Em menos de dois séculos, a luz artificial empurrou a escuridão para fora das cidades e reorganizou o sono, o trabalho e a vida das outras espécies. Do primeiro candeeiro a gás de Lisboa ao céu protegido do Alqueva, a história do que se ganhou e do que se perdeu ao acender a noite.
Ouve o artigo:
No início da década de 1840, num palácio de Sete Rios, em Lisboa, Joaquim Pedro de Quintela mandou acender uma luz que nunca na cidade ninguém tinha visto. O equipamento viera de Inglaterra, os tubos corriam por baixo do chão e alimentavam os candeeiros do jardim, do palácio e do pequeno teatro que o conde de Farrobo mantinha na propriedade.
Ao fim da tarde, uma chama fixa, sem o tremular do azeite, desenhava as alamedas das Laranjeiras enquanto o resto de Lisboa mergulhava na escuridão de sempre. Era a primeira vez que o gás de iluminação ardia em Portugal, e ardia para um homem só, e para os convidados que ele quisesse deslumbrar.
Oito anos depois, nas noites de 29 e 30 de julho de 1848, a cidade inteira saiu à rua para ver a mesma coisa acontecer no Chiado. A Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás, criada dois anos antes, acendeu cerca de duas dezenas e meia de candeeiros e a multidão juntou-se para assistir. Para alguns era a modernidade a chegar; para os produtores de azeite, que viam o seu negócio condenado, era o anúncio da ruína.
A luz que o conde de Farrobo guardara para si tornava-se pública, e com ela mudava qualquer coisa mais funda do que a iluminação das ruas. Mudava a noite, e mudava o tempo que as pessoas podiam fazer com ela.
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A história do que aconteceu desde então costuma contar-se como progresso, cada vez mais luz, cada vez melhor, cada vez mais barata, até à lâmpada que se acende com a voz e ao satélite que fotografa a Terra coberta de pontos brilhantes. Wolfgang Schivelbusch contou-a de outra maneira.
Erudito alemão que passou a vida a estudar a história cultural da técnica fora de qualquer universidade, Schivelbusch publicou em Munique, em 1983, um livro sobre a industrialização da luz no século XIX a que chamou “Lichtblicke”, traduzido para inglês como “Disenchanted Night“. A sua tese é que a luz a gás e depois a elétrica não iluminaram apenas as cidades, reorganizaram a consciência, a vida social e a própria experiência da noite. Antes de chegar aos passeios, a iluminação a gás passou pelos teatros e pelos salões, e quando saiu para a rua já trazia consigo uma nova maneira de habitar as horas escuras.
A obra-irmã de Schivelbusch, sobre o comboio, leva no título a chave do assunto: a industrialização do tempo e do espaço. A luz pertence à mesma família, porque ao empurrar a escuridão para trás alargou o dia útil sobre a noite e tornou elástico aquilo que antes era rígido. Onde havia uma fronteira nítida entre o dia do trabalho e a noite do descanso, instalou-se um contínuo iluminado.
A iluminação pública de Lisboa, segundo a investigação reunida pelo projeto Mais Lisboa, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fez crescer o número de frequentadores de teatros e de soirées e tornou a noite boémia mais aberta a todas as classes. A mesma luz que abriu a noite ao convívio acabaria por ocupá-la toda.
O processo foi rápido. Em 1878 acenderam-se no Chiado os primeiros candeeiros elétricos, apenas seis, motivo de espanto e de desconfiança; em 1889 a Avenida da Liberdade recebeu várias dezenas; em 1902 a eletricidade generalizou-se na iluminação das ruas da capital. Em pouco mais de meio século, Lisboa passou da chama do azeite à lâmpada elétrica, e a noite tal como todas as gerações anteriores a tinham conhecido começou a desaparecer das cidades.
A fábrica que não dormia
A luz pública chegou tarde a esta história, porque antes dela o gás já tinha mudado de mãos um sítio onde a noite valia dinheiro: a fábrica. Em 1805, o engenheiro escocês William Murdoch, ao serviço da firma de máquinas a vapor de Matthew Boulton e James Watt, equipou com iluminação a gás a fábrica de fiação de algodão de Philips & Lee, em Salford, junto a Manchester.
