Entre o laboratório e o manual de boas maneiras, a história de um gesto que toda a gente faz várias vezes por dia sem nunca o decidir.
Ouve o artigo:
Numa sala de espera, um homem boceja. A mulher sentada em frente, que não o conhece e não trocou com ele uma palavra, boceja poucos segundos depois. Leva a mão à boca a meio do gesto. Nenhum dos dois decidiu bocejar e é provável que nenhum dos dois tenha reparado no que aconteceu ali.

O que aconteceu foi isto. Os maxilares abriram-se numa contração longa e involuntária, o ar entrou fundo, os olhos fecharam-se e humedeceram, o peito subiu, houve um instante de tensão máxima e depois a boca fechou-se sozinha, tudo em cerca de seis segundos. O comportamento é tão fixo que muda pouco entre um recém-nascido e um idoso, entre uma pessoa acordada e uma pessoa em coma, entre um ser humano e um leão.
Sobre esta cena banal pesam três perguntas, e nenhuma tem resposta consensual. Para que serve o gesto. Porque passou de um corpo para o outro sem nada os ligar. E porque é que a mulher tapou a boca.
Boceja-se antes de nascer, boceja-se a dormir, boceja-se em coma. Bocejam peixes, répteis, aves e mamíferos. Um adulto boceja várias vezes por dia sem nunca escolher fazê-lo, e a única parte do processo que consegue comandar é o que faz com a mão.
Índice
Um erro com dois mil anos: o bocejo não é falta de oxigénio
A explicação que quase toda a gente tem na cabeça, a de que se boceja por falta de oxigénio, é falsa. E é interessante perceber quanto tempo demorou a ser testada.
A primeira teoria conhecida está no tratado dos ventos atribuído a Hipócrates, por volta de 400 a.C. O bocejo precede a febre, lê-se ali, porque a grande quantidade de ar acumulada no corpo sobe de uma vez, levanta a boca como uma alavanca e escapa. A imagem que Hipócrates usa é a do vapor que sai do caldeirão quando a água ferve. A ideia sobreviveu ao mundo antigo e chegou intacta ao século XVII.
Santorio Santorio, médico em Veneza, professor em Pádua e amigo de Galileu, tentou substituir a metáfora por medição. Construiu uma balança onde se sentava a comer e a dormir, e passou anos a pesar-se para calcular quanto perdia por transpiração. Nos aforismos que publicou em 1614 escreveu que bocejar e espreguiçar ao acordar são sinais de que o corpo está a transpirar em abundância, como o galo que bate as asas antes de cantar.

Depois veio a versão que haveria de durar. No século XVIII, o médico holandês Johannes de Gorter atribuiu o bocejo à necessidade de fazer o sangue circular mais depressa e a uma espécie de anemia do cérebro. Daqui nasceu, em linha direta, a ideia moderna de que o bocejo corrige a falta de oxigénio, repetida por manuais escolares, por médicos e por pais durante dois séculos.
Nesse ano, Robert Provine, Bruce Tate e Lisa Geldmacher fizeram voluntários respirar oxigénio puro e misturas com três a cinco por cento de dióxido de carbono. A respiração deles acelerou, como era previsível. O número de bocejos não mexeu. Depois puseram-nos a fazer exercício suficiente para duplicar o ritmo respiratório, e o número de bocejos continuou a não mexer. A conclusão do artigo é seca: bocejar e respirar são coisas distintas, controladas por mecanismos diferentes.
Duas décadas e meia de sobrevivência não bastaram para matar a crença. Continua a ser a resposta mais dada quando se pergunta a alguém para que serve bocejar.
A hipótese do radiador: bocejar para arrefecer o cérebro
O que ocupou o lugar vazio foi a termorregulação, proposta em 2007 por Andrew Gallup e Gordon Gallup. A ideia é mecânica e fácil de seguir. A contração violenta dos maxilares aumenta o fluxo de sangue no pescoço, na cara e na cabeça, e a inspiração profunda faz entrar ar mais frio do que o corpo. O efeito conjunto empurra sangue quente para fora do crânio e traz sangue mais fresco das extremidades e dos pulmões.

O cérebro funciona bem dentro de uma margem estreita de temperatura. O bocejo seria uma forma barata de o manter lá dentro.
Se assim for, então a temperatura ambiente tem de alterar a frequência dos bocejos. E tem de a alterar de uma maneira específica: o bocejo deve aumentar quando o calor aperta moderadamente e desaparecer nos dois extremos, porque com 37 °C lá fora já não há ar fresco para inspirar, e com frio a mais arrefecer o cérebro passa a ser contraprodutivo.
