Um estudo publicado em julho na Nature pesou dez anos de poeiras do Saara no ar europeu e foi buscar dois séculos e meio de registo a um glaciar dos Alpes. Em Portugal, o pó do deserto ocupou 190 dias de 2024.
Ouve o artigo:
A 16 de janeiro de 1833, o Beagle navegava a 10 milhas a noroeste da ilha de São Tiago, em Cabo Verde, quando o pó começou a assentar no convés. Charles Darwin, naturalista de bordo, raspou o que conseguiu e mandou cinco pacotes para Berlim.
Christian Gottfried Ehrenberg, professor de zoologia e membro da Academia Prussiana das Ciências, que passava os dias ao microscópio à procura daquilo a que chamava a vida mais pequena, contou 67 formas orgânicas diferentes naquele pó.
Durante quase dois séculos, o que Darwin descreveu ficou no território da curiosidade. Que as poeiras do Saara atravessavam o oceano, turvavam o céu das Canárias e da Madeira e de vez em quando deixavam o carro sujo em Lisboa, isso sabia-se. O que não havia era uma medida continental do fenómeno, feita a partir daquilo que os aparelhos apanham no ar e não daquilo que os modelos calculam que devia lá estar.
Essa medida existe desde 15 de julho de 2026, data em que a revista Nature publicou a primeira quantificação europeia da poeira do deserto assente em observações. O trabalho mediu as poeiras do Saara e dos desertos do Médio Oriente que chegam ao continente. Foi liderado pelo Paul Scherrer Institute, na Suíça, e tem entre os seus mais de cinquenta autores Célia Alves, investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro. A conclusão central desmente a intuição comum. Ao longo da última década, a poeira passou a chegar em menos ocasiões e a trazer mais carga em cada uma delas.
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Alumínio como impressão digital
O problema técnico é antigo. Uma estação de qualidade do ar mede massa de partículas, não proveniência. Quando o contador regista 60 microgramas de PM10 por metro cúbico, ou seja, 60 microgramas de partículas com diâmetro inferior a 10 micrómetros, não sabe distinguir o que veio do escape de um camião do que veio de uma bacia seca da Mauritânia.
A solução da equipa passou por procurar aquilo que só o deserto traz. Alguns elementos químicos são bons delatores: o silício e o titânio aparecem quase sempre agarrados a poeira mineral transportada de longe. O cálcio e o ferro não servem, porque também saem do desgaste dos travões, das obras e da terra levantada pelos carros nas estradas. O alumínio serve, e tem a vantagem prática de ser o metal mais medido nas redes europeias.
Ficou assim montada uma base de dados com cerca de 18.500 medições diárias de metais, recolhidas entre 2012 e 2021 em 103 locais rurais e urbanos da Europa. A partir das proporções encontradas entre os elementos, os investigadores fixaram um fator de conversão: a massa total de poeira corresponde a 13,5 vezes a massa de alumínio. Depois treinaram um modelo de aprendizagem automática para estimar, dia a dia e numa grelha de 10 por 10 quilómetros, quanta poeira havia no ar de cada ponto do continente.
O resultado é um mapa diário da última década.
O que o mapa mostra: onde a poeira mais aumentou
O sul da Europa respira, em média, 5,28 microgramas de poeira por metro cúbico. O norte e o centro respiram 2,09. A fronteira que separa os dois valores foi traçada na latitude de Milão, o que deixa Portugal inteiro do lado exposto.
A sazonalidade muda conforme a longitude. No Mediterrâneo oriental as poeiras do Saara sobem entre março e maio e mantém-se alta até outubro. Na Península Ibérica o pico é outro: julho e agosto, quando o aquecimento do Saara instala uma depressão térmica à superfície, empurra o anticiclone norte-africano para cima dos 850 hectopascais e abre um corredor de transporte em altitude que atinge a península de uma vez só.
