundir com a do Congo ou a da Amazónia. O pai foi preso, não muito longe dali, pelo apoio à luta pela independência, que a Guiné-Bissau alcançou em 1973, quando Carlos Lopes tinha treze anos. Não havia universidade no país, e foi através da rede de um mentor que conseguiu a bolsa que o levou a Genebra e depois a Paris, onde se doutorou em história.
Esse mentor era Mário Pinto de Andrade, o intelectual angolano que fundou e presidiu ao Movimento Popular de Libertação de Angola e que vivia então em Bissau. Em 2016, Carlos Lopes recebeu em Brasília o Prémio José Aparecido de Oliveira, atribuído pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
A Guiné-Bissau é um dos países que, no papel de Mercator, quase desaparece. Encostada ao equador, desenhada perto do seu tamanho real, fica diminuta ao lado das massas esticadas do norte. A campanha que Carlos Lopes ajuda a conduzir não vai mudar a economia de um continente ao trocar uma projeção por outra.
Mas a forma como um lugar é visto começa, muitas vezes, na forma como é desenhado, e durante quatro séculos África foi desenhada mais pequena do que é.






