Uma crónica japonesa, o tratado de António Galvão e a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto contam de três maneiras a chegada da arma de fogo ao Japão, em 1543.
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No oitavo mês do calendário lunar de 1543, um navio de que ninguém sabia a origem entrou numa pequena enseada da aldeia de Nishimura, na ilha de Tanegashima, a sul de Kyushu. Trazia mais de 100 pessoas. Os habitantes não lhes reconheciam o aspeto e não lhes entendiam a língua.
Entre os passageiros havia um letrado chinês, Gohō no registo da ilha, e foi por ele que a conversa se fez, por escrito, em caracteres que os dois lados sabiam ler. À pergunta sobre quem eram aqueles homens, Gohō respondeu que eram mercadores bárbaros vindos do sudoeste.
Dois desses mercadores traziam um tubo de ferro, reto por fora e oco por dentro, pesado. Disparado, brilhava como um relâmpago e soava como um trovão. O senhor da ilha, Tanegashima Tokitaka, comprou dois, a um preço que ficou registado apenas como alto e difícil de alcançar, e guardou-os como tesouro da casa.
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O relato está no Teppōki, a “crónica da arma”, escrita em chinês clássico pelo monge budista Nanpo Bunshi, a pedido de Tanegashima Hisatoki, e datada do nono dia do nono mês de 1606. Foi redigida 63 anos depois dos factos, para honrar Tanegashima Tokitaka.
Os grandes dicionários históricos japoneses tratam-na como a fonte básica da chegada da arma de fogo ao Japão, com reservas sobre o que possa ter de embelezamento.
Desse texto saiu a versão que os manuais escolares japoneses repetem: portugueses levados pela tempestade a Tanegashima levaram a arma de fogo ao Japão em 1543. Fora do Japão circulou depois uma segunda metade da história, segundo a qual o país, tendo adotado a arma, acabou por desistir dela. Historiadores japoneses como Udagawa Takehisa e Tsukamoto Manabu puseram em causa, cada um, uma das metades.
Três desertores e um letrado chinês
A notícia portuguesa mais antiga é de António Galvão, que foi governador de Ternate, nas Molucas, no Tratado dos Descobrimentos, impresso em Lisboa em 1563. Põe o episódio um ano antes.
Em 1542, conta António Galvão, estando Diogo de Freitas, capitão de um navio, no reino do Sião, fugiram-lhe do navio três portugueses, António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto, num junco que ia para a China, a caminho de Liampo. Uma tempestade afastou-os da terra e, em poucos dias, para leste, “viram hua ylha em trinta & dous graos, a q’ chamam os Japoes”.
António Galvão não fala de armas. Não fala de Tanegashima, nem de comércio.
Associa a ilha às “Sipangas” dos relatos antigos e regista que tem ouro, muita prata e outras riquezas.
O Teppōki dá aos dois chefes dos mercadores nomes que soam a transcrição, Murashukusha e Kirishitadamōta. O desacordo entre as fontes fica na data e na rota.
Pedro Lage Reis Correia resumiu-o em 2004: Murai Shōsuke, historiador japonês, defende 1542 a partir de fontes chinesas e de um Teppōki desfasado um ano; Olof G. Lidin, autor de Tanegashima: The Arrival of Europe in Japan, mantém 1543 e lê a viagem de António Galvão como contacto com as ilhas Ryukyu. Pedro Lage Reis Correia conclui que 1543 deve ficar até haver prova em contrário.
O letrado chinês é a outra ponta. Miyake Tōru, da Universidade Momoyama Gakuin, em Osaka, lê Gohō como Wang Zhi, chefe de uma rede de contrabando entre a China dos Ming e o arquipélago japonês. A partir daí, Miyake Tōru propõe que a viagem de 1543 tenha sido uma chegada deliberada, e não um naufrágio, ligada ao comércio de armas e de salitre.
Udagawa Takehisa, professor emérito do Museu Nacional de História Japonesa, contesta no livro Teppō Denrai que tenham sido os portugueses arrastados para Tanegashima a levar a arma ao Japão.
Num livro posterior, descreve barcos de contrabando chineses, com japoneses a bordo, a chegar repetidas vezes ao oeste do Japão, e armas a entrar em vagas sucessivas.