Nos dez anos analisados, a concentração média subiu 0,055 microgramas por metro cúbico por ano em quase toda a Europa. Parece pouco. Ao fim de dez anos são 0,55 microgramas acrescentados, o que pesa cerca de um décimo da média do sul e um quarto da média do norte. O aumento anual é igual nas duas metades do continente, o que sugere que a poeira africana começou a ser um problema de países que nunca a tiveram como tal.
Nada disto teria surpreendido quem estava no Beagle. No artigo que publicou em 1846, Charles Darwin já tinha reunido 15 relatos de poeira caída sobre navios na costa africana do Atlântico, calculado que o fenómeno cobria pelo menos 1.600 milhas de latitude e registado que alguns barcos tinham encalhado por causa da bruma. O que faltava era a régua.
O detalhe mais contraintuitivo aparece na separação entre frequência e intensidade. O número de dias de intrusão diminuiu em toda a Europa entre 2012 e 2021. A concentração registada durante essas intrusões aumentou, e aumentou muito no sul de Itália, onde subiu 0,270 microgramas por metro cúbico em cada ano. No norte da Europa passou-se o contrário. As intrusões mantiveram a severidade que tinham, e o que subiu foi o ar de fundo, o ar dos dias em que não acontece nada.
Um cilindro de gelo no Monte Rosa
Uma década de dados não chega para saber se isto é tendência ou oscilação. Para responder a essa pergunta, a equipa foi buscar um arquivo mais antigo.
No Colle Gnifetti, um colo glaciar do maciço do Monte Rosa a 4.450 metros de altitude, na fronteira entre a Suíça e a Itália, foram perfurados três cilindros de gelo: dois em 2003, um em 2021. O gelo guarda, camada a camada, aquilo que caiu do céu. Como as medições de alumínio no gelo só existem até 1990, os investigadores usaram o cálcio como substituto, depois de confirmarem que os dois andam juntos ao longo de dois séculos e meio de registo.

Entre o período pré-industrial, contado de 1750 a 1850, e a última década, a concentração de cálcio no gelo alpino subiu cerca de 110%.
Esse valor podia ter várias explicações. A que resistiu à análise estatística tem a ver com o estado do solo em África. Os investigadores cruzaram a série do gelo com o índice de severidade de seca de Palmer calculado para a faixa do noroeste do Saara, entre a Argélia e Marrocos, que alimenta os Alpes de poeira. A correlação é negativa e forte: quanto mais seca a origem, mais poeira no gelo. Restringindo a análise às fontes marroquinas, aperta ainda mais.
A oscilação do Atlântico Norte, que governa a direção dos ventos sobre o oceano, explica a variação de ano para ano. A aridez explica a subida de fundo.
Nenhuma destas relações prova causalidade, coisa que os autores fazem questão de escrever. Prova associação robusta, que é o que os dados permitem.
Aquilo que a poeira faz aos pulmões
As referências de qualidade do ar da Organização Mundial da Saúde fixam a média anual de PM10 em 15 microgramas por metro cúbico. Em 2021, no sul da Europa, só a poeira transportada do deserto já ocupava 31% desse limiar. Para as partículas mais finas, as PM2,5, ocupava 25,8% de um limiar de 5 microgramas.
Um habitante do sul da Europa atravessa, em média, 46 dias de intrusão por ano, com concentrações médias de 9,68 microgramas de poeiras do Saara nesses dias. Aplicando os coeficientes de risco fixados por um estudo de 2016 publicado na Environmental Health Perspectives sobre surtos de poeira no sul da Europa, a equipa estima que esses dias trazem consigo um acréscimo de 0,67% na mortalidade diária e de 0,73% nos internamentos por doença respiratória em maiores de 15 anos.
Nas crianças até aos 14 anos, o acréscimo estimado de internamentos respiratórios é de 2,55%.
São percentagens pequenas aplicadas a populações grandes. E incidem sobre um pano de fundo que a Europa passou trinta anos a limpar, com o recuo do carvão, do gasóleo e da indústria mais suja.