Foi isto que dois grupos de transeuntes testaram sem saber, com três anos de intervalo e em dois continentes.
O primeiro foi abordado em Tucson, no Arizona, com temperaturas médias de 37 °C no verão e 22 °C no inverno. Mostravam-se fotografias de gente a bocejar e perguntava-se depois, entre outras coisas, se tinha apetecido bocejar. No inverno, bocejou quase o dobro das pessoas.
O segundo grupo foi abordado nas ruas de Viena, com o mesmo método. Sessenta pessoas no inverno, com 1,4 °C, e outras 60 no verão, com 19,4 °C. Em Viena bocejou-se mais no verão.
Os dois resultados parecem contradizer-se e não se contradizem.
Em ambas as cidades o pico ficou perto dos 20 °C, e a frequência caiu tanto no calor do deserto como no frio da Europa central. Jorg Massen, Kim Dusch, Omar Eldakar e Andrew Gallup chamaram-lhe janela térmica.
Há um pormenor em Tucson que vale a pena guardar. Entre os que bocejaram no verão, quase todos estavam na rua há menos de cinco minutos. Entre os que não bocejaram, o tempo médio de exposição ao calor passava dos 19 minutos. O corpo parece desistir do mecanismo quando percebe que o ar lá fora não serve.
A rua, porém, é rua. A prova mais direta veio de manipular a temperatura em laboratório.
Andrew Gallup e Gordon Gallup tinham mostrado em 2007 que respirar apenas pelo nariz, ou segurar uma compressa fria contra a testa, elimina quase por completo a resposta a estímulos de bocejo. Em 2019, Valentina Ramirez, Colleen Ryan, Omar Eldakar e Andrew Gallup foram atacar diretamente o sangue que abastece o cérebro. Pediram aos participantes que segurassem durante cinco minutos uma compressa contra o pescoço, sobre as artérias carótidas, a 46 °C, a 4 °C ou a 22 °C, e só depois lhes mostraram o estímulo.
Na condição fria, 48,5 por cento referiram vontade de bocejar. Na condição quente, 84,8 por cento. A frequência de bocejos diferiu por um fator de três.
E depois há o que ninguém conseguiu fazer. Em nenhum destes trabalhos se mediu a temperatura do cérebro. Mediu-se temperatura oral, mediu-se a superfície do crânio, mediu-se por termografia a região supero-medial da órbita, que serve de janela indireta para o interior. As únicas medições diretas do ciclo completo, subida antes do bocejo e descida depois, foram feitas em ratos com sondas implantadas no córtex, por razões evidentes.
É sobre essa distância que assenta a principal objeção. Olivier Walusinski, médico de família em Brou, na França, é quem reuniu a maior parte da literatura histórica e clínica sobre o assunto e editou em 2010 o volume de referência. A sua posição sobre a teoria do arrefecimento é frontal: enquanto não houver medição direta dentro do tecido cerebral, escreve, a hipótese não é aceitável. O finlandês Hannu Elo argumentou, por outro lado, que os números não fecham, porque arrefecer sem evaporação exigiria mais do que um bocejo consegue.
O debate mantém-se aberto e nenhum dos lados desistiu.
Trinta minutos de barras de cor: bocejar de tédio e de sono
Fica de pé a objeção que qualquer pessoa faria: boceja-se com sono, boceja-se a meio de uma reunião longa, boceja-se ao acordar e a espreguiçar. Nada disso é ilusão, e está medido.
Em 1986, Robert Provine e Heidi Hamernik sentaram 32 caloiros universitários à frente de um televisor. A metade deles passaram um videoclipe de rock durante meia hora. À outra metade passaram, durante o mesmo tempo, um padrão de barras de cor sem som, imóvel. Quem viu as barras bocejou mais vezes e bocejou durante mais tempo. A crença popular de que se boceja de tédio ficou confirmada em laboratório.
No ano seguinte, os mesmos investigadores, com Bruno Curchack, documentaram o outro padrão. O bocejo tem ritmo diário e concentra-se em duas janelas estreitas: a hora antes de deitar e a hora depois de acordar.
Nada disto contradiz o arrefecimento. O que a teoria propõe é uma inversão da ordem causal, e é aí que se torna incómoda.
A temperatura do cérebro não é constante ao longo do dia. Sobe ao longo da tarde, atinge o máximo à noite e desce durante o sono, e as medições intracranianas ao longo de ciclos de 24 horas mostram-no. Esse relógio interno é o mesmo que a luz artificial desregulou em menos de dois séculos. Ora as duas janelas em que mais se boceja são exatamente aquelas em que a temperatura cerebral está no pico ou a subir do ponto mais baixo. Sono e temperatura corporal variam em sentido inverso.
