Uma lei de quarentena votada em Ragusa em 1377 fixou trinta dias de espera para quem chegava de terras com peste. O mesmo gesto confinou metade da humanidade na pandemia em 2020.
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Eram cinco e meia da manhã em Granadilla, no sul de Tenerife, quando os primeiros catorze espanhóis começaram a descer pela escada do MV Hondius para a lancha que aguardava ao costado. Vestiam fatos de proteção integral, brancos, com capuz e máscara FFP2 visível através do plástico do visor. Trinta militares da Unidade Militar de Emergências espanhola escoltavam-nos a cada passo. No cais, ambulâncias com motor a trabalhar. No mar, a lancha avançava com cuidado.
Índice
Do Levítico a Maomé: a quarentena antes da ciência
A ideia de fazer passar tempo entre alguém que talvez esteja doente e o resto da população, como filtro, é muito anterior à medicina moderna.
Existe codificada por escrito desde, pelo menos, o século VI antes da era comum, no livro do Levítico, terceiro livro do Pentateuco hebraico, na chamada fonte sacerdotal. O texto descreve em detalhe o procedimento que o sacerdote, não o médico, deve seguir perante um caso suspeito de doença de pele identificada com a tsaraath, hoje frequentemente traduzida por lepra: examinar, isolar a pessoa durante sete dias, reexaminar ao sétimo dia, declarar pura ou impura. Se for impura, a lei é dura: a pessoa deve usar vestes rasgadas, cobrir a parte inferior do rosto, gritar “impuro, impuro” ao passar pelos outros, e viver fora do acampamento enquanto tiver a doença.
Não é quarentena no sentido moderno. Não há esperança de cura, não há período definido de espera, não há instituição que receba o doente. É exclusão ritual, com o sacerdote como árbitro e a doença como impureza. É também o registo escrito mais antigo do isolamento como resposta organizada à doença.
Séculos depois, quando os médicos cristãos medievais foram nomear os hospitais que receberiam os infetados pela peste, recorreram a Lázaro, o leproso da parábola lucana, e ao topónimo veneziano de Santa Maria di Nazareth. Da fusão das duas palavras nasceu lazareto.
A Antiguidade clássica conheceu a epidemia urbana sem inventar a quarentena. Em 430 antes da era comum, no segundo verão da Guerra do Peloponeso, uma doença mortal entrou em Atenas pelo porto do Pireu e matou um quarto da população em poucos meses. Tucídides, general e historiador ateniense que contraiu a doença e sobreviveu, deixou no segundo livro da História da Guerra do Peloponeso a descrição clínica mais detalhada da antiguidade ocidental. Observou que os médicos eram os primeiros a morrer, por se aproximarem dos doentes.
Atenas não impôs isolamento.
Maomé, profeta do islão, é outro caso. Um hadith recolhido no século IX por Bukhari, sob a referência Sahih al-Bukhari 5728, regista palavras atribuídas ao profeta a propósito da peste: “Se ouvirem que a peste está numa terra, não entrem nela; se ela atingir uma terra onde estais, não saiam dela.”
A fórmula tem efeito sanitário direto, e foi citada pelo califa Omar ibn al-Khattab em 638, quando consultou os companheiros do profeta sobre se deveria entrar na Síria onde havia peste. Acabou por não entrar. A jurisprudência islâmica posterior formalizou o princípio, e várias cidades muçulmanas aplicaram a regra com seriedade ao longo dos séculos seguintes, muito antes da quarentena europeia.
O caso mais frequentemente apresentado como precursor é, no entanto, o que menos se parece com uma quarentena sanitária. O imperador bizantino Justiniano I, que contraiu e sobreviveu à pandemia de 541 que ainda hoje leva o seu nome, promulgou leis que restringiam os movimentos de minorias acusadas de causar a doença: judeus, samaritanos, pagãos, hereges, homossexuais. A historiografia recente lê estas medidas como discriminação religiosa e étnica com pretexto epidémico, não como dispositivo sanitário. O que Justiniano fez foi perseguir minorias na sombra da peste, e isso ficaria como tradição disponível para o que viria depois.
