A medicina do século XX evitou mortes. A do nosso século vai ter de adiar o envelhecimento. Entre uma coisa e outra, há um fosso que se alarga.
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Aos 80 anos, uma pessoa idosa em qualquer país desenvolvido toma, em média, sete a oito medicamentos por dia. Anti-hipertensores, estatinas, antidiabéticos orais, anticoagulantes. Os fármacos vão substituindo, prolongando, calibrando. Quando o doente os deixa de tomar, o corpo regressa à sua trajetória natural.
Foi para descrever esta forma de viver que S. Jay Olshansky, em outubro de 2024, usou uma frase. A maior parte das pessoas vivas hoje em idades avançadas, disse o epidemiologista da Universidade do Illinois em Chicago, está a viver em tempo manufaturado pela medicina. Pensos rápidos médicos que vão produzindo cada vez menos anos.
Vivemos mais porque vamos adiando as causas de morte uma a uma. Não porque envelhecemos mais devagar.
A frase fechava trinta e quatro anos de um argumento que poucos quiseram ouvir.
Índice
Em 1990, S. Jay Olshansky era um jovem investigador em demografia, doutorado em 1984 pela Universidade de Chicago. Publicou na Science, com Bruce Carnes e a médica geriatra Christine Cassel, um artigo contra a corrente dominante. Chamava-se In Search of Methuselah: Estimating the Upper Limits to Human Longevity. A tese era simples e desconfortável. A esperança de vida humana, escreveram os autores, estava a aproximar-se de um tecto biológico algures à volta dos 85 anos. Os ganhos do século anterior, dezenas de anos acrescentados em poucas gerações, não iriam continuar.
Os colegas discordaram. Demografistas como James Vaupel, do Max Planck, defendiam que a esperança de vida tinha vindo a aumentar de forma quase linear durante 150 anos, sem sinais de abrandamento. As crianças nascidas em 2000 nos países mais longevos, dizia James Vaupel, chegariam rotineiramente aos 100 anos.
Trinta e quatro anos mais tarde, em outubro de 2024, na Nature Aging, S. Jay Olshansky publicou com colegas das universidades do Illinois em Chicago, do Havai, de Harvard e de UCLA o artigo Implausibility of Radical Life Extension in Humans in the Twenty-First Century. Os autores analisaram três décadas de dados, entre 1990 e 2019, em dez populações com a maior longevidade do mundo. A conclusão foi que os ganhos em esperança de vida nas últimas décadas estão a desacelerar de forma marcada. A era das melhorias rápidas, dizem os autores, terminou.
O salto de duzentos anos
A história tem duas escalas temporais.
A longa começa há cerca de seis milhões de anos, quando a linha humana se separou do parente comum mais recente, os grandes símios. Nos chimpanzés selvagens, a esperança de vida raramente passa dos cinquenta anos. Os humanos evoluíram para viver muito mais do que isso.

Caleb Finch, da Universidade do Sul da Califórnia, argumenta num artigo de 2010 na PNAS que essa extensão se ancorou em pressões evolutivas ligadas à dieta, ao controlo de infeções e à redução da inflamação ao longo do percurso humano. Desde 1800, acrescenta Caleb Finch, a esperança de vida voltou a duplicar. Desta vez por melhorias do ambiente, da alimentação e da medicina, não por mudanças no nosso ADN.
A escala curta é a que conta para esta conversa. Tem cerca de duzentos anos.
Em 1800, a esperança de vida nos países que hoje consideramos desenvolvidos andava à volta dos 40 anos. Em 1662, em Londres, 75% das pessoas morriam antes dos 26. As tábuas de mortalidade do mercador inglês John Graunt, autodidata nas suas horas livres e considerado fundador da demografia moderna, mostravam uma esperança de vida abaixo dos 16 anos.
As crianças morriam de diarreia e tuberculose. Os adultos morriam de fome, infeções, violência. Quem sobrevivia até aos cinquenta tinha cumprido o seu lote.
O que mudou nos últimos duzentos anos foi um conjunto de coisas simples que demoraram a chegar. Saneamento. Água potável separada de esgotos. Comida em quantidade suficiente. Vacinas. Antibióticos. Anestesia. Hospitais. Cuidados pré-natais.
As primeiras mortes a serem evitadas foram as das crianças. A descida da mortalidade infantil é a engrenagem principal da subida da esperança de vida nas primeiras décadas do salto. Depois vieram as mortes dos jovens adultos, depois as dos adultos de meia-idade, e por fim, mais recentemente, as mortes dos idosos.