Segundo esta leitura, o bocejo não é a antecâmara do sono: é aquilo que o corpo faz contra ele. Serve para manter a atenção mais um bocado, não para anunciar a rendição. Quanto ao tédio, Melanie Shoup-Knox propôs que também ele seja acompanhado de subidas de temperatura cerebral, hipótese plausível e por testar.
Aqui a discórdia volta. Em 2007, uma equipa liderada por Adrian Guggisberg, em Berna, analisou o eletroencefalograma de pessoas antes e depois de bocejarem, à procura do salto de ativação que a ideia de despertar previa. Não encontrou nada. A atividade que aumenta depois de um bocejo, argumentam, não é prova de que o bocejo desperta, é o que qualquer pessoa sonolenta faz para não adormecer, mexer-se na cadeira e mudar de posição.
Uma pessoa cansada boceja. Sobre o que vem primeiro, ninguém tem uma resposta que os outros aceitem.
Fica por explicar a segunda metade da cena da sala de espera. O bocejo apanha-se, e o contágio do bocejo é a parte mais estudada do fenómeno.
Apanha-se ao ver, apanha-se ao ouvir, apanha-se a ler sobre o assunto. Provavelmente já aconteceu a quem chegou a este ponto do texto. Não é resposta a um som ou a uma forma qualquer: em experiências de controlo, ver alguém abrir a boca sem bocejar não produz efeito nenhum.
O trabalho mais citado sobre o assunto é italiano. Ivan Norscia e Elisabetta Palagi, da Universidade de Pisa, recolheram durante um ano observações de pessoas em situações correntes, em vários países, anotando quem bocejava, ao pé de quem, e quanto tempo demorava a responder. Publicaram os resultados na PLoS ONE em dezembro de 2011. Nem o sexo nem a nacionalidade previram alguma coisa. O que previu foi o laço.
A escala que encontraram tem uma ordem clara: apanha-se mais o bocejo de familiares, depois o de amigos, depois o de conhecidos, e por último o de estranhos. A frequência não é a única coisa que muda. Com estranhos e conhecidos, a resposta demora mais tempo a chegar.
Daqui saltou-se depressa para a empatia. Se o contágio segue a proximidade afetiva, e se as regiões cerebrais envolvidas coincidem com as do reconhecimento de estados mentais alheios, então bocejar com alguém seria uma forma rudimentar e involuntária de partilhar aquilo que o outro sente. A ideia era elegante, teve enorme circulação e alimentou trabalhos noutras espécies. Em 2008, no Birkbeck de Londres, Ramiro Joly-Mascheroni, Atsushi Senju e Alex Shepherd expuseram 29 cães a um humano a bocejar e viram 21 responder, contra nenhum na condição de controlo.
O problema é que a ideia elegante não aguentou o escrutínio.
Em 2014, Andrew Bartholomew e Elizabeth Cirulli testaram centenas de pessoas e voltaram a testá-las. Descobriram que a suscetibilidade ao contágio é notavelmente estável em cada indivíduo, o que faz dela um traço a sério, e que não se explica pelos resultados em escalas de empatia. O melhor preditor que encontraram foi a idade, e mesmo esse explicava pouco.
Três anos depois, Jorg Massen e Andrew Gallup, o mesmo investigador que sustenta a teoria do arrefecimento, publicaram uma revisão sistemática de toda a literatura sobre a ligação entre contágio e empatia. Percorreram as diferenças individuais, as diferenças por familiaridade e por sexo, os estudos de desenvolvimento, os de imagiologia e os que envolvem perturbações psicológicas. A conclusão está no título: o bocejo contagioso ainda não equivale a empatia.
Identificaram também aquilo que a maioria dos estudos não tinha controlado, e que é embaraçosamente simples. Olha-se mais para a cara de quem se conhece. Quem não está a olhar não apanha o bocejo, e a proximidade afetiva prevê muito bem para onde uma pessoa olha numa sala.
Sobrou uma correlação real à espera de explicação melhor. Não é pouco, mas é bastante menos do que se anunciou.
Um estudo de 2021, o maior alguma vez feito sobre bocejos, veio dar razão indireta ao outro lado da discussão. Uma equipa liderada por Jorg Massen, com investigadores de Utreque, Viena, Praga, Zurique e Essen, analisou 1291 bocejos de 101 espécies, filmados sobretudo em jardins zoológicos europeus entre março de 2017 e dezembro de 2019.