Ragusa, 1377: quando a cidade inventa a quarentena
A primeira lei documentada que impõe um tempo de espera entre uma área infetada e uma cidade não-infetada foi votada por trinta e quatro dos quarenta e sete conselheiros da cidade-estado de Ragusa, na costa do Adriático, a 27 de julho de 1377. A cidade, hoje Dubrovnik, era então pequena comunidade comercial sob suserania veneziana.
A Peste Negra, que chegou ao Mediterrâneo a partir de 1347 e matou um terço da população europeia em poucos anos, era a memória recente quando Ragusa fixou em lei o seu trentina.

A lei estabelecia que quem viesse de áreas atingidas pela peste não poderia entrar em Ragusa enquanto não cumprisse trinta dias na ilhota de Mrkan ou na cidade vizinha de Cavtat. Trinta dias era trentina. O número exato não tem justificação clínica. Os investigadores Zlata Blazina Tomic e Vesna Blazina, no estudo de referência sobre Ragusa, Expelling the Plague, sugerem que se inspirou na simbologia bíblica do quarenta, à qual a sociedade medieval era atenta.
Em 1383, Marselha estendeu o prazo para quarenta dias. Em 1403, Veneza fez o mesmo. Quaranta giorni deu quarantina, e quarantina tornou-se quarentena.
A passagem dos trinta para os quarenta dias parece detalhe. Quando uma cidade impõe espera a quem chega de fora, está implicitamente a dizer que alguém pode parecer saudável e ainda assim estar a transportar a doença. É o conceito de incubação, em formulação medieval, e, por extensão, o de portador assintomático.
Em 1377 ninguém em Ragusa sabia o que era Yersinia pestis, nem que as pulgas dos ratos a transmitiam, nem que existiam bactérias. A teoria médica dominante era o miasma, o ar corrupto. A lei municipal de 1377 já comporta, ainda assim, a intuição empírica do contágio.
Veneza deu o passo seguinte. Em 1423, perante mais uma vaga de peste que excedia quarenta mortes diárias, o Senado da Sereníssima, sob o doge Francesco Foscari e por sugestão de Bernardino de Siena, decidiu, a 10 de outubro, converter a ilha de Santa Maria di Nazareth em hospital permanente para apestados. Era o Lazzaretto Vecchio, primeira instituição hospitalar do mundo dedicada à peste de forma estável.
Em 1468, perante a evidência de que o hospital não bastava porque pessoas aparentemente saudáveis estavam a transmitir a doença, Veneza inaugurou uma segunda ilha, o Lazzaretto Nuovo, com função distinta. O Vecchio acolheria os doentes confirmados. O Nuovo seria quarentena de prevenção para suspeitos e mercadorias.
Dois séculos antes da microscopia, Veneza estabelecera que a doença infecciosa exige duas respostas, não uma.
Eyam, Londres, Marselha: o confinamento à escala do Estado
O confinamento que se inventou em Ragusa e se aperfeiçoou em Veneza era, no fundo, controlo de fronteira: isolava quem chegava, não quem estava cá. O salto seguinte, fechar populações residentes nas suas próprias casas ou nas suas cidades, viria depois, em três versões progressivamente mais violentas.
Em setembro de 1665, a peste chegou a Eyam, pequena aldeia do Derbyshire inglês, transportada por um surto de pulgas num fardo de tecidos vindo de Londres. Os habitantes tomaram uma decisão extraordinária. Sob a liderança do reverendo William Mompesson e do ministro puritano Thomas Stanley, traçaram um perímetro à volta de si próprios e comprometeram-se a não o ultrapassar enquanto a doença não terminasse.
