A expressão “potência média” saiu de Davos em janeiro de 2026 e entrou na boca dos governos europeus. Portugal cabe nela sem alguma vez a ter usado.
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“As potências médias têm de agir em conjunto porque quem não está à mesa está no menu.” Foi nestes termos que Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, descreveu a 20 de janeiro de 2026 a sorte dos países que não pertencem ao clube das grandes potências. Falava no auditório principal do centro de congressos de Davos, em francês e em inglês, os dois idiomas oficiais do país, perante a assembleia anual do Fórum Económico Mundial, e terminou com o auditório de pé, e com uma ovação.
A palavra que Mark Carney escolheu para o momento foi rutura. Uma rutura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o começo de uma realidade dura, com a geopolítica já sem limites nem freios. Nas semanas que se seguiram, a expressão “potência média” passou do jargão dos especialistas em relações internacionais para a boca de primeiros-ministros e presidentes.

Quem deu ao argumento a sua primeira forma escrita foi Anne-Marie Slaughter, num texto de 29 de janeiro de 2026. Antiga diretora de planeamento político do Departamento de Estado norte-americano, hoje à frente do centro de estudos New America, escreveu que Mark Carney tinha razão: a velha ordem rompera-se e às potências médias só restava juntarem-se para defender o que têm em comum.
A receita que propunha era copiar as coligações de voluntários, os arranjos multilaterais mais estreitos, que segundo ela rendem mais do que a fama lhes dá.
Três princípios sustentam a doutrina das potências médias. O primeiro é a geometria variável: em vez de uma aliança fixa, diferentes coligações para diferentes assuntos, com base em valores e interesses comuns. A fórmula é do próprio Mark Carney, em Davos. O segundo é a autonomia estratégica nos domínios críticos, da energia aos semicondutores. O terceiro é um multilateralismo seletivo, que não abandona as instituições herdadas de 1945 mas as contorna quando elas não respondem.
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Seis semanas depois, a 5 de março de 2026, Mark Carney levou o argumento ao parlamento australiano, em Camberra. No século XXI, disse, a soberania já não se mede apenas pela capacidade de um país se alimentar, se aquecer e se defender. Exige acesso fiável a comunicações por satélite, vacinas, semicondutores, sistemas de pagamento e capital. Quando essas dependências são transformadas em arma, acrescentou, criam-se vulnerabilidades de fundo.
No mesmo dia, a milhares de quilómetros, o presidente finlandês Alexander Stubb levava uma versão complementar das potências médias ao Raisina Dialogue, em Nova Deli, perante o primeiro-ministro indiano Narendra Modi. A era do mundo dominado pelo Ocidente acabou, declarou.
Mas avisou contra a leitura fácil de que tudo está perdido: que as regras estejam quebradas não torna o sistema inteiro nulo, tal como apanhar um condutor em excesso de velocidade não torna irrelevantes os limites. O futuro do mundo, acrescentou, vai decidir-se no Sul Global, e a Índia seria um bom ponto de partida.

O debate tem dois polos, resumiu Nathan Gardels, diretor da revista Noema e cofundador do Berggruen Institute, num ensaio de 27 de março de 2026. Da invasão russa da Ucrânia, e das intervenções americanas na Venezuela e no Irão, tiram-se duas lições opostas. Uma diz que só o poder duro conta. A outra diz que um multilateralismo de potências médias, assente em regras, é a única alternativa imperfeita a um mundo em que a força faz o direito.
Era entre os gigantes tecnológicos e as potências hegemónicas, na imagem de Mark Carney, que esses países tinham de abrir caminho.
O reverso ouve-se sem rodeios na boca de Stephen Miller, conselheiro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. As cortesias internacionais não contam, disse à CNN em janeiro de 2026: o mundo real é governado pela força e pelo poder. São as leis de ferro do mundo, rematou.
A China dentro do jogo
A China refina a maior parte das matérias-primas críticas da transição energética, mesmo as que não chega a extrair. Os painéis solares, as baterias de iões de lítio, os motores de tração dos automóveis elétricos saem, na sua maioria, de fábricas chinesas. Nos cabos submarinos, três empresas, a ZTT, a Hengtong e a Orient Cable, mandam no mercado interno e abocanham quota no resto do mundo.
