Entre o século VIII e o século XI, quatro sábios do mundo islâmico mediram a Terra, corrigiram Ptolemeu e catalogaram 800 substâncias medicinais. A polimatia foi desaparecendo
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A 14 de maio de 1277 ruiu o teto de uma divisão do palácio apostólico de Viterbo em cima do papa. Foi retirado dos escombros ainda vivo e morreu dos ferimentos seis dias depois, a 20 de maio.
Chamava-se Pedro Julião e a história conhece-o por Pedro Hispano. Nasceu em Lisboa entre 1210 e 1220, obteve o grau de mestre em Paris, foi cardeal-bispo de Tusculum em 1273 e chegou a papa em setembro de 1276, com o nome de João XXI. Atribuem-se-lhe as Summulae logicales, manual de lógica, e o Thesaurus pauperum, manual de remédios.

Um mestre Pedro, médico, dito Hispano, aparece nos documentos de Siena entre 1245 e 1250. A tradição identifica-o com o papa, e acrescenta, séculos mais tarde e sem apoio nas fontes do século XIII, que a divisão de Viterbo tinha sido mandada construir por ele para se recolher a estudar.
O currículo serve há séculos de prova portuguesa de uma coisa que parece ter acabado: um homem podia ocupar ao mesmo tempo a lógica, a medicina e o trono de São Pedro.
A explicação corrente para o fim disso é moral. A curiosidade estreitou-se, a escola fragmentou-se, o especialista tomou o lugar do sábio. Mariam Sabri, historiadora de ciência e medicina e professora auxiliar na Aga Khan University, em Karachi, propõe outra coisa num ensaio publicado na Aeon a 11 de setembro de 2026: a recuperação das inclinações de polimatia que floresceram no mundo muçulmano. As inclinações, não o talento.
A diferença entre as duas palavras carrega o resto. Talento é atributo. Inclinação é hábito, e o hábito depende das condições em que se trabalha.
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Quatro polímatas entre Bagdade e Ghazni
al-Khwarizmi nasceu na Ásia Central por volta de 780 e trabalhou na Bayt al-Hikmah, a casa da sabedoria de Bagdade. Dedicou o Zij al-Sindhind, conjunto de tábuas astronómicas, ao califa al-Ma’mun, que reinou entre 813 e 833. No Kitab Surat al-Ard corrigiu a geografia de Ptolemeu com coordenadas para 2.402 lugares.
Alhazen, Ibn al-Haytham, nasceu por volta de 965 em Baçorá. Propôs ao califa fatímida al-Hakim uma barragem no Nilo, foi ao terreno, percebeu que a obra era inviável com os meios disponíveis, e fingiu-se louco para escapar à execução. Passou uma década em prisão domiciliária.
Foi nessa década que escreveu o Kitab al-Manazir, onde defendeu que a visão resulta da luz que entra no olho, contra a teoria da emissão que vinha de Ptolemeu, Euclides e Galeno.

O tratado que reorientou a ciência da visão saiu de um homem que tinha ido ao Nilo projetar uma barragem.
al-Biruni nasceu em Khwarizm por volta de 973 e construiu os próprios instrumentos por falta de meios para os encomendar. Foi por isso que detetou o defeito do sextante gigante de al-Khujandi: o aparelho cedia sob o próprio peso e distorcia a medição da obliquidade da eclíptica, a inclinação do eixo da Terra.
Em Nandana, no Punjabe, mediu o raio da Terra pelo ângulo de depressão do horizonte visto de uma elevação. As conversões modernas do valor que obteve dão 3.928,77 milhas inglesas, cerca de 6.323 quilómetros. Serviu na corte de Mahmud de Ghazni, sultão gaznévida entre 998 e 1030.

O raio médio da Terra é de 6.371 quilómetros. A medição de al-Biruni, feita com instrumentos que ele próprio tinha construído, ficou 48 abaixo: um desvio de 0,8 por cento.
