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Início Ideias e cultura

Como a saudade se tornou um mito nacional

por Jorge Montez
02.07.2026
em Ideias e cultura
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Colagem em tons creme e azul-ardósia com uma figura curvada, formada por fragmentos de manuscrito e mapa antigos, sobre um mar enevoado

@Tanto Mundo (com IA)

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A saudade é dada como intraduzível, sinal de uma sensibilidade só portuguesa. A história dessa palavra, de um tratado de Dom Duarte ao saudosismo de Teixeira de Pascoaes e à propaganda do Estado Novo.

Resumo
I
Um rei medieval separou duas saudades
Dom Duarte dedicou um capítulo do Leal Conselheiro à suydade, distinguindo a lembrança doce da falta amarga, em pleno século XV.
II
A intraduzibilidade afirma-se já em 1606
Duarte Nunes de Leão, em plena União Ibérica, fez da palavra um afeto próprio dos portugueses, que nenhuma outra língua sabia dizer.
III
O saudosismo fez dela a essência da nação
A partir de 1912, na revista A Águia, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a alma do país; o Estado Novo viria a aproveitar o filão.
IV
A mesma falta tem nome noutras línguas
O galego diz soidade, o alemão Sehnsucht, o galês hiraeth, o romeno dor; o Brasil celebra a 30 de janeiro o seu Dia da Saudade.

Ouve o artigo:

No início do século XV, um rei português sentou-se a escrever sobre uma tristeza que não o largava. Dom Duarte, filho de João I e de Filipa de Lencastre, subira ao trono em 1433 e governava um país que o cansava.

O reinado foi curto e sem sorte. Quatro anos depois de subir ao trono, Dom Duarte viu o ataque a Tânger acabar em desastre, com o exército derrotado e o seu irmão, o infante Fernando, entregue aos mouros como penhor da devolução de Ceuta. As cortes recusaram a troca, e Fernando morreu cativo em Marrocos. Dom Duarte não lhe sobreviveu muito: levou-o a peste em 1438, ao cabo de cinco anos de reinado.

Era homem de livros, dado a exames de consciência, e fez do próprio mal-estar matéria de estudo. No tratado a que chamou Leal Conselheiro, escrito a pedido da rainha Leonor de Aragão, propôs-se descrever as paixões da alma como um médico descreve sintomas, e reservou um capítulo a um sentimento difícil de nomear: a suydade. Arrumou-a entre o nojo, o pesar e o desprazer, no quadro da medicina dos humores que então explicava o corpo e o espírito, a mesma que Avicena e Averróis tinham transmitido às escolas europeias.

Fólio iluminado do manuscrito quatrocentista do Leal Conselheiro, de Dom Duarte, que tem capítulo dedicado à saudade
Fólio do Leal Conselheiro, o tratado em que Dom Duarte distinguiu duas saudades, no único manuscrito que dele resta. Bibliothèque nationale de France, Portugais 5

A análise era fina. Dom Duarte separou duas saudades que a palavra confundia numa só. Uma era doce, a lembrança que ilumina a memória e faz concluir que o presente vale mais do que o passado. A outra era amarga, a falta que esvazia e deixa o coração em ausência e tristeza. Era raro um rei medieval pôr-se a anatomizar as próprias emoções, e mais raro ainda fazê-lo na língua do reino e não em latim. O capítulo é uma das primeiras tentativas de definir por escrito a palavra que séculos mais tarde se diria indefinível.

Sem dispor das categorias modernas de nostalgia e luto, um rei melancólico percebeu que a mesma palavra cobria experiências opostas.

Índice:

  • Uma palavra com parentes ibéricos: a origem da saudade
  • A saudade dos românticos
  • O saudosismo de Pascoaes
  • Pessoa e o rei encoberto
  • A saudade na propaganda do Estado Novo
  • A leitura de Eduardo Lourenço: O Labirinto da Saudade

Uma palavra com parentes ibéricos: a origem da saudade

Dom Duarte pensou a palavra, mas não a inventou. Quando se debruçou sobre o termo, ele já corria há muito na boca e na pena dos portugueses, escrito ora soidade, ora soydade. Aparece nas cantigas do Cancioneiro da Ajuda e do Cancioneiro da Vaticana, e na Crónica da Guiné de Gomes Eanes de Zurara.

O rei deu-lhe uma primeira moldura. A palavra trouxe-a feita de trás.

