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Início Ideias e cultura

Shanzhai ou como a China deixou de copiar e passou a ditar a norma tecnológica

por Jorge Montez
15.07.2026
em Ideias e cultura
2
Ilustração abstrata da transição da manufactura chinesa para a inteligência artificial, da caligrafia tradicional aos fluxos de dados digitais

@Tanto Mundo (com IA)

66
VISUALIZAÇÕES

Do telemóvel falsificado ao carro que bateu a Tesla, a China soube reinventar-se. O país aplicou o Shanzhai

Resumo
I
A palavra que o Ocidente nunca soube traduzir
Shanzhai significa fortaleza da montanha, território fora da lei mas com código próprio. Em mandarim, designa primeiro bandidos, depois fabricantes de telemóveis falsificados, e finalmente um modelo de inovação por iteração aberta.
II
Dezanove anos entre o Nokir e a DeepSeek V4
Em 2007, no Huaqiangbei, vendia-se um telemóvel falso a quarenta euros. Em abril de 2026, a DeepSeek V4, otimizada para chips Huawei Ascend, bate todos os modelos abertos rivais.
III
O plano que Berlim inspirou e Pequim levou a sério
Made in China 2025 atingiu 86% das 260 metas do Green Book. Em 2024, o investimento estatal em semicondutores excedeu 150 mil milhões de dólares, três vezes o CHIPS Act americano.
IV
A ironia da imitação invertida
O CHIPS Act, o EU CHIPS Act e o Inflation Reduction Act partilham arquitetura com o plano chinês de 2015. O Ocidente passou a copiar a estratégia que durante trinta anos chamara concorrência desleal.

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Em 2007, no Huaqiangbei, em Shenzhen, vendia-se um telemóvel chamado Nokir num corredor estreito do maior mercado de eletrónica do mundo. Duas câmaras, lanterna, televisão analógica integrada, dual-SIM, autonomia de uma semana. Custava cerca de quarenta euros. Não era um telemóvel oficial da Nokia. Vinha de uma das centenas de pequenas oficinas que enchiam o delta do rio das Pérolas, e chegava ao mercado sem caixa, sem manual, sem garantia, sem suporte técnico. Para a imprensa ocidental que cobria a Ásia, o Nokir resumia o problema chinês: copiava-se tudo, e copiava-se mal.

Em Bruxelas, em Washington, em Paris, contava-se uma versão simples. A China era a fábrica do mundo. Fornecia os mercados ocidentais com bens baratos de baixa qualidade tecnológica, vivia de salários baixos, regulação ambiental frouxa e propriedade intelectual permissiva. Nos setores avançados, dependia da transferência de tecnologia ocidental, fosse por empresas mistas obrigatórias, fosse por espionagem industrial. Era economia em catch-up. Para se tornar perigosa, faltavam-lhe duas coisas: marca própria e capacidade de inovação.

Em 2024, dezassete anos depois do Nokir, a BYD ultrapassou a Tesla em vendas globais de veículos elétricos puros. A empresa tinha sido fundada em Shenzhen em 1995 como pequena fabricante de baterias para telemóveis, copiando designs da Sony e da Sanyo. No ano em que passou a Tesla, vendeu mais de quatro milhões de carros, empregava 968 mil pessoas e tinha 104 mil engenheiros em investigação e desenvolvimento. Produzia internamente quase tudo o que entrava num automóvel, das baterias aos semicondutores.

A história destas duas décadas não é a de uma cópia que evoluiu. É a de um modelo civilizacional diferente que o Ocidente não soube ler.

Em janeiro de 2025, a DeepSeek lançou um modelo de linguagem que fez cair 17% do valor de mercado da Nvidia num só dia. A empresa, sediada em Hangzhou, era financiada por um fundo quantitativo. Marc Andreessen, cofundador da Netscape e da Andreessen Horowitz, um dos capitalistas de risco mais influentes do Silicon Valley, chamou-lhe o “momento Sputnik” da inteligência artificial.

A sucessora desse modelo apareceu em abril de 2026. A DeepSeek V4 foi o primeiro modelo de fronteira otimizado para chips chineses Huawei Ascend, em vez dos processadores Nvidia que dominam o mercado, e bateu todos os modelos abertos rivais.

Dezanove anos separam o telemóvel Nokir da DeepSeek V4. A história destas duas décadas não é a de uma cópia que evoluiu. É a de um modelo civilizacional diferente que o Ocidente não soube ler. Como é que a China deixou de ser a fábrica de imitações baratas para se tornar referência tecnológica global? E se o Ocidente tiver percebido tarde demais que estava a olhar para o problema errado?

Índice

  • Shanzhai: a palavra chinesa que o Ocidente não soube traduzir
  • De Deng Xiaoping a Xi Jinping: a frase que atravessou quarenta anos
  • Made in China 2025: o plano que Berlim inspirou e Pequim levou a sério
  • BYD: da cópia das baterias da Sony até bater a Tesla
  • DeepSeek: a inteligência artificial chinesa que não copiou
  • A inversão ocidental: como o CHIPS Act imitou Made in China 2025
  • O futuro do duopólio tecnológico EUA-China

Shanzhai: a palavra chinesa que o Ocidente não soube traduzir

A palavra-chave para entender o que se passou é shanzhai. Em mandarim escreve-se 山寨 e quer dizer literalmente “fortaleza da montanha”. A origem é antiga e tem uma dignidade que a tradução ocidental nunca capturou. Designava bandidos que se refugiavam nas serras para escapar a um governo central corrupto, à imagem dos heróis de À Beira de Água, romance clássico do século XIV em que cento e oito fora-da-lei se reúnem numa fortaleza pantanosa para combater funcionários imperiais opressores. Território fora da lei, mas com código, ética e lealdade interna.

