Uma geração de historiadores espanhóis nascidos depois da Transição está a reler a guerra civil espanhola como laboratório dos métodos europeus do século XX, contra o pacto de esquecimento da Transição e a nostalgia franquista que regressa pela direita radical.
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É 15 de agosto de 1936. São nove e meia da manhã. Três jornalistas atravessam a fronteira do Caia, no Alentejo, e entram em Badajoz. A cidade tinha sido tomada pelas tropas franquistas no dia anterior.
Um dos três é Mário Neves, 24 anos, ainda estudante de Direito, repórter do Diário de Lisboa. Os outros dois são Marcel Dany, da agência Havas, e Jacques Berthet, do Le Temps. Nas ruas encontram cadáveres. A praça de touros foi usada como local de execuções. O cemitério queima corpos em massa para evitar epidemias.
Mário Neves entrevista o tenente-coronel Juan Yagüe, comandante da operação. “Há quem fale em dois mil [fuzilados]”, diz-lhe. Juan Yagüe, segundo a crónica do dia seguinte, “olha para nós, surpreendido com a pergunta”, e responde: “Não devem ser tantos.”
O que Mário Neves encontrou em Badajoz era estratégia, não excesso. É a tese que uma geração de historiadores espanhóis nascidos depois da Transição tem defendido em volume após volume.
O sinal mais visível é o volume coletivo La guerra civil española. Una historia global, publicado pela Galaxia Gutenberg a 6 de maio de 2026, coordenado por Javier Rodrigo, David Alegre e Miguel Alonso, e que reúne perto de 50 historiadores, na maioria abaixo dos 50 anos. A tese de fundo, defendida pelos três coordenadores e recenseada por Florian Louis na Le Grand Continent, é direta: sem a guerra civil espanhola, a história europeia do século XX é incompreensível, e se há um momento em que a história contemporânea se joga em Espanha, é mesmo em 1936.
A Lei de Memória Democrática, aprovada em Espanha em outubro de 2022, abriu sepulturas, retirou medalhas e renomeou o Vale dos Caídos. Está a ser sistematicamente desmontada por governos regionais conservadores. É neste espaço público que a nova historiografia publica.
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A operação dupla
Há duas coisas a fazer ao mesmo tempo, e este é o ponto que distingue o trabalho desta geração da historiografia anterior. A primeira é abandonar a leitura totalizante segundo a qual a guerra civil é apenas prólogo de outra guerra maior. Esta leitura, que tem em Antony Beevor e Paul Preston nomes conhecidos, faz com que a Espanha seja sempre estudada em função de Hitler e de Estaline. Tudo o que importa em Madrid importa porque ressoa em Berlim ou em Moscovo. A Espanha é véspera, nunca acontecimento.
A segunda coisa, mais subtil, é recusar o gesto inverso, o do excecionalismo hispânico, que durante muito tempo foi a forma espanhola de proteger a própria história. A guerra teria sido um caso à parte, produto de uma “tendência fratricida” peninsular, fenómeno inexplicável fora do contexto local. É contra este excecionalismo que a nova historiografia espanhola se constrói.
A operação é dupla porque desfaz simultaneamente duas formas de provincianismo: a europeia, que reduz a Espanha a antecâmara, e a espanhola, que se refugia na exceção. O resultado é uma terceira posição, mais difícil de manter mas mais útil: a Espanha como acontecimento autónomo cujos métodos foram, eles próprios, formativos.
Não imitação atrasada. Não anomalia ibérica. Caixa de ressonância e laboratório de processos que se estenderiam depois ao continente inteiro: é nesta fórmula que Javier Rodrigo, David Alegre e Miguel Alonso cifram o argumento do volume.
A diferença entre antecâmara e laboratório parece subtil, mas é decisiva. Antecâmara implica que o essencial vem depois. Laboratório implica que o essencial é aqui.
O que se inventou em Espanha
Javier Rodrigo, David Alegre e Miguel Alonso nomeiam quatro processos paradigmáticos que a guerra de Espanha legou à Europa: a tomada do poder pelo fascismo através da guerra, o recurso à violência contra civis com fins de purificação da sociedade, a montagem de campos de concentração, a sobreposição entre guerra de ocupação e guerra irregular.