A origem é menos misteriosa do que a fama do termo faz crer. Saudade vem do latim solitate, que queria dizer solidão, desamparo. Dessa raiz saíram as formas arcaicas soidade e suidade, mais tarde contaminadas pelo verbo saudar, que lhe acrescentou o sau e fixou a grafia moderna. A mesma raiz deu o soledad castelhano e a soidade galega. A galega acompanhou a portuguesa e passou também a dizer a falta de quem se ama; a castelhana ficou no ponto de partida, a pura solidão. A palavra que viria a ser dada como intraduzível tinha, do outro lado da fronteira, pelo menos uma irmã que dizia o mesmo.

A palavra que viria a ser dada como intraduzível tinha, do outro lado da fronteira, pelo menos uma irmã que dizia o mesmo.

Apesar dessa parentela, cedo se quis fazer da saudade uma exclusividade nacional. O primeiro a pô-lo por escrito foi Duarte Nunes de Leão, jurista e gramático natural de Évora, na sua Origem da Língua Portuguesa, de 1606. Escrevia num país então governado pelos reis de Espanha, em plena União Ibérica, e fez da palavra um argumento: a saudade era um afeto próprio dos portugueses, gente naturalmente meiga e afeiçoada, e não havia língua em que da mesma maneira se pudesse explicar. A ideia de que a saudade não se traduz nascia ali, logo no início do século XVII, três séculos antes de o saudosismo a transformar em bandeira.

A par desta querela erudita, a saudade tinha sobretudo uma vida literária. Andou nas cantigas de amigo, em que as mulheres choravam o amigo partido, e nas trovas de quem ficava em terra a ver afastar as naus. Bernardim Ribeiro abriu com ela a novela Menina e Moça, de meados do século XVI, e ela atravessou a lírica de Luís de Camões, que num soneto pergunta às “perpétuas saudades” o que lhe querem.

Boa parte dessa vida girava à volta da partida. As cantigas choravam o amigo que se ia, e a palavra colou-se ao gesto de ver alguém embarcar. Com os Descobrimentos, ver partir tornou-se rotina: os homens iam para a Índia, para África, para o Brasil, e ficavam atrás famílias inteiras a contar os anos. A saudade ganhou então a companhia que ainda a segue nas imagens de postal, o cais, a despedida, o mar em frente.

Nos séculos seguintes, a palavra entrou nos grandes dicionários, o de Rafael Bluteau, terminado em 1728, e o de António de Morais Silva, de 1789, que a definiram sem aparato, como a falta de quem ou do que está ausente. Tinha peso literário e entrada própria nos dicionários, mas ainda não era doutrina nacional.

Isso mudaria no século XIX.

A saudade dos românticos

A viragem veio com o Romantismo. Enquanto os escritores europeus do início do século XIX redescobriam a Idade Média e as raízes das nações, Almeida Garrett fez da saudade matéria de poesia patriótica. Exilado em França pelas suas posições liberais, publicou em Paris, em 1825, o poema Camões, tido como a primeira obra romântica portuguesa, e abriu-o com uma invocação que ficaria célebre: “Saudade! Gosto amargo de infelizes”. A palavra que Dom Duarte arrumara entre as paixões da alma virava bandeira de um sentimento que se queria nacional.

Almeida Garrett não estava sozinho. O Romantismo português, com ele e com Alexandre Herculano, voltou-se para o passado medieval e para as figuras perdidas, Dom Sebastião entre elas, à procura de uma identidade para um país em declínio. Ao mesmo tempo, a saudade descia à rua. Nos bairros de Lisboa, a partir de meados do século XIX, firmava-se o fado, canção urbana que fez da saudade o seu assunto maior.

Pintura O Fado, de José Malhoa, com um homem a tocar guitarra ao lado de uma mulher num quarto da Mouraria
O Fado, de José Malhoa, pintado em 1910 com modelos da Mouraria, fixou a imagem popular da canção. José Malhoa, Museu do Fado, Wikimedia Commons, domínio público

Maria Severa, a primeira fadista de lenda, ligou o seu nome ao fado boémio da Mouraria; Amália Rodrigues, um século depois, havia de a levar ao mundo. Foi pelo fado que a saudade chegou, cantada, a quem nunca leria um verso. A ideia de que ela dizia algo de essencialmente português já andava no ar. Faltava quem a transformasse em programa.

O saudosismo de Pascoaes

O responsável tem nome e morada. Teixeira de Pascoaes, nome literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, poeta nascido em Amarante em 1877, decidiu que a saudade era a essência da alma portuguesa e o motor capaz de salvar o país.

