Enquanto os homens emigravam a salto para França ou partiam para a pesca do bacalhau, milhares de mulheres ficaram a gerir casa, terra e ausência. Muitas vestiam preto por homens vivos. Chamaram-lhes viúvas de vivos
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Nas aldeias do planalto de Castro Laboreiro, no extremo norte do Minho, havia um gesto que anunciava a partida de um homem antes de qualquer palavra. A mulher vestia-se de preto.
Punha o luto fechado, dos pés à cabeça, no dia em que o marido atravessava a fronteira a salto, de noite, guiado por um passador, a caminho de França. O marido ia vivo. O preto marcava a ausência que começava, e que podia durar anos.
Ficaram conhecidas como viúvas de vivos. O nome fixava o que a situação tinha de ambíguo: nem casadas com o homem em casa, nem viúvas com a vida livre para refazer.
A mesma condição repetia-se a centenas de quilómetros, no litoral de Aveiro, onde outras mulheres viam os maridos embarcar para os bancos da Terra Nova e da Gronelândia e contavam os meses até ao regresso. O interior raiano e a costa partilhavam a mesma figura, e quase a mesma palavra para a nomear.
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A partida a salto
A emigração das décadas de 1960 e 1970 foi a maior sangria demográfica da história recente de Portugal. Saíram mais de dois milhões de pessoas, na maioria para França e a Alemanha, e a maior parte fê-lo à margem da lei.
O passaporte de emigrante exigia diploma da terceira classe, situação militar regularizada, certificado de idoneidade política passado pelo regedor e carta de chamada de um parente já instalado. Diante daquela burocracia, escolhia-se a fronteira de noite.
A travessia clandestina movia uma rede de passadores e angariadores. O passador cobrava entre 6.000 e 12.000 escudos por viagem. O fluxo de entradas em França subiu sem parar até atingir o máximo em 1970.
Havia uma segunda razão para o salto, além do trabalho. A guerra colonial chamava os homens novos para Angola, Guiné e Moçambique a partir de 1961, e o serviço militar passou a significar dois anos no mato, com hipótese real de não voltar.
Para o rapaz do campo, a fronteira clandestina era também a fuga à tropa. Cerca de trinta por cento dos que partiam fugiam ao serviço militar ou à perseguição da polícia política. A emigração e a guerra drenavam a mesma geração de homens, e deixavam as aldeias entregues às mulheres e aos velhos.
Quem partia era, de forma esmagadora, homem. José Luís Garcia, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, caracterizou esses emigrantes como predominantemente do sexo masculino, em idade ativa e com poucas qualificações. A emigração masculina foi muito mais expressiva do que a feminina em toda a fase que vai da década de 1950 ao início da década de 1980.
As freguesias do noroeste ficavam sem homens em idade de trabalhar, e essa falta moldava tudo o resto.
Naquela paisagem despovoada, a expressão já corria de boca em boca, e chegava também aos livros. O escritor José Cardoso Pires usou-a em O Delfim, publicado em 1968, um romance ambientado na Gafeira, aldeia ficcional parada no tempo de Salazar.
Numa cena de missa, o narrador atravessa a multidão “por entre filhas de Maria, viúvas de vivos e rapazes de blusões comprados em Winnipeg, Canadá”. O blusão estrangeiro era a marca de quem tinha emigrado e voltava de visita, e fixava numa imagem a aldeia esvaziada.
Viúvas de vivos: as que ficavam com a terra
A salto ou com papéis, o efeito sobre quem ficava era o mesmo. A mulher passava a gerir a exploração agrícola, a criar os filhos, a administrar o dinheiro que chegava de França em vales do correio e a representar a família perante a aldeia.
Caroline Brettell, antropóloga, percorreu esse terreno na freguesia de Lanheses, no concelho de Viana do Castelo. Deu ao livro um título que é por si só uma tese: Men Who Migrate, Women Who Wait, homens que migram, mulheres que esperam, publicado pela Princeton University Press em 1986. Caroline Brettell mostrou como a partida dos maridos transferia para as mulheres uma autoridade que a ordem rural lhes negava, e como a comunidade se reorganizava em torno dessa ausência.
O trabalho que sobrava não era pouco. No minifúndio do noroeste, a mulher ficava à frente da lavoura, dos animais e das colheitas, além da casa e dos filhos. Administrava as remessas que chegavam pelo correio, muitas vezes a única renda certa de uma família camponesa.