A esposa de Mompesson, Catherine, morreu da peste. Os filhos tinham sido enviados para fora antes do acordo. Quando o frio de novembro de 1666 acabou com o surto, restavam em Eyam cerca de noventa habitantes de uma população inicial de trezentos e cinquenta.
O auto-confinamento de Eyam é o primeiro caso documentado de confinamento voluntário de uma população inteira por motivos sanitários.

Em Londres, no mesmo verão, o modelo era diferente. As autoridades municipais, perante uma epidemia que mataria entre setenta e cinco mil e cem mil pessoas numa cidade de quatrocentos e sessenta mil habitantes, decretaram em maio de 1665 que qualquer casa onde aparecesse um caso seria selada com toda a família dentro, doentes e saudáveis sem distinção. A porta era marcada com uma cruz vermelha de pelo menos um pé de comprimento e a inscrição “Lord Have Mercy Upon Us”. Dois guardas, um de dia e outro de noite, impediam saídas. As provisões eram entregues através da parede.
Em abril desse ano, em St. Giles-in-the-Fields, uma multidão arrombou várias dessas casas e libertou os moradores, num motim que o Lord Chief Justice ordenou investigar.
À medida que o verão avançou, o medo do contágio resolveu por si o problema da resistência: as pessoas começaram a evitar as casas seladas como evitavam os carros dos mortos que circulavam à noite com o pregão bring out your dead.
A crítica contemporânea já existia. William Boghurst, médico generalista que se manteve em Londres e tratou doentes durante toda a epidemia, publicou em 1665 Loimographia, observação clínica detalhada do surto. Sobre a política de selagem das casas, escreveu que tinha sido tantas vezes tentada e sempre encontrada ineficaz. O argumento de Boghurst era prático: misturar saudáveis com doentes numa só casa selada multiplicava as mortes em vez de as conter.
A objeção de Boghurst antecipa, em termos quase idênticos, o debate de 2020 sobre se isolar famílias inteiras em apartamentos pequenos era, em certas circunstâncias, contraproducente.
O terceiro salto, e o mais consequente para o que veio depois, foi dado em França entre 1720 e 1722. A peste entrou em Marselha por um navio mercante, o Grand-Saint-Antoine, que chegou em maio de 1720 vindo do Levante. O capitão Jean-Baptiste Chataud tinha reportado mortes suspeitas durante a viagem. Apesar disso, Jean-Baptiste Estelle, primeiro vereador da cidade e principal proprietário da carga, conseguiu que as sedas e algodões fossem descarregados para chegar a tempo à Feira de Beaucaire, marcada para julho.
A peste foi oficialmente declarada sessenta e sete dias depois da chegada do navio, com a primeira vítima registada a 20 de junho, uma costureira da rue de l’Échelle. Quando o Conselho de Estado, sob o regente Filipe de Orleães, decretou o bloqueio de Marselha a 14 de setembro de 1720, o bacilo já tinha entrado pelo interior.
A escala da resposta militar não tinha precedentes.
Nove mil soldados formaram o primeiro cordão em redor de Marselha. No verão seguinte, trinta e seis mil homens, um terço da infantaria francesa e um quarto da cavalaria, mantinham o segundo cordão a cercar toda a Provença. Entre a Durance e o Monte Ventoux, mil e quinhentos trabalhadores requisitados nas comunidades locais construíram, entre março e julho de 1721, uma muralha de pedra seca com vinte e sete quilómetros de comprimento, dois metros de altura e sessenta centímetros de largura, sem argamassa.
O Mur de la Peste, projetado pelo engenheiro carpentrasiano Antoine d’Allemand, foi guardado dia e noite por tropas francesas e pontifícias. Em agosto de 1721, a peste atingiu Avignon mesmo assim. As tropas francesas passaram para o outro lado do muro. A linha que tinha sido construída para proteger o Comtat Venaissin do norte da Provença passou a servir para proteger o norte da Provença do Comtat Venaissin.