A duração do bocejo acompanha a massa do cérebro e o número de neurónios, tanto em mamíferos como em aves. Um bocejo de mamífero dura em média 3,40 segundos e um bocejo de ave 1,46, e dentro de cada grupo quanto maior o cérebro mais longo o bocejo, como se o gesto tivesse de durar o tempo necessário para arrefecer o volume que lhe cabe.

A regra de Erasmo
Nada disto interessou à história da boa educação, que tratou o assunto com uma clareza que a fisiologia nunca teve.
Erasmo de Roterdão, então instalado em Friburgo em Brisgóvia, publicou em Basileia, em 1530, um pequeno tratado dedicado a Henrique de Borgonha, filho de onze anos do senhor de Veere. Chamou-lhe De civilitate morum puerilium e é considerado o primeiro tratado europeu sobre a educação prática das crianças. Teve êxito imediato e foi traduzido para várias línguas. Reimprimiu-se tantas vezes que um tipo de letra francês do século XVI ficou a chamar-se civilité, e continuou a compor manuais de boas maneiras até ao século XIX.

primeiro capítulo trata do corpo. Percorre os olhos, o nariz, os dentes, o cuspo, o riso. E chega ao bocejo com uma instrução em duas partes: se o bocejo apertar e não for possível virar-se ou sair, tape-se a boca com um lenço ou com a palma da mão, e faça-se logo por cima o sinal da cruz.
A segunda metade da instrução não é decoração. Tapar a boca protege os outros; o sinal da cruz protege quem boceja.
Olivier Walusinski, ao revisitar o levantamento de crenças populares que o folclorista Pierre Saintyves reuniu em 1921, liga o gesto aos tempos de peste, quando se acreditava que a alma podia sair pela boca aberta, ou que outra coisa podia entrar. O mesmo receio aparece fora da Europa cristã, com forma diferente e função igual, na obrigação islâmica de conter o bocejo e de lhe tapar a abertura.
Erasmo escreve numa altura em que essa crença ainda está viva e não a discute. Regista o gesto e ensina-o.
Mas o mesmo capítulo tem outra frase, poucas linhas antes, e essa é de outra natureza. A propósito do espirro, que Erasmo trata em conjunto com o bocejo por ambos tirarem por instantes o sentido dos ouvidos, escreve que reprimir um som que a natureza impõe é próprio de tolos, que dão mais valor à civilidade do que à saúde.
Está tudo ali, cinco séculos antes de haver termopares e câmaras térmicas: um reflexo que não se controla, uma etiqueta que o disciplina, e a suspeita de que a etiqueta pode estar a atrapalhar qualquer coisa que o corpo precisa de fazer. Erasmo manda tapar a boca e avisa que não se deve engolir o gesto.
A instrução venceu. Passou dos manuais latinos para os manuais de civilidade em francês, em inglês e em português, atravessou o século XIX de mão dada com a higiene, e chega hoje às crianças em escolas onde ninguém se lembra da peste nem de Erasmo. O que se perdeu foi a explicação. Ficou o gesto, que continua a ser feito por milhões de pessoas todos os dias, e que é a única parte deste comportamento que a espécie humana aprendeu a comandar.
Uma nota vinda do Porto
Em 2012, três investigadoras do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, na Universidade do Porto, entraram na discussão do contágio por uma porta que ninguém tinha usado. Karine Silva, Joana Bessa e Liliana de Sousa quiseram saber se o som bastava.
Levaram 29 cães para uma sala e puseram-lhes quatro gravações: o bocejo do dono, o bocejo de um estranho, e as mesmas duas gravações reproduzidas ao contrário, para servirem de controlo com a mesma intensidade e a mesma frequência sonora, mas sem soarem a bocejo. Os cães bocejaram com os bocejos verdadeiros e não com os invertidos. E bocejaram mais com a voz do dono do que com a do estranho.
Era a primeira demonstração de contágio auditivo em cães, e a primeira evidência de que a familiaridade o modula.
No ano seguinte, na mesma revista, as três voltaram atrás. Outros investigadores tinham levantado uma alternativa incómoda: talvez os cães não estivessem a responder ao laço, mas ao stress de ouvir a voz do dono ausente numa sala estranha. Karine Silva, Joana Bessa e Liliana de Sousa reanalisaram os próprios dados, publicaram uma nota adicional e reconheceram que a explicação por stress não podia ser afastada com o que tinham.