A palavra foi requisitada nos anos 2000 para descrever os fabricantes de telemóveis falsificados que floresciam em Shenzhen. Vendiam-se Nokir, Samsing, Anycoll, Sumsung, Iphoone. Para quem comprava em Lisboa, em Lyon ou em Frankfurt, era falsificação criminosa. Para quem comprava em Lagos, no Cairo, em Manila ou em Caracas, era a única forma de ter um telemóvel quando a Nokia oficial custava entre 800 e 1.000 dólares e o salário mensal médio andava abaixo dos 300. Em 2010, segundo a iSuppli, a China produzia mais de 200 milhões de telemóveis falsificados por ano. O efeito secundário foi obrigar os fabricantes ocidentais a baixar drasticamente os preços para os mercados emergentes.

A partir de 2008, algo mudou. As oficinas shanzhai deixaram de só copiar e começaram a iterar. Acrescentaram funções que os originais não tinham: lanternas LED, alto-falantes potentes para escutar música em transportes públicos, autonomias absurdamente longas, suporte para várias bandas de rede em simultâneo, ecrãs táctil em modelos low-cost antes de a Apple os tornar standard. Trocavam designs, partilhavam bills of materials, copiavam-se uns aos outros sem preocupações de patente. O que contava era a velocidade de iteração, não a propriedade intelectual.

Bunnie Huang, hardware hacker e antigo aluno do MIT, doutorado em engenharia eletrotécnica em 2002, descreveu o fenómeno como um ecossistema de inovação chamado gongkai: partilha aberta de esquemas e bills of materials sem licenças formais, que ele compara a uma forma autóctone de open source hardware. No livro Prototype Nation, Silvia Lindtner, professora na Universidade do Michigan e investigadora da cultura maker chinesa, fala de uma “cultura de produção parcialmente ilícita e experimental”.

Em visitas guiadas a jornalistas ocidentais pelo Huaqiangbei, David Li, do Shenzhen Open Innovation Lab, mostrou oficinas de cinco pessoas que prototipavam um telemóvel novo em três semanas. As marcas ocidentais levavam doze a dezoito meses para o mesmo trabalho.

Algumas dessas oficinas escalaram. A Xiaomi, hoje uma das maiores empresas de eletrónica do mundo, tem raízes diretas na cultura shanzhai. A Tinno, a Transsion, a Oppo, a Vivo, todas saíram desse mesmo ecossistema.

Em 2017, o filósofo Byung-Chul Han publicou na MIT Press um livro pequeno e insolente, Shanzhai: Deconstruction in Chinese. Han é coreano-alemão, professor na Universidade das Artes de Berlim, e está entre os pensadores mais lidos da Europa contemporânea.

A tese é radical. O pensamento ocidental tem uma fixação patológica com o original, com a criação ex nihilo, com o autor único. O pensamento chinês, sustentado em séculos de prática filosófica e artística, não tem essa fixação. Criar, no quadro chinês, é transformar continuamente o que existe. A hierarquia entre original e cópia não é rígida, porque o próprio original não corresponde a um momento sagrado de autoria. Funciona antes como matéria que se prolonga no tempo e nas mãos de quem a continua.

Han mobiliza vários conceitos para sustentar o argumento. Quan (權) significa lei. Literalmente designa o peso que desliza na balança, ajustando-se à situação, o que é diferente da noção ocidental de lei como princípio absoluto e fixo. Zhen ji (真跡), o original, não se define por um ato de criação datado mas por um processo contínuo.

Tome-se um quadro chinês clássico que vai recebendo selos jade de coleccionadores ao longo dos séculos. Para a tradição chinesa, esse quadro não está a ser deteriorado, está a ser completado. Os selos chamam-se xian zhan (閒章), selos do leisure, e fazem parte da composição final, integram-se na obra. Para um conservador de museu europeu, isto seria vandalismo. Para a tradição chinesa, é continuação legítima.

A última peça do puzzle é fuzhi (複製), a cópia. Na tradição chinesa, a cópia não é versão degradada do original. Vale como réplica de igual peso. Os mestres calígrafos copiavam outros mestres em sinal de aprendizagem e respeito, e essas cópias circulavam depois como obras autónomas, valiosas em si. Han chega ao limite quando descreve o maoísmo como uma forma de “marxismo shanzhai”. Não em sentido pejorativo. Mao, na sua leitura, não traiu Marx, continuou-o e transformou-o. Pegou no marxismo e adaptou-o às circunstâncias chinesas, como um calígrafo pega num modelo antigo e o reescreve.

Há contestações à tese de Han. Qi Yongfeng, professor de estruturas culturais na Universidade de Comunicação da China, em Pequim, ressalva: “só a China tem o termo, mas muitos países tiveram as mesmas condições de cópia durante o seu desenvolvimento”. O Japão dos anos 1950 e a Coreia dos anos 1980 fizeram catch-up por cópia massiva, sem que se invocasse para isso qualquer essência cultural. Shanzhai, para Qi, é fenómeno de escala chinesa, não de espírito chinês.