Avicena, de Bucara, esteve intelectualmente ativo entre 997 e 1037. Concluiu o Al-Qanun fi al-Tibb por volta de 1025, cinco livros com catálogo de cerca de 800 substâncias medicinais e cerca de 650 remédios compostos. A tradução latina chegou no século XII.
Nenhum dos quatro trabalhou em condições de fartura. A falta de instrumentos deu a al-Biruni o erro do sextante. A prisão deu a Alhazen o tempo.
A economia que sustentava isto era a do patronato. al-Khwarizmi dedicou tábuas a um califa, Alhazen propôs uma obra pública a outro, al-Biruni entrou na corte de um sultão que fazia campanhas na Índia. O patrono comprava um homem e esperava dele o cálculo do calendário, o prognóstico do doente, o parecer sobre a obra pública. A amplitude era condição de emprego.
As traduções de Toledo
O que chegou à Europa latina chegou por tradução. Gerardo de Cremona, nascido por volta de 1114, foi para Toledo aprender árabe porque queria ler o Almagesto de Ptolemeu, que não existia em latim. Morreu lá, em 1187. A Encyclopaedia Britannica atribui-lhe cerca de 80 traduções, entre elas o cânone de Avicena, e data a versão do Almagesto em 1175.
A mesma entrada regista a ressalva: parte do trabalho pode ser obra de uma escola de tradutores sob a sua direção. A autoria individual já era, no século XII, uma convenção de catálogo.
Ptolemeu voltou ao latim pelo mesmo canal que trazia os textos escritos contra ele: as coordenadas de al-Khwarizmi contra a sua geografia, o Kitab al-Manazir contra a sua teoria da visão.
A transmissão exigia a mesma amplitude que a produção. Para passar o cânone de Avicena ao latim era preciso saber medicina; para passar o Almagesto, astronomia e matemática. O tradutor tinha de dominar a matéria, além das duas línguas.
Onde começa a contagem da polimatia: Peter Burke e a ciência islâmica
Peter Burke, professor emérito de história cultural em Cambridge, publicou em 2020 The Polymath: A Cultural History from Leonardo da Vinci to Susan Sontag, levantamento biográfico de 500 polímatas ocidentais ao longo de 500 anos. A tese do livro: a ascensão deles acompanha a explosão de conhecimento trazida pela imprensa, pelo novo mundo e pela revolução científica, e a aceleração posterior do saber acabou por criar um ambiente hostil a quem trabalha em várias frentes.
Mariam Sabri põe o marco zero quatro séculos antes, e a leste. Os factos não se contradizem. Contradiz-se o ponto onde cada um começa a contar.
Os 500 nomes de Peter Burke começam onde já há imprensa. Os quatro de Mariam Sabri trabalharam em manuscrito, com cópia lenta e circulação estreita, e ainda assim atravessaram astronomia, ótica, medicina e geografia. Se a explosão de conhecimento explica a ascensão dos polímatas ocidentais, fica por explicar o que veio antes dela.
George Saliba, historiador da ciência árabe e islâmica e professor emérito na Universidade de Columbia, ataca a forma da curva. Islamic Science and the Making of the European Renaissance, publicado em 2007 pela editora do Massachusetts Institute of Technology, contesta a narrativa que conta um movimento de tradução, uma idade de ouro curta e um declínio a seguir a al-Ghazali, morto em 1111. O livro documenta inovação astronómica do século XIII ao XVI e defende que Copérnico pôde conhecer esse trabalho.
A curva de ascensão e queda, que quase toda a divulgação repete, é a parte que o arquivo não sustenta.
O fardo do conhecimento: o preço da especialização em números
A pergunta sobre por que razão ninguém repete al-Biruni tem resposta medida. Benjamin F. Jones, economista na Kellogg School of Management, publicou em 2009 na Review of Economic Studies um estudo sobre inventores onde a idade da primeira invenção, o grau de especialização e o recurso ao trabalho em equipa sobem todos ao longo do tempo. O título dá o nome ao mecanismo: o fardo do conhecimento.