A epidemia, no fim, matou entre noventa mil e cento e vinte mil pessoas, perto de um terço da população provençal. As sanções para quem violava as ordens estavam previstas no acórdão de setembro de 1720: galés para homens, banimento para mulheres, morte em caso de reincidência.
Até 1720, o confinamento sanitário era ação municipal, improvisada, com instrumentos limitados. A partir de Marselha, é política central, executada por exército regular, sustentada em legislação, capaz de impor sob pena de morte. Tudo o que veio depois, do cordão pirenaico de 1821 ao confinamento global de 2020, segue a matriz francesa.
Pirenéus, 1821: a face política da quarentena
Cem anos depois de Marselha, em 1821, a febre amarela chegou a Barcelona num brigue vindo de Havana. Matou entre dez mil e vinte mil pessoas, conforme a fonte, numa cidade com pouco mais de cem mil habitantes.
As autoridades francesas, dirigidas pelo duque Armand de Richelieu, então presidente do Conselho, decretaram o fecho dos portos franceses aos navios catalães e ordenaram que uma linha de quarentena fosse instalada ao longo da fronteira dos Pirenéus, vigiada por um corpo de tropa de cerca de trinta mil homens. A expressão cordon sanitaire aparece pela primeira vez documentada neste episódio. O termo seria adotado em todas as línguas europeias e atravessaria os dois séculos seguintes.
A particularidade do cordão de 1821 é que tinha duas funções, uma admitida e outra escondida. Tinha pretexto sanitário. Mas tinha também, e talvez sobretudo, finalidade contrarrevolucionária.
Espanha vivia o Trienio Liberal, o regresso da constituição de Cádis, e o governo ultrarrealista francês, recém-saído da Restauração borbónica, via no liberalismo espanhol uma ameaça política tão grande quanto a febre amarela. O historiador Adolphe Thiers, na altura jovem jornalista, observou as tropas francesas na fronteira e percebeu que o seu papel real era observar a guerra civil espanhola, não impedir o contágio.
Em 1823, com a febre amarela já contida, as mesmas tropas, agora com a designação de Cem Mil Filhos de São Luís, atravessaram a fronteira para reinstalar Fernando VII no trono absoluto.
A peça de 1821 expõe um elemento estrutural que estava implícito desde Marselha: o cordão sanitário concentra poder, e o poder concentrado pode ser reaproveitado para outros fins. O exército que mantém uma fronteira fechada por motivos de saúde é o mesmo exército, com a mesma legitimação popular, que pode marchar para sul quando o pretexto sanitário deixar de ser necessário.
Lazaretos e pneumónica: Portugal entre a quarentena e o esquecimento
A história portuguesa segue de perto o calendário europeu, mas com a inflexão própria do país atlântico. A partir do século XVI, talvez antes, foi instalado na Trafaria, na margem sul do Tejo, um lazareto destinado a confinar tripulações e mercadorias suspeitas. Em 1678 foi erguida no local a Ermida de Nossa Senhora da Saúde, para assistir os quarentenários e a população envolvente. No século XVIII o lazareto foi cercado por muro e passou a receber também presos condenados ao degredo, que esperavam ali o embarque para as colónias.
Em 1815 o lazareto foi transferido para a Torre Velha, fortaleza quinhentista construída pela margem sul do Tejo em frente à Torre de Belém, em São Sebastião da Caparica. A operação foi pensada em escala maior do que a anterior.
Em 1869 foi inaugurado em Porto Brandão, junto à Torre Velha, o novo edifício do Lazareto de Lisboa, batizado mais tarde como Asilo 28 de Maio. A planta era radial, com seis alas separando as várias fases da quarentena, enfermarias para casos confirmados, lavandarias, capela, alojamentos para o pessoal. Foi, à época, um dos maiores lazaretos da Península Ibérica, construído segundo os princípios higienistas da segunda metade do século XIX.
