Marc Bloch mudou a forma de escrever história e morreu fuzilado pela Gestapo. A escola dos Annales que fundou enraizou-se em Portugal com Vitorino Magalhães Godinho e José Mattoso.
Ouve o artigo:
No testamento que redigiu em Clermont-Ferrand a 18 de março de 1941, Marc Bloch deixou instruções precisas sobre a sua campa. Não queria orações hebraicas, embora viesse de uma família judaica alsaciana, porque tinha aspirado toda a vida a uma sinceridade total de espírito e não admitia que se rezasse por ele em palavras nas quais não acreditava. Pediu uma cerimónia civil. E pediu que, por única divisa, se gravassem na pedra duas palavras em latim: “Dilexit veritatem”. Amei a verdade.
Tinha então 54 anos e era professor de história económica afastado da função pública havia poucos meses, por força do estatuto dos judeus promulgado pelo regime de Vichy em outubro de 1940. Faltavam mais de três anos para a Gestapo o fuzilar à beira de uma estrada, perto de Lyon, com 29 outros resistentes
A frase que escolheu para a sua pedra tumular não falava de coragem nem de pátria. Falava de verdade.
Quando Emmanuel Macron, presidente da República Francesa, anunciou a 23 de novembro de 2024, nas comemorações dos 80 anos da Libertação de Estrasburgo, que Marc Bloch entraria no Panteão, a maioria dos comentários sublinhou a figura do resistente. Era a leitura fácil. Marc Bloch combatera nas duas guerras mundiais, recusara o exílio quando ainda era possível, entrara na clandestinidade aos 56 anos.
A cerimónia realizou-se a 23 de junho de 2026, depois de ter sido adiada uma semana em relação à data inicialmente prevista, o aniversário exato do fuzilamento, por causa da cimeira do G7 em Évian-les-Bains. O Estado francês consagrou o herói.
Sob a figura do resistente havia outra, mais difícil de arrumar. Marc Bloch tinha ensinado a olhar para o passado de uma forma que ainda hoje molda a disciplina. O método saiu de França, chegou a Portugal já no pós-guerra, e teve em José Mattoso, antigo monge beneditino que se debruçou sobre as origens da nacionalidade, um continuador.
Índice
Marc Bloch e o desinteresse pelos reis
A história que Marc Bloch encontrou quando começou a estudá-la era a dos reis. Batalhas, tratados, datas de coroação e de morte. Os grandes homens decidiam no topo e o resto, o povo, os campos, as crenças, as fomes, servia de fundo ao retrato dos poderosos.
Os que a escreviam, entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, viviam dentro dos arquivos do Estado. Liam tratados, decretos, despachos de chancelaria, cartas entre governos. Dali saía a crónica de quem mandava. E mandar era a única coisa que interessava saber: quem, quando, com que desfecho.
Marc Bloch, nascido a 6 de julho de 1886 em Lyon e criado em Paris, onde o pai, o historiador da Antiguidade Gustave Bloch, ensinava na Sorbonne, recusou esse molde desde cedo. Vinha de uma casa de história, frequentou o liceu Louis-le-Grand e a École normale supérieure, obteve a agregação em história e geografia em 1908. A geografia, no par com a história, já era um sinal: o terreno, o clima, as formas de ocupar o espaço entravam no seu campo de visão.
A sua tese provou-o. Defendida depois de regressar da Primeira Guerra Mundial, onde combatera e de onde voltou com o grau de capitão, debruçava-se sobre os servos da Île-de-France e sobre a forma como os Capetos os foram libertando. O objeto era a estrutura social, a condição de um grupo inteiro. Não o trono.

Em 1924, Marc Bloch publicou “Les Rois thaumaturges”, um livro que estudava a crença, difundida em França e em Inglaterra durante séculos, de que o toque do rei curava as escrófulas, uma forma de tuberculose dos gânglios. Reis franceses e ingleses tocavam doentes em cerimónias públicas, por vezes às centenas, na convicção partilhada de que a unção real lhes transmitira um poder de cura.
Saber se o toque curava era irrelevante para Marc Bloch. O que o prendia era outra coisa: por que tinham gerações inteiras acreditado nisso, como a crença passara de século em século, o que dizia sobre o modo como o poder se instalava nas cabeças das pessoas. A história de antes despachava aquilo como folclore, uma curiosidade à margem da vida séria das monarquias. Marc Bloch tratou a crença como prova. A partir dela, mostrou que um rei medieval não era só chefe de guerra e legislador. Era também figura sagrada, a quem os doentes acorriam em busca de cura.