Em 2025, o Australian Strategic Policy Institute contou 66 áreas críticas, em 74 analisadas, onde Pequim já ia à frente.
Nos domínios de ponta, a dianteira americana vai na inteligência artificial generativa, no desenho dos semicondutores mais avançados e em boa parte da biotecnologia. O fabrico em massa e o processamento de matérias-primas, esses, são da China. A Europa não lidera nenhum destes terrenos, e os países emergentes do Sul Global vão escolhendo o seu lado caso a caso.
Zheng Yongnian, intelectual com peso junto da liderança chinesa, é claro sobre o que está em jogo. Para ele, a rivalidade com Washington é uma competição de resiliência económica, e o que Pequim quer é aguentar-se invencível numa disputa longa com os Estados Unidos.
As potências médias movem-se no meio deste mapa. O Canadá e a Austrália, contou Mark Carney no parlamento australiano, andam a juntar reservas minerais e indústria de defesa, e a montar capacidade própria de processamento, para dependerem menos de terceiros.
A Europa que evita o termo potência média
Bruxelas foge à etiqueta. Nos textos da Comissão, do Conselho e do serviço diplomático lê-se “ator global”, “Europa geopolítica”, “soberania europeia” ou “autonomia estratégica aberta”, tudo menos potência média. A União gosta de se ver como um caso à parte. Tem um mercado único de 450 milhões de habitantes e a segunda maior economia do mundo em produto interno bruto (PIB) nominal, mas a sua moeda é de reserva apenas em segunda linha, e a força que projeta lá fora é, antes de tudo, regulatória.
Para projetar força para longe, a Europa continua a depender de meios americanos. O transporte aéreo de longo curso, a vigilância por satélite e a supressão das defesas aéreas inimigas passam, em larga medida, por equipamento dos Estados Unidos. A dissuasão nuclear é dos poucos domínios que guarda em mãos próprias, e resume-se a dois arsenais: a França tem 290 ogivas, o Reino Unido 225, com um teto que pode subir até 260.

A 2 de março de 2026, em Île Longue, o presidente francês Emmanuel Macron deu nome à doutrina da dissuasão avançada e abriu os exercícios nucleares franceses a 8 parceiros europeus, do Reino Unido à Dinamarca. O dedo no gatilho continua a ser só francês.
Meses antes, a 10 de julho de 2025, a Declaração de Northwood tinha criado um grupo de pilotagem nuclear entre Londres e Paris, a primeira coordenação formal entre os dois desde o fim da Guerra Fria.
A guerra da Ucrânia já tinha exposto a fatura energética. Cortado o gás russo, a Europa passou a comprar gás natural liquefeito (GNL) sobretudo aos Estados Unidos, e a completá-lo com biomassa, renováveis e nuclear.
Falta à Europa um campeão tecnológico. Não tem um motor de inteligência artificial generativa, uma grande nuvem de computação, um fabricante próprio de semicondutores de ponta, nem redes sociais ou plataformas de comércio eletrónico capazes de competir com as americanas e as chinesas. Bruxelas respondeu com regras. O Regulamento das Matérias-Primas Críticas, de 2024, o Regulamento dos Semicondutores, de 2023, e o Regulamento da Inteligência Artificial, de 2024, tentam pôr ordem onde falta capacidade industrial.
No dinheiro, o dólar continua a mandar. O sistema SWIFT, que encaminha as transferências entre bancos de todo o mundo, mantém-se no centro dos pagamentos internacionais por mais que a Europa financie alternativas. E as sanções americanas de alcance extraterritorial caem com frequência sobre empresas europeias.
E dentro da própria União ninguém se porta da mesma maneira. A Finlândia de Alexander Stubb chama as coisas pelo nome e assume-se potência média. A Espanha de Pedro Sánchez chega perto do conceito, mas o primeiro-ministro evita cravá-lo.
A Alemanha comporta-se como potência intermédia desde a Zeitenwende de 2022, a viragem anunciada por Berlim, e ao mesmo tempo reclama um estatuto maior. Paris continua agarrada à doutrina gaullista da grande potência, com meios que já não chegam para a sustentar. Quanto à Itália, faz um multilateralismo de potência média em surdina, sem o assumir.