Cento e noventa dias de poeiras do Saara em Portugal
Em Portugal, a contabilidade destes episódios é feita todos os anos por uma equipa da NOVA School of Science and Technology, coordenada por Francisco Ferreira, para a Agência Portuguesa do Ambiente. O relatório relativo a 2024 identificou 190 dias de intrusão de massas de ar vindas do norte de África sobre o território nacional, os episódios a que a meteorologia chama calima e que é comummente chamada de poeiras do Saara. São 52% do ano. A média dos quinze anos anteriores era de 124 dias.
No continente foram 161 dias, distribuídos por 25 episódios, com duração média de seis dias. O mais longo durou 19 dias, de julho a agosto, exatamente na janela que o estudo da Nature identifica como pico ibérico. Na Madeira houve 90 dias de poeiras do Saara, em episódios mais curtos mas mais densos.

O valor diário mais alto do ano numa estação rural foi medido a 18 de dezembro. A estação rural de Santana, na costa norte da Madeira, registou 223 microgramas de PM10 por metro cúbico, quatro vezes e meia o valor limite diário europeu. No Funchal, a estação de São João chegou aos 314. No mesmo dia, a mais de mil quilómetros de distância, a estação de Fornelo do Monte, no interior centro de Portugal continental, registava 113.
Ao longo de todo o ano, as poeiras do Saara representaram 20% da média anual de PM10 medida em Portugal continental. Na Madeira, 29%. Na estação de Santana, sozinha, 41%.
O que a lei manda subtrair
O Decreto-Lei 102/2010, que transpôs para Portugal a diretiva europeia da qualidade do ar então em vigor, permite deduzir as contribuições de origem natural às concentrações medidas quando se avalia o cumprimento dos valores limite. O princípio subjacente é o de que uma fonte natural se mede mas não se trava, e nenhum Estado responde por aquilo que não está em posição de impedir. O diploma inclui na definição de fonte natural, entre outras, o transporte atmosférico de partículas vindas de regiões secas.
O cálculo obedece a uma metodologia ibérica em uso desde 2006, desenhada pelo Instituto de Ciencias de la Tierra Jaume Almera, em Barcelona, e aplicada em conjunto por Portugal e Espanha. Para cada dia de intrusão, escolhe-se uma estação rural afastada de fontes urbanas, calcula-se o percentil 40 dos trinta dias em torno desse dia, e a diferença entre o valor medido e esse percentil é a fração natural. Essa fração é depois subtraída a todas as estações da região, incluindo às estações de tráfego no meio das cidades.
Em 2024, 75% das excedências ao valor limite diário de PM10 registadas em Portugal foram inteiramente atribuídas a fontes naturais e desapareceram das contas. Na Madeira, 89%.
O ar que entrou nos pulmões de quem estava no Funchal a 18 de dezembro foi o mesmo antes e depois do desconto. O que muda é o registo. É o registo que determina se um país precisa de plano de melhoria e se tem de responder perante a Comissão Europeia.
O mecanismo faz sentido dentro da sua própria lógica. Portugal não pode legislar sobre a chuva que não cai em Marrocos. O que a série do Colle Gnifetti sugere é que a fração descontada tem uma componente que não é inteiramente natural, se o que a alimenta é a degradação dos solos do norte de África sob um clima que aqueceu por decisão de terceiros.
A Diretiva 2024/2881, que substituiu a legislação de 2008 e tem de estar transposta até 11 de dezembro de 2026, aperta os limites: o valor anual de PM10 desce de 40 para 20 microgramas por metro cúbico a partir de 2030. A possibilidade de deduzir as fontes naturais mantém-se. Com limites mais baixos e uma fração natural em subida, a aritmética que Portugal apresenta a Bruxelas todos os setembros vai depender cada vez mais do percentil 40 de meia dúzia de estações rurais, uma delas em Santana, no concelho da Madeira onde as poeiras do Saara já valem quatro décimos do que se respira.