A mesma cena, contada do outro lado: Fernão Mendes Pinto e a espingarda

Há uma terceira versão, portuguesa e mais tardia. Fernão Mendes Pinto, na Peregrinação, publicada em 1614, põe-se a si próprio na ilha a que chama Tanixumaa, com dois companheiros portugueses, um deles Diogo Zeimoto.
Sem mercadoria para vender, os três passavam o tempo a pescar, a caçar e a visitar templos. Diogo Zeimoto era bom atirador. Um dia, num paul, matou “húas vinte & seis marrecas” com a espingarda. Os japoneses, que nunca tinham visto um tiro de fogo, não entendiam o segredo da pólvora e, escreve Fernão Mendes Pinto, assentaram todos que era feitiçaria.
O senhor da ilha, a quem Fernão Mendes Pinto chama Nautaquim, mandou chamar Diogo Zeimoto e levou-o na garupa do cavalo pela povoação, com porteiros a anunciar que o estrangeiro passava a ser seu parente. Diogo Zeimoto ofereceu-lhe a espingarda. O senhor deu-lhe 1.000 taéis de prata e pediu-lhe que lhe ensinasse a fazer a pólvora.
A Peregrinação conta uma chegada paralela, com outros protagonistas e outras circunstâncias. Na crónica japonesa, o senhor compra duas armas a preço alto e põe os seus homens a estudar o fabrico. Na Peregrinação, um português oferece uma por gratidão e é pago em honras e em prata.
Fernão Mendes Pinto acrescenta números. Quando os portugueses partiram, cinco meses e meio depois, havia na ilha mais de 600 cópias. Em 1556, em Fucheo, capital do reino de Bungo, terão dito ao autor que havia ali mais de 30.000 e, no Japão inteiro, “mais de trezentas mil espingardas”. O historiador Georg Schurhammer rejeitou em 1946 a versão de Fernão Mendes Pinto. Os números ficam como afirmação dele.
O fundo do cano: as primeiras armas de fogo feitas no Japão
O Teppōki é mais sóbrio e mais técnico. Tanegashima Tokitaka mandou um vassalo, Shinokawa Koshirō, aprender a moer, peneirar e misturar a pólvora. Pôs os ferreiros da ilha a copiar o tubo. As cópias saíram parecidas no aspeto, mas os ferreiros não sabiam como se fechava o fundo do cano.
No ano seguinte, os mercadores estrangeiros voltaram a uma enseada de Kumano, na mesma ilha, e entre eles vinha um ferreiro. Tanegashima Tokitaka mandou um homem a quem o Teppōki chama Kinbei Kiyosada aprender com ele como se fechava o fundo do cano.
A tradição local deu-lhe o apelido Yaita e as datas de 1502 a 1570, e conta que, um ano depois da chegada, montou na ilha uma oficina de armas. Uma lenda acrescenta que Yaita Kinbei deu a filha, Wakasa, em casamento a um mercador português em troca do segredo da culatra. A lenda não está no Teppōki.

A arma não ficou na ilha. Um certo Sugibō, do templo de Negoro, na província de Kii, mandou pedir uma, e o senhor da ilha enviou-lha por intermédio de Tsuda Kenmotsu, que viria a ser um dos primeiros mestres de tiro do Japão.
Na província de Izumi, onde fica o porto de Sakai, o Teppōki regista um mercador, Tachibanaya Matasaburō. A oficina dele e dos descendentes terá fabricado armas durante cerca de 300 anos.
Sakai e Kunitomo, junto ao lago Biwa, tornaram-se os dois maiores centros de produção. Segundo a tradição de Kunitomo, uma das armas chegou ao xógum Ashikaga Yoshiharu, que mandou os ferreiros da aldeia copiá-la. Pela mesma tradição, Kunitomo terá empregado no auge mais de 1.000 artesãos, e cerca de um terço das armas de mecha japonesas conservadas terão saído de lá.
O nome da ilha ficou na arma. “Tanegashima” passou a designar em japonês o arcabuz de mecha, que foi a principal arma de fogo de mão do país durante mais de três séculos.