Em 1929 deu-se a viragem. Marc Bloch juntou-se a Lucien Febvre, historiador da época moderna que ensinava com ele em Estrasburgo, e os dois lançaram uma revista, os “Annales d’histoire économique et sociale”. O nome era um programa. Nada de política, nada de diplomacia: economia e sociedade.
O que a revista queria era outro foco. Sair do acontecimento e ir às estruturas, largar a decisão do rei para chegar aos hábitos mentais das camadas mais fundas da sociedade, ler a notícia de ontem contra a duração de séculos. Lucien Febvre chamava-lhe “histoire événementielle” com valor pejorativo, a história dos acontecimentos que alinhava episódios sem procurar as forças lentas que os sustentavam. O historiador Julien Théry, a propósito da panteonização, definiu o que Marc Bloch tinha feito: fundara a história das mentalidades, das crenças e das maneiras de pensar, dando à disciplina um objeto que não eram os grandes nomes nem as grandes batalhas.
Da revista nasceu uma escola, a escola dos Annales, que dominaria a historiografia do século XX. Fernand Braudel haveria de escrever sobre o Mediterrâneo do tempo de Filipe II tratando o próprio mar como protagonista e empurrando reis e guerras para a superfície, a espuma de marés muito mais fundas. Georges Duby levaria o mesmo método à sociedade feudal e às mentalidades.

O que os unia era simples de enunciar e levava uma carreira inteira a pôr em prática. Nenhuma camada da sociedade pode ser ignorada, e o acontecimento vale menos do que as molduras, mentais e materiais, que o deixam acontecer. A batalha não some do mapa. Perde o lugar de honra na abertura da narrativa. Quem chega primeiro é o trigo e o seu preço, a forma de lavrar, o número de bocas a alimentar, o jeito de rezar e de marcar a passagem dos dias.
“La Société féodale” é a obra mais ambiciosa desse trabalho. O primeiro tomo é de setembro de 1939, o segundo de janeiro de 1940, à beira de a guerra interromper tudo. Para os juristas, a sociedade feudal resumia-se a contratos entre senhores e vassalos. Marc Bloch desenhou uma teia de dependências de homem para homem, atravessada por maneiras particulares de viver o tempo, de fixar a memória, de cumprir a fidelidade. E pôs uma questão que soava esquisita aos colegas: gente que mal sabia em que ano vivia, sem calendário a sério, de que modo é que se obrigava à lealdade e à obediência? Responder obrigava a abranger tudo de uma vez, a economia e o afeto, a charrua e o sentimento do sagrado. Marc Bloch chamou a esse programa história total.
A defesa estranha
Quando a guerra chegou, o trabalho académico parou e a divisa de Marc Bloch passou a valer ao pé da letra. Mobilizou-se em 1939. Tinha 53 anos e seis filhos que, escreveu ele, já lhe tinham dado autorização havia muito para arrumar a farda no armário. Não a arrumou. Como oficial de ligação, viu de dentro o colapso militar de 1940, uma derrota rápida e humilhante para o alto comando francês.
Da derrota saiu um livro feito a quente, “L’Étrange Défaite”, escrito em 1940 e só impresso em 1946, quando o autor já tinha morrido. Marc Bloch atacou o comando militar, que não soubera pensar a guerra de movimento, atacou as elites políticas, atacou a sua própria geração, a quem imputava não ter defendido a República. O livro era também método em ação. Marc Bloch pegou nas ferramentas com que dissecava a Idade Média e apontou-as a um desastre acabado de viver, à procura das causas de fundo escondidas sob os erros à vista, sem recorrer à explicação fácil pela traição ou pela má sorte.
No mesmo período, entre 1940 e 1943, em condições de trabalho cada vez mais precárias, à medida que era empurrado das universidades de Estrasburgo, refugiada em Clermont-Ferrand, para Montpellier, e finalmente para a clandestinidade, Marc Bloch escreveu o texto que se tornaria a sua reflexão mais lida sobre o ofício, a “Apologie pour l’histoire ou le métier d’historien”, também publicada postumamente, em 1949. Ficou inacabada.
O que ficou é uma reflexão sobre a própria disciplina: o que é a história, como se aperta um documento até ele falar, por que o passado nunca se entrega de forma ingénua. Os factos, avisava Marc Bloch, não se apanham como pedras na praia. Interrogam-se, suspeita-se deles, constroem-se. Nenhum documento fala por si. Responde a perguntas, e tanto vale a história quanto valem as perguntas que lhe fazem. Uma fonte também mente, e o seu engano maior está no que omite, naquilo que lhe parece óbvio de mais para anotar. Cabe ao historiador recuperar o que ninguém julgou digno de registo.