Começou com cerca de cinquenta candeeiros e o número cresceu para mais de novecentos, no que foi a primeira grande fábrica do mundo iluminada a gás. Murdoch demonstrou aos donos uma coisa que lhes interessava mais do que a maravilha técnica: iluminar a gás custava menos de um quarto do que iluminar a azeite ou a vela.
A consequência não era estética, era económica, e mudou a vida de muita gente. Com luz barata e fiável, a máquina a vapor já não precisava de parar ao pôr do sol, o turno podia prolongar-se pela noite dentro, e o tear que custara uma fortuna podia agora amortizar-se a trabalhar dezasseis horas em vez de oito.
A luz transformou a noite das fábricas têxteis do norte de Inglaterra em tempo de produção, e o que Schivelbusch viria a descrever na rua começara aqui, no chão de fábrica. A iluminação artificial não acrescentou apenas horas ao dia, mudou de quem eram essas horas. A noite, que durante toda a história pertencera ao sono, à festa ou ao crime, passou a poder pertencer ao patrão.
O trabalho por turnos, hoje associado a hospitais, a fábricas de processo contínuo e a centros de dados, nasceu quando a luz ficou barata o suficiente para que valesse a pena manter a produção a andar enquanto lá fora estava escuro.
O céu que desapareceu: a poluição luminosa em números
A conta do que se ganhou está feita há muito; a do que se perdeu começou a fazer-se há pouco mais de uma década. O primeiro número saiu de um trabalho de mapeamento que pôs em mãos científicas aquilo que qualquer pessoa numa cidade já sentia sem saber medir.
Em junho de 2016, uma equipa liderada pelo físico italiano Fabio Falchi publicou na revista Science Advances o “The new world atlas of artificial night sky brightness“, um atlas do brilho artificial do céu noturno construído a partir de dados de satélite de alta resolução e de mais de 35 mil medições no terreno.
O resultado deu forma precisa a uma intuição vaga. Mais de 80% da população mundial, e mais de 99% das populações da Europa e dos Estados Unidos, vive sob céus poluídos por luz. A Via Láctea, a galáxia que envolve a Terra e que durante toda a história da espécie esteve por cima de qualquer cabeça que se levantasse à noite, está hoje escondida para mais de um terço da humanidade.

Entre os europeus, a proporção sobe para 60%; na América do Norte, para quase 80%. Significa que a maioria das pessoas que vivem nas cidades europeias nunca viu, do sítio onde vive, aquilo que todos os seus antepassados viram em todas as noites de céu limpo.
Falchi começou a estudar o problema na década de 1990, quando a poluição luminosa interferia com a sua paixão de astrónomo amador. Em declarações à revista Scientific American a propósito do atlas, lembrou que durante muito tempo a poluição luminosa passou por um assunto de astrónomos, quando é um problema ambiental à escala do planeta: a vida evoluiu ao longo de milhões de anos com metade do tempo às escuras, e a humanidade envolveu agora o mundo “num nevoeiro luminoso de luz“. Um céu estrelado, acrescentou, é algo que toca a alma, e a civilização perde com o seu desaparecimento mais do que consegue medir.
O fenómeno tem nome técnico, skyglow, o brilho difuso que a luz das cidades projeta para cima e que a atmosfera reflete, formando uma cúpula luminosa que apaga as estrelas mais ténues. Em pleno centro de uma grande cidade, à meia-noite, contam-se no céu pouco mais do que uma dúzia de estrelas, onde antes havia milhares.
E a cúpula está a crescer. Um estudo na mesma revista, liderado em 2017 pelo físico Christopher Kyba, do centro alemão de geociências de Potsdam, mediu a evolução por satélite entre 2012 e 2016 e concluiu que a área da Terra iluminada à noite cresceu 2,2% ao ano, ao mesmo tempo que as zonas já iluminadas ficavam mais brilhantes ao mesmo ritmo.