A partir de 1912, do Porto, fez da revista A Águia o órgão de um movimento a que chamou saudosismo, e que enquadrou na Renascença Portuguesa. A doutrina cabia numa frase: cultivar a saudade, sentimento que definiria os portugueses, para a partir dela regenerar a nação.

Pascoaes não trabalhava no vazio. A Renascença Portuguesa, sediada no Porto, era um movimento de regeneração nacional pela cultura e pela educação, que juntava poetas, filósofos e pedagogos, de Leonardo Coimbra a Raul Brandão e Jaime Cortesão. Queriam erguer o país pela alma e pela escola, abriram universidades populares e fizeram de A Águia a sua tribuna. No fundo do projeto estavam um culto de Almeida Garrett e um sebastianismo de tom messiânico, e a saudade de Pascoaes era a peça que prometia dar-lhes unidade.

O momento explica o programa. Portugal vinha do Ultimato inglês de 11 de janeiro de 1890, a humilhação diplomática que obrigara o país a recuar em África diante de Londres, e da queda da monarquia em 1910. A Primeira República nascera entre convulsões, e a sensação de decadência era espessa, herdada do pessimismo que marcara o fim do século anterior. Pascoaes oferecia uma saída pela alma, à margem da política.

Capa do livro O Espírito Lusitano ou o Saudosismo, de Teixeira de Pascoaes, edição de 1912
Em O Espírito Lusitano ou o Saudosismo, de 1912, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a expressão do génio nacional. Wikimedia Commons, domínio público

Em livros como O Espírito Lusitano ou o Saudosismo, de 1912, e A Arte de Ser Português, de 1915, elevou a saudade a expressão superior do génio nacional e fez dela uma quase religião laica, com a sua metafísica e o seu panteão de poetas, em que os versos valiam por orações e o poeta era o sacerdote da nação. Chegou a querer que A Arte de Ser Português entrasse como manual nos liceus.

Não entrou.

Houve também quem estudasse a saudade sem a divinizar. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, filóloga nascida em Berlim em 1851 e a primeira mulher a ocupar uma cátedra universitária em Portugal, publicou em 1914 A Saudade Portuguesa, um estudo que partia dos poemas mais antigos da língua para entender a palavra. Onde Pascoaes via essência e mistério, a filóloga via história: as formas do termo, os seus usos, a sua origem. O seu estudo mostrava que a palavra tinha idade e parentela, precisamente o que o mito preferia ignorar. A segunda edição viria a sair pela própria Renascença Portuguesa. O mesmo movimento abrigava a metafísica do poeta e o trabalho paciente de quem decompunha a palavra.

Nem todos no movimento engoliram a doutrina. António Sérgio e Raul Proença, do lado racionalista da Renascença Portuguesa, viraram-se contra Pascoaes. Onde o poeta via na saudade e na poesia a florescência da nação, os dois viam provincianismo e fuga ao trabalho concreto de educar e reformar um país atrasado. Acusaram-no de passadismo e de virar as costas à Europa, e opuseram à metafísica saudosista um programa de razão, de ciência e de instrução pública.

A fratura abriu-se e não voltou a fechar. Em 1921 dela saiu a Seara Nova, revista dos que recusavam fazer da melancolia um destino. Por baixo da querela sobre uma palavra decidia-se outra coisa maior: que país Portugal havia de ser, o do sentimento ou o do método.

Pessoa e o rei encoberto

Fernando Pessoa passou por ali. Colaborou na Águia em 1912, com ensaios sobre a nova poesia portuguesa, e por um tempo respirou o ar saudosista. Depois afastou-se rumo ao cosmopolitismo de Orpheu, em 1915, e a sua relação com o saudosismo foi tanto de herança como de rutura. Mas levou consigo um fio que vinha de longe e que daria à saudade a sua forma mais carregada.

Esse fio era o sebastianismo. Dom Sebastião desaparecera em 1578 nas areias de Alcácer-Quibir, sem corpo e sem herdeiro, e a sua morte abrira caminho à perda da independência para Espanha dois anos depois. Da ausência nasceu o mito: o rei regressaria, numa manhã de nevoeiro, para devolver a Portugal a grandeza perdida.