Quem por ali passou deixou queixas.
Em 1879, ao regressar do Brasil onde tinha visto encerrar-se o seu jornal O Besouro, Rafael Bordalo Pinheiro, então caricaturista com trinta e três anos, foi obrigado a cumprir quarentena no Lazareto de Porto Brandão por suspeita de febre amarela. Não gostou da experiência. Dois anos depois publicou No Lazareto de Lisboa, livro humorístico sobre os dias que passou ali. Escreveu na abertura que, “ao pousar o pé no torrão natal, no momento de estender os braços à imagem querida da pátria, em vez de ser apertado pelos braços amigos”, foi “apertado pelos guardas de saúde e metido no Lazareto”.
Documenta o tédio, a comida má, o frio das alas, e sobretudo o esquema de cobranças praticado pelo pessoal: os catraeiros que faziam a travessia de e para Lisboa, os criados que tudo cobravam, o capelão, a própria administração. O lazareto, escreve Bordalo, funcionava como hotel-prisão.
O leitor de hoje reconhece sem dificuldade o tom das primeiras crónicas pessoais do confinamento de 2020. A instituição é a mesma, em escala diferente.
A pneumónica, ou gripe espanhola, entrou em Portugal pelo Alentejo, em Vila Viçosa, em finais de maio de 1918. Em Portugal ficou conhecida como pneumónica pela frequência com que evoluía para pneumonia hemorrágica fulminante. O surto oferece o caso mais raro: o do estado liberal a recuar perante uma pandemia massiva sem impor confinamento generalizado. A doença teve três vagas, a primeira até julho de 1918, a segunda e mais devastadora entre setembro e novembro do mesmo ano, a terceira nos primeiros meses de 1919.

Em Portugal, com cerca de seis milhões de habitantes, estima-se que morreram entre 60.000 e 135.000 pessoas, conforme a fonte académica consultada. A divergência das estimativas, entre os registos oficiais da época e os estudos demográficos posteriores, é por si só sintoma do esquecimento que rodeou esta pandemia.
O combate foi dirigido por Ricardo Jorge, diretor-geral de saúde, e baseou-se em encerramento de escolas, proibição de feiras e romarias, requisição de espaços públicos para enfermarias, prática individual de lavagem de mãos e uso de máscara. Não houve cerca sanitária, não houve confinamento residencial.
O paquete Moçambique, da Empresa Nacional de Navegação, largou de Lourenço Marques a 25 de setembro de 1918 com mil e oitenta e cinco pessoas a bordo, novecentas e cinquenta e duas passageiros e cento e trinta e três tripulantes. Um surto de pneumónica eclodiu durante a travessia e matou cento e noventa e um passageiros e dois tripulantes. O navio chegou a Lisboa a 20 de outubro e ficou em quarentena. Os sobreviventes foram transferidos para o Lazareto de Porto Brandão. A morte chegou pela rota dos transportes, como sempre tinha chegado, mas o estado liberal português não dispôs de mecanismos administrativos para parar os corpos.
O sociólogo José Manuel Sobral, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, organizador da obra coletiva A Pandemia Esquecida (2009), observou em texto posterior que “são muito raros os monumentos às vítimas da epidemia”, enquanto proliferam os dedicados aos mortos da Primeira Guerra Mundial. O paralelo é justo. Cerca de dois mil portugueses morreram em combate na frente europeia entre 1917 e 1918. Dezenas de vezes mais morreram da pneumónica em casa, sem que disso tenha ficado registo coletivo equivalente.
A epidemia foi esquecida porque o estado não a administrou.
Ovar, março de 2020: a cerca sanitária medieval reinventada
A 17 de março de 2020, três dias antes de o presidente da República decretar o estado de emergência nacional, o primeiro-ministro António Costa e o ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita assinaram um despacho que reconhecia a necessidade de declarar a situação de calamidade no município de Ovar. Ovar tinha então cerca de vinte casos confirmados de covid-19 e mais de quatrocentos contactos identificados, naquilo que a ministra da Saúde Marta Temido classificou como “transmissão comunitária ativa”.