Cada um destes processos pode ser pensado isoladamente como invenção espanhola, e cada um tem uma genealogia que excede a península. A pertinência do argumento está no facto de em Espanha eles terem aparecido juntos, articulados, e terem produzido uma forma específica de fazer guerra civil que se exportou.
A questão da violência contra civis é a mais documentada. Javier Rodrigo, autor de Cautivos. Campos de concentración en la España franquista, 1936-1947 e investigador “Ramón y Cajal” na Universitat Autònoma de Barcelona, e David Alegre, doutorado pela mesma universidade com tese sobre colaboracionismo na Europa ocupada, formularam o programa do grupo em 2019, ao apresentarem Comunidades rotas, o livro que precede o volume de 2026.
Em entrevista ao Diario de Teruel, David Alegre situava a guerra civil espanhola “dentro de um ciclo bélico longo, o do fascismo contra o antifascismo”. Seria “a primeira de uma longa série de guerras” que se veria depois em França sob ocupação alemã, e em Itália, “uma guerra muito violenta entre 1943 e 1945”.
O objetivo, para David Alegre: “romper o falso mito da particularidade hispânica, o tópico de que temos uma tendência fratricida que não existe noutros lugares”.

A violência franquista sobre populações civis, neste enquadramento, foi operação central da guerra, com repertório próprio. As colunas do tenente-coronel Juan Yagüe que avançam de Sevilha para Toledo em agosto de 1936, conquistando Badajoz e deixando atrás de si milhares de civis fuzilados, ficaram conhecidas como Coluna da Morte. Não estão a fazer “limpeza” no sentido residual do termo. Estão a executar uma estratégia de purificação social.
O território conquistado é um território a ser depurado dos elementos considerados anti-Espanha, e essa depuração é tão importante quanto a vitória militar. A guerra prossegue depois da derrota do exército inimigo, até à destruição do tecido social que o sustinha.
Esta lógica, que se chamaria depois eliminacionista, aparece em Espanha articulada com a guerra regular antes de aparecer noutros casos europeus. Em Badajoz, o exército que avança considera o massacre parte integrante do avanço. Organiza-se logisticamente para o produzir.
Os campos de concentração franquistas seguem a mesma lógica. Em 1939, o regime de Franco mantinha em campos de concentração uma população prisioneira que, segundo as estimativas de Javier Rodrigo, ascendia a centenas de milhares de pessoas. A maquinaria precedeu a vitória. Foi montada durante a guerra, em paralelo às operações militares, e era pensada para o tempo do pós-guerra.
Quando os exércitos alemão e soviético montam os seus próprios sistemas concentracionários durante a segunda guerra mundial, há uma experiência espanhola já testada. Não importa para o argumento que tenha havido contacto direto, embora também o tenha havido. Importa que o repertório existia.
A tomada do poder pelo fascismo através da guerra é a inovação mais clara. Mussolini chegou ao poder em 1922 por uma combinação de marcha sobre Roma e cumplicidade institucional. Hitler chegou ao poder em 1933 por via legal, com nomeação de chanceler por Hindenburg e leis de plenos poderes.
Em Espanha, em 1936, ensaia-se outro método: levantamento militar prolongado em guerra civil, que permite consolidar o poder por destruição direta da oposição armada e ocupação progressiva do território. O modelo será replicado em vários cenários da segunda metade do século XX, em geografias diversas, mas o protótipo está em Espanha.
O quarto processo, a sobreposição entre guerra de ocupação e guerra irregular, é o mais subestimado. Os coordenadores defendem uma periodização alargada. A guerra de Espanha não terminou em 1939. Prolongou-se sob forma irregular, “suja”, até aos anos 1950, com o maquis a operar nas zonas rurais e a repressão franquista a manter níveis altos durante uma década depois da vitória oficial.

Esta continuidade esbate a fronteira entre tempo de guerra e tempo de paz. Para os franquistas e para os derrotados que continuavam a lutar, a guerra prosseguia. A repressão dos anos 1940 continuava a guerra, sob outra forma.
O conceito de “guerra civil europeia” tem nomes próprios na historiografia italiana herdeira da tradição dos Annales. Claudio Pavone, em Una guerra civile. Saggio storico sulla moralità nella Resistenza, publicado em 1991, releu a Resistência italiana de 1943 a 1945 como guerra civil dentro da guerra. Enzo Traverso alargou a categoria para todo o ciclo europeu de 1914 a 1945 em A ferro e fuoco. La guerra civile europea 1914-1945, publicado pela Il Mulino em 2007.