A fotografia mais atualizada destes ganhos saiu em outubro de 2025. O Global Burden of Disease 2023, publicado na Lancet pelo Institute for Health Metrics and Evaluation da Universidade de Washington, mostra que a esperança de vida global em 2023 chegou aos 76,3 anos para as mulheres e 71,5 para os homens, recuperando dos níveis pré-pandemia.
Mais de 20 anos acima do que era em 1950. A taxa de mortalidade ajustada por idade desceu 67% nesse período. Todos os 204 países e territórios analisados mostraram melhorias.
O mesmo estudo identifica um problema. A mortalidade entre adolescentes e jovens adultos está a subir, em particular na América do Norte e na América Latina, por suicídio, álcool e drogas, e na África subsariana por doenças infeciosas e acidentes. As doenças não transmissíveis, como a cardiopatia isquémica, o AVC e a diabetes, representam agora dois terços da mortalidade e morbilidade global.
Em Portugal, a direção é a mesma e o ritmo é ligeiramente mais lento. Em 2024, segundo as tábuas de mortalidade do INE, a esperança de vida à nascença foi estimada em 81,49 anos para o triénio 2022-2024. As mulheres podem esperar viver 83,96 anos. Os homens, 78,73.
A diferença entre sexos, que em 2012-2014 era de quase seis anos, está a esbater-se: agora é de 5,23. Os homens estão a ganhar tempo mais depressa do que as mulheres. Em uma década, ganharam quase um ano e meio. Elas, dez meses.
Quem tem hoje 65 anos em Portugal pode esperar viver mais 20 anos. Há trinta anos, viveria bastante menos.
A subida deixou de vir das crianças. Hoje vem dos idosos. Já quase não há mortes infantis a evitar em Portugal, como nos países mais longevos do mundo. O número que ainda há para mexer joga-se acima dos 75 anos, e em vidas que a medicina convencional já estica até onde sabe.
O Cávado e os Açores
Olhada por dentro, a esperança de vida em Portugal varia.
A sub-região do Cávado, no Norte, tem a esperança de vida à nascença mais alta do país. 82,94 anos. A do Ave vem logo a seguir, com 82,18. Oito sub-regiões portuguesas estão acima da média nacional. Todas no Norte e no Centro.
Nos Açores, a média desce para 78,33 anos. Na Madeira, 79,20. O continente tem o seu valor mais baixo no Baixo Alentejo, 78,65 anos.
Entre o Cávado e os Açores há 4,6 anos. Para uma média nacional de 81, é quase um sexto.
Estes números pedem cautela. Não fotografam linearmente a qualidade de vida nem o estado dos cuidados de saúde, porque genética, alimentação, ambiente, coesão social e acesso a serviços fazem-se sentir juntos, e separá-los está fora do alcance dos estudos disponíveis.
A leitura possível é mais modesta. Mesmo numa população relativamente homogénea como a portuguesa, sub-regiões inteiras podem aproximar-se do valor mais alto. Se isso é suficiente para mexer no número nacional, ninguém arrisca a resposta.
O que muda no corpo: as catorze marcas do envelhecimento
Há uma virada conceptual recente. Em vez de tratar o envelhecimento como destino, a biologia molecular passou a tratá-lo como mecanismo.
Em 2013, o investigador asturiano Carlos López-Otín, juntamente com Maria Blasco, Linda Partridge, Manuel Serrano e Guido Kroemer, propôs nove marcas distintivas do envelhecimento, conhecidas por hallmarks of aging. Em 2023, a lista cresceu para doze.
Em abril de 2025, num artigo na Cell, Guido Kroemer, Carlos López-Otín e mais dez coautores fizeram-na chegar a catorze. Entraram, à lista das doze, alterações da matriz extracelular e o isolamento psicossocial. Em outubro de 2025, Carlos López-Otín e Guido Kroemer voltariam aos determinantes sociais, aprofundando-os.
Os nomes, no essencial, são técnicos.
Instabilidade genómica, mutações que se vão acumulando no ADN. Atrição dos telómeros, as pontas dos cromossomas que encurtam a cada divisão celular até a célula deixar de se conseguir dividir. Alterações epigenéticas, mudanças na forma como os genes são expressos sem que a sequência genética em si mude.