Seis anos depois, Kyba coordenou um segundo trabalho que recorreu a observações de milhares de voluntários, a olho nu, recolhidas entre 2011 e 2022. O brilho percebido do céu revelou-se a aumentar quase 10% ao ano, muito acima do que os satélites detetam, porque os sensores são cegos à componente azul dos LED e à luz emitida na horizontal pelas fachadas e pela publicidade. Kyba traduziu o número numa imagem do tempo de uma vida: “ao ritmo atual, uma criança nascida num lugar onde se veem 250 estrelas só conseguirá ver 100 ao fazer 18 anos“.
O dado guarda uma ironia. A transição para os LED, vendida como poupança de energia, não travou a poluição luminosa, porque ao baixar o custo da luz multiplicou o seu uso: acende-se mais porque ficou barato acender. Em países como Espanha e Itália, onde os satélites indicam estabilidade, a noite está quase de certeza a ficar mais clara.
Esta é a parte da história que costuma comover, e é a mais inofensiva. O céu perdido é uma perda cultural e estética, dolorosa para quem a sente mas que não tira o sono a ninguém. As outras perdas tiram-no de maneira literal.
O relógio que a luz desregula: luz artificial e ritmo circadiano
Dentro de cada célula do corpo humano há um relógio, e não é uma metáfora. É um mecanismo bioquímico que oscila num ciclo de aproximadamente 24 horas e que regula o sono, a temperatura do corpo, a tensão arterial, a libertação de hormonas e o apetite.
O relógio é interno, mas não é autónomo: precisa de ser acertado todos os dias, e o sinal que o acerta é a luz.
A maquinaria molecular deste relógio rendeu o Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2017 a três biólogos norte-americanos, Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young. Trabalhando com a mosca-da-fruta, identificaram em 1984 um gene, batizado period, cuja proteína se acumula nas células durante a noite e se degrada ao longo do dia, num ciclo que se repete a cada volta da Terra.
O mecanismo está presente em quase todos os seres vivos, das plantas aos humanos, e foi moldado por milhões de anos de alternância fiável entre o claro e o escuro. A luz artificial à noite atravessa esse desenho.
Quando o olho recebe luz, sobretudo na faixa azul do espectro, o corpo interpreta o sinal como dia e trava a produção de melatonina, a hormona que prepara o organismo para dormir. Um ecrã antes de adormecer, uma rua iluminada que entra pela janela, um turno de trabalho debaixo de luz forte às três da manhã: cada um destes estímulos diz ao relógio que ainda é dia quando já é noite.
As consequências começaram a sair da hipótese para a evidência. A dessincronização crónica entre o relógio biológico e o relógio do mundo é hoje associada a perturbações do sono e a alterações metabólicas, e há uma associação mais pesada, embora ainda em terreno cauteloso.
Em 2019, a Agência Internacional para a Investigação do Cancro, o organismo da Organização Mundial de Saúde que avalia substâncias e situações quanto ao risco de cancro, manteve a classificação do trabalho por turnos noturno como provavelmente cancerígeno para humanos, no grupo 2A. Manolis Kogevinas, o epidemiologista que presidiu ao grupo de trabalho, foi claro quanto aos limites da conclusão: a evidência em animais é conclusiva, a humana é limitada, e os mecanismos exatos ainda não estão estabelecidos. O sinal aponta para uma ligação com os cancros da mama, da próstata e colorretal, sem que a prova esteja fechada.
Há uma simetria amarga nesta cadeia, porque a luz barata que pôs a fábrica a trabalhar de noite, há dois séculos, é a mesma que hoje desregula o corpo de quem faz esses turnos. O que está estabelecido é mais simples do que a estatística do cancro: o corpo continua a funcionar como se a noite ainda existisse, e o ambiente deixou de a fornecer.
A passagem das antigas lâmpadas de sódio, de luz alaranjada, para os díodos emissores de luz, os LED de luz branca mais fria e rica em azul, agravou o problema do ponto de vista biológico. A própria equipa de Falchi calculou que uma transição não regulada para luz branca de temperatura de cor elevada pode mais do que duplicar o brilho do céu noturno tal como é percebido pelo olho humano adaptado à escuridão. A tecnologia que poupa energia ilumina de uma maneira que o corpo lê pior.