O que muda com a leitura espanhola recente é o ponto de origem: Espanha como o primeiro caso, não como variante tardia.
A fronteira do laboratório: Mário Neves em Badajoz

A reportagem de Mário Neves sai nessa mesma tarde do dia 15 de agosto de 1936, na segunda edição do Diário de Lisboa, com a manchete “Cenas de horror e desolação na cidade conquistada pelos rebeldes”. A edição do dia seguinte traz a continuação. A do dia 17, com o título “Não mais voltar…”, abre com a frase que ficaria associada ao nome de Mário Neves: “Vou partir. Quero deixar Badajoz, custe o que custar, o mais depressa possível e com a firme promessa à minha própria consciência de que não mais voltarei aqui.”
Esta última crónica não será publicada. A censura do Estado Novo classifica-a “inconveniente e horripilante” e suprime-a integralmente. O texto só virá a lume em 1963, quando o historiador Herbert Southworth o reproduzir em El mito de la cruzada de Franco.
Mário Neves cumpriu a promessa: só voltou a Badajoz 46 anos depois, em 1982, depois do 25 de Abril, com uma equipa de televisão britânica.
O número exato de fuzilados nunca ficou fixado. Francisco Espinosa Maestre, em La columna de la muerte. El avance del ejército franquista de Sevilla a Badajoz, publicado pela Crítica em 2007, estabilizou a estimativa entre 2.000 e 3.000 mortes nas primeiras semanas de ocupação. O Chicago Tribune daria o número de 4.000.
Ao tempo em que Mário Neves entrava em Badajoz, a cumplicidade portuguesa no que ali se passava era já mais do que ideológica. Era logística e física.
O jornalista norte-americano Jay Allen, do Chicago Tribune, no despacho de 30 de agosto de 1936 intitulado Slaughter of 4,000 at Badajoz, ‘City of Horrors,’, documentou que a polícia internacional portuguesa, antecessora da PIDE, estava a entregar refugiados republicanos diretamente a quem os fuzilaria. Quarenta refugiados escoltados até à fronteira espanhola, 32 mortos na manhã seguinte. Mais tarde, 400 homens, mulheres e crianças levados pela cavalaria portuguesa ao posto fronteiriço do Caia, dos quais cerca de 300 executados.
Jay Allen registou a frase de um guarda fronteiriço português: “Claro que os estamos a devolver. São perigosos para nós. Não podemos ter Vermelhos em Portugal num momento como este.”
Do lado português da fronteira, Portugal não estava a observar o laboratório espanhol. Estava a operá-lo.
Para perceber como se chegou aqui, é preciso recuar quatro semanas, ao gabinete em São Bento. São vinte e duas e quarenta e cinco do dia 17 de julho de 1936. António de Oliveira Salazar recebe Ricardo Espírito Santo, o presidente do banco que tem o seu nome. As notícias de Marrocos são confusas, mas claras o suficiente para se perceber o que está a começar.
O Banco Espírito Santo desempenharia, nos meses seguintes, um papel central no financiamento da sublevação, conforme estabeleceu a investigação histórica baseada na agenda da Secretaria de Salazar, conservada no Arquivo Salazar da Torre do Tombo. A reunião dura o que é preciso durar. Ricardo Espírito Santo sai. Salazar fica.
No dia seguinte recebe o general José Sanjurjo, líder dos conspiradores espanhóis, exilado no Estoril desde março de 1934, quando o governo Lerroux o amnistiou da pena de prisão perpétua a que fora condenado pela Sanjurjada de agosto de 1932. José Sanjurjo morre dois dias depois, a 20 de julho, num acidente de aviação no campo improvisado da Quinta da Marinha quando tenta regressar a Espanha para tomar o comando da sublevação. O comando passa a Franco.
Mas o gesto do encontro de 18 de julho é o que importa: Salazar, presidente do Conselho de um país oficialmente neutro, recebe pessoalmente o chefe da revolta militar contra o governo legítimo do país vizinho, no segundo dia da sublevação, em São Bento.