Fernando Pessoa sentado a levantar um copo de vinho no armazém Abel Pereira da Fonseca, em Lisboa, em 1928
Fernando Pessoa apanhado a beber um copo no armazém Abel Pereira da Fonseca, em 1928, na fotografia que dedicou “em flagrante delitro”. Foto de Manuel Martins da Hora

O mito não ficou pelo desejo popular. No século XVII, já sob a Restauração, o padre António Vieira deu-lhe arquitetura. Jesuíta, pregador e diplomata ao serviço de Dom João IV, leu o Livro de Daniel e as trovas de Gonçalo Eanes Bandarra, um sapateiro de Trancoso, e delas tirou a profecia de um Quinto Império: depois dos impérios assírio, persa, grego e romano, Portugal lideraria um reino universal e cristão.

O regresso do rei encoberto deixava de ser lenda de aldeia e passava a profecia de Estado. A Inquisição não gostou e prendeu Vieira entre 1665 e 1667. Mais de dois séculos depois, era esse mesmo messianismo que Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa reencontravam, já sem rei, transferido para a língua e para a alma.

Pessoa recolheu esse messianismo em Mensagem, o único livro de poesia em português que publicou em vida, saído em 1934. Dividido em três partes, percorre os brasões da nação, a epopeia do mar e o regresso do Encoberto, e nele Dom Sebastião e o Quinto Império voltam, agora como símbolos de um Portugal por cumprir.

A obra recebeu nesse ano um prémio do Secretariado de Propaganda Nacional, o aparelho de propaganda do regime que António de Oliveira Salazar instalava.

A saudade na propaganda do Estado Novo

O Estado Novo soube servir-se da matéria. A máquina de António Ferro, diretor do Secretariado de Propaganda Nacional criado em 1933, aproximou a figura de Salazar de uma lógica providencial, compatível com velhos imaginários de espera e regeneração. O antigo professor de finanças que governava sem aparato foi apresentado como chefe firme, e o sebastianismo, que prometia um rei no nevoeiro, encontrava ali um eco aproveitável. A saudade de uma grandeza perdida e a promessa de a recuperar cabiam no mesmo discurso.

António Ferro deu-lhe forma. A sua Política do Espírito quis estetizar o regime, casar a vanguarda modernista com a tradição e compor uma imagem de Portugal feita de folclore, ranchos, romarias e um povo idealizado, pobre e resignado, alheio à política.

Mapa oficial da Exposição do Mundo Português, realizada em Lisboa em 1940
O mapa da Exposição do Mundo Português, em Lisboa, em 1940, que celebrou a fundação da nacionalidade e a restauração da independência. Wikimedia Commons, domínio público

O ponto alto chegou em 1940, com a Exposição do Mundo Português, erguida em Lisboa à beira do Tejo para celebrar dois centenários que o regime escolheu a dedo: a fundação da nacionalidade, que fixou em 1140, e a restauração da independência, em 1640. A melancolia saudosa convivia ali com a euforia imperial sem contradição aparente. Ambas repetiam que Portugal era um caso à parte, com uma alma que mais nenhum povo tinha.

Mais tarde, o mesmo fundo serviu para outra coisa. Nos anos 30 e 40, o regime tinha rejeitado o lusotropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, a tese de que os portugueses colonizavam com mais brandura e mais mistura do que os outros europeus, porque a ideia de mestiçagem incomodava o seu colonialismo. Foi nos anos 50, com a posse das colónias contestada nas Nações Unidas, que Salazar mudou de ideias e a adotou como argumento. Era o mesmo excecionalismo de sempre, o orgulho numa índole portuguesa única, que antes embalara o saudosismo e agora justificava o império.

Convém não trocar os tempos.

O saudosismo de Pascoaes era republicano e nascera mais de 20 anos antes da ditadura, e nem ele nem António Sérgio teriam reconhecido como sua a versão que o regime montou. O Estado Novo não inventou o complexo messiânico português. Herdou-o, escolheu dele o que lhe servia e pô-lo a trabalhar.

A leitura de Eduardo Lourenço: O Labirinto da Saudade

Coube a um ensaísta levar a crítica do mito mais longe. Eduardo Lourenço dedicou-lhe duas obras. A primeira, O Labirinto da Saudade, saiu em 1978, com o país ainda a digerir o fim da ditadura e a perda do império, e trazia um subtítulo que dizia ao que vinha: psicanálise mítica do destino português. Lourenço tratava Portugal como um doente estendido no divã, perdido entre mitos, e a saudade como um dos sintomas maiores. O país construíra de si uma imagem feita de grandeza sonhada e fragilidade real, e refugiava-se nessa imagem sempre que a realidade desmentia o sonho.