Mesmo concedendo a Qi, o argumento de Han continua útil como ferramenta de leitura. Não se trata de fixar a relação chinesa com a cópia como essência cultural intemporal. O que está em causa é outro mapeamento: durante quarenta anos, a grelha moral com que o Ocidente olhou o shanzhai não correspondia à grelha cultural com que os chineses o praticavam. Onde Bruxelas via crime, Shenzhen via fluxo legítimo de aprendizagem. Essa diferença teve consequências práticas.

De Deng Xiaoping a Xi Jinping: a frase que atravessou quarenta anos

Em setembro de 1988, num discurso ao longo de duas datas (a 5 e a 12), em Pequim, perante um grupo de cientistas, Deng Xiaoping pronunciou uma frase aparentemente banal. Tinha 84 anos. Não era presidente, não era secretário-geral do partido. Mas era ele quem decidia, e tinha sido ele, dez anos antes, em 1978, a inaugurar a Reforma e Abertura, abrindo a economia chinesa ao investimento estrangeiro após três décadas de isolamento maoísta:

“Marx disse que a ciência e a tecnologia fazem parte das forças produtivas. Os factos mostram que tinha razão. Na minha opinião, a ciência e a tecnologia são uma força produtiva primária”.

Lida por europeus, a frase soa a manual marxista. Não é. A ortodoxia marxista clássica punha o trabalho humano em primeiro lugar e relegava ciência e tecnologia a fatores derivados, secundários. Deng trocou as posições. E essa inversão deu cobertura doutrinária ao que se seguiu durante três décadas: investimento estatal massivo em educação técnica, investigação científica, transferência de tecnologia, formação de quadros, e por fim políticas industriais agressivas. Não foi observação académica. Foi ato político.

Deng Xiaoping e o presidente americano Jimmy Carter na cerimónia de chegada do vice-primeiro-ministro chinês à Casa Branca, em janeiro de 1979
Deng Xiaoping com Jimmy Carter na Casa Branca, a 29 de janeiro de 1979. A normalização das relações diplomáticas marcou o início do ciclo de absorção tecnológica que duraria três décadas. Foto: National Archives, NARA-183157, domínio público

A 16 de outubro de 2022, no Grande Salão do Povo, perante mais de dois mil delegados, Xi Jinping abriu o 20.º Congresso do Partido Comunista da China com um discurso que durou quase duas horas. Xi dirige o partido desde 2012 e a República Popular desde 2013. Naquele congresso garantiu um terceiro mandato à frente da máquina partidária, quebrou a convenção informal de dois mandatos que vigorava desde a era pós-Deng, e concentrou em si o poder mais centralizado numa figura individual desde a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976.

A meio do discurso, repetiu Deng quase palavra a palavra. “Devemos considerar a ciência e a tecnologia como a nossa força produtiva primária, o talento como o nosso recurso primário, e a inovação como o nosso motor primário de crescimento”. O eco era deliberado, era inscrição na linhagem.

Acrescentou-lhe, porém, uma camada nova. “Para responder às necessidades estratégicas da China, vamos concentrar recursos em investigação científica e tecnológica original e pioneira, para alcançar avanços em tecnologias-chave em domínios essenciais”. Deng tinha aberto a China ao mundo para que esta absorvesse tecnologia. Xi propunha-se fechar o ciclo. Era a tecnologia chinesa que iria, daí em diante, ser absorvida pelo mundo.

Quatro meses depois, a 21 de fevereiro de 2023, numa sessão de estudo do Politburo, Xi foi mais direto: “Reforçar a investigação fundamental é uma exigência urgente para alcançar maior autossuficiência e força em ciência e tecnologia, e é o único caminho para nos tornarmos líderes mundiais”. Na véspera, a 20 de fevereiro, a agência oficial Xinhua tinha publicado um documento intitulado U.S. Hegemony and Its Perils, em que uma das cinco secções era especificamente sobre “hegemonia tecnológica” americana. A expressão era raríssima em comunicação institucional chinesa em inglês. Em Pequim, os controlos de exportação de chips avançados decretados pela administração Biden em outubro de 2022 estavam a ser lidos como bloqueio deliberado ao desenvolvimento tecnológico chinês. A resposta seria autossuficiência integral.

Xi Jinping caminha sobre o tapete vermelho à entrada do Grande Salão do Povo em Pequim, durante a visita de Estado do presidente americano à China, em maio de 2026. Shanzhai
Xi Jinping é secretário-geral do Partido Comunista da China desde 2012 e presidente desde 2013. Em 2022, foi reeleito para um terceiro mandato à frente do partido. Foto: Casa Branca, domínio público

Pode pensar-se que tudo isto é improvisação reactiva às sanções americanas. Não é. Em 2023, a editora oficial do Partido Comunista lançou On Technology Self-reliance and Self-improvement, recolha de discursos internos de Xi entre 2013 e 2022. Num desses discursos, datado de 2013, muito antes da guerra comercial Trump, Xi dizia: “ao seguirmos o caminho batido, a China não só sofrerá maiores diferenças tecnológicas em relação aos níveis avançados mundiais, como ficará presa no fundo da cadeia de valor da produção industrial global”. A viragem para a autossuficiência antecede qualquer sanção americana. Não foi reacção. Era plano.