A noite dos outros
O ser humano é um animal diurno que aprendeu a iludir a noite, mas quase todos os outros animais não a iludem, dependem dela. Segundo um trabalho de 2010 coordenado pelo ecólogo alemão Franz Hölker, 30% de todas as espécies de vertebrados e mais de 60% das de invertebrados são noturnas, e para elas a noite é o tempo de caçar, de migrar, de acasalar, de comer sem ser comido. A luz artificial entra nesse tempo como um intruso.
Os ecólogos Travis Longcore e Catherine Rich deram nome ao problema num artigo de 2004 na revista Frontiers in Ecology and the Environment, ao distinguir a poluição luminosa astronómica, a que apaga o céu, da poluição luminosa ecológica, a que altera os regimes naturais de luz nos ecossistemas e desorienta os seres que neles vivem.
Na mais pequena ilha dos Açores, com pouco mais de quatro centenas de habitantes, a iluminação pública apaga-se todos os anos, em outubro e novembro. É o período em que as crias de cagarro deixam o ninho e se fazem ao mar pela primeira vez.
As jovens aves orientam-se pela luz da lua no oceano. As luzes das povoações desnorteiam-nas, e muitas caem em terra, à mercê de gatos e de automóveis. Ao escurecer a vila, a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e a câmara municipal reduzem as quedas.
Os Açores acolhem cerca de três quartos da população mundial da espécie. No Corvo, a decisão de voltar ao escuro não se vende ao turismo: protege uma ave.
A diferença importa porque a segunda mata, e mata de formas que se veem. As aves migratórias que se guiam pelas estrelas chocam contra arranha-céus iluminados; as crias de tartaruga marinha, que ao sair do ovo procuram o reflexo da lua sobre o mar, seguem em vez disso as luzes do passeio marítimo e morrem na estrada; as aves marinhas das colónias atlânticas, atraídas pela luz dos portos e das povoações, despenham-se em terra na primeira viagem ao mar.
O caso mais estudado é o dos insetos, e o mais antigo de conhecer, porque a traça que gira em torno do candeeiro é uma imagem com séculos. O que mudou foi a escala. Uma meta-análise publicada em 2021 na Nature Ecology & Evolution, coordenada por Dirk Sanders e Kevin Gaston, reuniu os estudos disponíveis e concluiu que a luz artificial noturna tem efeitos biológicos generalizados e negativos sobre as espécies, e que pode ser um dos fatores no declínio global das populações de insetos.
As traças atraídas pela luz esgotam-se a girar em volta dela, ficam expostas aos predadores e deixam de polinizar, no escuro, as plantas que visitavam. Um estudo de longo prazo na Europa, com dados entre 1985 e 2015, encontrou as quebras mais acentuadas precisamente nas espécies de traça mais sensíveis à luz.
A luz que tornou as cidades habitáveis para as pessoas tornou-as armadilhas para tudo o resto.
A lei que falta
Contra um problema que nasceu de acender luz, a solução é desarmante na sua simplicidade: basta acender menos, com lâmpadas orientadas para baixo, de tom mais quente, apagadas ou reduzidas quando ninguém passa.
A poluição luminosa tem uma propriedade que nenhuma outra poluição partilha, porque desaparece no instante em que se desliga a fonte, não deixa resíduo no solo nem na água, não persiste na atmosfera durante séculos. Apaga-se um interruptor e o céu volta. O obstáculo nunca foi técnico, foi a associação, antiga e tenaz, entre luz e segurança, entre escuridão e perigo, que faz cada autarca hesitar antes de apagar uma rua.
Alguns países decidiram enfrentá-la por via legal. A Eslovénia adotou em 2007 uma das primeiras leis nacionais dedicadas ao problema, assente num princípio simples, nenhuma luz acima do horizonte, com candeeiros encapuçados e um teto de consumo elétrico por habitante.