Decidia o que se comprava e o que se guardava. Tratava com o regedor e com o lavrador vizinho. Levava os filhos a crescer com o pai reduzido a uma fotografia e a um nome em cartas espaçadas. Tornava-se, na prática, cabeça do casal, num mundo que reservava esse lugar aos homens.
A falta de homens deixava marcas demográficas que Caroline Brettell leu nos registos paroquiais de Lanheses ao longo de gerações. Era uma sociedade de pequena propriedade e herança repartida, onde a emigração funcionava há séculos como válvula de escape para quem não herdava terra que chegasse.
O desequilíbrio entre os sexos elevava a idade a que as mulheres casavam e deixava muitas solteiras sem perspetiva de casamento. Nas romarias e nos arraiais, onde antes se faziam os namoros, faltavam rapazes da mesma geração. As raparigas em idade de casar viam o tempo passar. Os nascimentos fora do matrimónio subiam.
A viagem dos homens reescrevia a estrutura das famílias, de forma diferente para cada mulher, conforme o marido mandasse dinheiro e voltasse, ou desaparecesse no estrangeiro.
Esse poder novo vinha embrulhado em vigilância. O luto de preto, mantido durante anos enquanto o marido trabalhava longe, protegia a mulher da maledicência e sinalizava à aldeia que ela continuava casada. Antecipava também o desgosto, caso uma desgraça em França demorasse a chegar a notícia.
Prendia-a a um estatuto sem folga, sob o olhar dos vizinhos, num casamento que era sobretudo distância e correspondência. Quando o marido regressava, de visita ou de vez, reclamava o lugar de chefe que a mulher tinha ocupado sozinha durante anos, e o equilíbrio voltava a mudar.
A viúva de vivo governava a casa, mas vestida de luto, como se o homem pudesse não voltar.
O outro mar: as mulheres do bacalhau
A segunda geografia da espera ficava na costa, entre Ílhavo, a Gafanha e a Murtosa. Daqui partia todos os anos a frota da pesca do bacalhau, rumo aos bancos da Terra Nova e da Gronelândia. A campanha esvaziava as casas de homens durante metade do ano, e às vezes mais.
Numa recolha de testemunhos da Câmara Municipal de Ílhavo, uma mulher da terra recordou uma frase do seu antigo professor do Magistério Primário:
“Vocês, raparigas de Ílhavo, são viúvas de homens vivos.”
E acrescentou que era verdade, porque eles passavam mais tempo no barco do que em casa.
Os tempos da ausência mediam-se em estações. Nos lugres, a viagem à linha durava cinco meses. Nos arrastões, os homens saíam em fevereiro, voltavam em julho, ficavam 15 dias em terra e tornavam a partir, para só regressarem em dezembro, antes do Natal.
Mesmo o regresso mal deixava respirar. “Chegava num dia e no dia seguinte ia logo para a descarga do bacalhau”, lembrou a mesma mulher. E o cálculo de uma vida inteira coube-lhe numa frase: “Nós nem metade do tempo vivemos juntos.”
A esta espera somava-se o risco, que podia tornar a metáfora literal. A pesca à linha no dóri, o pequeno barco aberto manobrado por um homem só em mar alto, matava com regularidade. Os naufrágios eram parte do calendário, e as viúvas de vivos podiam tornar-se viúvas sem mais.

Para socorrer a frota isolada, o Estado mandou construir em Viana do Castelo, em 1955, o navio-hospital Gil Eannes, que servia de hospital e de capitania, e levava também o correio entre as embarcações.
Nem todas as mulheres do bacalhau ficavam em casa à espera. Os ranchos de raparigas da Murtosa e das Gafanhas partiam por sua vez, em comboio até Lisboa e depois de vapor até Alcochete, para trabalhar nas secas onde o peixe era estendido e curado.
Dormiam em tarimbas forradas a palha de arroz, trabalhavam da alvorada à meia-noite quando havia fragatas para carregar, e algumas roubavam tomate nos quintais das redondezas para enganar a fome.
A migração feminina existia, sazonal, ao lado da masculina. Mas a figura que ficou na memória foi a da que esperava em terra, não a da que partia.
Cartas que outros escreviam
Entre quem partia e quem ficava havia um fio ténue de papel.

As cartas demoravam semanas, às vezes meses, e atravessavam um obstáculo difícil de imaginar. Muitas destas mulheres não sabiam ler nem escrever, e do outro lado a dificuldade repetia-se: os maridos eram, na maioria, camponeses de pouca escola, instalados como operários nos bairros de lata da periferia de Paris.