O caso português
Muito antes de a doutrina ter nome, Portugal já fazia vários destes gestos. O dinheiro chinês entrou no início da década de 2010, em plena crise da dívida soberana, e instalou-se na EDP, na REN (Redes Energéticas Nacionais), no porto de Sines e em imóveis comprados a peso de vistos gold. Macau era o elo cultural e administrativo. Depois de 2022, com a pressão de Washington e a aposta europeia em reduzir riscos, a relação arrefeceu sem se romper.
Na defesa, a viragem é recente. Em 2025, pela primeira vez, Portugal chegou aos 2% do PIB em despesa militar, 6.118 milhões de euros, e ainda assim ficou no fundo da tabela dos países da NATO que menos gastam em proporção. A 25 de junho de 2025, na cimeira de Haia, assinou a meta dos 5% até 2035, com 3,5% diretos e 1,5% indiretos e uma cláusula que obriga a rever tudo em 2029.
A 8 de abril de 2026, com 165 militares a bordo, a fragata NRP D. Francisco de Almeida deixou a Base Naval de Lisboa rumo ao Báltico, para a operação Brilliant Shield, a missão da NATO que vigia os movimentos russos.
No mesmo 20 de janeiro de 2026 em que Mark Carney batizava a doutrina em Davos, decorria em Sines uma cerimónia bem mais discreta. A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) fechava seis contratos de investimento que somavam 3.077 milhões de euros, com 699,7 milhões de apoio público e o primeiro-ministro Luís Montenegro na primeira fila. Quatro desses contratos montam a cadeia do lítio de uma ponta à outra.
A extração, primeiro elo, fica a cargo da Savannah Lithium, britânica, que vai tirar o minério de Boticas, no Barroso, a partir de 2028, com capacidade para alimentar pelo menos meio milhão de baterias por ano. A refinação é que é portuguesa, entregue à Lift One, do grupo José de Mello através da Bondalti, que vai montar a unidade em Estarreja, no espaço deixado livre pelo projeto Aurora quando este caiu, em 2024.
Os cátodos saem das mãos da dinamarquesa Topsoe, que ergue em Sines a primeira fábrica do mundo só para esse componente das baterias de iões de lítio. E as células, o coração da bateria, ficam a cargo da CALB, chinesa, instalada também em Sines, com 15 GWh de capacidade e arranque pleno previsto para 2028.
Britânicos a extrair, portugueses a refinar, dinamarqueses nos cátodos, chineses nas células. Quatro elos, quatro bandeiras, e nenhum bloco a mandar no conjunto. A geometria variável de que falava Mark Carney está, literalmente, montada em Sines.
A base das Lajes, nos Açores, conta a mesma história. Funciona ao abrigo do Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos, cujo acordo técnico Durão Barroso, então ministro dos Negócios Estrangeiros, assinou em 1995 com Warren Christopher, então secretário de Estado norte-americano.
O teste chegou com a guerra do Irão, aberta a 28 de fevereiro de 2026 pela operação Epic Fury. Das Lajes saíram, em quase todos os dias do conflito, aviões-cisterna americanos que reabasteciam os bombardeiros estacionados em Fairford, no Reino Unido.
Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, escudou-se no regime das autorizações anuais permanentes, que Portugal concede a mais de 50 países e em que o silêncio de Lisboa vale por um sim. E a 16 de março de 2026, em Bruxelas, jurou que o país “não está, nem vai estar, envolvido neste conflito”.

Madrid foi por outro caminho. Recusou em público que Rota e Morón servissem para operações ofensivas contra o Irão e foi fechando o espaço aéreo aos aviões americanos metidos na guerra.
Donald Trump respondeu à letra: classificou a Espanha de “péssimo aliado” e ameaçou cortar o comércio entre os dois países. As duas bases ficaram operacionais para as restantes missões, e os aviões-cisterna que saíam de solo espanhol mudaram-se para Istres-Le-Tube, perto de Marselha, de onde continuaram a alimentar a guerra.
Dois países, duas saídas: Portugal guardou o acesso americano à custa de uma ambiguidade negociada; a Espanha pagou em moeda diplomática para deixar clara uma linha.