Made in China 2025: o plano que Berlim inspirou e Pequim levou a sério

Em maio de 2015, o primeiro-ministro chinês Li Keqiang assinou um documento chamado Made in China 2025. O nome era propositadamente alusivo. Made in China, durante quatro décadas, fora a etiqueta da fábrica do mundo, do plástico, do brinquedo, do têxtil. Em dez anos, prometia o plano, a etiqueta passaria a significar outra coisa.

A inspiração veio de fora. A Alemanha tinha apresentado em 2011 o conceito de Industrie 4.0, plano que aplicava as tecnologias de informação à manufatura, com a Internet das Coisas a ligar pequenas e médias empresas em redes globais de produção e inovação. Os alemães visavam sobretudo melhorar a eficiência das Mittelstand, as empresas familiares de média dimensão que sustentam a indústria alemã.

O plano chinês foi mais ambicioso. “Made in China 2025 ia além de Indústria 4.0”, escreveu o CSIS de Washington. A China queria a totalidade da indústria nacional, com objetivos de quota de mercado, autossuficiência em componentes essenciais, avanço na cadeia de valor, setor a setor.

O documento identificava dez áreas prioritárias: tecnologia da informação de nova geração, máquinas-ferramentas e robótica, equipamento aeroespacial, equipamento marítimo, transportes ferroviários de alta velocidade, veículos com energias novas, equipamento elétrico, novos materiais, biomedicina, máquinas agrícolas. Acompanhava o plano um documento técnico complementar, o Green Book, com mais de 250 metas concretas, por setor, com prazos para 2020 e 2025.

A reação ocidental foi dupla. Alguns analistas levaram o plano a sério. Em 2017, a Câmara de Comércio Americana em Pequim publicou um relatório alarmista sobre as implicações para empresas americanas. Outros comentadores viram-no como retórica oca, uma daquelas iniciativas centralistas chinesas com muito barulho e pouco efeito. Jörg Wuttke, na altura presidente da Câmara de Comércio Europeia em Pequim, foi citado pelo Wall Street Journal a dizer que “estes grandes planos, com muito dinheiro, em que burocratas governamentais decidem quem ganha e quem perde, costumam acabar em lágrimas”.

Dez anos depois, podemos verificar quem tinha razão. Em outubro de 2024, a Bloomberg Economics e a Bloomberg Intelligence publicaram um conjunto de relatórios concluindo que o Made in China 2025 foi “amplamente bem-sucedido”. De treze tecnologias críticas seguidas pela Bloomberg, a China alcançou liderança global em cinco: alta velocidade ferroviária, grafeno, drones, painéis solares, e veículos elétricos com baterias de lítio. Está a fechar a distância nas restantes oito.

Em abril de 2024, um trabalho do South China Morning Post analisou as 260 metas técnicas do Green Book e concluiu que 86% tinham sido atingidas ou ultrapassadas. Em setores como robótica, agricultura mecanizada, biofarmacêutica e engenharia naval, todas as metas foram cumpridas.

Houve falhas notórias. Em aviação comercial, o C919 da COMAC, primeiro avião comercial chinês, depende ainda fortemente de fornecedores ocidentais e tem encomendas quase só de companhias chinesas. Em semicondutores avançados, a SMIC chinesa continua atrás da TSMC taiwanesa, embora tenha ultrapassado a americana GlobalFoundries no primeiro trimestre de 2024 e seja agora a terceira maior fundição mundial. Em robótica avançada, a quota chinesa do mercado interno em 2024 era de 48%, abaixo da meta de 70%. Mas o saldo é claro. O plano funcionou.

O plano funcionou. E funcionou a um custo gigantesco.

E funcionou a um custo gigantesco. Até 2024, segundo a Comissão de Revisão Económica e de Segurança EUA-China, o investimento estatal chinês em semicondutores excedeu 150 mil milhões de dólares, aproximadamente três vezes o valor previsto pelo CHIPS Act americano.

BYD: da cópia das baterias da Sony até bater a Tesla

A passagem da cópia para a inovação fez-se no terreno. A BYD foi fundada em 10 de fevereiro de 1995 em Buji, um subúrbio de Shenzhen, por um químico de 29 anos chamado Wang Chuanfu. O capital inicial era de 250 mil yuan, cerca de 30 mil dólares na altura, emprestados pelo primo Lu Xiangyang, então quadro do People’s Bank of China. Tinha vinte funcionários.

Wang vinha de uma família de camponeses pobres da província de Anhui, ficou órfão de ambos os pais ainda jovem, foi criado por um irmão e uma irmã mais velhos. Estudou metalurgia em Pequim e doutorou-se. Antes da BYD, trabalhou num instituto estatal de investigação em metais não-ferrosos.

A BYD começou a copiar baterias da Sony e da Sanyo. Não escondia que copiava: era a estratégia. Wang notou que o Japão estava a passar das baterias de níquel-cádmio (NiCd) para as de níquel-hidrogénio metálico (NiMH) e iões de lítio (Li-ion), abrindo um espaço de mercado nas baterias mais antigas para fabricantes asiáticos de baixo custo.

A inovação da BYD não foi tecnológica, foi de processo. As fábricas japonesas eram altamente automatizadas e intensivas em capital. Wang substituiu a automação por mão de obra humana, dividiu o processo em centenas de pequenas operações manuais executadas por trabalhadoras chinesas com salários de cerca de 50 dólares por mês, e construiu internamente as máquinas que precisava. O custo unitário das baterias BYD era cinco a seis vezes inferior ao das japonesas.