A intimidade do casamento passava por mãos alheias. Uma vizinha, um filho que andava na escola, o pároco ou um escrevente da terra redigiam o que a mulher ditava, e liam em voz alta o que chegava de França ou da Terra Nova. As palavras mais privadas de um casamento eram pronunciadas diante de uma terceira pessoa, e a notícia de uma morte chegava pela boca de quem sabia ler.
A história social da cultura escrita reconstruiu este mundo a partir das cartas de chamada, as missivas com que o emigrante chamava a si a mulher e os filhos. A investigadora Carmem de Morais Sarmento estudou esse corpus de correspondência familiar entre 1890 e 1914. Nele guardam-se as fórmulas que a distância tornava preciosas, do “minha querida mulher” ao “minha querida marida”.
O historiador Joel Serrão fixou em 1977, no clássico A Emigração Portuguesa, o lugar central destes movimentos na história do país, e a continuidade entre a saída para o Brasil no século XIX e a saída para a Europa no século XX.
A literatura recolheu a mesma cena, e por mão de mulheres. Em Novas Cartas Portuguesas, o livro que Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa publicaram em 1972 e que a censura do Estado Novo proibiu, uma das cartas é assinada por uma Penélope analfabeta do Carvalhal, escrita a meias por duas primas, uma das quais não sabia escrever.
A mulher fala do marido emigrado e do filho mutilado na guerra colonial. O português sem escola da carta vale, sem o dizer, como a denúncia mais funda da condição daquelas mulheres: a de quem governa a casa na ausência do marido, mas não tem sequer a posse das próprias palavras.
O verso que veio da Galiza: Rosalía de Castro e a canção
Quem hoje reconhece a expressão fá-lo, quase sempre, por uma canção.
Em 1970, o cantor Adriano Correia de Oliveira gravou o “Cantar de Emigração”, faixa de abertura do álbum Cantaremos. Tornou-se uma das trovas mais conhecidas da música de intervenção, cantada nas manifestações estudantis contra a ditadura, e chegou ao país inteiro no ano em que a emigração para França atingia o pico.
Viúvas de vivos. O verso não era dele. O músico José Niza tinha-o adaptado de um poema de Rosalía de Castro, escritora galega, o “¡Pra a Habana!”, de Follas Novas, publicado em 1880 sobre a emigração da Galiza para Cuba. Foi Rosalía de Castro quem primeiro escreveu, dos campos sem homens, as “viúvas de vivos e mortos que ninguém consolará”.
Dois anos antes da canção, José Cardoso Pires já usara a expressão em O Delfim. Mas nenhum deles a inventou.
A expressão era popular, e mais velha do que os seus autores. Atravessava a fronteira galego-minhota e a distância entre a serra e o mar. Tanto a recolheu Rosalía de Castro junto dos que partiam para Havana como a ouviu, na década de 1960, a rapariga de Ílhavo da boca do seu professor. O nome já andava nas aldeias antes de entrar num livro ou num disco.
O que ficou
A espera nem sempre durou para sempre. A partir de meados da década de 1960, o reagrupamento familiar começou a desfazer a figura da que ficava. Nas saídas legais, a proporção de mulheres subiu depressa, de 40 por cento em 1966 para 53,5 por cento em 1968, à medida que esposas e filhos iam juntar-se aos homens já instalados.
A emigração clandestina, a salto, continuou masculina. Mas a aldeia minhota começou a transferir-se para os subúrbios operários de Paris, onde os portugueses ergueram, em Champigny-sur-Marne, o maior bairro de lata de França. Muitas viúvas de vivos deixaram de o ser por terem ido, enfim, ter com o marido.
O retrato demográfico do país acabou por se inverter. Portugal continua a ser, segundo o Observatório da Emigração, um dos países da União Europeia com maior proporção da população a viver no estrangeiro, com cerca de 1,8 milhões de emigrantes e uma taxa na ordem dos 17 por cento da população.
Mas a emigração de hoje pouco se parece com a de então. Os que partem são jovens qualificados, e a saída deixou de ser coisa de homens: a emigração jovem reparte-se de forma equilibrada entre os sexos, parte-se em casal ou parte a mulher sozinha, e a separação faz-se cada vez menos por carta e cada vez mais por ecrã.
A figura da que veste preto por um homem vivo pertence a um Portugal que acabou.
Restam as casas que as remessas pagaram, espalhadas pelo Minho, com os azulejos e as varandas de ferro que assinalavam um marido em França. E restam, nas gavetas de muitas dessas casas, as cartas que mãos alheias escreveram e que as mulheres mandaram ler tantas vezes que ficaram a sabê-las de cor, num francês de terra que nunca aprenderam a soletrar.