Nagashino e os números que cresceram
A batalha de Nagashino, em 1575, é o episódio que a memória japonesa associou à arma. A versão corrente diz que Oda Nobunaga, senhor de Owari que se propôs unificar o Japão pela força, dispôs 3.000 arcabuzeiros em três fileiras, que disparavam à vez, e desfez assim a cavalaria de Takeda Katsuyori, senhor de Kai e filho de Takeda Shingen.

Atobe Ban, historiador, retomou em 2023 as críticas a essa versão. A versão foi fixada pela história militar do estado-maior do exército imperial, que se apoiou em crónicas do século XVII, e foi contestada por Suzuki Shin’ya e Fujimoto Masayuki. Sobre a tática, Atobe Ban escreve: “pela natureza das armas da época e pela técnica de tiro, o tiro em três fileiras era impossível”.
O número também cresceu. A edição impressa do Shinchō Kōki, a crónica de Oda Nobunaga escrita por Ōta Gyūichi, dá 1.000 armas ao corpo de arcabuzeiros que Oda Nobunaga confiou a cinco comissários.
No manuscrito Ikeda, guardado na Universidade de Okayama, alguém acrescentou um “três” por cima do “mil”. Segundo Atobe Ban, essa correção é geralmente tida como acrescento posterior, embora fique em aberto a hipótese de ter sido o próprio Ōta Gyūichi a emendar o número.
O Japão não desistiu da arma
Em 1979, o escritor Noel Perrin publicou Giving Up the Gun. A tese era que o Japão, depois de 1637, tinha deixado de usar armas de fogo durante mais de dois séculos e se tornara um país praticamente sem elas. O livro tornou-se referência nos debates anglófonos sobre controlo de armas.
A historiadora Tamara Enomoto, da Universidade Meiji, regista que os historiadores japoneses contestam o livro desde os anos 1980, por não assentar em factos históricos nem em arquivos existentes. E reúne os números.
No domínio de Matsumoto, em 1687, os camponeses tinham mais de 1.000 armas; os samurais, 200. Em zonas do domínio de Kumamoto, as armas dos camponeses passaram de 1.630 em 1634 para 2.173 em 1641. Nas aldeias de montanha de Shiiba, em 1745, 955 casas tinham 436 armas de caça; em 1836, as aldeias tinham 586.
Tsukamoto Manabu, também do Museu Nacional de História Japonesa, explicou para que serviam no livro Shōrui wo meguru seiji, num capítulo que trata a arma como alfaia agrícola.
O que o xogunato fez foi controlar. Tokugawa Tsunayoshi, quinto xógum, ordenou no fim do século XVII uma inspeção de armas em todo o país, que Tsukamoto Manabu inscreve no conjunto das leis de proteção dos animais pelas quais o xógum ficou conhecido.
O controlo visava o porte de armas e a violência privada, mais do que o desarmamento, escreve Tamara Enomoto, e as aldeias registavam as armas e verificavam quem as podia ter antes de autorizar a posse.
De Tanegashima a Vila do Bispo
Em 1993, quando passaram 450 anos sobre a chegada da arma, a cidade de Nishinoomote, em Tanegashima, quis uma cidade-irmã em Portugal. Com ajuda da embaixada portuguesa em Tóquio, escolheu Vila do Bispo, no Algarve, a terra de Sagres, que a prefeitura de Kagoshima associa à abertura da época dos descobrimentos. O acordo foi assinado a 1 de outubro desse ano.
Entre 13 e 18 de janeiro de 2019, uma delegação de 16 pessoas de Nishinoomote visitou Portugal, conduzida pelo presidente da câmara, Yaita Shunsuke.
A 15 de janeiro, houve receção nos paços do concelho de Vila do Bispo. Na praça junto aos paços, que tem o nome de Tanegashima, a associação de preservação dos fechos de mecha da ilha disparou as suas armas antigas, ao lado de um grupo português de armas históricas.
Em Tanegashima, a festa da arma tem lugar todos os verões, com tiro de mecha e um cortejo nanban, nome que no Japão se deu aos mercadores europeus. A 57.ª edição foi a 23 de agosto de 2026, no centro e no porto de Nishinoomote.








