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Início Ciência e ambiente

Olhar para o eclipse sem filtro destrói a retina e não dói

por Jorge Montez
30.07.2026
em Ciência e ambiente
1
Ilustração de um olho visto de lado, com a íris substituída por um eclipse solar: disco negro com um crescente dourado à direita e um ponto de luz intenso, sobre fundo cor de creme

@Tanto Mundo (com IA)

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VISUALIZAÇÕES

O eclipse de 12 de agosto tapa entre 92% e 100% do Sol sobre Portugal. A lesão que a observação sem óculos de eclipse provoca chama-se retinopatia solar.

Resumo
Quase duas horas de eclipse sobre todo o país
Um filtro certificado deixa passar menos de 0,0032% da luz visível, e uns óculos de sol deixam passar milhares de vezes mais do que é seguro.

Ver o eclipse de 12 de agosto exige óculos de eclipse certificados do princípio ao fim. Durante as quase duas horas que dura, e em todo o território nacional, olhar para o Sol sem proteção queima a retina.

A queimadura não dói. Nada, no instante em que acontece, leva quem está a olhar a desviar os olhos. Mas a lesão é irreversível.

Índice

  • Porque é que a retina não avisa?
  • Óculos de sol servem como óculos de eclipse?
  • E através de binóculos ou telescópio?
  • O que se vê nos vários pontos de Portugal?

Porque é que a retina não avisa?

A retina não avisa porque não tem recetores de dor. O olho tem-nos na córnea, e é por isso que uma soldadura vista sem máscara arde e um grão de areia obriga a fechar a pálpebra. A retina não os tem. Os sintomas aparecem quatro a seis horas mais tarde, em alguns casos só ao fim de 12, quando já não há nada a fazer.

A retinopatia solar não tem tratamento, e os fotorrecetores destruídos não se regeneram. A American Academy of Ophthalmology descreve um regresso da visão ao longo de três a seis meses que, em parte dos casos, fica incompleto e deixa um ponto cego permanente no meio do campo visual.

Como acontece
O que acontece na retina
Observação sem filtro, do primeiro raio ao ponto cego
SOL ECLIPSADO CÓRNEA CRISTALINO RETINA FÓVEA
A lesão reproduz a forma do que foi olhado. Depois do eclipse de 2017 registaram-se queimaduras em forma de crescente.
1
A luz concentra-se
A córnea e o cristalino fazem convergir num só ponto do fundo do olho toda a luz que entra pela pupila. Esse ponto é a fóvea, onde a visão é mais nítida.
2
Os fotorrecetores queimam
A luz visível de comprimento de onda curto provoca dano fotoquímico, e o infravermelho próximo provoca dano térmico. Atingem os segmentos externos dos fotorrecetores e o epitélio pigmentar.
3
Nada avisa
A retina não tem recetores de dor. Os sintomas aparecem quatro a seis horas mais tarde, em alguns casos só ao fim de 12.
4
O que fica
Não há tratamento e os fotorrecetores destruídos não se regeneram. A visão regressa ao longo de três a seis meses e, em parte dos casos, não regressa por inteiro: fica um ponto cego no centro do campo visual.
Fontes: American Academy of Ophthalmology; Chris Wu e colegas, JAMA Ophthalmology, 2018 @Tanto Mundo

Chris Wu e colegas do Mount Sinai descreveram um caso na JAMA Ophthalmology, em dezembro de 2017: na fóvea de uma mulher na casa dos 20 anos, a lesão tinha a forma exata da mancha cega que ela própria tinha desenhado.

Óculos de sol servem como óculos de eclipse?

O que trava um olhar demasiado longo para o Sol é um reflexo de aversão, anterior a qualquer cálculo de risco. Ralph Chou, optometrista da Universidade de Waterloo e um dos autores da norma internacional dos filtros solares, explicou à Scientific American que esse reflexo se aprende cedo e que a vontade de ver uma coisa invulgar o vence. Com o disco quase todo tapado, o desconforto desaparece muito antes do perigo.