Benjamin F. Jones parte da frase que Isaac Newton escreveu a Robert Hooke em 1676, sobre ver mais longe por estar aos ombros de gigantes, e acrescenta-lhe o que ela cala: os ombros ficam no alto, e cada geração tem de lá subir primeiro.
Dois anos antes, Stefan Wuchty, Benjamin F. Jones e Brian Uzzi tinham publicado na Science, a 18 de maio de 2007, a contagem de 19,9 milhões de artigos ao longo de cinco décadas e 2,1 milhões de patentes. Nas ciências, a dimensão média da equipa quase duplicou em 45 anos, de 1,9 para 3,5 autores por artigo.
Nicholas Bloom, Charles I. Jones, John Van Reenen e Michael Webb calcularam, na American Economic Review de abril de 2020, que manter a duplicação prevista pela lei de Moore exige mais de 18 vezes o número de investigadores que era preciso no início da década de 1970.
Nestes dados, a especialização aparece como resposta racional a um preço que subiu. Quem chega hoje a uma fronteira de investigação chega mais tarde, sabe menos do que existe fora do seu campo e precisa de mais gente ao lado para produzir o mesmo.
Robert Twigger, poeta e escritor britânico, defendeu na Aeon, a 4 de novembro de 2013, a leitura contrária: cunhou a palavra “monopath” para o especialista de via única e propôs uma disciplina nova, a polimática, capaz de treinar a amplitude em qualquer idade. A polimatia aparece aí como projeto individual de autoaperfeiçoamento.
al-Biruni não tinha mais força de vontade do que um investigador contratado em 2026. Tinha menos literatura acumulada para atravessar antes de chegar à fronteira.
A amplitude que os quatro guardavam dentro de uma cabeça, e que a especialização desmontou, está agora distribuída pela composição das equipas, e é isso que medem os 3,5 autores por artigo do fim daquela série.
O Gharb al-Andalus e o papa que se foi embora
O extremo ocidental da península teve lugar nesta história, e não foi o lugar que a mitologia local lhe dá. Silves foi tomada em 713 por Abd al-Aziz e manteve-se muçulmana até ao século XIII. Nela nasceram ou viveram al-Mu’tamid, Ibn ‘Ammar e Maryam al-Ansari. Ibn Qasi, a figura da mística, fundou contra os almorávidas o movimento conhecido por revolta muridínica.

Natália Maria Lopes Nunes, professora na Universidade Nova de Lisboa e coordenadora do projeto Rotas do Gharb al-Andalus, estudou a cidade no período islâmico e escreve que os palácios, a música e a produção literária contribuíram para uma certa mitificação da cidade, conhecida como a “Bagdad do Ocidente”. O Gharb de Silves foi terra de poesia e de mística. Não houve ali nenhum al-Biruni.
A polimatia chegou a este território por duas vias. Traduzida, pelo caminho de Toledo. Ou encarnada em quem se foi embora.
Os documentos seguem Pedro Hispano por Guimarães, Leiria, Braga e Lião, e pelas cidades onde a cúria parava: Orvieto, Anagni, Viterbo. Está sepultado na catedral de São Lourenço e Dante Alighieri pô-lo no Paraíso, canto XII, entre os espíritos sábios.
José Francisco Meirinhos, da Universidade do Porto, escreveu o verbete de João XXI para a Enciclopedia dei Papi e desmonta ali a construção. Mais de 600 manuscritos atribuem a Pedro Hispano uma obra que abrange a lógica, a filosofia, a teologia e a medicina, mas a atribuição vem da historiografia pontifícia e não das fontes documentais, a vida só está suficientemente documentada a partir de 1250, e em Portugal identificam-se vários Pedros Hispanos ativos na primeira metade do século XIII. O homem enterrado em Viterbo pode ser três homens, e nesse caso o exemplo português de polimatia já era, ele próprio, trabalho de equipa.