Perda de proteostase, a célula deixa de conseguir produzir e reciclar proteínas com a mesma eficiência. Macroautofagia desativada, quando os mecanismos de limpeza interna falham. Deteção desregulada de nutrientes, sensores celulares que respondem mal ao que o corpo está a receber.
Disfunção mitocondrial, com as fábricas de energia das células a funcionarem cada vez pior. Senescência celular, células que deixam de se dividir mas continuam ativas, libertando substâncias inflamatórias. Exaustão das células estaminais, o corpo perde a capacidade de se regenerar.
Comunicação intercelular alterada, as células deixam de coordenar bem entre si. Inflamação crónica de baixo grau, conhecida como inflammageing. Disbiose intestinal, o desequilíbrio da flora bacteriana que vive nos intestinos.
As duas marcas acrescentadas em 2025 mudam a fronteira do que conta como envelhecimento biológico.
A primeira é a alteração da matriz extracelular, o tecido de proteínas que envolve as células e dá estrutura aos tecidos. À medida que envelhecemos, essa malha perde viscoelasticidade, e isto repercute-se em problemas mitocondriais, fibrose, senescência.
A segunda é o isolamento psicossocial e a doença mental. Carlos López-Otín e Guido Kroemer defendem que a solidão prolongada e os transtornos psiquiátricos não são consequências do envelhecimento. São aceleradores dele. Mexem nas marcas todas, alteram a expressão genética, aumentam a inflamação sistémica, encurtam telómeros.
Estas catorze marcas não são doenças. São mecanismos de fundo que tornam o organismo progressivamente vulnerável a doenças. As doenças associadas à idade, como cancro, doenças cardiovasculares, demência, diabetes tipo 2, doenças neurodegenerativas, são, em larga medida, manifestações destas marcas.
Por isso, defende a gerociência (do inglês geroscience), atacar uma doença de cada vez tem retornos decrescentes. Salvar uma pessoa de morrer de enfarte aos 75 leva-a a morrer de outra coisa aos 78. As marcas continuam a fazer o seu trabalho.
A medicina do século XX foi essencialmente uma medicina de mortes evitadas. Combater agentes infeciosos, controlar fatores de risco, intervir cirurgicamente quando algo falha. Funcionou entre 1900 e 2000.
O que S. Jay Olshansky e os seus coautores dizem é que esse paradigma chegou a um ponto de saturação. Continuar a melhorar tratamentos para cada doença em isolado vai produzir ganhos cada vez menores em esperança de vida. Para fazer crescer o número outra vez é preciso atacar o envelhecimento em si. É preciso, como argumentam vários investigadores, tornar as marcas modificáveis.
A discussão por detrás dos números: tecto biológico e ritmo do envelhecimento
Há um debate científico em curso. Por que motivo vivemos mais? Há duas hipóteses concorrentes, e James Vaupel formulou-as com precisão antes de morrer em 2022.
A primeira hipótese é que o envelhecimento humano está a tornar-se mais lento. Os processos celulares de degradação avançam a um ritmo menor em pessoas que nasceram em 1980 do que em pessoas que nasceram em 1900. Se isto for verdade, as marcas estão a ser empurradas para mais tarde porque o corpo, exposto a melhor nutrição, menos infeções, menos esforço físico extremo, menos toxinas ambientais, envelhece efetivamente mais devagar.
A segunda hipótese é que o envelhecimento começa mais tarde mas avança ao mesmo ritmo. Atrasamos o início da curva, mas a curva, depois de iniciada, tem o mesmo declive de sempre. Se isto for verdade, o que ganhámos foi essencialmente comprar tempo antes do envelhecimento começar, sem mexer no envelhecimento em si.
A evidência é mista. Alguns estudos com dados italianos sugerem que o ritmo de envelhecimento em si pode ter mudado em algumas coortes. Outros, baseados em biomarcadores de idade biológica, apontam que pessoas hoje com 60 anos exibem perfis fisiológicos comparáveis aos de pessoas com 50 anos há cinquenta.
O início está adiado. O avanço pode também ser ligeiramente mais lento. Mas a forma da curva permanece reconhecível.
S. Jay Olshansky, na investigação de 2024, dá um passo concreto sobre isto. Calcula que, no atual estado da medicina, a esperança de vida máxima provável estabiliza à volta dos 87 anos, 84 para os homens e 90 para as mulheres.
S. Jay Olshansky chega a este número com um exercício radical. Mostra que, mesmo que se conseguissem eliminar todas as mortes antes dos 50 anos nos países com maior longevidade, o ganho seria modesto: cerca de um ano para as mulheres e ano e meio para os homens.