Óculos escuros respondem a outra norma, a ISO 12312-1, e deixam passar centenas a milhares de vezes mais luz do que é seguro, segundo a American Astronomical Society. Um filtro de observação solar cumpre a ISO 12312-2 e não pode transmitir mais de 0,0032% da luz visível, cerca de uma parte em 31 mil, e limita também o ultravioleta e o infravermelho.

Grupo de jovens ao ar livre, de cabeça erguida, com óculos de eclipse             de cartão, e o eclipse parcial refletido nas lentes
Os filtros certificados são o único modo de acompanhar as fases parciais de um eclipse. Ilustração gerada com inteligência artificial

A página oficial do programa nacional manda verificar o filtro: sem furos nem riscos, marca CE visível, referência ao Regulamento (UE) 2016/425, nome do fabricante, número de lote, declaração de conformidade e o tempo máximo de observação contínua.

A ZEISS distribui óculos de eclipse gratuitos pela rede Club da Visão e pelos Centros Ciência Viva, com inscrição obrigatória e limitada ao stock.

E através de binóculos ou telescópio?

Uma ótica sem filtro concentra a luz antes de a entregar ao olho, e um filtro de cartão não aguenta essa carga: queima e deixa passar o que travava. Daí que os filtros de enroscar na ocular sejam perigosos: o filtro tem de ficar à frente do instrumento, do lado do Sol. Espreitar por um binóculo sem filtro com os óculos de eclipse postos é a combinação que a American Astronomical Society descreve como extremamente perigosa.

Extremamente perigoso, e receita para lesão ocular grave American Astronomical Society, sobre olhar por binóculos ou telescópio sem filtro usando óculos de eclipse

O mesmo vale para quem fotografa. Uma câmara ou um telemóvel apontados ao Sol sem filtro sobre a objetiva concentram a luz no sensor como o olho a concentra na fóvea. Por isso, fotografar sem qualquer filtro pode também danificar o aparelho. O filtro protege a vista e o equipamento.

O que se vê nos vários pontos de Portugal?

Num troço da estrada N308, entre Rio de Onor e Guadramil, dentro do Parque Natural de Montesinho. A sombra da Lua toca o país ali e mais em lado nenhum, durante 26 segundos, os primeiros em Portugal continental desde 1912, e só nesses segundos é seguro observar sem filtro. As inscrições para a zona de observação já fecharam.

Aí o eclipse começa às 18h33 e termina às 20h23, com o máximo por volta das 19h30; no resto do país variam alguns minutos em torno destas, com o Sol entre oito e 11 graus acima do horizonte.

Mapa
Quanto do Sol desaparece, a 12 de agosto de 2026
Percentagem da área do disco solar oculta no momento máximo. As linhas unem pontos com a mesma percentagem, e o valor sobe de sudoeste para nordeste até aos cem por cento na ponta que toca Montesinho.
93%94%95%96%97%98%99%100%Montesinho98,2%Porto94,5%Lisboa92,7%Faro
92%96%100%ÁREA DO DISCO SOLAR OCULTA
Regiões autónomas
Funchal77,5%
Ponta Delgada76,9%
Nas ilhas o Sol está mais baixo e a fase máxima fica bastante abaixo de qualquer ponto do continente.
Cartografia: Natural Earth · Cálculo a partir dos elementos besselianos de Fred Espenak, NASA GSFC @Tanto Mundo

A ocultação vai dos 92% no sul do continente aos 99,9% em Bragança, e fica entre os 74% e os 77% nos Açores e na Madeira. Pedro Mota Machado, astrónomo e comissário nacional para o eclipse, resumiu a diferença a 22 de julho: “Ser 99%, ser 99.9% ou 98% é quase igual.”

Em 99,9% de ocultação sobra um filete de fotosfera com o brilho de um Sol inteiro por unidade de superfície.

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Etiquetas: EspaçoPortugalSaúde
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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Comentários 1

  1. Pingback: Eclipse do sol em Bragança 2026: do presságio à ciência

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