Pela mesma altura, Marc Bloch entrou na Resistência. Em 1943 juntou-se às redes do movimento Franc-Tireur, na zona de Lyon, e adotou o nome de guerra de Narbonne. O medievalista virou quadro clandestino, com uma região a seu cargo e uma vida partida em duas, de reuniões secretas e papéis falsos.
A ligação entre as duas coisas está no próprio testamento. A mesma frase de 1941 que pede a epígrafe “Dilexit veritatem” declara que ele tinha a complacência para com a mentira pela pior lepra da alma. O nazismo assentava na mentira organizada, na falsificação da história e da ciência ao serviço do poder. Para um historiador treinado a distinguir o falso do verdadeiro, o combate a esse regime tinha também uma raiz de ofício.
A Gestapo prendeu-o a 8 de março de 1944, em Lyon. Foi torturado na prisão de Montluc. A 16 de junho de 1944, foi metido num camião com outros detidos e levado para um campo em Saint-Didier-de-Formans, perto de Lyon. Entre os condenados ia um rapaz de 17 anos, que chorava. Segundo o testemunho recolhido no prefácio à edição de “L’Étrange Défaite”, Marc Bloch tomou-lhe o braço e disse-lhe que os iam fuzilar mas que não tivesse medo, que não doeria, que seria rápido. Foi fuzilado em primeiro lugar, com 29 companheiros, e caiu a gritar “Vive la France”, viva a França. Tinha 57 anos.
Macron consagrou-o, em 2024, pela obra historiográfica, pelo ensino e pela coragem cívica na Resistência.
O método que atravessou os Pirenéus: os Annales em Portugal
A revolução dos Annales não ficou em França. Espalhou-se pela Europa e pelo mundo, e em Portugal encontrou terreno tardio. Durante grande parte do século XX, o país viveu sob uma historiografia oficial dominada pela narrativa nacionalista do Estado Novo, em que a história servia para confirmar a glória dos Descobrimentos e a missão imperial. Era uma história de heróis e de epopeia, feita à medida de um regime que precisava de um passado glorioso para legitimar o presente. A renovação chegaria sobretudo a partir da década de 1960.
O primeiro a trazer esse olhar para Portugal não foi Mattoso, mas a geração anterior. Vitorino Magalhães Godinho, nascido em 1918 e falecido em 2011, partiu para Paris na década de 1940, depois de o salazarismo o ter afastado do ensino universitário, e trabalhou na École Pratique des Hautes Études ao lado de Lucien Febvre, de Fernand Braudel e do economista Ernest Labrousse, no círculo em que se fazia a revista Annales. Conta-se que Braudel, impressionado com o jovem português, terá dito que não havia nada que se lhe pudesse ensinar.
Godinho aplicou o método à história económica da expansão portuguesa. Estudou os Descobrimentos como fenómeno de preços, rotas, moeda e mercadorias, numa perspetiva global, em vez da gesta de heróis que a historiografia oficial cultivava. O historiador Manuel Loff, da Universidade do Porto, considera-o o primeiro grande historiador moderno em Portugal.
Foi por Godinho e pela história económica que os Annales entraram primeiro no país.
José Mattoso, nascido em 1933 e falecido em 2023, foi o historiador que levou esse olhar à história medieval, o terreno onde Marc Bloch o tinha inaugurado. O percurso de José Mattoso era pouco comum. Foi monge beneditino, doutorou-se pela Universidade Católica de Lovaina, e só depois se entregou por inteiro à investigação histórica e ao ensino, na Universidade Nova de Lisboa, tendo dirigido mais tarde o Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Especializou-se na Idade Média portuguesa. Em obras como “Identificação de um País”, publicada em 1985 sobre as origens de Portugal entre 1096 e 1325, deslocou a pergunta sobre a formação da nacionalidade do terreno dos reis e das batalhas para o terreno das estruturas sociais, das linhagens nobres, das formas de povoamento, dos laços de parentesco e de dependência. A pergunta deixava de ser quando nasceu Portugal como decisão de um rei ou efeito de uma batalha, e passava a ser como se foi formando uma sociedade com características próprias no noroeste peninsular, e como essa sociedade gerou, quase sem o saber, um reino. Era, transposta para o caso português, a lição de “La Société féodale”.