É um tecto. Não é um tecto absoluto, intransponível, mas um tecto produzido pela combinação das catorze marcas do envelhecimento a operar sem grande resistência da medicina atual.
O fosso entre viver e viver bem: healthspan e lifespan
Chama-se healthspan-lifespan gap, o fosso entre o tempo de vida e o tempo de vida com saúde.
Um estudo de Armin Garmany e Andre Terzic, da Mayo Clinic, publicado em dezembro de 2024 na JAMA Network Open, quantificou este fosso entre os 183 estados-membros da Organização Mundial de Saúde e encontrou uma média global de 9,6 anos. Quase uma década, em média, vivida em condições de saúde comprometida.
As mulheres pagam um preço maior: o fosso é em média 2,4 anos mais largo nelas do que nos homens. O mesmo número aparece confirmado num estudo de 2025 na Communications Medicine, que mapeia o fosso por regiões do mundo.
A healthspan, ou tempo de vida com saúde, é medida por uma métrica chamada Health-Adjusted Life Expectancy (HALE). A HALE conta os anos vividos descontando aqueles em que a pessoa esteve com limitações funcionais ou doenças que reduzem a qualidade de vida.
A diferença entre a esperança de vida e a HALE é o fosso. E o fosso tem vindo a alargar-se. O Global Burden of Disease 2023, na sua peça de outubro de 2025, confirma a tendência.
À medida que a carga de doença migra das doenças transmissíveis para as não transmissíveis, e dos anos perdidos por morte precoce para anos vividos com incapacidade, mais pessoas vivem mais. Mas com mais anos passados em má saúde.
A Organização Mundial de Saúde acrescenta um dado mais recente. No World Health Statistics 2025, publicado em maio de 2025, a OMS constata que entre 2019 e 2021 a esperança de vida global caiu 1,8 anos, a maior queda registada em tempos recentes, apagando uma década de ganhos.
Mais difícil de digerir é o que diz a seguir: o aumento dos níveis de ansiedade e depressão associado à pandemia reduziu a esperança de vida saudável global em seis semanas. Apagou quase todos os ganhos obtidos no mesmo período pela diminuição da mortalidade por doenças não transmissíveis.
Aquilo que a medicina ganhou por um lado, o sofrimento mental tirou pelo outro.
O dado obriga a tratar a saúde mental como variável biológica do envelhecimento, não como apêndice cultural ou tema separado. É exatamente esta a leitura que Carlos López-Otín e Guido Kroemer estão a fazer ao integrar o isolamento psicossocial nas catorze marcas do envelhecimento.
Isto colide com uma teoria antiga.
Em 1980, no New England Journal of Medicine, James Fries propôs o que ficou conhecido como compression of morbidity, a compressão da morbilidade. A ideia era que, à medida que adiássemos as doenças crónicas mais do que adiávamos a morte, o período final de vida vivido em má saúde iria comprimir-se até quase desaparecer.
O cenário ideal seria viver com função plena ou quase plena durante a maior parte da vida, declinar rapidamente, e morrer pouco depois.
Não é o que está a acontecer. Adiamos a morte mais do que adiamos as doenças.
As pessoas chegam aos 80 a tomar, em mediana, oito medicamentos por dia: estatinas para o colesterol, anti-hipertensores, antidiabéticos orais, anticoagulantes, com frequência o tratamento de um cancro entretanto controlado. Tudo isto funciona. Todos estes fármacos vão produzindo anos adicionais de vida. Mas vão produzindo cada vez menos anos por intervenção, e os anos produzidos não são, em média, anos de saúde comparável aos da meia-idade.
A esperança de vida que herdámos foi construída por uma medicina que sabia evitar mortes, mas que ainda não sabia adiar o envelhecimento. Quanto mais avançamos por este caminho, mais o fosso se alarga. Estamos a empilhar anos no fim, não a empurrar a saúde para mais tarde.
A divergência
Em maio de 2025, um grupo de investigadores apresentou um estudo que questiona a leitura de S. Jay Olshansky.
Olharam para os mesmos dados de Hong Kong e Suíça e encontraram que, mesmo nas populações mais longevas, a esperança de vida continua a subir, embora a um ritmo mais lento. Em 2023, em Hong Kong, a esperança de vida tinha chegado aos 85,25 anos para o total da população, com as mulheres a quase tocar nos 88.