As próprias palavras de Lisboa não param quietas. A 1 de abril de 2025, no Foro La Toja, em Lisboa, Paulo Rangel saudava o tempo da autonomia estratégica e daquela soberania europeia a que o presidente francês Emmanuel Macron, polémico, deu nome. Treze meses depois, a 29 de abril de 2026, no mesmo palco, descrevia um Portugal “exclusivamente atlântico”, e repetiu-o no dia seguinte na Grande Entrevista da RTP.
Sob a oscilação está uma matriz que vem de 1974: a política externa portuguesa apoia-se num trilema, Europa, Atlântico e lusofonia. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) junta 9 Estados-membros e mais de 30 observadores associados, num arco que vai do Senegal ao Japão e da Namíbia ao Uruguai. E o acordo entre a União Europeia e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), 700 milhões de consumidores, é para Paulo Rangel o “antídoto às novas tentações protecionistas”.
Quatro leituras portuguesas
Em Portugal, quem estuda esta posição não a lê da mesma maneira. Quatro nomes, do meio académico e do jornalismo, dão respostas que não batem certo umas com as outras.
Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova (IPRI-NOVA), lê a posição portuguesa como uma estrutura herdada. Somos “ao mesmo tempo, atlânticos e europeus, atlanticistas e europeístas”, disse ao Diário de Notícias em 2025; “também não temos alternativa”.
Foi conselheiro dos presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, e no livro Regresso à Europa, que o Instituto da Defesa Nacional editou em julho de 2025, faz remontar essa dupla pertença aos anos de 1974 a 1986. O pior pesadelo da diplomacia portuguesa, avisa, seria uma rutura entre os Estados Unidos e a Europa ocidental.
O diretor do Diário de Notícias, Filipe Alves, puxa a brasa para o Atlântico. Portugal é “um pequeno país atlântico, responsável por uma vasta área oceânica”, escreveu a 4 de março de 2026 sobre o dilema das Lajes. Sem a profundidade continental de outros europeus, argumentou, o país não tem o luxo de dispensar a principal potência marítima. “Portugal vai ser sempre um país marítimo”, concluiu, e os Estados Unidos hão de continuar a mandar no Atlântico Norte.
No ensaio Portugal e o Atlântico, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou em 2024, Bernardo Pires de Lima dá à mesma aposta uma moldura geoestratégica. Fala de “um ressurgimento silencioso do Atlântico”, capaz de o recentrar na geopolítica do século XXI e de potenciar a posição de Portugal no mapa. Investigador associado do IPRI-NOVA, é, desde dezembro de 2024, conselheiro político de António Costa, presidente do Conselho Europeu.
O mais severo quanto ao desempenho é Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático da Universidade Nova, ministro da Defesa entre 2006 e 2009 e, desde 17 de abril de 2026, membro do Conselho de Estado. Na Grande Entrevista da RTP, a 11 de março de 2026, disse que a União Europeia, “mais uma vez”, não conseguiu falar a uma só voz, e que continua “um ator irrelevante no Médio Oriente” enquanto os Estados Unidos lá permanecem decisivos.
Sobre o governo de Luís Montenegro, mediu as palavras: dificilmente Portugal poderia ter tido outra posição, admitiu, mas “talvez tenha usado o preto e branco” quando precisava “de mais cinzentos”.
As quatro leituras não se anulam. Carlos Gaspar puxa pela continuidade histórica, Filipe Alves e Bernardo Pires de Lima pelo Atlântico, Nuno Severiano Teixeira pela crítica à execução. O que nenhum deles contesta é que Portugal pratica a doutrina das potências médias muito antes de lhe pôr o nome.
Em 2028, a cadeia do lítio de Sines deve atingir a plena operação, da extração no Barroso à refinação em Estarreja, com os cátodos dinamarqueses e as células chinesas a fechar o ciclo no Alentejo.
A cláusula de revisão da despesa militar reabre a conta dos 5% em 2029. No Báltico, a fragata NRP D. Francisco de Almeida continua a vigiar os movimentos russos, ao serviço de uma aliança que Lisboa não tenciona trocar.
Para as outras potências médias, o exercício é o mesmo. Sem peso para impor regras sozinhas, juntam-se consoante o tema, do mineral crítico à dissuasão nuclear, à procura de margem entre Washington e Pequim. Foi a esse jogo que Mark Carney chamou os países de fora do clube das grandes potências, em Davos, a 20 de janeiro de 2026.