Nada disto é perplexidade. Nada disto é observação distante de um conflito alheio. Quando, mais tarde, a propaganda do Estado Novo começou a apresentar a posição portuguesa como neutralidade vigilante, a propaganda mentiu, e mentiu sabendo.
Salazar tinha tomado o seu partido antes mesmo de a guerra ter ressonância internacional, porque entendia, melhor talvez do que muitos dos seus contemporâneos europeus, o que estava em jogo. A vitória da Segunda República espanhola, que entretanto estabelecera relações com a oposição portuguesa exilada e flertava com projetos de federação ibérica, era ameaça direta à sobrevivência do Estado Novo. A vitória dos sublevados era, ao contrário, oportunidade de consolidação.
Nos três anos seguintes, conforme documentaram Iva Delgado, César Oliveira e mais tarde Manuel Loff, Portugal organizou um dispositivo de apoio ao bando nacionalista que tinha quase todas as componentes possíveis. O território português tornou-se retaguarda funcional do exército franquista, com armas e munições a passar pelas fronteiras e portos. A diplomacia portuguesa fez de Franco a sua causa nos foros internacionais, mantendo uma neutralidade formal que ninguém em Londres ou em Berlim levava a sério.
No plano interno, o Secretariado de Propaganda Nacional dirigiu uma campanha de mobilização da opinião pública contra a República espanhola, com o Rádio Club Português e a Emissora Nacional a aumentarem potência e a transmitirem em castelhano para a frente franquista, transformando-se em órgãos de rádio do exército sublevado. Houve também apoio militar indireto: o regime permitiu, e por canais não tão indiretos como pretendia parecer, o recrutamento de portugueses para combaterem ao lado dos nacionalistas, os chamados Viriatos.
A imagem oficial dos Viriatos, produzida pela propaganda salazarista e replicada durante décadas, era a de uma legião de voluntários portugueses a combaterem em Espanha pela ordem cristã. A historiografia mais recente desmontou esta imagem com cuidado. Nunca existiu uma “Legião Viriato” como corpo autónomo: os portugueses combateram dispersos por unidades franquistas várias, das Bandeiras da Legião Estrangeira aos Requetés.
As estimativas mais cautelosas apontam para um máximo de 6.000 voluntários ao longo dos três anos, número que terá sido inflacionado pela propaganda. A unidade que desfilou na vitória terá sido fabricada à pressa para a ocasião. Mesmo o herói nacional fundador, Viriato, líder lusitano contra a invasão romana no século II antes de Cristo, foi reciclado pelo regime para dar nome a uma operação de propaganda. O Estado Novo construiu retroativamente, com material mítico antigo, a narrativa de uma participação portuguesa heroica numa guerra em que o seu papel verdadeiro era logístico e silencioso.
A 17 de março de 1939, duas semanas antes do fim oficial da guerra civil, Portugal e a Espanha de Franco assinam o Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol, assinado por Salazar e por Nicolás Franco, irmão mais velho do generalíssimo. O Bloco Ibérico é formalizado em 1942. Pedro Teotónio Pereira, que Salazar designara agente especial junto do governo de Burgos em janeiro de 1938 e que se tornou pouco depois embaixador, escreveu nas suas Memórias páginas reveladoras sobre os primeiros anos passados na Espanha franquista.
A continuidade entre a guerra de Espanha e a estrutura ibérica do pós-guerra é, em rigor, uma das poucas coisas que o salazarismo nunca tentou esconder por completo, embora tenha cuidado em apresentá-la como aliança defensiva entre dois regimes amigos, e nunca como cumplicidade de duas operações de laboratório paralelas.
Quanto a Mário Neves, fez carreira longa. Foi diretor-adjunto d’A Capital, fundou a revista Ver e Crer. Depois do 25 de Abril, foi o primeiro embaixador de Portugal em Moscovo, entre 1974 e 1977, e secretário de Estado da Emigração no governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, em 1979.
Em 1985 publicou A Chacina de Badajoz, na coleção Cadernos d’O Jornal, recolhendo as crónicas de 1936 incluindo a censurada. Morreu em 1999. A sua reportagem de Badajoz é o documento jornalístico português mais importante da Guerra Civil de Espanha.