Os autores argumentam que a desaceleração é real, mas que falar em fim do progresso é prematuro.
A divergência académica concorda no essencial. Os ganhos por intervenção médica convencional estão a tornar-se progressivamente menores. A diferença está na quantidade de combustível que ainda resta no motor antigo. S. Jay Olshansky diz que está praticamente vazio. Os otimistas dizem que ainda se pode rodar mais um pouco.
Nenhum dos dois lados pensa que o motor vai voltar a acelerar sem uma transformação de fundo.
Essa transformação chama-se gerociência, ou geriatria molecular. A ideia é desenvolver intervenções, farmacológicas, regenerativas, comportamentais, que atuem diretamente sobre as catorze marcas do envelhecimento.
Já existem candidatos. Senolíticos, que eliminam células senescentes. Reprogramação celular parcial, baseada nos fatores de Yamanaka. Restrição calórica e seus miméticos farmacológicos como a rapamicina e a metformina. Combinações de fármacos que atacam várias marcas simultaneamente.
Vários destes mecanismos prolongam a vida em moscas, ratos e outros organismos modelo. Em humanos, ainda nenhum foi aprovado para esse efeito por nenhum regulador.
O que estamos a fazer com este tempo: doenças crónicas e saúde pública
A gerociência aponta para um caminho onde o objetivo deixa de ser adicionar anos no fim e passa a ser comprimir o tempo de doença. É o regresso à proposta original de James Fries em 1980, agora com uma compreensão muito mais detalhada dos mecanismos envolvidos.
No outro lado da balança continua a estar o grosso do investimento em saúde, que vai para o tratamento de doenças tomadas uma a uma. Diabetes num lado. Colesterol noutro. Artrite, depressão e tudo o que vier a seguir, cada um no seu silo terapêutico, com a sua indústria, os seus ensaios clínicos, o seu reembolso.
Os fármacos capazes de atacar o envelhecimento como condição subjacente correm contra um problema regulatório de fundo. Os reguladores exigem prova de eficácia contra uma doença específica para aprovar um medicamento. E o envelhecimento, oficialmente, não é uma doença.
A medicina à disposição não torna o corpo mais resistente ao envelhecimento. Substitui aquilo que falha. Prolonga o que ainda funciona.
Um diabético tipo 1 só vive porque toma insulina diariamente. Aos doentes hipertensos, o comprimido segura a tensão dia após dia. Para quem vive com fibrilhação auricular, é um anticoagulante que evita que o coração lance um coágulo para o cérebro. Em todos os casos, o esquema farmacológico manufatura, no sentido literal de fabricar, dias de vida adicionais. Quando o tratamento é suspenso, o corpo retoma o seu caminho.
O Global Burden of Disease 2023 trouxe um número que vale a pena ter em mente. Cerca de metade da carga global de doença, segundo os investigadores, poderia ser prevenida modificando 88 fatores de risco, dos quais a hipertensão, a poluição atmosférica, a glicemia elevada, o tabaco e o baixo peso à nascença lideram a lista.
Existe ainda uma camada considerável de ganhos a obter sem entrar pela gerociência. Ganhos clássicos de saúde pública. Esses ganhos exigiriam uma vontade política e de saúde coletiva muito superior à atual. Sem isso, o motor vai continuar a perder potência.
Em Portugal, esta dinâmica encontra uma sociedade bem posicionada para a ilustrar. Segundo a publicação Estatísticas da Saúde do INE divulgada em abril de 2025, 44,1% da população com 16 ou mais anos tem doença crónica ou problema de saúde prolongado.
Em 2024, Portugal era o terceiro Estado-membro da União Europeia com maior proporção, atrás apenas da Finlândia e da Estónia. Nos idosos, a proporção sobe para 69,7%. Nas mulheres, 47,6%. As dores lombares e cervicais lideram a lista, seguidas pela hipertensão arterial.
Mais grave do que a contagem total é o que o INE publica logo a seguir: a esperança de vida saudável à nascença em Portugal é estimada em 59,6 anos. Dos 82,5 anos médios de vida em 2023, vinte e três são vividos com algum tipo de limitação.
Vivemos muito tempo, mas com doença.
Temos uma das populações mais envelhecidas do mundo, com uma idade mediana de 47,3 anos em 2024 e um índice de envelhecimento que já atingiu os 192 idosos por cada 100 jovens. As projeções do INE para 2025-2100 apontam para um cenário em que, em meados do próximo século, o número de idosos por cada 100 pessoas em idade ativa pode chegar a níveis que tornam pouco reconhecível a sociedade portuguesa atual.