Em 1996, a Sanyo fez à BYD a primeira encomenda. Em 1997, a Philips, a Panasonic e a Motorola seguiram. Em julho de 2002, a BYD ultrapassou a Sanyo e tornou-se o maior fabricante mundial de baterias NiCd, com 65% da produção global.

Em setembro de 2002, a Sanyo processou a BYD por violação de patentes. Em 2006 e 2007, a Foxconn taiwanesa processou a BYD por roubo de segredos industriais e contratação de mais de 400 antigos funcionários da Foxconn que trabalhavam em telemóveis. A BYD perdeu alguns processos, ganhou outros, pagou indemnizações reduzidas, e continuou a crescer. Era o método shanzhai aplicado à escala industrial: copiar, melhorar processos, baixar custos, vencer pelo preço, depois construir capacidade própria.

Em janeiro de 2003, a BYD comprou a Xi’an Qinchuan Automobile, uma pequena fabricante automóvel propriedade da estatal de defesa Norinco. A decisão chocou os accionistas, que não tinham sido informados no prospeto da oferta pública inicial em Hong Kong, em julho de 2002. Um gestor de fundos de Hong Kong telefonou a Wang e disse-lhe sem rodeios que se a BYD avançasse com a compra, vendia toda a sua participação no dia seguinte.

Wang manteve-se firme. “Vou dedicar o resto da minha vida à indústria automóvel, e será à indústria de veículos com energias novas.” Aquilo era 2003. A Tesla ainda não existia como marca pública. O primeiro Roadster sairia das fábricas em 2008.

O BYD F3DM, primeiro veículo híbrido plug-in produzido em série do mundo, lançado pela BYD em 2008. Shanzhai
O BYD F3DM, primeiro veículo híbrido plug-in produzido em série do mundo, lançado pela BYD em 2008

A BYD lançou o primeiro carro a gasolina, o F3, em 2005. Era uma cópia descarada do Toyota Corolla, com algumas adaptações. Vendeu bem. Em 2008, no Salão Automóvel de Genebra, a BYD apresentou o F3DM, primeiro híbrido plug-in produzido em série do mundo. Não foi uma cópia. Foi uma primeira mão. A Toyota ainda não tinha. A General Motors ainda não tinha. Em 2009, lançou o e6, primeiro veículo elétrico puro de produção em série.

Em setembro de 2008, Charlie Munger, vice-presidente da Berkshire Hathaway de Warren Buffett, leu um relatório sobre a BYD que lhe foi passado por Li Lu, investidor de origem chinesa naturalizado americano e fundador do fundo Himalaya Capital, próximo do próprio Munger. Munger, que era conhecido por raramente se entusiasmar com nada, chamou a Wang Chuanfu “uma combinação de Thomas Edison e Jack Welch”. A Berkshire investiu 230 milhões de dólares por cerca de 10% do capital da BYD a 8 dólares de Hong Kong por ação.

Vieram anos difíceis. Entre 2009 e 2020, as vendas da BYD estagnaram. O carro a gasolina do mercado chinês não decolou como esperado. Os subsídios chineses a veículos elétricos foram cortados em 2017. Em 2019, o lucro líquido da BYD caiu para 1,6 mil milhões de yuan. Wang chamou-lhe “o momento mais negro” e disse que o objetivo da empresa naquele ano era “sobreviver”. Mas em 2019 a BYD investiu 8,4 mil milhões de yuan em investigação e desenvolvimento, mais do que o lucro de toda a empresa. Os accionistas protestaram. Wang ignorou-os.

Em 2020, lançou a Blade Battery, bateria de fosfato de ferro lítio (LFP). A maior parte da indústria mundial tinha abandonado o LFP no final dos anos 2010, considerando-o obsoleto por baixa densidade energética. A BYD percebeu que se reorganizasse a geometria interna da célula, transformando-a em lâminas longas e finas que serviam simultaneamente de elemento estrutural do automóvel, conseguia compensar a desvantagem energética com ganhos de segurança, durabilidade e custo. A Blade Battery resistia a testes de penetração com prego sem incendiar. Foi adotada primeiro pelo BYD Han, sedan elétrico lançado em julho de 2020. Em 2021, todos os veículos elétricos puros da BYD passaram a usá-la.

Na era dos veículos a combustão, desmontávamos carros estrangeiros para aprender a tecnologia. Na era dos veículos elétricos, é o contrário: os estrangeiros é que estão a desmontar carros chineses. Wang Chuanfu, fundador da BYD, 30.º aniversário da empresa, novembro de 2024

Os números seguintes são vertiginosos. Em 2020, a BYD vendeu 427 mil carros. Em 2024, vendeu 4 milhões e 272 mil. Multiplicou as vendas por dez em quatro anos. Em março de 2022, deixou de produzir motores de combustão interna. Em novembro de 2024, celebrou em Shenzhen o seu trigésimo aniversário e a saída do dez milionésimo veículo elétrico.

O grupo emprega hoje mais pessoas do que a Toyota, tem 13 mil patentes registadas entre 2003 e 2023, e é o segundo maior produtor mundial de baterias elétricas, atrás apenas da CATL chinesa. Vende baterias à Tesla, à Toyota, à Ford, à Kia, à Suzuki, à Xiaomi, à Nio, à XPeng. A própria Tesla, que em 2011 tinha rido publicamente da BYD, comprou-lhe células para a sua Megapack em 2025.