O despacho dispunha que ficavam interditadas as deslocações por via rodoviária de e para o município, exceto as de profissionais de saúde, das forças e serviços de segurança, dos serviços de socorro, do abastecimento de bens essenciais e as justificadas por razões de urgência. A circulação ferroviária foi também suspensa.
A cerca seria prolongada por sucessivas resoluções do Conselho de Ministros e durou exatamente um mês, de 17 de março a 17 de abril de 2020.

A cerca aplicou-se a uma cidade habitada por residentes em vez de a uma fronteira externa. Ovar tem cerca de cinquenta mil habitantes. A cerca sanitária deixou-os dentro, e deixou de fora todos os outros. Foi a única cerca sanitária aplicada a um município inteiro em Portugal durante a covid-19. Em abril de 2021, o governo decretaria uma segunda cerca sanitária, restrita às freguesias de São Teotónio e Longueira-Almograve, no concelho de Odemira, perante um surto entre trabalhadores agrícolas migrantes.
Em situação de emergência, o estado português recorreu ao instrumento que Ragusa tinha inventado em 1377, com a diferença de saber, em 2020, qual era o agente patogénico. O vírus tinha sido identificado e sequenciado em janeiro. Os mecanismos de transmissão e o período exato de incubação ainda estavam em estudo.
A trentina de Ragusa eram trinta dias, escolhidos por simbologia bíblica e por intuição empírica de que mais de quatro semanas eram tempo suficiente para que a peste, em quem a transportasse, se manifestasse. A quarentena de Ovar durou trinta e um dias.
Covid-19: o confinamento à escala da humanidade
A 23 de janeiro de 2020, o Conselho de Estado da China decretou o encerramento de Wuhan, cidade de onze milhões de habitantes na província de Hubei. Em poucas horas, todos os transportes públicos foram suspensos, os aeroportos, estações e metro fechados, e as autoestradas que saíam da cidade barradas pelas autoridades. A OMS classificou a medida como sem precedentes na história da saúde pública. Em quarenta e oito horas, mais de cinquenta milhões de pessoas em toda a província de Hubei estavam sob restrição de movimentos.
A doença que provocou esta operação tinha sido reportada à OMS pela primeira vez a 31 de dezembro de 2019, sob a designação de aglomerado de casos de pneumonia em Wuhan. Em fevereiro de 2020 já tinha nome, covid-19, e em meados desse mês saiu da China.
A 22 de fevereiro de 2020, com clusters de casos detetados na Lombardia e no Vêneto e duas primeiras mortes confirmadas, o governo de Giuseppe Conte impôs uma “zona vermelha” sobre onze municípios do norte de Itália, dez na província de Lodi e um na província de Pádua, abrangendo cerca de cinquenta mil pessoas. A 8 de março, alargou a quarentena a toda a Lombardia e a catorze províncias adicionais. A 9 de março, estendeu-a a toda a península. Itália foi o primeiro país democrático a confinar todo o seu território.
A 11 de março de 2020, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, declarou a covid-19 como pandemia. A 14 de março, Espanha decretou o estado de alarme com confinamento domiciliário obrigatório. A 16 de março, França entrou no que Emmanuel Macron classificou, em discurso televisivo, como guerra sanitária. A 18 de março, o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa decretou em Portugal o primeiro estado de emergência da história democrática portuguesa, depois de aprovação da Assembleia da República sem votos contra, com abstenções de PCP, PEV, Iniciativa Liberal e da deputada não inscrita Joacine Katar Moreira.