No Norte, no cenário central, este índice passará de 205 idosos por cada 100 jovens em 2024 para 475 em 2100. Nos Açores, de 128 para 405.
O caso português não é exceção.
Um estudo do Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos publicado em abril de 2025 mostra que 76,4% da população adulta americana, ou cerca de 194 milhões de pessoas, vive com pelo menos uma doença crónica. Aos 65 anos, são 93%.
Os números mais difíceis de digerir não estão no fim da escala etária mas no princípio dela. 59,5% dos jovens adultos entre os 18 e os 34 anos relatam já ter pelo menos uma condição crónica, e mais de um quarto tem duas ou mais. Entre 2013 e 2023, a prevalência de doenças crónicas em jovens adultos americanos subiu sete pontos percentuais.
A trajetória contraria explicitamente a hipótese de compressão da morbilidade formulada por James Fries em 1980. A doença não está a ser empurrada para os últimos anos. Está a aparecer cada vez mais cedo.
O argumento começa a entrar no debate público. Numa peça publicada a 2 de maio de 2026 a propósito da série da CNN Kara Swisher Wants to Live Forever, os investigadores entrevistados convergem com aquilo que Carlos López-Otín, S. Jay Olshansky e a Organização Mundial de Saúde já vinham a dizer com outras palavras.
A longevidade contemporânea joga-se menos na descoberta de uma fórmula para parar o envelhecimento e mais no combate às doenças crónicas que ocupam os anos finais de vida.
Steven Austad, diretor científico da American Federation for Aging Research (AFAR), faz uma comparação histórica. Em declarações à CNN, e referindo-se às terapias emergentes baseadas em CRISPR e ARN mensageiro contra as doenças crónicas, Steven Austad afirma, em tradução do inglês, que “os antibióticos mudaram tudo, e estas podem potencialmente mudar tudo”.
É a mesma estrutura argumentativa de S. Jay Olshansky em sentido inverso. Se a era das melhorias rápidas via medicina por doença está a esgotar-se, a próxima curva da esperança de vida saudável pode depender menos de pílulas anti-envelhecimento e mais de tecnologias capazes de transformar doenças crónicas em condições crónicas tratáveis. À imagem do que aconteceu com a tuberculose ou o VIH.
A pergunta sem resposta
S. Jay Olshansky tinha razão em 1990 e tem provavelmente razão em 2024. A era em que a esperança de vida crescia ao ritmo de seis horas por dia, como James Vaupel calculou em 2010 a partir dos dados de 170 anos, está a fechar-se.
Se a gerociência produzir uma intervenção que faça mover, mesmo que ligeiramente, uma das catorze marcas do envelhecimento, a curva volta a subir. Se não produzir, ficamos por aqui, entre os 81 e os 87, num planalto largo onde os ganhos serão de meses, não de anos.
Há a outra pergunta, a que está sempre por trás. Vivemos mais para fazer o quê.
O fosso entre o tempo de vida e o tempo de vida com saúde diz-nos que uma parte considerável dos anos ganhos é vivida em condições difíceis. Comprimir esse fosso é hoje, do ponto de vista científico, mais importante do que continuar a estender o número total de anos.
Mas comprimi-lo exige uma medicina diferente. Uma medicina que ataque o envelhecimento como condição. Uma medicina que ainda não temos.

Há uma terceira ideia, mais recente. Se o isolamento psicossocial é, como Carlos López-Otín e Guido Kroemer agora defendem, uma marca biológica do envelhecimento ao mesmo nível dos telómeros ou da disfunção mitocondrial, então a forma como organizamos as nossas casas, as nossas vidas familiares e as relações que mantemos para lá da família próxima deixa de ser apenas pano de fundo para a saúde. Passa a ser parte dela.
Os anos que conseguirmos ganhar daqui em diante podem depender menos de comprimidos do que da forma como envelhecemos juntos, ou separados, e do tempo que cada um passa, durante a sua vida, sem ninguém com quem conversar.
S. Jay Olshansky descreveu a sua abordagem ao tema como a de um cientista paciente. Em 1990 fez uma previsão. Em 2024, com os dados acumulados de três décadas, voltou a olhar para o problema.
Disse, em declarações ao Scientific American citadas em outubro de 2024, que esperou trinta e quatro anos para ver o que ia acontecer e que agora tem uma resposta definitiva.







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