O silêncio organizado: a Transição espanhola e o pós-25 de Abril
A questão verdadeiramente ibérica, do ponto de vista do que a historiografia espanhola recente obriga a rever, é o silêncio que se instalou depois.
Em Espanha, o silêncio foi acordo. A Transição democrática, formalizada na Constituição de 1978 e construída ao longo da segunda metade dos anos 1970, assentou num pacto que tornou impronunciáveis muitas coisas. A Lei de Amnistia de outubro de 1977 isentou de responsabilidade penal os crimes do franquismo, e estabeleceu um quadro em que o passado se discutia sem se julgar, e em que a paz política dependia de não se levar a memória até às últimas consequências.
Esta opção tinha custos óbvios, mas também tinha lógica. O regime franquista era ainda recente e os seus quadros estavam vivos. Os acordos que tornaram possível a passagem para a democracia foram acordos com fações importantes do antigo regime. A memória completa teria sido o seu preço.
Em Portugal, o silêncio foi diferente, e em rigor mais fundo. Estava fixado por continuidade, não por acordo. O 25 de abril de 1974 não obrigou o país a rever a participação no conflito espanhol, em parte porque essa participação nunca tinha sido tema de discussão pública. A geração que viveu a guerra de Espanha do lado nacionalista, ou que organizou o apoio do Estado Novo a Franco, manteve durante décadas as suas posições e os seus silêncios.
Discussão reaberta
A historiografia descrita aqui não nasceu em 2026. Comunidades rotas. Una historia global de las guerras civiles, 1917-2017, livro escrito por Javier Rodrigo e David Alegre e publicado pela Galaxia Gutenberg em 2019, já estabelecia o programa: pensar as guerras civis europeias como ciclo articulado, recusar o particularismo hispânico, situar 1936 como início de uma sequência longa. O volume coletivo de 2026 alarga o trabalho com 50 colaboradores e expande a tese para o caso espanhol em particular. O programa tem mais de uma década.
A questão é porque é que ele se torna agora incontornável. A resposta é política, e tem de ser dita.
Em 19 de outubro de 2022, o governo de coligação de Pedro Sánchez aprovou a Lei 20/2022, de Memória Democrática, que substituiu a Lei de Memória Histórica de 2007. A nova lei, mais ambiciosa que a anterior, prevê a exumação sistemática das vítimas do franquismo, a resignificação democrática do Vale dos Caídos, a revogação de distinções concedidas pelo franquismo, e o reconhecimento jurídico das vítimas. Foi aprovada com voto contra do Partido Popular, do Vox e do Ciudadanos.
Em novembro de 2024, o Vox levou ao Congresso uma proposta de derrogação total da lei. Em paralelo, governos regionais conservadores derrogaram leis autonómicas de memória democrática em Aragão, Valência e Castela e Leão, num esforço coordenado para desfazer o trabalho institucional de revisitação do franquismo.
Esta é a paisagem em que a nova historiografia produz. Os volumes académicos saem para um espaço público em que a memória da guerra civil deixou de ser objeto de consenso pacificado e voltou a ser frente de batalha política. A geração de Javier Rodrigo, David Alegre, Miguel Alonso e dezenas de outros nasceu já depois da Transição e cresceu num país onde as feridas pareciam fechadas. Quando começou a investigar, encontrou-as abertas debaixo da superfície. Quando começou a publicar, encontrou-as a abrir-se de novo à superfície.
Não é coincidência que esta geração historiográfica recuse simultaneamente o esquecimento do consenso transitório e a celebração franquista que regressa pela direita radical. A operação académica de ler a Espanha como laboratório do século XX é, em paralelo, operação política de devolver à guerra civil o seu peso real, contra duas formas opostas de o aliviar: o pacto de esquecimento, e a nostalgia do regime que venceu.
O argumento histórico, neste contexto, importa duplamente. Importa porque é defensável e refaz a leitura do século. E importa porque, quando a Vox e os seus aliados pedem que se “supere” finalmente a memória da guerra, está em causa o que a memória pode dizer sobre o que a guerra foi. A pretensão de superar exige que a guerra de Espanha tenha sido exceção fratricida, particularismo hispânico, episódio sem efeitos para lá das fronteiras peninsulares. La guerra civil española. Una historia global documenta o contrário.







