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Início Ciência e ambiente

Eclipse total, anular ou parcial: o que decide é a distância

por Jorge Montez
05.08.2026
em Ciência e ambiente
1
Ilustração a óleo de um eclipse do Sol, com o disco lunar escuro sobre um ponto de luz intensa no bordo inferior e um halo ténue em redor, acima de uma linha de horizonte curva

@Tanto Mundo (com IA)

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VISUALIZAÇÕES

Três eclipses passam pela Península entre 2026 e 2028, e cada um deixa uma marca diferente no chão.

Resumo
Um alinhamento previsível ao segundo, quase irrepetível no mesmo sítio
Portugal continental teve o último eclipse total em 1912 e volta a ter faixa de totalidade em agosto de 2026, depois só em 2144.

A 12 de agosto de 2026, ao fim da tarde, a sombra da Lua desce do Ártico e toca a Península Ibérica. A 2 de agosto de 2027, outra sombra cruza o estreito de Gibraltar. A 26 de janeiro de 2028, uma terceira passa sobre o sul peninsular e não chega a tapar o Sol: deixa um anel de luz à volta do disco lunar. Três alinhamentos em dois anos e meio, com três resultados diferentes.

A Lua passa entre a Terra e o Sol uma vez por mês, e mesmo assim há entre dois e cinco eclipses solares por ano no planeta. Quando o alinhamento acontece, o resultado depende de um número que muda todos os dias: a distância a que a Lua se encontra.

Índice

  • Porque é que não há um eclipse todos os meses?
  • Qual é a diferença entre total, anular e parcial?
  • Quantos eclipses podem ser vistos em Portugal?

Porque é que não há um eclipse todos os meses?

A órbita lunar está inclinada cerca de cinco graus em relação ao plano em que a Terra gira à volta do Sol, e a sombra costuma passar acima ou abaixo do planeta. Como explica a NASA, só há eclipse quando a lua nova acontece perto de um dos pontos em que as órbitas se cruzam, os nodos, o que abre duas janelas por ano.

Cada janela dura pouco mais de um mês, e a seguinte chega 173 dias depois, um pouco antes de meio ano.

Resolvido o alinhamento, o que decide é o tamanho aparente. O Sol tem cerca de 400 vezes o diâmetro da Lua e está quase 400 vezes mais longe, o que faz os dois discos parecerem quase do mesmo tamanho vistos da Terra. Quase. A órbita é elíptica, e entre os seus extremos vão cerca de 50 mil quilómetros, e é aí que cai o ponto onde o cone acaba em bico.

Qual é a diferença entre total, anular e parcial?

Com a Lua perto, o cone escuro chega ao solo. Chama-se umbra, e quem está lá dentro vê o disco solar desaparecer, a coroa surgir em volta e a temperatura descer. É o eclipse total, a única circunstância em que a atmosfera exterior do Sol se vê a olho nu.

Quando a órbita a leva mais longe, o cone acaba antes de tocar a superfície, e o que varre o chão é o prolongamento dele, a antumbra. O disco lunar fica pequeno demais para cobrir o solar e sobra o anel que dá nome ao eclipse anular. Não há coroa, e em nenhum instante é seguro olhar sem filtro.

Daqui a cerca de 600 milhões de anos, a Terra viverá pela última vez a beleza e o drama de um eclipse total do Sol. Richard Vondrak, cientista lunar do Goddard Space Flight Center da NASA, 2017

Em redor da faixa central estende-se a penumbra, uma sombra larga de milhares de quilómetros onde o Sol aparece mordido de um lado. Daí o eclipse parcial, que é o que quase toda a gente vê. Há ainda eclipses em que a parte escura passa ao largo dos polos, e esses são parciais em toda a Terra.

A faixa central, essa, tem poucas centenas de quilómetros de largura. Jean Meeus, astrónomo belga que calculou séries de eclipses ao longo de milénios, chegou a uma média de 375 anos entre duas totalidades no mesmo lugar da Terra.

Quantos eclipses podem ser vistos em Portugal?

É essa aritmética que separa as três datas ibéricas. Em agosto de 2026, a umbra toca Portugal continental num só ponto, um troço da Estrada Nacional 308 entre Rio de Onor e Guadramil, no Parque Natural de Montesinho, onde a Ciência Viva conta 25,6 segundos de escuridão. No resto do território perde-se entre 92% e 99% do Sol, e enquanto sobrar um fio de fotosfera continua a ser dia.

Mapa
Três sombras sobre a Península, de 2026 a 2028
123
1
2026 · A faixa de totalidade entra pela Galiza, toca Portugal em Montesinho e sai pelas Baleares.
2
2027 · A totalidade cruza o estreito de Gibraltar e o sul de Espanha. Portugal fica de fora.
3
2028 · A faixa de anularidade chega do Atlântico e cobre o sul do continente e a Madeira.
Faixas traçadas a partir das coordenadas da NASA. O rigor é maior em 2026 e 2027 do que em 2028.
Cartografia: Natural Earth · Fonte: Fred Espenak, NASA GSFC @Tanto Mundo

Em 2027, a totalidade fica do lado espanhol do estreito de Gibraltar e Portugal vê o parcial. Em 2028, a Lua estará perto do apogeu, e daí o anel: o Instituto Geográfico Nacional de Espanha traça a faixa a chegar pelos Açores e a terminar em Espanha ao cair da tarde. Em território continental, o anel de 2028 vê-se de Faro, Beja e Tavira.

O eclipse total anterior em Portugal foi em 1912 e o próximo, segundo a Ciência Viva, será em 2144. O que os eclipses significaram enquanto não se sabia prevê-los foi contado em junho no Tanto Mundo. Entretanto a Lua afasta-se 3,8 centímetros por ano, medidos com lasers apontados aos refletores das Apollo. Quando a faixa voltar ao país, daqui a 118 anos, estará cerca de quatro metros e meio mais longe.

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Etiquetas: EspaçoEuropaPortugal
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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