Em abril de 2020, mais de metade da humanidade, três mil e novecentos milhões de pessoas, estava sob alguma forma de restrição imposta pelos governos. Dois mil setecentos e oitenta milhões, em quarenta e nove países, estavam sob confinamento domiciliário obrigatório. Foi a maior aplicação simultânea, em toda a história documentada, do dispositivo que Ragusa inventou em 1377.

Um outdoor na esquina da Long Street com a Orange Street, na Cidade do Cabo, apela à população para ficar em casa durante o confinamento da covid-19, em abril de 2020. A mesma ordem repetiu-se em dezenas de línguas e em mais de noventa países. Foto: Discott, Wikimedia Commons
A escala global da operação tornou-a também o maior laboratório institucional de quarentena alguma vez observado. O encerramento de fronteiras, o recolher obrigatório, a interdição de circulação entre regiões, a quarentena domiciliária, o cordão sanitário em torno de cidades, todos os dispositivos historicamente desenvolvidos ao longo de seis séculos foram aplicados em paralelo, com variantes nacionais. O lockdown britânico, o quédate en casa espanhol, o estado de emergência português, o recolher obrigatório francês, o confinamento domiciliário italiano operavam com o mesmo princípio. A cidade, ou o país, suspende o movimento dos seus habitantes para suspender o movimento da doença.
O número total de mortes atribuídas direta ou indiretamente à covid-19 entre 1 de janeiro de 2020 e 31 de dezembro de 2021, segundo a OMS, foi de cerca de quinze milhões. Em Portugal, com cerca de dez milhões e trezentos mil habitantes, foram registadas perto de vinte mil mortes diretamente atribuídas à doença até ao fim de 2021.
A covid-19 deixou também uma memória institucional ativa. Os governos europeus que decidiram, em 2022 e 2023, levantar os últimos vestígios do estado de emergência ficaram com a infraestrutura administrativa montada e com a memória do que tinha sido possível impor. Os cidadãos ficaram com a memória do que tinha sido possível aceitar.
A 9 de maio de 2026, em carta pública dirigida à população de Tenerife, Tedros Adhanom Ghebreyesus invocou diretamente essa memória. O navio em causa era o MV Hondius, com três mortes a bordo. O agente patogénico era o hantavírus Andes. A 11 de abril, no Atlântico Sul, tinha morrido um passageiro neerlandês. Três dias depois, a viúva, também neerlandesa. A 2 de maio, um passageiro alemão. A OMS foi notificada. O hantavírus Andes é a única estirpe conhecida com transmissão entre humanos, e o período de incubação pode prolongar-se até oito semanas.
Tedros tinha decidido, por isso, deslocar-se pessoalmente a Tenerife para supervisionar a evacuação dos passageiros, escolha invulgar para um diretor-geral da OMS. A carta explicava porquê. “Sei que, quando ouvem a palavra surto e veem um navio a navegar em direção às vossas costas, vêm à superfície memórias que nenhum de nós conseguiu apagar por completo. A dor de 2020 ainda é real, e não a desvalorizo nem por um instante. Mas preciso que me oiçam com clareza: isto não é uma nova covid.”
Em conferência de imprensa em Tenerife, Tedros disse ainda que “esse trauma ainda está nas nossas cabeças”. E acrescentou: “É por isso também que vim aqui. Para estar do lado das pessoas, porque dizer as coisas de longe é fácil.” A 12 de maio, em Madrid, depois de a evacuação estar concluída, agradeceu ao primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez por ter cumprido, ao receber o navio, o que classificou como dever moral.
O instrumento que os trinta e quatro conselheiros da cidade-estado de Ragusa fixaram em lei a 27 de julho de 1377 não tem nome próprio na história das instituições. Foi codificado em pedaços, prolongado, especializado, militarizado, esquecido durante longos períodos, ressuscitado pela pneumónica, esquecido outra vez, reinventado pela covid-19. À entrada do porto industrial de Granadilla, em maio de 2026, foi outra vez aquilo que sempre foi: ganhar tempo na luta contra o invisível.