O ponto de contacto mais nítido entre José Mattoso e Marc Bloch aparece na grande obra coletiva que o historiador português dirigiu, a “História de Portugal” publicada pelo Círculo de Leitores entre 1992 e 1994, em oito volumes, com uma vasta equipa de especialistas que incluía nomes como António Manuel Hespanha, Fernando Rosas, Rui Ramos e Joaquim Romero Magalhães.

A obra foi concebida segundo uma lógica em que, na fórmula que a própria edição usava para se descrever, a estrutura se sobrepõe à conjuntura. A frase poderia ter saído de um manifesto dos Annales. Significa que as grandes forças lentas, a economia, a demografia, as mentalidades, a organização social, têm prioridade sobre o encadeamento dos acontecimentos políticos. Os séculos de história portuguesa surgiam explicados sem mistificações nem preconceitos nacionalistas, o que marcava uma rutura deliberada com a epopeia oficial do Estado Novo. A síntese vendeu-se em milhares de exemplares por todo o país e fez de José Mattoso uma figura pública a quem se pediam autógrafos, coisa pouco comum para um medievalista.
José Mattoso não foi um discípulo direto dos mestres franceses, no sentido de ter estudado com eles. A ligação chegou-lhe por Lovaina e pelo contacto com a historiografia europeia do pós-guerra. Aplicou o método a um objeto que os franceses nunca tinham tratado: a génese de um pequeno reino atlântico na margem da Europa. Marc Bloch estudara os servos da Île-de-France e a sociedade feudal francesa. José Mattoso estudou a nobreza medieval portuguesa, as suas linhagens e os seus laços de poder, procurando nas estruturas familiares e sociais a explicação que a história tradicional procurava nos reis fundadores.
A presença de Marc Bloch no campo intelectual português não se esgota nessa filiação indireta. A “Apologie pour l’histoire” conheceu uma nova tradução portuguesa, “Apologia da História ou o Ofício de Historiador”, publicada pelas Edições 70 com prólogo de Diogo Ramada Curto, historiador e antigo diretor da Biblioteca Nacional de Portugal. O texto que Marc Bloch deixou inacabado sob a ocupação continua a ser lido por estudantes portugueses de história como porta de entrada para a disciplina, o que significa que o medievalista francês fuzilado em 1944 ainda forma, à distância, quem hoje aprende o ofício em Lisboa, no Porto ou em Coimbra.
A verdade e a mentira
O testamento de 1941 não pede só uma epígrafe. No mesmo texto, publicado em 1945 na revista “Annales d’histoire sociale”, Marc Bloch escreve que tem a complacência para com a mentira pela pior lepra da alma. A frase aparece entre as instruções fúnebres e a divisa latina, e coloca no mesmo plano o cuidado com a memória própria e a recusa da mentira alheia.
A “Apologie pour l’histoire”, que escrevia ao mesmo tempo, é um tratado sobre como uma fonte mente. Mente por falsificação, mas mente sobretudo por omissão, por aquilo que cala, por aquilo que dá como demasiado óbvio para registar. É o ofício de quem interroga o documento: para saber quem o produziu, com que interesse, e o que ficou por dizer.
Era o mesmo gesto que Marc Bloch fazia na clandestinidade, com documentos falsos no bolso e um nome que não era o seu. O regime que ocupava a França assentava na falsificação, da história, da ciência, da raça. Um historiador treinado a separar o verdadeiro do falso nos arquivos medievais reconhecia a mentira quando a via nos cartazes. A epígrafe “Dilexit veritatem” servia ao mesmo tempo para o historiador e para o resistente. Eram, para Marc Bloch, o mesmo ofício.
José Mattoso descreveu o seu próprio trabalho em termos próximos. Reuniu as reflexões sobre o método no livro “A Escrita da História”, e numa das suas declarações resumiu o que o movia: para si, a história não era a comemoração do passado, mas uma forma de interpretar o presente. O contexto era outro, uma democracia portuguesa em construção depois de 1974, não um país ocupado. O método era o mesmo: ler as fontes contra a sua própria superfície, procurar nas margens a vida que não deixou nome.
A 23 de junho de 2026, Marc Bloch entrou no Panteão ao lado de René Cassin, jurista que participou na redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de Marie Curie e de Joséphine Baker. A placa colocada em sua homenagem diz historiador e resistente. A epígrafe que Marc Bloch tinha escolhido para a sua campa, 82 anos antes, dizia Dilexit veritatem: amei a verdade.







Comentários 1