Em setembro de 2025, a Berkshire de Buffett vendeu a sua participação completa, com um retorno de mais de vinte vezes sobre o investimento de 2008.

No discurso do trigésimo aniversário, a 18 de novembro de 2024, Wang Chuanfu lembrou como BYD começou: nos primeiros anos, sem experiência automóvel, a empresa comprava os carros mais vendidos do mercado para os desmontar e estudar. A trajetória da indústria, segundo Wang, inverteu-se duas décadas depois. Em fevereiro de 2025, em entrevista à CCTV, declararia que os veículos elétricos chineses estavam três a cinco anos à frente da concorrência global. A relação ocidental com o original e a cópia, a hierarquia entre quem cria e quem segue, está a ser invertida. O aluno virou mestre, e usou os mesmos métodos do mestre antigo. Reverse engineering, cópia melhorada, escala industrial.

DeepSeek: a inteligência artificial chinesa que não copiou

A história da DeepSeek é mais recente e mais filosoficamente interessante. Liang Wenfeng nasceu em 1985 em Mililing, uma cidade pequena na província de Guangdong. Filho de um professor primário, estudou engenharia eletrónica e de comunicações na Universidade de Zhejiang, em Hangzhou, onde tirou também o mestrado em 2010. Ao contrário de quase todos os fundadores chineses de empresas tecnológicas, não estudou no estrangeiro, não passou por Stanford ou Berkeley, não teve experiência em fundos hedge ocidentais. Ficou na China.

Em 2015, fundou em Hangzhou a High-Flyer, fundo quantitativo que aplicava algoritmos de aprendizagem automática a estratégias de mercado financeiro. Em 2021, a High-Flyer estava avaliada em cerca de 8 mil milhões de dólares e era um dos quatro maiores fundos quantitativos da China. Foi com os lucros do fundo que Liang comprou silenciosamente, a partir de 2021, cerca de 10 mil processadores Nvidia A100, considerados na altura os mais avançados para treino de modelos de inteligência artificial. Quando a administração Biden impôs em outubro de 2022 controlos de exportação que bloquearam a venda destes chips à China, Liang já tinha o stock que precisava.

Em 2023, fundou a DeepSeek como laboratório de IA, financiado integralmente pela High-Flyer. Não procurou capital de risco. Não tinha plano de negócio claro. Não pretendia lançar produtos para consumidor final. “O dinheiro nunca foi o problema para nós; o problema são as proibições de envio de chips avançados”, disse a uma jornalista em 2024. A DeepSeek tinha cerca de cinquenta engenheiros, todos jovens, a maioria recém-doutorados em universidades chinesas, sem experiência ocidental. Liang dizia que “os melhores cinquenta talentos do mundo provavelmente não estão em empresas chinesas, mas talvez nós possamos formar nós próprios talentos desses”.

Em maio de 2024, a DeepSeek lançou o modelo V2 em código aberto. O modelo introduzia uma inovação arquitetural chamada Multi-Head Latent Attention (MLA), que reduzia o uso de memória para 5 a 13% do que precisavam os modelos baseados em arquiteturas convencionais. O custo de inferência caiu para um yuan por milhão de tokens, cerca de um sétimo do custo do Llama 3 70B da Meta, e um setentésimo do custo do GPT-4 Turbo da OpenAI.

As gigantes tecnológicas chinesas, ByteDance, Alibaba, Baidu, Tencent, foram forçadas a baixar os preços para competir. Iniciou-se uma guerra de preços que destruiu margens de toda a indústria chinesa de IA. Liang chamou-lhe acidente: “Não tencionávamos ser o catfish, simplesmente acontecemos.”

Em janeiro de 2025, a DeepSeek lançou o R1, um modelo de raciocínio que igualava ou superava o GPT-4 e o Claude da Anthropic em vários benchmarks. A empresa anunciou que o treino tinha custado menos de seis milhões de dólares, uma fração dos cem milhões ou mais que custavam os rivais americanos. Vários analistas duvidaram do número, suspeitando que a DeepSeek tivesse acedido secretamente a chips Nvidia mais avançados do que admitia. A controvérsia técnica perdeu importância quando o mercado reagiu. A 27 de janeiro de 2025, as ações da Nvidia caíram 17% num só dia, apagando seiscentos mil milhões de dólares de capitalização bolsista.

A DeepSeek V4, lançada a 24 de abril de 2026, completou o ciclo. Foi o primeiro modelo de fronteira validado para correr em chips chineses Huawei Ascend, sinalizando que a infraestrutura de IA chinesa pode operar independentemente da Nvidia. O treino propriamente dito continuou a fazer-se em GPUs Nvidia, mas a inferência ficou pela primeira vez disponível em hardware doméstico. Bateu todos os modelos abertos rivais em benchmarks de matemática, programação e raciocínio. Ficou marginalmente atrás do GPT-5.4 da OpenAI e do Gemini 3.1-Pro da Google, ambos modelos de código fechado. Segundo o Stanford AI Index 2026, a indústria chinesa de IA “essencialmente fechou” o gap de performance face aos rivais americanos.

Em entrevista a Waves, suplemento da revista económica chinesa 36Kr, Liang Wenfeng explicou em julho de 2024 a filosofia do laboratório. “Habituámo-nos a que a Lei de Moore caísse do céu, à espera em casa que melhor hardware e software aparecessem a cada 18 meses”, disse, descrevendo as três décadas em que a China esteve ausente das vagas de inovação ocidental em tecnologias de informação. “Mas isso é o resultado do trabalho incansável de gerações de comunidades técnicas lideradas pelo Ocidente. É só porque não estávamos envolvidos no processo que ignorámos a sua existência”.