França foi mais longe com um decreto de dezembro de 2018 que impõe horários de extinção para montras, fachadas e edifícios não residenciais, limita a temperatura de cor das lâmpadas e delimita perímetros de proteção em torno dos sítios de observação astronómica. Áustria e várias regiões de Espanha e de Itália seguiram caminhos próprios.
Portugal não tem nada disto. Apesar de figurar repetidamente entre os países da Europa que mais luz emitem por habitante para a atmosfera, o país vive sem regulamentação nacional da poluição luminosa.
Existe uma Resolução da Assembleia da República, a número 193 de 2019, que recomenda ao governo medidas de mitigação e que ficou sem consequência legislativa, e o Orçamento do Estado para 2023 inscreveu um artigo de combate à poluição luminosa, prevendo uma comissão multidisciplinar e a futura criação de limites de emissão de luz. O resto está por fazer, e as boas práticas que existem vêm dos municípios, caso a caso, e não de uma estratégia de coordenação nacional.
A exceção mais nítida nasceu longe do continente, numa das menores ilhas dos Açores. No Corvo, com pouco mais de quatro centenas de habitantes, a iluminação pública apaga-se todos os anos, em outubro e novembro, para proteger o cagarro, a ave marinha cujas crias, na primeira saída do ninho para o mar, se desorientam com as luzes e caem em terra.
O estudo, conduzido pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, transformou o apagão num instrumento de conservação, e uma ilha inteira escolheu, em certas noites, voltar ao escuro.
Vender o que se deitou fora
Foi contra a mesma associação entre luz e progresso que o Alentejo encontrou, no escuro que lhe restava, um recurso económico. A ideia nasceu em 2007, idealizada por Apolónia Rodrigues, numa região marcada pela perda de população e pela dispersão das povoações, e por isso com um céu ainda pouco contaminado por luz.
Em vez de competir com grandes projetos turísticos que apagariam a identidade do território, a aposta foi inversa, proteger a escuridão e vendê-la. O processo de certificação arrancou em 2010 e culminou, em abril de 2011, com a atribuição ao Dark Sky Alqueva do estatuto de primeiro destino turístico Starlight do mundo, certificação concedida pela Fundação Starlight com o apoio da UNESCO, da agência de turismo das Nações Unidas e do Instituto de Astrofísica das Canárias.
O território abrange hoje cerca de sete mil quilómetros quadrados em torno do grande lago, integra onze concelhos do Alentejo e estende-se, desde 2015, a municípios espanhóis do outro lado da fronteira, no primeiro destino Starlight transfronteiriço do mundo.
O modelo alastrou. As Aldeias do Xisto, no centro do país, receberam a mesma certificação em 2019, e o Vale do Tua, no nordeste transmontano, seguiu-se em 2020, tornando-se a primeira área protegida portuguesa a consegui-la. Aquilo que começou como um expediente de uma região esvaziada virou uma pequena indústria nacional do céu escuro.
O observatório oficial do Alqueva fica na Cumeada, uma aldeia perto de Reguengos de Monsaraz, onde as sessões noturnas de observação esgotam com regularidade. Vem gente de Portugal e de fora pagar para ver aquilo que os habitantes de Lisboa, de Madrid ou de Londres já não podem ver das suas janelas: um céu cheio.
No Chiado de 1848, a multidão juntou-se para ver as estrelas desaparecerem atrás da primeira luz pública; na Cumeada de hoje, os visitantes pagam bilhete e esperam que as sessões abram para ver as mesmas estrelas reaparecer sobre o lago. A escuridão que durante toda a história significou perigo, crime e atraso passou a recurso protegido por uma certificação internacional e por onze câmaras municipais alentejanas.
O conde de Farrobo trouxe de Inglaterra, há quase dois séculos, o equipamento que acendeu o primeiro candeeiro a gás do país. O Alqueva exporta agora o contrário, a garantia de que, durante uma noite, é possível olhar para cima e encontrar lá o céu que ele ajudou a apagar.