A tese era dura. Nenhum povo, defendia, vive em paz consigo sem uma imagem positiva de si próprio, e o caso português estava em ter feito dessa imagem uma fuga. Depois de Alcácer-Quibir e do fim de Dom Sebastião, dizia Lourenço, Portugal passou a viver mais da memória do que do presente.

O efeito foi duradouro. Com O Labirinto da Saudade, a interrogação sobre a identidade portuguesa ganhou uma das suas formulações mais marcantes. Eduardo Lourenço lia o país pelos seus mitos, dos Descobrimentos ao sebastianismo, e mostrava como cada um servira para adiar o encontro com a realidade. Um dos ensaios do livro traz um título que ficou: somos um povo de pobres com mentalidade de ricos.

Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essência do seu sentimento de existência, a ponto de a transformarem num mito. Eduardo Lourenço, Mitologia da Saudade

Vinte e um anos depois, em Mitologia da Saudade, de 1999, regressou ao tema. O livro reúne 9 ensaios sobre os mitos em que Portugal se contou a si próprio, o sebastianismo, o sentimento de fragilidade, o isolamento, e trata a saudade como o maior deles. Entre um livro e o outro mediava o fim do império e a entrada na Europa comunitária, mas Eduardo Lourenço continuava a encontrar o país agarrado às mesmas histórias sobre si.

O ensaísta mostrou que se trata de um sentimento universal, que toda a gente conhece a falta de quem ama, e que o singular dos portugueses foi recusar defini-la. “Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essência do seu sentimento de existência, a ponto de a transformarem num mito”, escreveu. Dessa mitificação resultou uma melancolia sem tragédia, mais consoladora do que lúcida.

Para Eduardo Lourenço, a questão arruma-se por um ângulo incómodo. Um povo que faz da própria tristeza uma marca de eleição dispensa-se de a interrogar. A saudade, promovida a essência nacional, deixou de pesar como um sentimento entre outros e passou a funcionar como salvo-conduto: se a falta e a melancolia são o que há de mais português, não há que mudar, há que sentir.

Foi essa saudade que serviu a propaganda. É essa que Eduardo Lourenço recusa.

O que distingue a portuguesa é a teimosia com que se fez dela uma marca de nação.

A palavra que Teixeira de Pascoaes quis única continua a ser apresentada como intraduzível, prova de uma sensibilidade que mais nenhum povo teria.

O linguista Marco Neves lembra que, a pouca distância de nós, porém, os galegos dizem soidade e morriña para a mesma falta.

Do outro lado do Atlântico, a mesma palavra é tão brasileira como portuguesa. O Brasil tem o seu Dia da Saudade, marcado a 30 de janeiro, e nele se repete, com igual convicção, que a saudade é única e não tem tradução. O mito atravessou o oceano colado à língua, e os dois países disputam, de forma amena, a propriedade de um sentimento que não é de nenhum. A saudade vive na música e na poesia do Brasil tanto quanto vive no fado de Lisboa, e de um lado e do outro se ensina que ela diz algo que mais ninguém saberia dizer.

E a coisa não fica pela própria língua portuguesa. Os alemães têm a sua Sehnsucht, o anseio por algo distante e sem nome que atravessa Goethe e Rilke. Os galeses têm o hiraeth, a falta de uma terra a que não se volta. Os romenos têm o dor, os catalães a enyorança. Muitas destas palavras são também dadas, na sua terra, como impossíveis de traduzir, marca de um povo que mais nenhum outro teria. A saudade é uma entre muitas. O que distingue a portuguesa é a teimosia com que se fez dela uma marca de nação.

A suydade que Dom Duarte arrumou entre as paixões da alma no século XV nascera da raiz latina da solidão, a mesma que deu o soledad dos castelhanos, e que no início queria dizer só isto: a dor de quem está só.

Etiquetas: FilosofiaIdentidadeImpérioLiteraturaMemóriaPolíticaPortugal
Jorge Montez

Jorge Montez

Jornalista. Prémio Jornalismo/Média da Associação Portuguesa de Museologia. Passou pelo Diário Popular e A Capital, colaborou com o Expresso e a TSF, foi enviado especial às eleições angolanas, à erupção ilha do Fogo e a Sarajevo, em 1996. Em 2012 atravessou a Eurásia do Cabo da Roca a Vladivostok, viagem que deu origem ao livro "Do Cabo da Roca a Vladivostok – Diário de Viagem" (Chiado, 2014). Fundou em 2024 o EVMag-pt , publicação dedicada à mobilidade elétrica. Vive em Viana do Castelo. Dirige e escreve no Tanto Mundo (tantomundo.pt).

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