Mais adiante: “Costuma dizer-se que há uma diferença de um ou dois anos entre a IA chinesa e a americana, mas o verdadeiro abismo é entre originalidade e imitação. Se isto não mudar, a China será sempre apenas uma seguidora”.

Um industrial chinês a dizer publicamente que a China viveu décadas como passageira clandestina da inovação ocidental, e a explicar que o problema não é a distância tecnológica medida em anos, é a relação cultural com a originalidade. O Liang Wenfeng está, paradoxalmente, a contradizer a tese de Han. Não defende uma cultura chinesa do fluxo contínuo entre original e cópia. Defende que a China precisa de se tornar criadora ao modo ocidental, com inovação original, com risco de pesquisa básica, com investimento em ideias que podem falhar. Quer jogar o jogo do Silicon Valley, e quer ganhá-lo.

Quer jogar o jogo do Silicon Valley, e quer ganhá-lo.

A tensão entre a tese de Han e a posição de Liang é, precisamente, o sítio onde a história fica interessante. O fenómeno shanzhai, na leitura de Han, era uma forma chinesa de criar pela continuação. Mas a DeepSeek, vista por dentro, não é shanzhai. É outra coisa. É inovação original, no sentido ocidental do termo, feita por engenheiros chineses que assumem explicitamente querer ultrapassar o Ocidente no terreno em que o Ocidente foi pioneiro.

E há uma camada filosófica adicional que não pode ser ignorada. A DeepSeek é open source. Publica os pesos dos modelos, publica os papers, partilha as inovações arquiteturais. “Perante tecnologias disruptivas, os fossos criados pelo código fechado são temporários. Mesmo a abordagem de código fechado da OpenAI não consegue impedir os outros de a alcançarem”, diz Liang. Aqui Han volta a ter razão. A noção chinesa de fluxo, de partilha aberta, de cópia legítima como forma de progresso coletivo, está a ser aplicada à inteligência artificial. E está a colocar em causa o modelo de capitalismo de propriedade intelectual fechada que sustentou o Silicon Valley durante quatro décadas.

A inversão ocidental: como o CHIPS Act imitou Made in China 2025

Três fases distintas marcaram a reação ocidental. Entre 2001, quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio, e 2015, ano em que Pequim publicou o Made in China 2025, o que dominava era o engagement comprometido. O catch-up chinês ainda parecia caminho seguro para a convergência política, a abertura democrática e a integração ordeira no sistema internacional baseado em regras. A propriedade intelectual era um problema, certo, mas resolúvel por pressão diplomática e mecanismos da OMC.

De 2015 a 2022, o registo mudou para confronto seletivo. A face visível foram as tarifas Trump, a partir de 2018. Em março desse ano, o Section 301 do Trade Act qualificou de “irrazoáveis ou discriminatórias” as práticas chinesas de transferência forçada de tecnologia e roubo de propriedade intelectual. A estratégia, porém, continuava centrada em tarifas e medidas reactivas.

A viragem é de 2022. Foi nesse ano que a administração Biden decretou os primeiros controlos de exportação de chips avançados para a China. Em agosto, o Congresso americano aprovou o CHIPS and Science Act. Em 2023, Bruxelas seguiu-se com o EU CHIPS Act. E o Inflation Reduction Act injectava na indústria verde americana centenas de milhares de milhões de dólares. A estratégia ocidental tornou-se ofensiva e mudou de natureza. Já não se tratava de policiar regras, mas de construir capacidade. O CHIPS Act mobilizava cerca de 50 mil milhões de dólares em subsídios à indústria de semicondutores. O equivalente europeu prometia 43 mil milhões de euros.

Estes três actos legislativos copiam, na arquitectura básica, o Made in China 2025. Subsídios estatais a setores estratégicos. Identificação de tecnologias prioritárias. Proteção do mercado interno. Acesso a fundos públicos condicionado a critérios de produção doméstica. Formação de quadros. Financiamento estatal de I&D em parceria com empresas. Numa análise de 2018, o Center for Economic Policy Research observava-o desde logo: o CHIPS Act e o EU CHIPS Act “como o Made in China 2025, têm em comum apontar para certas indústrias estratégicas e dar dinheiro dos contribuintes a empresas-alvo”.

A diferença não é qualitativa. É de escala. Em valor absoluto, o investimento chinês em semicondutores até 2024 supera os 150 mil milhões de dólares. Triplica o CHIPS Act americano. E em escala temporal, Pequim leva dez anos de avanço na construção de política industrial sistemática para o século XXI. Adam Posen, presidente do Peterson Institute for International Economics, formulou-o em termos crus à Bloomberg: “a ascensão tecnológica da China não vai ser travada, e talvez nem sequer abrandada, pelas restrições americanas”, a menos que estas sejam tão drásticas que prejudiquem em simultâneo a inovação americana e global.

A ironia da história é considerável. Durante trinta anos, o Ocidente acusou a China de capitalismo de Estado e concorrência desleal, e nos últimos quatro anos pôs-se a fazer o mesmo. Algumas das marcas dessa imitação são patéticas.

Quando o presidente americano Joe Biden anunciou, em 2022, os controlos de exportação de chips, fê-lo em termos que podiam sair do gabinete de Xi Jinping a propósito de outro sector qualquer. Jake Sullivan, o seu conselheiro de segurança nacional, argumentava em setembro desse ano que, em tecnologias-chave como chips lógicos e de memória, os Estados Unidos tinham de “manter a maior vantagem possível” sobre os concorrentes.

Autossuficiência tecnológica, política industrial estratégica, prioridades nacionais: este vocabulário corre hoje entre Pequim, Washington, Bruxelas e Berlim.

Há uma assimetria, claro. Pequim não tem de pedir desculpa por uma doutrina que sempre teve. Bruxelas e Washington têm de fingir que a sua é nova e excepcional, justificada por circunstâncias inesperadas. É essa assimetria narrativa que explica boa parte do desconforto ocidental contemporâneo.

O futuro do duopólio tecnológico EUA-China

A história contada nestas páginas não é a do triunfo definitivo da China. A economia chinesa enfrenta problemas estruturais sérios. Desaceleração demográfica grave. Crise imobiliária prolongada desde 2021. Dívida opaca e crescente das administrações locais. Capacidade industrial excedentária em vários setores estratégicos, que está a gerar guerras de preços destrutivas, incluindo no próprio setor dos veículos elétricos.

A própria BYD viu o lucro cair quase 30% no segundo trimestre de 2025, em parte por causa da campanha do governo chinês contra guerras de preços. O Made in China 2025 foi bem-sucedido, mas a um custo de ineficiência e desperdício que o sistema chinês prefere não contabilizar publicamente.

Tão-pouco está garantida a sustentabilidade do modelo de IA aberta da DeepSeek. A empresa vive dos lucros do fundo High-Flyer e da entrega quase obsessiva dos engenheiros. Basta que precise um dia de levantar capital ocidental, ou que Pequim decida intervir directamente na sua governance, para o equilíbrio actual quebrar. Que a V4 corra em chips Huawei Ascend é vitória da autossuficiência, mas é também sinal indirecto de outra coisa. O treino continua a fazer-se em GPUs Nvidia. O stock de chips Nvidia que a DeepSeek comprou em 2021-2022 está a esgotar-se, e a alternativa chinesa, embora competitiva para inferência, fica ainda abaixo do que a Nvidia oferece globalmente para treino.

O desequilíbrio histórico, esse, está montado. A China não ultrapassou o Ocidente em ciência fundamental, e nesta década dificilmente o fará. Continua dependente das descobertas básicas que saem dos laboratórios das universidades americanas, britânicas e alemãs.

Mas ultrapassou noutro território. No de transformar ciência em produto, escalar produção, iterar designs, sustentar política industrial coerente ao longo de décadas. E está a pôr em causa um pressuposto que o Ocidente tinha como natural: o de que a inovação tecnológica vive necessariamente dentro de propriedade intelectual fechada e protecção de patente.

Reentra aqui o argumento de Han, contra Liang Wenfeng. Pode bem ser que a noção chinesa de criação como continuação, como fluxo de transformação onde original e cópia não se hierarquizam rigidamente, esteja mais bem adaptada ao mundo da IA do que a obsessão ocidental com o autor único.

A diferença não é qualitativa, é de escala.

A inteligência artificial é, por construção, uma tecnologia de transformação. Pega em dados que já existem e devolve-os em formas novas. Treina-se em todo o conteúdo cultural disponível e produz variações. Não há criação ex nihilo, em sentido rigoroso. Há recombinação a partir de matéria preexistente, transformada por algoritmos que herdaram tudo o que a humanidade escreveu até hoje.

O Silicon Valley dedicou os últimos cinco anos a discutir juridicamente como proteger a propriedade intelectual dos seus modelos de IA, como impedir que outros lhes copiem o que está dentro. A DeepSeek tornou esses debates parcialmente irrelevantes ao publicar tudo. Não por generosidade. Por convicção: a vantagem competitiva sustentável está na equipa, na cultura, na capacidade de iterar, não nos pesos do modelo fechados a sete chaves. “O nosso fosso real reside no crescimento da equipa, na acumulação de know-how, no fomento de uma cultura inovadora”, explicou Liang. A frase podia sair da pena de um mestre calígrafo da dinastia Ming.

Em que terreno é que sobra ao Ocidente vantagem clara? A ciência fundamental continua a fazer-se sobretudo em laboratórios americanos, britânicos e alemães. As finanças globais continuam ancoradas em Wall Street e na City. O poder cultural ainda passa pelos estúdios de Hollywood e pelas universidades da Ivy League. A manufatura avançada, a transição energética e a biotecnologia industrial, essas, mudaram de hemisfério.

Entre o telemóvel Nokir do Huaqiangbei e a DeepSeek V4 passaram dezanove anos. Não foi cópia. Não foi milagre. Foi planeamento estatal coerente, capital paciente e a chegada de uma geração de fundadores chineses que decidiram jogar o jogo da inovação original com regras próprias. Em abril de 2026, quando o investimento chinês em semicondutores ultrapassou pela terceira vez consecutiva o valor anual do CHIPS Act americano, o vocabulário ocidental sobre política industrial era já indistinguível do vocabulário que Pequim usava em 2015. Falar de capitalismo de Estado tornou-se, em Bruxelas e em Washington, exercício de auto-descrição.

Etiquetas: AméricaChinaInteligência artificialPolíticaTecnologia
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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